quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Meu oásis particular

 

Meu oásis particular

 

A mulher que atendeu disse que o funcionário levaria dez minutos para chegar, mas faz uma hora que liguei.

Torno a ligar, a mesma mulher pede desculpa, diz que o funcionário teve que ir atender a uma emergência, mas em vinte minutos chegará ao meu endereço.

Antes que digam que a cidade está um caos por causa dos quarenta graus, resolverei o problema em quinze minutos.

Na primeira loja, acabou. Na segunda, a vendedora avisa que está para chegar. Na terceira, só tem modelos de teto. Depois de quarenta minutos batendo perna, encontro o modelo que me satisfaz pelo preço e por poder levá-lo debaixo do braço.

Se o ar-condicionado precisa de conserto, nada tenho que reclamar do ventilador, cujo consumo de energia será bem menor, mesmo ligado por vinte e quatro horas.

Sim, senhora, o aparelho ficará ligado o dia todo, pois sou humano, sou um bicho que não para de funcionar mesmo dormindo, mesmo que o sol vá torrar as pessoas do outro lado do planeta, mesmo que a água ainda ferva a cem graus Celsius, mesmo que o corpo siga no propósito de estabilizar-se entre 35,5 e 37,5 graus, sim, senhor, o ventilador tem que ficar ligado ou vou surtar por falarem besteiras.

Dane-se, aquecimento global! Que se dane a conta da luz! Dane-se quem acha que ventilador tem que ficar ligado apenas o necessário. Dane-se quem não pensa que ventilador bom é aquele que só queima por uso abusivo. Dane-se essa gente que se recusa a regular o ar que respira. Dane-se quem acha que o novo normal é a rotina insuportável dos quarenta graus.

Quarenta graus na sombra?

Quarenta graus com o ventilador ligado, pô!

O que a mim me cabe fazer, faço. Uso a internet pra trabalhar. Urino no box enquanto tomo banho em cinco minutos. Instalei placas solares no telhado. Pintei a casa inteira de branco. Capto a água da chuva em bombona de 200 litros. Vou a pé a farmácias e supermercados. Acendo lâmpada quando não tem outro jeito; até para ler, uso luz natural. Tomo banho frio, no escuro. Não tenho micro-ondas nem fogão a lenha. Vivo maltrapilho e não jogo fora o que pode ser usado como pano de chão. Pra economizar de verdade? Não fico doente porque não me descuido: chupo laranja, tomo limonada, como jiló e mocotó, não frito batata, não gosto de hamburguer nem de sundae, tomo água filtrada, não mordisco tampa de caneta nem chupo o dedão.

Se ainda assim me enviam link pra minha contribuição espontânea, clico e torço pra que não seja golpe, pois espero que o pix que enviarei tenha bom uso, que o dinheiro não vire asfalto nem vire munição contra minha genética, pois, caraca!, eu sou do bem.

Sim, amigão, tenha dó, pois estou cônscio que labuto para o mundo melhorar, que eu, gota a gota, suo à beça para que a Terra siga sendo humanamente habitável.

Como o corpo funciona bem entre trinta e cinco e trinta e sete graus, acima disso, em pane, viro urso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de fevereiro de 2025.

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