terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O ar da manhã ― continuação

 

O ar da manhã ― continuação

 

Epaminondas respira, mas ele precisa respirar não somente pra se manter vivo, quer vir a ser o primeiro beijoqueiro na corda bamba.

Poderá ser o primeiro beijoqueiro a conseguir. Já suando, o coração acelerado diz que terá de enfrentar-se. Apesar do medo, subirá degrau a degrau, até o topo.

Os malabares caídos são um sinal. Ao pé da escadinha, não estão ali por acaso, tem algo acontecendo. Sente que os malabares são para testá-lo, fazê-lo suar, disparar o seu coração, colocá-lo na posição que só ele poderia antecipar.

Joga um malabar, pega-o. Outro é atirado pro alto, pega-o também. Joga os dois, um de cada vez, não os deixa cair. Abaixa-se, sem deixar nenhum deles dois cair, joga pro alto um terceiro. Não deixará nenhum dos malabares cair, e falha.

Sua. Tem a boca seca.

Sobe um. Pisa no próximo degrau. Não os conta, apenas sobe. Vai conseguir, está certo de que conseguirá. Não vacila, sobe um de cada vez, vai à plataforma.

A corda bamba não é corda, é um fio de arame.

Epaminondas encara-se. Medo é acovardar-se. O próximo passo é apoiar o pé no fio. Logo, o outro pé precisa ter firmeza, não confia que possa conseguir. Não testa o outro pé, quer apoiá-lo mas não faz nada. Precisa equilibrar-se, manter-se ereto.

Lá embaixo estão uma vara, uma sombrinha e o monociclo.

Epaminondas desce. Pega a vara e volta a subir.

A artista do circo impede-o de tentar a travessia, grita-lhe que desça antes que se esborrache, porque é uma estupidez querer andar no fio sem a rede de proteção, nem ela, que vive no picadeiro desde que veio ao mundo, nem ela encara o fio sem ter a rede armada.

Epaminondas ainda sua, ainda tem o coração disparado, ainda tem a garganta seca, tanto que balbucia, querendo desculpar-se, temendo que o expulsem sem que possa justificar-se, dizer o quanto ama.

Aquilo é por amor, aquilo é o seu modo de mostrar pra todo mundo que o seu amor é para valer, é a única fonte verdadeira que o faz viver para que o próximo passo prove ser incomparável, que a ousadia seja contada a dez, vinte, dali a trinta anos.

Epaminondas sabe muito bem o que sente. O que ele está sentindo é amor. Ele ama, não está apaixonado. Paixão é loucura efêmera, mas o amor que está sentindo precisa mostrar para todo mundo que a vida é para ser vivida de tal modo que ontem não seja confundido com hoje que não seja confundido com amanhã, uma vez que o amor cancela o tempo, o amor detona o instante, o amor faz o momento ser um, o que se vive não faz o vir a ser acabar.

Epaminondas subiu, perdão, queria preparar-se pro beijo, queria a coragem de beijar com todo mundo focado no beijo, queria ser olhado pela gente toda, perdão, pedia essa admiração.

Sentindo-se ridículo, percebendo-se ridículo, Epaminondas cai em si: como pôde acreditar que conseguiria vencer sem nem mesmo saber como se livrar da vara quando despencasse?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2025.

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