Dois homens conversam na calçada; como eu
não sou bisbilhoteiro, ajoelho-me para arrancar matinhos.
O muro tanto os veda que me vejam como a
mim que os veja, sem, contudo, impedir-me a diversão com os absurdos do papo.
O primeiro homem diz que ontem bateu
bola com os amigos ainda que, na véspera, a sua mulher tenha implorado que não
fosse, pedindo que levasse os cães ao banho e tosa, suplicando que comesse
feijoada com a família, esperando que este sábado fosse imprevisível.
Ele foi, não por ser turrão, é que outro
bate-boca com a esposa não o demoveria de ir, pois, na pelada, pode soltar os
bichos, xingar, gritar os palavrões que tanto o ajudam a livrar-se de
frustrações, decepções e contrariedades, porque, de segunda a sexta, não ousa
levantar a voz nem mesmo a quem ordena que execute coisas imbecis.
O segundo homem ri, diz que obedecer a
quem manda fazer coisas imbecis não pressupõe que o cidadão obediente seja mais
um imbecil, também não é demonstração de apego ao salário, é prevenção, porque fica
difícil conseguir trabalho depois dos cinquenta, conforme dizem os amigos
cinquentões que nem vão procurar emprego porque acreditam no que ouvem, fiam-se
nas afirmações de quem tem trinta anos, uma vez que sábios de trinta anos sabem
o que faz o mundo rodar.
Ambos dizem que o dinheiro move o mundo,
concordam que burras cheias se mantêm cheias porque o fluxo é sinal de
vitalidade; prudente é quem não deixa que o nível baixe um dedinho sequer, pois
a riqueza é uma piscina, então, sendo piscina, ela tem que ficar cheia o ano todo,
mesmo no inverno, pois nunca se sabe quando vem a vontade de dar um mergulho, pois
o desejo de boiar surge a qualquer instante.
Súbito, faz-se silêncio; mesmo com o
intervalo, não paro, arranco o que aparenta ser erva daninha, quero mesmo arrancá-la.
O primeiro a falar outra vez é o homem
que anteriormente tinha sido o segundo a falar; ele diz que rico não tem tempo
para nadar, então, o aquecimento da água é fundamental, pra quando resolver
nadar ainda que faça um frio danado, até mesmo no finalzinho do inverno, uma
vez que a vontade de nadar não precisa ser justificada porque a saúde tem que
ser valorizada, é somente pela secretária ter aceitado o convite de nadar sem asa-delta
ou fio-dental.
O segundo a falar novamente é aquele
homem que anteriormente foi o primeiro a falar; ele diz que rico não para pra
comer, sem ter tempo para perder, tem almoço de negócios, porque dinheiro atrai
dinheiro ou folha de alface em restaurante por quilo teria custo dobrado e o
mundo prestigia quem não desperdiça dinheiro com besteira, afinal, dizer que só
prato colorido é saudável é coisa de quem prioriza a estética.
Pra que a razão e o entendimento não fujam
à realidade do instante: eles falaram o que eu ouvi, mas a boa crônica escutaria
aquilo que não foi dito nem foi ouvido.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2025.
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