domingo, 9 de fevereiro de 2025

O ar da manhã

 

O ar da manhã

 

Era uma cidade protegida pelas montanhas, pródiga em córregos e dada à serenidade que faria inveja a quem açodado por afoitezas, pena que afoitos a desconheçam tão pacata, mas toda gente, toda ela, a que tinha a sua vida vivida ali por escolha, ela era muito grata pelos tantos contentamentos.

E esta gente retribuía, gostava que a vida dali seguisse produzindo contentamentos para tão fundo sossego, porque o mundo de lá de fora podia seguir violentamente repleto de problemas, menos esse recanto, que ele seguisse paradisíaco, continuasse sendo um cantinho voltado pro futuro, pois o amanhã é o porvir que tem de vir, mesmo que àqueles cidadãos nem ocorresse a ideia de que o lugar tinha o privilégio de nem ser um ponto sequer mencionado nos mapas que a geografia pede que sejam estudados.

Nesta cidadezinha de estudantes que não precisavam decorar qual o número de habitantes nas encostas, quanto peixe é tirado das águas, quem fia as linhas para redes, tapetes, colchas e vestimentas, que isso era conhecimento irrelevante pro bem-estar, pouco havendo com o que costumam os forasteiros chamar por identidade.

Felizes consigo mesmos, há namorados que se beijam sem saber que podem beijar até na igreja, dentre tais namoradinhos, era uma vez um rapaz que mais e mais amava a namorada que o ouvia, mesmo ele repetindo que ele queria porque queria beijar no circo.

Sonho é coisa boa, vem à pessoa que mantém os olhos abertos, vê que a conhecem, sabem o que faz para viver, como ajuda as pessoas, que ela gosta de dançar, seja valsa, seja chachachá, ainda que rumba precisasse aprender, mas a prioridade era subir na corda bamba.

Crescido ali, ele tinha a tristeza de não ter aprendido que esperança inventa a vereda que haveria de ser conhecida pelo chão trilhado.

Tal sonhador beijoqueiro de portão poderia lamentar-se de ter feito a travessia sem notar de tê-la feito, vivendo a recordação do que está vindo como o porvir que a manhã sempre traz a quem aguarda.

Na tranquilidade de viver o dia, ele espera sem gabar-se que espera a corda bamba. E ele faz-se novo para novidade que espera, tornar-se artista de circo quando a lona for erguida.

O sonhador esperançoso leva os cestos de figos pras doceiras que vão fabricar compotas; à tarde, ele estripa os porcos, que os nubentes hão de fartar-se na festança do casório; mas à noite, cativo do amanhã prometido, o rapaz é devotado ao sonho esperançoso.

Para sonhar acordado, já o circo instalado, porque promessa não é bravata e ainda não existe controle remoto para afrouxar gravata, mas riacho, suor e copo d’água matam a charada: o sonhador dos beijos no portão tem futuro se agir que nem animal equilibrista.

Equilibre-se agora: inspire o ar da manhã ao meio-dia, às cinco da tarde e às oito da noite; transpire pelo futuro; venha a ser quem respira a manhã do amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2025.

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