Apressados ou atrasados, não se enganem,
pois não camuflo que construo uma arapuca ꟷ diante dos eventos, confiança é
tudo.
Em paz consigo, desfrutem do espelho em
cacos. Pra cumplicidade bem escanhoada, assegurem: a raiva sangre.
Corto-me ao fazer a barba. Mas não fico
nisso: indo por aí, dou com gente mais idiota que feliz.
O infeliz que encontro nem me é
conhecido. Só o vi num churrasco de nem sei lá quem fosse, justamente por isso:
acena, vem, me abraça como quem me carregou no colo.
Ao amigo do amigo do meu pai eu poderia
propor algo que o fizesse pensar, um fogacho que incendeie o que é palha.
A troco de nada, a senha da fortuna poderia
ter sido dita. Todavia, ele foi comigo sacar uns dinheirinhos no caixa
eletrônico.
Sacar na amplidão do meio-dia, isso me põe
atônito.
Já que os olhos têm calor quando o que
importa são os dedos que digitam, ao cronista não sejam atribuídos o testemunho
contábil nem a guarda mnemônica do hipotético crime cometido.
Conversinha é areia nos meus tímpanos...
Esta ideia me pegou: nenhum almoço vire
jantar, pago o almoço pro amigo do amigo do meu pai.
Pelo mundo a levar-me, observo. Sim, há
quem peça que me afaste da bomba de gasolina, já que eu nem tenho carro.
Noto: entre posto de gasolina e caixa
eletrônico, o valor da dívida, exibindo a pérola, acaba distorcendo o que seja ostra.
Amigo do amigo do meu pai, não lhe enviarei
a imagem por e-mail, pois ela ainda é esboço...
Vem o Álvaro de Campos me desnortear, prefiro por isso o nada de ser apenas esse
ser nada.
Não é o dinheiro que paga a cerveja, o
caminhão que a transporta e o pedágio de uma ressaca, é a boca que não para de
beber.
Cachola cheia de vozes, tenho a minha.
Meus demônios, são tantas as mentiras
que escuto que o caminho pra chegar aqui é íngreme. Sem outras explicações, me
enfurece quem foge de perguntas incômodas.
Não sendo sonâmbulo que nem penso o que falo:
é provocado pela realidade que faço o que faço sem me abster das consequências.
Sim, a voz que incendeia é: precária, provisória. Portanto, única.
Como eu não vivo um instante duas vezes,
Heráclito: nem sei o que dizer sobre a arte.
Entre fogo e espelho, boca e garfo, nem
tudo que seduz é arte, mas é preciso nominar arte o que se faz como sendo arte,
pelo artesanato de fazê-lo.
Censor do artista, diz o rigor: quando salva,
a arte condena.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2025.
PS – No livro SOPA DE SAPO, o título da
crônica é Arquivo Morto, mas os amigos dos amigos do meu pai continuam
serelepes. Daí que, rindo um bocado ao revisitar meus chavões, reescrevi o texto.
PS.2 - 2026, tenha dó da gente e vire, rapidinho,
2030, para que se possa celebrar o bicampeonato da nossa pátria de chuteiras.