O ar da
manhã ― final
O rapaz que sai do circo não olha para
trás, pois a mulher que pedia que parasse nem era a mulher da corda bamba, esta
faz parceria com o atirador de facas em outro número, com risco bem maior.
Em ação, apesar do perigo, ela sorri.
Não apenas pela possibilidade de um erro, talvez porque as facas atiradas, ao
final, deixam definida a sua silhueta na roda que gira, que lentamente vai
girando, até que ela desça para os aplausos.
Ele não olhou para trás nem quis
virar-se, tinha certeza de que eram verdes os olhos da moça do ato em que o atirador
dá o espetáculo de atirá-las de olhos vendados.
O atirador não é nenhum Tonho para ficar
latindo aos vira-latas que o sigam, latindo para ele até que uive ou lata. O
artista das facas não é nenhum Tonho para uivar ou latir por influência da lua.
Se o atirador não é nenhum Tonho que late
feito vira-lata, a mulher sorrindo assombra, pois ela fica amarrada de olhos
vendados na roda que gira de acordo com o rufar de um tarol.
Tem esse palhaço de olhar triste que toca
num ritmo marcial de olho na velocidade da roda, rufando o tarol sem nada a ver
com sentenciado a fuzilamento num paredão, pois o palhaço rufa dando a entender
que o ritmo controla as mãos ao atirador.
Aquela tristeza não é bem tristeza de
palhaço, está mais para olhar entediado, porque seus olhos têm essa indiferença,
têm esta tristeza serena que muitos sabem identificá-la como melancolia.
O rapaz que saiu do circo certo de ter passado
pelo papel de ridículo não precisa voltar-se para saber que a mulher do
atirador de facas não é nenhuma Tonha para ficar indo atrás de qualquer Tonho
que a queira feito musa precisando que uivem para ela.
Ainda que fossem Tonho e Tonha, há esse
amor a ligá-los.
Sem olhar pra artista que resta atrás, o
beijoqueiro a sonhar com o beijo na corda bamba sabe que o amor desafia o dono
do circo.
Ninguém disse que o palhaço é o dono do
circo, mas o sujeito sob a máscara precisa do público, precisa mesmo das
risadas, ou não dará os cachês do atirador e da mulher que desce, sorridente, da
roda.
É dia, o rapaz não precisa sorrir nem
uivar enquanto faz o que tem para fazer; sobre bater-se nas tarefas para fazer,
ele nem titubeia.
Tem que apanhar laranja antes do almoço,
dar lavagem aos leitões a serem assados no fim do ano e beijar no portão caso
não chova.
Lá longe, naquele naco de horizonte, as montanhas deixam ver que, para logo, vem chuva.
Quem aparece no meio do caminho é a moça
que quer beijá-la bem diante do espanto de toda gente, lá no fio do circo.
A moça e o rapaz sentam-se na beira do
rio, enfiam os pés na água, murmuram, ronronam, beijam-se, até começa a chover.
Achando ter ficado de uma a duas horas namorando
sua amada, o rapaz, debaixo de chuva, apanha as laranjas para dá-las às doceiras;
elas, pelo ar de quem esteve aos beijos na beira do rio, aplaudem-no pela meia
horinha de atraso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2025.
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