Por que não conheço crises de nomofobia?
Porque celular pra mim é telefone e mantenho distância de quem não telefona, pois
essa gente me dá vontade de rir e rir o tempo todo é coisa de maluco e, até
onde posso entender-me com o que sinto, tenho fobia de gente que sequer me percebe
rindo, quando estou rindo, pois gente absorta não enxerga o telefone como
célula numa rede a não ser desconectada, jamais.
Você, pessoa cuja lucidez lhe diz que
agora o melhor é ler a crônica numa tela porque tal leitura é fazer bom uso do
celular, você não sabe o que é ter crises de abandono, você não passa pelo
sofrimento que a solidão acarreta na alma de quem precisa porque precisa de ter
à mão um telefone, mesmo de segunda, que dê acesso à internet.
Estamos conversados!
Se estamos conversados, falemos do que
temos para hoje, falemos do preço do ovo?
Para sustentar legítima a indignação com
o preço do ovo, é preciso saber quanto ele custa. Para afirmar-se profundamente
indignado com a exploração dos miseráveis que não têm dinheiro pra comprar ovo,
é preciso considerar os quarenta milhões de brasileiros que sobrevivem com
menos de um salário mínimo, que, todos os meses, dão jeito para sobreviver a
mais um mês.
Se estamos indignados, somos plateia
cativa, ou nossa indignação seria blábláblá, seria conversa mole. Pra que não
seja papo furado de bar de esquina, é preciso aplaudir com entusiasmo, tem que
pedir mais e mais, sempre mais, até não mais contentar-se em tagarelar sobre os
infortúnios do povo brasileiro. Para que o aplauso curtido no post tenha
audiência nas ruas, é preciso extrapolar, é preciso discursar com o pé na
insurreição, no levante, é desandar em revolução.
Você que ainda está lendo no celular, olhe
ao redor.
Quando o revolucionário vem à pele, haja
arrepios, calafrios e essa vontade doida de erguer a voz pra chamar a atenção
de quem não olha em volta.
Você não pigarreia à toa e não discursa
às moscas. Você quer algo que produza mudanças, altere a situação, tome o
coreto. Você sabe o que quer, a reviravolta.
Tentado a ponderações menos
precipitadas, você vai ao bar, senta e não toma nenhum golinho de cerveja, fica
só na água.
Disposto a negar-se tentado a bebericar
água como se bebericasse cerveja, mas ovos coloridos ficam melhores com cerveja.
E pede uma, só uma, apenas pra comer um ovo.
O bar está do jeito que gosta: da meia
dúzia de mesas, só duas têm gente sentada. Entre sentar-se à mesa e puxar papo
com o balconista, ajeita-se na banqueta.
Comido o ovo, você volta à água.
Bebericando água mineral com gás, você teme
arrotar. Você luta para impedir que eructações afetem negativamente sua imagem,
a que pretende seguir passando, mesmo a quem nem o note louquinho para que o
balconista explique por que o valor de uma cartela de ovos está disparado.
No Baixo Augusta, sabemos: ovada não é omelete.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2025.
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