Vendo-me
correr, e, para não atropelar quem estimo por não correr, não discordo de quem
acredita que sei o que quero, estou certo do que preciso, vou indo adiante ainda
que pise em falso, porque a pirraça da cachola é projetar buracos onde a gente menos
os anteveja.
De
bunda no chão, doido querendo sumir, realço o ridículo ao topar ser acudido por
quem se domina, e tudo bem, não foi grave, foi só um tombo, ria, pode rir às escâncaras,
pois dei bobeira, eu sei.
Dificilmente
saio de casa à noite, pois, sem nada de esquizofrênica, a mão que vem ajudar é
a mesma que vai agredir, pois, já que não me aprumo pelas decorrências, reluto,
não quero entregar a carteira.
Refeito
do murro, afivelado à maca, levem-me ao pronto-socorro, e tudo bem, pois, é óbvio,
nariz sangra após um soco desferido na fuça, e o meu abunda sangrar, me defende
sangrando, é normalzinho.
Embora
raramente me irrite, irritam-me facilmente, então, para não incendiar a casa, preciso
da rua, desligo a TV que fala na paz, na paz laureada, essa paz que não mordo,
não mastigo, não engulo, e não a cuspo na sala, pois, sem bater porta nem
portão, saio manso, abobado, pois quero ir para nem eu sei onde.
Por
acaso, fecho a porta quando um homem desce do carro.
Uma
mulher também desce, mas, elevada do chão com a elegância de quem sabe andar na
agulha do salto, ela é alta, tão alta, tanto é alta que ela atravessa a rua sem
olhar para quem, neste instante, a adora e a idolatra, para, no instante
seguinte, ignorá-la.
Ignoro-a,
porque o homem de terno leva um estojo. Em vez da pasta na qual operadores do
sucesso transportam dólares, euros e barrinhas de ouro, a figura da tampa explicita
outro conteúdo, uma furadeira.
Não
sendo borboleta, seguro-me da minha volúpia, aguardo o casal entrar num prédio,
e quando ele entra, entro, estou no encalço.
O
lugar é um salão de festas. Há mesas com enfeites. Instrumentos são afinados, microfones
são testados. Embora haja pouca gente, mais cadeiras são trazidas.
Cruzando
a boca do palco, a faixa, preta com Felicitações por seus 15 anos, DIDI
em dourado, é fixada pelo homem da furadeira.
A
loira alta, bem alta, altaneira, de longo amarelo, longo o bastante para que eu
cobice modelar-lhe as panturrilhas, sem traços de esnobe, por realmente me ver,
ela vem falar comigo.
Está
surpresa que eu tenha vindo sem fraque, é justo, pois o cachê é uma taça de champanhe,
e tudo bem, embora caiba ao pai dar-lhe a primazia do baile, a moça quer Für
Elise para bailar.
Desde
garotinha, Meredith tem a regalia de ver-me de fraque, rabo de cavalo, a
língua, esse animalzinho neurótico, a umidificar os lábios, só que a pouparei do
meu opróbrio, pois a cabeleira solta, a boca sem batom e o rosto sem pó de
arroz personificam o perplexo: não sendo obra de buraco ou de casca de banana, terei
caído por pisar bosta de gente ou cocô de vira-lata?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 12 de outubro de 2025.