Costumo vagabundear aos sábados. Não
procuro me desculpar por largar a rede e sair por aí como se estivesse a
balançar o meu corpo ao sabor dos passos. Provocando esse deslocamento de ar
bastante leve para que a minha passagem nem seja percebida pelos cães, vou
pelas ruas como se continuasse embalado pela preguiça na rede da varanda. Uma
vez que confio estar credenciado a ser o melhor vagabundo que o sábado conta
que lhe esteja ao sabor dos imprevistos, desconfio que sábado bom é aquele que
a folhinha ignora de qual ano, qual mês, por qual razão a minha vagabundagem tem
que ser memorável.
Crendo-me merecedor do crédito de não
vulgarizar o sábado, vejo-me indo ao supermercado, indo vaporoso, indo
simpático a nefelibatas que voejam acima das fezes, indo isento de
patrulhamento ideológico, indo feito criança cuja crueldade está em ser sincera
o tempo todo, pois o dever de criança autêntica é agir como boa gente,
excelentíssima no quesito patriotismo.
Patriota não paga banana pelo preço de
bananada.
É sábado, outro sábado qualquer, mais um
que me dispensa de lhe instituir tranquilíssimo, boníssimo, outro momento que
me dispense de senti-lo sabadíssimo, pelo modo como me embala esplendorosamente
soalheiro, um instante assaz luciferino.
O calor está no ar, no cuspe, no mijo,
no suor, no pescoço, na nuca, nas partes íntimas, é calor que deixa a gente
zonza, grogue, lânguida, deixa a gente mole, mole, tão idiota.
Na moleza de seguir imbecil, vou indo
como se viver seja continuar indo na contracorrente, vou indo como gente que
não se sente teimosa, displicente, sem querer assistir à malemolência de ir
adiante ainda que pense que o melhor é parar no bar, beber um copo de água e,
pelo sol na moringa, sacar que ir pra casa é o óbvio a ser feito.
Um garotinho estica os braços na direção
do meu rosto, a pedir-me que as suas mãos possam tocá-lo, a indicar que os seus
dedos podem estudar-me as bochechas, apertando-as uma e uma segunda vez, até
que lhe seja natural me asseverar:
― O senhor não é um fantasma. O senhor é
tão fofucho.
Fofucho!
― Sim, eu sei que tipo de fantasma eu quero
ser, mas não espalhe que tenho as carnes modeladas pelos quarenta ovos que eu
como todo dia.
Quarenta ovos todo dia! Este é o segredo
que pago para mascarar o franzino que ainda cochila sob os músculos do meu
corpo.
A mãe do menino intervém:
― Deixa o moço em paz, Naná.
Sem segundas intenções, replico:
― Moça, o seu filho não está me
incomodando.
Tranquila e logicamente, o garotinho
diz:
― Mamã, o moço está em paz porque ele é
o fantasma fofucho do frango magricela que ele é.
O pequerrucho pisca para a mãe; a moça
sorri para mim.
Pra que a moça experimente o meu rosto, eu
novamente me inclino, a pedir-lhe que, se a sua criança testou minha fofurice,
sinta-a também, pois escandaloso é não beijar minhas maçãzinhas coradas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2025.
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