terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O ovo presta

 

O ovo presta

 

Por que não conheço crises de nomofobia? Porque celular pra mim é telefone e mantenho distância de quem não telefona, pois essa gente me dá vontade de rir e rir o tempo todo é coisa de maluco e, até onde posso entender-me com o que sinto, tenho fobia de gente que sequer me percebe rindo, quando estou rindo, pois gente absorta não enxerga o telefone como célula numa rede a não ser desconectada, jamais.

Você, pessoa cuja lucidez lhe diz que agora o melhor é ler a crônica numa tela porque tal leitura é fazer bom uso do celular, você não sabe o que é ter crises de abandono, você não passa pelo sofrimento que a solidão acarreta na alma de quem precisa porque precisa de ter à mão um telefone, mesmo de segunda, que dê acesso à internet.

Estamos conversados!

Se estamos conversados, falemos do que temos para hoje, falemos do preço do ovo?

Para sustentar legítima a indignação com o preço do ovo, é preciso saber quanto ele custa. Para afirmar-se profundamente indignado com a exploração dos miseráveis que não têm dinheiro pra comprar ovo, é preciso considerar os quarenta milhões de brasileiros que sobrevivem com menos de um salário mínimo, que, todos os meses, dão jeito para sobreviver a mais um mês.

Se estamos indignados, somos plateia cativa, ou nossa indignação seria blábláblá, seria conversa mole. Pra que não seja papo furado de bar de esquina, é preciso aplaudir com entusiasmo, tem que pedir mais e mais, sempre mais, até não mais contentar-se em tagarelar sobre os infortúnios do povo brasileiro. Para que o aplauso curtido no post tenha audiência nas ruas, é preciso extrapolar, é preciso discursar com o pé na insurreição, no levante, é desandar em revolução.

Você que ainda está lendo no celular, olhe ao redor.

Quando o revolucionário vem à pele, haja arrepios, calafrios e essa vontade doida de erguer a voz pra chamar a atenção de quem não olha em volta.

Você não pigarreia à toa e não discursa às moscas. Você quer algo que produza mudanças, altere a situação, tome o coreto. Você sabe o que quer, a reviravolta.

Tentado a ponderações menos precipitadas, você vai ao bar, senta e não toma nenhum golinho de cerveja, fica só na água.

Disposto a negar-se tentado a bebericar água como se bebericasse cerveja, mas ovos coloridos ficam melhores com cerveja.

E pede uma, só uma, apenas pra comer um ovo.

O bar está do jeito que gosta: da meia dúzia de mesas, só duas têm gente sentada. Entre sentar-se à mesa e puxar papo com o balconista, ajeita-se na banqueta.

Comido o ovo, você volta à água.

Bebericando água mineral com gás, você teme arrotar. Você luta para impedir que eructações afetem negativamente sua imagem, a que pretende seguir passando, mesmo a quem nem o note louquinho para que o balconista explique por que o valor de uma cartela de ovos está disparado.

No Baixo Augusta, sabemos: ovada não é omelete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2025.

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