quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O ar da manhã - final

 

O ar da manhã ― final

 

O rapaz que sai do circo não olha para trás, pois a mulher que pedia que parasse nem era a mulher da corda bamba, esta faz parceria com o atirador de facas em outro número, com risco bem maior.

Em ação, apesar do perigo, ela sorri. Não apenas pela possibilidade de um erro, talvez porque as facas atiradas, ao final, deixam definida a sua silhueta na roda que gira, que lentamente vai girando, até que ela desça para os aplausos.

Ele não olhou para trás nem quis virar-se, tinha certeza de que eram verdes os olhos da moça do ato em que o atirador dá o espetáculo de atirá-las de olhos vendados.

O atirador não é nenhum Tonho para ficar latindo aos vira-latas que o sigam, latindo para ele até que uive ou lata. O artista das facas não é nenhum Tonho para uivar ou latir por influência da lua.

Se o atirador não é nenhum Tonho que late feito vira-lata, a mulher sorrindo assombra, pois ela fica amarrada de olhos vendados na roda que gira de acordo com o rufar de um tarol.

Tem esse palhaço de olhar triste que toca num ritmo marcial de olho na velocidade da roda, rufando o tarol sem nada a ver com sentenciado a fuzilamento num paredão, pois o palhaço rufa dando a entender que o ritmo controla as mãos ao atirador.

Aquela tristeza não é bem tristeza de palhaço, está mais para olhar entediado, porque seus olhos têm essa indiferença, têm esta tristeza serena que muitos sabem identificá-la como melancolia.

O rapaz que saiu do circo certo de ter passado pelo papel de ridículo não precisa voltar-se para saber que a mulher do atirador de facas não é nenhuma Tonha para ficar indo atrás de qualquer Tonho que a queira feito musa precisando que uivem para ela.

Ainda que fossem Tonho e Tonha, há esse amor a ligá-los.

Sem olhar pra artista que resta atrás, o beijoqueiro a sonhar com o beijo na corda bamba sabe que o amor desafia o dono do circo.

Ninguém disse que o palhaço é o dono do circo, mas o sujeito sob a máscara precisa do público, precisa mesmo das risadas, ou não dará os cachês do atirador e da mulher que desce, sorridente, da roda.

É dia, o rapaz não precisa sorrir nem uivar enquanto faz o que tem para fazer; sobre bater-se nas tarefas para fazer, ele nem titubeia.

Tem que apanhar laranja antes do almoço, dar lavagem aos leitões a serem assados no fim do ano e beijar no portão caso não chova.

Lá longe, naquele naco de horizonte, as montanhas deixam ver que, para logo, vem chuva.

Quem aparece no meio do caminho é a moça que quer beijá-la bem diante do espanto de toda gente, lá no fio do circo.

A moça e o rapaz sentam-se na beira do rio, enfiam os pés na água, murmuram, ronronam, beijam-se, até começa a chover.

Achando ter ficado de uma a duas horas namorando sua amada, o rapaz, debaixo de chuva, apanha as laranjas para dá-las às doceiras; elas, pelo ar de quem esteve aos beijos na beira do rio, aplaudem-no pela meia horinha de atraso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2025.

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