quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Em chamas

 

Em chamas

 

Apressados ou atrasados, não se enganem, pois não camuflo que construo uma arapuca ꟷ diante dos eventos, confiança é tudo.

Em paz consigo, desfrutem do espelho em cacos. Pra cumplicidade bem escanhoada, assegurem: a raiva sangre.

Corto-me ao fazer a barba. Mas não fico nisso: indo por aí, dou com gente mais idiota que feliz.

O infeliz que encontro nem me é conhecido. Só o vi num churrasco de nem sei lá quem fosse, justamente por isso: acena, vem, me abraça como quem me carregou no colo.

Ao amigo do amigo do meu pai eu poderia propor algo que o fizesse pensar, um fogacho que incendeie o que é palha.

A troco de nada, a senha da fortuna poderia ter sido dita. Todavia, ele foi comigo sacar uns dinheirinhos no caixa eletrônico.

Sacar na amplidão do meio-dia, isso me põe atônito.

Já que os olhos têm calor quando o que importa são os dedos que digitam, ao cronista não sejam atribuídos o testemunho contábil nem a guarda mnemônica do hipotético crime cometido.

Conversinha é areia nos meus tímpanos...

Esta ideia me pegou: nenhum almoço vire jantar, pago o almoço pro amigo do amigo do meu pai.

Pelo mundo a levar-me, observo. Sim, há quem peça que me afaste da bomba de gasolina, já que eu nem tenho carro.

Noto: entre posto de gasolina e caixa eletrônico, o valor da dívida, exibindo a pérola, acaba distorcendo o que seja ostra.

Amigo do amigo do meu pai, não lhe enviarei a imagem por e-mail, pois ela ainda é esboço...

Vem o Álvaro de Campos me desnortear, prefiro por isso o nada de ser apenas esse ser nada.

Não é o dinheiro que paga a cerveja, o caminhão que a transporta e o pedágio de uma ressaca, é a boca que não para de beber.

Cachola cheia de vozes, tenho a minha.

Meus demônios, são tantas as mentiras que escuto que o caminho pra chegar aqui é íngreme. Sem outras explicações, me enfurece quem foge de perguntas incômodas.

Não sendo sonâmbulo que nem penso o que falo: é provocado pela realidade que faço o que faço sem me abster das consequências. Sim, a voz que incendeia é: precária, provisória. Portanto, única.

Como eu não vivo um instante duas vezes, Heráclito: nem sei o que dizer sobre a arte.

Entre fogo e espelho, boca e garfo, nem tudo que seduz é arte, mas é preciso nominar arte o que se faz como sendo arte, pelo artesanato de fazê-lo.

Censor do artista, diz o rigor: quando salva, a arte condena.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2025.

 

 

 

 

PS – No livro SOPA DE SAPO, o título da crônica é Arquivo Morto, mas os amigos dos amigos do meu pai continuam serelepes. Daí que, rindo um bocado ao revisitar meus chavões, reescrevi o texto.

 

PS.2 - 2026, tenha dó da gente e vire, rapidinho, 2030, para que se possa celebrar o bicampeonato da nossa pátria de chuteiras.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A menina dos meus olhos

 

A menina dos meus olhos

 

Ser leal a si pode tornar estressante a convivência consigo. Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu. Dói-me quem sou, pois poderia deixar de ter a papada sobre o peito.

Nem ri nem chorei nem rezinguei, pois não me perdi argumentando. A favor ou contra mim, perderia tempo.

Ao perceber a minha incapacidade para impedir a cabeça de querer pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do jornal.

Se saí sem calombo na testa, fui pro mundo sem saber das últimas calamidades.

Foi pelo sol forte que levei o jornal, que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do passeio, ele foi útil para proteger os fundilhos. Por fugir do “marcha soldado”, eu sorri.

Debaixo de uma árvore, fiquei lendo mensagens.

Muita desgraça. Muita desinformação. Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. Adoro viralizar as besteirinhas.

Todavia, as fotos de um amigo já em casa me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado sentir.

Para sair da inércia, decidi que iria visitá-lo.

Boa! Se vou mesmo visitar o convalescente, comprarei maçãs.

Agora que pensei em maçã, ouço o ronco do estômago vazio. Estou de jejum desde que eu fui dormir. Ainda nem tive o prazer de bebericar um frugal copo d’água acompanhado de bolachinha água e sal.

ꟷ Barriga vazia é oficina do demo, professa o faquir que nem é da família; e não é por ser magro de ruim, é pela pachorra de persuadir a gente que o inferno é não comer na hora, ficando na vontade.

Que diatribe!

Como ânsia minha, salivo.

Com o telefone bombando novidade, sei que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada.

Insatisfeito, sucumbo: meu corpo é um gato tocando cuíca.

A coisa é tão ridícula que me escapole um riso, bem alto.

Constrangido, demoro levantar os olhos. Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada abrupta. E espio com o rabo do olho. Quem está perto nem me ouviu soltinho.

A dois cuspes de mim, o homem que não é surdo está pintando.

Nem preciso explicar que gato não toca cuíca, só arranha.

Esboço um interesse no homem que pinta.

Excelente! Não deixarei que o mundo me distraia.

Reparo: o homem pinta uma menina num balanço.

Cuidando para parecer desinteressado, já que não quero aborrecê-lo, ponho um olho no quadro e outro na menina.

Tem coisa que não bate. O colorido da tela parece que não retrata a cena. Forço o pescoço. O quadro tem algo esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina do balanço.

ꟷ Ô diabo! Cadê a menina?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2025.

 

 

PS ꟷ A crônica foi publicada originalmente no dia 11 de janeiro de 2022, mas a reescrevi. E a reescrita veio por me sentir motivado pelo desejo de um Ano Bom, um 2026 com o olhar afinado pelo que não se vê, e machuca.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Lixo marxista

 

Lixo marxista

 

Disciplinar-me ao irrefutável dos exemplos faz-me acolher a cautela dos desvalidos que não dispensam como lixo o que é descartável para restaurantes, lanchonetes, bares e carrinhos de garapa.

Fuço as gôndolas de supermercado; caço o que o bolso alcança se a mão não tira o escorpião junto com gordura e sódio condizentes com o que posso digerir sem maiores estupefações.

Para já, cônscio também das restrições gástricas, pesquei um tema menos pesado para deleite de quem lê.

Na real, a rede de neurônios capturou uma vibração, causada por uma palavra nova, coruscando estranhamentos.

Minha mente pulsava. Eu poderia especular sobre a proeminência de anfisbena, cuja existência tomei conhecimento por meio de Jorge Luis Borges.

Borges? Aquele Borges?

Sim, o visionário portenho que via no invisível a névoa traiçoeira, à qual, embevecidos, sujeitamo-nos ao sem-fim de miríades de filigranas que conhecemos por realidade.

Cabeça a cabeça, vou pela minha, que me deleita ao pulsar.

Quando dei conta, as pegadas me enveredaram por uns caminhos labirínticos. Não temi os chifres nem a espada. Quis o centro, o Aleph. Fui adiante. Eu previa o monstro, que era mais que chifres e habilidade com espadas, o monstro era feio.

Feiura por feiura, o espelho me acha no banheiro.

Com cara de bobalhão que até entende Arquimedes, acho que virei dublê de curupira a cruzar riachinhos. Não a figura bem conhecida. Eu era um ser de quatro pés ─ dois para frente, dois para trás.

Para me perder no rastro que deixo na caminhada, embrenho-me a salivar pelo prato feito, querendo mais que arroz com feijão.

Penso, e palpito, sobre o quanto de riqueza é gerado pelas mais de 170 mil microempresas que operam com as quentinhas.

Que tuítem os que têm estômago pra confronto besta.

Sem outras demoras, no intuito de municiar com petiscos o Governo agora em vigor, jogo as luvas no fogo. Como código, ordene-se:

1. “O segredo do sucesso é a honestidade. Se você conseguir evitá-la está feito!”

2. “Atrás de todo homem bem-sucedido, existe uma mulher. E, atrás dela, existe a mulher dele.”

3. “Há tantas coisas na vida mais importantes que o dinheiro. Mas, custam tanto.”

4. “Ele pode parecer um idiota e até agir como um idiota, mas não se deixe enganar: é mesmo um idiota!”

5. “Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio.”

6. “Inteligência militar é uma contradição em termos.”

7. “Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.”

Serei deveras leviano ao afirmar que as iguarias acima constam de GROUCHO E EU, livro marxista que não lerei integralmente.

Groucho Marx, dou fé das minhas honestas intenções.

Que o famigerado volume fique empoeirando em livrarias, sebos e bancas de jornal. Que os supermercados, os mercadinhos de esquina e o escambau, nenhum queime o estoque pra agradar gente que lambe os beiços diante de uma banana.

No mais, levo muitíssimo a sério a pessoa que tem por epitáfio:

Perdoem-me por não levantar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2025.

 

PS – Para hoje, reescrita, eis a crônica publicada no dia 10/01/19.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Um segredinho...

 

Um segredinho...

 

Quando o senhor der as caras, Bom Velhinho, como boas crianças que dormem de olho aberto: seremos pegos no contrapé.

Por sermos arteiros, adorarmos uma fuzarca, nós juramos que não é por mal que nem lembramos o que fizemos nos natais passados.

Em que pé estamos, criançada?

Como não nos desviaremos do fuzuê que nós vimos fazendo pelos natais futuros, haveremos de nos empanturrar.

Suplicando um sal de fruta, feito pavê que sobrou da ceia, dou-lhes como nova esta crônica publicada em setembro de 2021:

 

O segredo

 

Com vontade de tomar laranjada: espremi algumas laranjas.

Sentindo o azedinho da laranjada, deu gosto bebê-la.

Sem questionar a essência do propósito, tomei nas mãos o bagaço da meia laranja que não havia jogado no lixo.

Era o crânio de um rei, segurei-o à altura dos olhos.

Estremeci, ele pedia algo simples. Queria uma verdade que soasse agradável. Entendi que eu não declinasse de escutar-me dizer o quão feliz um homem pode sentir-se.

Escutei o que iria dizer. Estudei como haveria de dizê-lo. Esperei o momento. Pelo instante que a alma sabia ser o certo, esperei.

Pra não perder a graça do momento, ignorei a tentação de banalizar o mal-estar. Não sou formiga para dar ao prosaico a medida da justeza do que eu pedia: quero ser laranjada, uma laranjada bem azedinha.

Afinal, ter laranja em casa não era um gol; ter lixeira na cozinha não era outro; pra fugir da goleada contra, fez bem o árbitro ao apitar o fim daquela partida bizarra: meia laranja, vá pra lixeira.

Dos subsolos desta estupidez que pulula na cachola, subi ao sol da praça. Porque lá sou amigo do banco, sentado sem chapéu, deixei-me ser engolfado pelos desconcertos do mundo.

Algumas pessoas conversavam miudezas.

Outras sustentavam-se, a iluminar a Baía da Guanabara.

As vaporosas, pessoas que vivem para estar de bem com o mundo, elas vinham, vinham, e não iam...

Não foi por prudência, ou medo, que os meus olhos, boca e ouvidos funcionaram como antenas, sondas.

E uma esponja, somente.

Pelas chagas que a compaixão fareja nesses animais humanos, tão meus semelhantes, prefiro abrir o jornal.

Ainda que vislumbrasse a meia laranja coberta de formigas, no lixo da cozinha, estimulei-me. De cabo a rabo, iria ler o jornal.

Como as notícias encontravam em mim um comovido leitor, foi pela aproximação dos pombos que não virei um resmungão.

Bufei sem discrição. Dei-me a ver como sendo o cara mais solitário na praça. Sentado ao sol, com a careca meio avermelhada, era eu.

E os pombos nem ligaram.

Foram chegando. Bicando baganas, plásticos, pedras, sujeirinhas, e minhocas de espaguete, eram vários, e muitos.

Ora bolas, pombos!

Entendam-me. As desgraças lidas animariam a cavar um penhasco pra arremessar pensamentos lúgubres, ou só vocês, pombos. Nem sei se, terrificados, vocês arrulhariam depois de expostos.

Os dramas da vida?

Comum a cordatos, ansiosos, dissimulados, os dramas da vida irão ficar circunscritos ao temor de que as tempestades bíblicas se formam quando a elas é atribuída alguma catástrofe iminente.

Que um cachorro veio pra cima deles. E eu falo sério.

Encurralado entre a banca de revista e o latão de lixo, foi o azar pra um deles. Como péssima rota de fuga, não foi possível evitar o choque no pé do banco. Foi mesmo, ele deu com o bico no banco.

Coitado do bichinho.

O mais que pude, pedi a velocidade de um raio. Todavia, muito me decepcionou a fraqueza espiritual, tão humana: fui lento.

Sorte do bruto.

Como tombou bem tonto, o pombo ficou dando sopa. Louco pra dar o bote certeiro na presa atordoada, o cão virou um corisco.

Entre a bocarra agressiva e a asa desajeitada, foi minha perna que acabou mordida. Irrefutavelmente: fui outra vítima inocente.

Me escapuliu um azedo de laranja, que susto!

E o vergonhoso é que saí chutando o que estivesse ao alcance da fúria dos meus olhos. Larguei uma bicuda no assento do banco em que estava impassível antes dessa briga, que nem era comigo.

Fui à farmácia. Paguei o curativo como se a carantonha de mão de vaca nem fosse minha.

Posso uma indiscrição?

Despertando tranquilizado, nem prestei atenção. Agora, percebo o erro que cometi. Raios! Não se deve ignorar um tremendo sinal.

Ao descer da cama, pisei o chão com a canhota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2025.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Fios de esperança

 

Fios de esperança

 

Com as Festas tão próximas, funcionários estão na praça: a pintam de azul; caiam as faixas de pedestres que dão acesso ao céu tornado chão; não podam os galhos florescidos, tão amarelos; lavam o coreto, avivando o cinza.

De onde estou sentado, o coreto corta a visão. Isso não me impede de ter em mente que os mendigos vão bebendo cachaça no gargalo e, pelo Ano Bom, nem tentarão se despedir dos andrajos.

As roupas mereciam ser lavadas, pois os cordões de luzes vindo do cruzeiro da torre da Matriz até o topo das luminárias dizem que já é hora de correr atrás do Natal ꟷ indo às lojas, não só aos bares.

O coreto ficou, mas a reforma mais recente engoliu o chafariz.

Tomo sorvete. Faz calor. Queria tomar sossegado o sorvete. Lambo a casquinha para não me melecar, pois o calorão derrete-o rápido.

Vem um homem sentar-se comigo no banco.

Para meu alívio, já que não associa o calor e a velocidade da minha língua, ele diz que o seu cunhado pediu-lhe dinheiro.

O marido da irmã tem dívidas, muitas dívidas, todas no cartão. Mas, as crianças gostam de jogar, e não apostam no celular.

Aquele cara tem coragem. Enfrenta a fortuna. Ainda que ela insista em contrariá-lo, há de frustrá-la. Quando ganhar, vencerá o algoritmo. Vencendo, contará para todo mundo da igreja. Dará em testemunho a fé inegociável que o motiva a querer o melhor, sempre o melhor.

Sendo minha prioridade não me lambuzar, a matraca vai ativa.

Ele diz que o cunhado é o Ubiratan. Nome inventado, ressalto. Já a Cecília, a irmã cujo nome verdadeiro não quero conspurcado, não larga da esperança, uma vez que, ela reza por isso, o Ubiratan dará à família, a ela e aos dois filhos, a felicidade de dobrar as chances quando todos puderem jogar.

A primeira prestação de cada novo celular terá o crédito cobrado na conta de janeiro, e só no ano que vem. Graças! O Ubiratan já foi à loja, já fez o que se espera de quem trabalha pelo futuro, já escolheu pelos dependentes o que acredita ser a razão de outro amanhã.

Esta alegria o marido soube dar a todos, porque família tem mesmo que se alegrar por igual, sem ter a discriminação de um deles ficar com aparelho ultrapassado, cujos recursos tecnológicos são do ano que já vai terminando.

Nisso, chega o Ubiratan.

Não se abraçam, mas sorriem. Não se vê animosidade entre eles.

ꟷ Bira, mais tarde vou levar o panetone que a Ciça fez.

ꟷ Beleza, Nato, leva lá mais tarde, depois do culto.

Sem malabarismos, entendi que o Nato que ganhará o panetone é Fortunato. Mesmo assim, ele diz que o seu nome é Fortunato.

Fortunato volta ao serviço, para acabar de podar os ipês da praça.

Assim que me acho sozinho, compro outro sorvete.

Lambo-o sem pressa. Não ligo que escorra e meleque a minha mão. Lambo a minha casquinha sem projetar o desejo de que as Festas não conspurquem e não melequem as pessoas que têm nojo de tudo que seja melequento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de dezembro de 2025.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Catálogo de erros

 

Catálogo de erros

 

Atento às necessidades do que escrevo, sem que as formiguinhas dos meus nervos me deixem mais cansado do que estou, prefiro que o mundo fique onde está: dentro de mim pelo que percebo.

Sem me congratular pela boa-vontade de abençoar o que dispensa de ser abençoado, sigo na labuta.

Por cansaço físico, de formiguinhas no extremo do meu ser, no vão entre os átomos, vibrantes, excitadas, onde o céu noturno faz conhecer relâmpagos, espasmódicos relâmpagos, a lida cansa.

Na cachola, algo mais lúcido me desarma.

Desabrido, não largo o osso. Certo, narcotizam-me as palavras, que a semântica pegue-me pela mão, a dizer-me por onde ir.

Entendo o cansaço. Acolho o entendimento: a cabeça me faz ir de palavra em palavra até que o paredão angustie.

Não concluída, a tarefa é um monólito.

Na tela, é vertical o abismo que desafia: faça-me as perguntas que pensa possíveis de deixá-lo satisfeito; tente manter-se lúcido, cansado, mas não exaurido; ainda que se perceba seduzido a concluir-me, não esmoreça; não se iluda: sou fenda intransponível, estreita demais pro tédio a infestar-lhe os neurônios; e incontornável, pois suas ansiedades o configuram ꟷ perceba o quão paralítico está.

Afine-se na percepção, condicione-se ao óbvio: não é o afazer que atrapalha o trabalho, é o seu corpo a pedir por copo d’água.

Ainda não verterei o copo, não abandonarei o texto sem que, corpo, eu o defenda das insolências. Porque inventarei um problema técnico, que o computador destrave no momento que mais o almeje operante, funcionando bem, sem rir de mim ao encará-lo a rodar um troço.

Não respondo conforme o manual do universo?

Eu me aborreço, mas o meu aborrecimento me faz agir.

Tenho mãos, dedos, unhas: minhas mãos tocam o teclado, os meus dedos querem digitar, as unhas da minha aflição bem que desejam que eu crave as letras que continuarão o texto.

Mas o troço rodando no centro da tela não para de rodar. Dura mais do que suporto. Não vou ficar mais contrariado, mais nervoso, a ponto de dar um murro no teclado. Querendo socada a geringonça, jogar meu notebook pela janela é bater o martelo: és um abismado.

Diante desta falha mais funda, é instante ir beber água.

Não tenho jeito, bebo água.

Vejo Taborda. Aceno. Não entendo o que fala. Boto a cabeça fora, e peço que repita.

Somos quem somos, gente normal: ele grita, eu grito.

Taborda acena, mas o que ele tem a me dizer que não possa gritar de onde está?

Caramba, Taborda.

Ele me mostra uma vassoura, e indica com precisão o que está me irritando. Ele quer que eu desça. Não fique achando que o mundo tem pena das minhas misérias. Que eu vá recolher os cacos, antes que me corte quando sair para fumar.

Quando fumo, viro zanzar ao redor da casa. Quando estou perdido, daí eu zanzo até bater a vontade de comer pudim.

Legal, agora estou pronto para recomeçar tudo de novo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2025.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O eco do futuro

 

O eco do futuro

 

Pelo apoio ao acordo entre Mercosul e Comunidade Europeia...

Pela língua de trapo quanto às dosimetrias...

Pela espantosa disputa de pênaltis entre Flamengo e PSG...

Por isso, pegando o touro à unha: fixo, estou tocado pelas angústias do nosso tempo.

Digo mais. Quiçá eu possa esclarecer: como já já será janeiro, deixo evidente o rastro do nosso interesse.

Pois, o que diz o vulgo?

ꟷ Tudo a seu tempo.

Pois, o que diz a Vulgata?

ꟷ Quod fuit, ipsum est, quod futurum est; quod factum est, ipsum est, quod faciendum est: nihil sub sole novum.

Em legítimo português castiço, entretanto, diz o Pregador:

ꟷ O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Para não passar a vergonha de ser ridicularizado por haver-me bem em minha infantilidade, dirijo-me a você, pessoa que ainda lê, sabendo que a barafunda aturde, indago-lhe:

ꟷ O que o tempo silencia?

Então, 18 de dezembro, você diz o que o resguarda.

Diz a Wikipédia que, em 218 a.C., na Segunda Guerra Púnica, em Trébia, Aníbal deu a vitória a Cartago.

Excluindo-se os inapetentes pra parar de andar com os caninos de fora, minha cachola nem tem ficha que houvera uma Primeira...

Diz mais a mesmíssima fonte: pela vitória dos revolucionários sobre o exército britânico, em Saratoga, em 1777, na América do Norte deu-se a primeira celebração do Dia de Ação de Graças.

Diz ainda a Wikipédia, a ela que não nos pouparemos de chamá-la velha de guerra, diz-nos que no dia 18 de dezembro de 2005, no Japão, em Yokohama, diante de 66.821 pessoas, com o tento de Mineiro aos vinte e sete minutos da primeira etapa, o amado clube brasileiro, o São Paulo Futebol Clube venceu o Liverpool, sagrando-nos tricampeões do mundo.

Pelos fatos assinalados, ser de memoráveis simpatias, faça o favor, Noel, tome siso do que pode embasbacar, justamente pelo solipsismo, ao nos engambolar.

Quando se der ao trabalho de desembrulhar-se numa resposta bem ponderada, pergunte o que traz à tona o que nos move. Isso que a nós torna a noite mais longa que as doze horas que aparentemente deviam perdurar. Então, a nós o senhor nos atenda:

ꟷ Qual será o presente que estamos a cobrar-lhe?

Para evitar que nos atirem ao abismo, como se fôssemos incapazes de amar quem nos esculhamba e encurrala, assumimos a empreitada de desentranhar o que ecoe sem que o glorifique à toa, Pai:

ꟷ Uma vez que alvíssaras sempre anunciam o que muito se espera, o Morumbis trema pela vinda do tetra, em 2027.

Por assim, maliciosamente tão lesto?

Pela razão de haver desconcerto entre Mercosul e Conselho da UE, pelo riso diante dos pênaltis batidos lá no Catar, pelo baixar do sarrafo quanto à anistia, tratada feito reduçãozinha de pena; ao exercitar meu direito de escancarar o meu na reta, digo o que espero dizer quando já vem o que me aguarda mais à frente:

ꟷ O moral do palhaço cresce a cara na torta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de dezembro de 2025.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Eterno aprendiz

 

Eterno aprendiz

 

Todo ano é assim, chega o momento de pesar na balança o quanto de coisa boa a gente fez. Descontando as decepções e a irritabilidade que as pinta como frustrações angustiantes, todo ano é sempre assim, com a maturidade apontando o que seja tapete e o que seja a mão que o puxa.

Madura, madura mesmo, é a gente que aprecia a água pelo que ela é: por ser refrescante nos dias de calor, necessária quando a boca está seca, fraterna com o afeto solidário diante da dor.

O melhor da água, portanto, é ela ser servida agora, que é chegada a alegria de escolher os presentes, é chegado o instante para se eleger quem receberá mais do que uma lembrancinha.

Como a gente tem em conta que grana contadinha é critério vulgar, separar o trigo facilita pelo número de pessoas que comerão e beberão à mesa do Ano Bom.

Para evitar complicações, peço que a memória contribua e faça-me elencar o que foi comprado nas Festas do ano passado.

Aristeu ganhou uma bermuda que o satisfez, porque ela caiu como uma luva. Não precisou de ajuste na cintura e, sendo de brim vermelho, motivou-o a virar pimentão no Carnaval da Ilha Comprida.

Este ano, já que me sinto autorizado a ser chique, Aristeu ganhará uma camisa com estampas geométricas, uma lindeza que garimpei na internet, uma que custou para achá-la, mas que trabalha direitinho com a beleza d’O Balão Vermelho do Paul Klee.

Ao Luisinho, dei livro é claro. Como ele é contador de histórias, seja no seu aniversário, seja no mundialmente shakespeariano 23 de abril, seja na virada, haja livro para contentá-lo.

Já embrulhei outra cópia de Água para as Visitas, pois as crônicas de Marina Moraes são poéticas, melancólicas, engraçadas, escritas com a mão que embala as palavras para a leveza, para que a vida seja sentida com sorriso no rosto, porque, já que tenho o juízo para parodiá-la, siso arrancado e botão de camisa têm muito a ver.

Como raio em céu azul, o presente para Dona Cremilda veio-me de pronto. E o sol da certeza iluminou o caminho: fui num pé, não errei o passo na valsa e o indicador apontou o que sempre será o verdadeiro sapatinho da Cinderela.

Comprei o mesmo modelo que comprei no ano passado, no mesmo número, na mesma cor, na mesma loja do ano passado, porque tenho vivíssima a imagem da Dona Cremilda quando o experimentou.

Todo ano antecipo o almoço do Ano Novo, dou de comer e de beber à trupe que ganha presentes.

Como criança que compra o Keds certo para a Penélope Charmosa que não vê o que há de cor-de-rosa debaixo dos escândalos do mundo, fiquei ruborizado pela oportunidade que eu criei.

Aristeu e Luisinho caíram na gargalhada, pois não há lição que não a esqueça em seguida. Mesmo rindo, a amiga sabe que irei trocar o 35 pelo 37.

Contudo, o que não contarei?

ꟷ No ano passado, o senhor comprou comigo e fez a mesma coisa, pediu desconto e veio trocá-lo, sorrindo amarelo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de dezembro de 2025.

domingo, 14 de dezembro de 2025

O horrível na foto

 

O horrível na foto

 

Tem coisa fedendo. Um cheiro horrível está empesteando o quarto. Abro os olhos, giro o pescoço e vejo Marx com a mandíbula repousada no meu tornozelo.

ꟷ Amigão, sei que foi você que aprontou.

Abanando o rabo, meu pug vem lamber-me a boca porque ele sabe que acharei a verdade quando raciocinar melhor, quem sabe já menos sonado, com a raiva mais bem direcionada, para o alvo certo.

Preciso de estar esperto, assim, ainda que siga ladeira abaixo, indo na banguela, não tiro meus patins por nada.

Espreguiçando, já me esforço, dou a orientação necessária pra que a cachola lute pelo equilíbrio que preciso para patinar no calçadão.

Penso, logo a circunstância é para rir.

Nunca durmo de bruços com a cabeça virada para fora da cama, já que, à altura da nuca, tenho desvio na coluna.

No chão ao lado da cama, à altura da minha boca, o vômito provoca aquela coisa fedorenta, porque eu devo ter farreado à beça.

ꟷ É óbvio, Marx, que fui eu que aprontei.

Pelo que me lembro, você e eu ficamos na sala, vendo tevê. A noite passada não caímos na esbórnia.

Com mil diabos! Por que emporcalhei o quarto?

Marx, você sabe que não bebo nada que tenha álcool. Nem cerveja sem álcool eu encaro, como você bem sabe.

Então, meu chapa, como é que eu preciso encher o balde de água, preciso pegar panos, devo ajoelhar-me sobre o cadáver nojento que o chão do quarto insiste em sua remoção imediata?

Meu camarada, amigo para todas as horas, me ajoelho, limpo, torço o pano, torno a limpar, torno a torcer o pano na água. Amigo das horas em que Mefisto vem oferecer os seus préstimos, vou jogar a água, que já o balde está nauseabundo, pois tenho alma sensível, principalmente se as entranhas intestinam um alien irritantemente terráqueo.

Isso, amigão. Você é sagaz. E sua sagacidade chama para brincar os elétrons da minha moringa.

Víamos tevê quando um carro veio anunciar um troço qualquer. Era um troço qualquer porque o som do alto-falante não nos dava condição de entender o que era anunciado.

O troço qualquer, Marx, continuava a ser uma esfinge a me chamar que fosse escutá-la, compreendê-la na sua necessidade de cativar que eu pudesse, por mim, defini-la como necessidade minha, uma vez que pude ouvi-la direito.

Ela atiçou só as lombriguinhas da minha curiosidade?

Embora fosse madrugada, tive que ir. E o que vi, todavia, devia ter-me alertado que aquela palhaçada tinha as digitais do Cão.

Não havia carro. Parado na esquina, tinha um peruzinho usado em construção e a caixinha de som era dessas que se usa para aborrecer banhistas.

Reconheço que não sou nenhum banhista, mas, justamente por ser safo, soltei a rédea.

Tendo a cautela de desconfiar, recusando-se a dar uma mordidinha que fosse no produto, bastou-lhe lamber o quitute tentador.

Fui abocanhado rapidinho, Marx, porque eu nunca tinha ouvido falar em pamonha de Piracaia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2025.