Firmino reclama do verde brevíssimo dos
semáforos, da estridência neurótica das buzinas, do absurdo número de carros, mas,
pela inépcia de antecipar tal quadro, dirige a censura maior para si.
Inútil reprimenda a quem atrasado, e
muito.
A opção de acelerar-se quando possível não
o altera, cumprimenta as pessoas. Veste o figurino que separaram. Maquia-se com
destreza. Depois dessa azáfama, pode finalmente aguardar.
“Vai começar tudo de novo”, ele constata.
O primeiro sinal traz a agitação da
plateia às coxias. O burburinho, porém, não lhe indica a medida do entusiasmo
do público.
Tantos anos na estrada, tantas
montagens, mas, a cada vez de sair do camarim, vem o friozinho, cuja dimensão
dois goles de café ajudam a estabelecer o quão inconveniente é continuar ansioso.
Ansiedade medida pelo café tomado pode
ser um sentimento bom. Se a preparação pode acabar abalada, o friozinho aponta:
há caminhos que precisam ser demarcados, ou a cafeína intoxicará.
Encher a cara de café é risível, porém não
é um erro, pois todas as veredas levam ao fim. Ao objetivo cumprido, então, vaias
ou aplausos não são sequelas, ultimam em apogeu. Porque saudável é ocupar-se do
riso, e beber café sem açúcar nem é consolação.
“Que bom que vai começar tudo de novo”,
ele saboreia o instante.
Ao segundo sinal, o público capta o espirituoso
prometido além das cortinas. Pagantes em geral não pressupõem frustrações nem
querem ter que cobrar o dinheiro de volta, precisamente quando cobram.
Animador é pessoas de ingresso em mãos à
procura da respectiva poltrona. Atenção! Há nervosismo. Para a sua concentração,
é natural que dê como supersticiosa à ida ao banheiro. Embora lhe falte vontade
para urinar, Firmino sabe que faz bem, menos quando urina café.
“Ainda bem que, outra vez, vai começar
tudo de novo”.
O terceiro sinal não tirará aperto algum
da sua bexiga, pois ele sabe que a respiração sob controle diminui o risco de uma
atuação patética, como, em cena, ficar azul ou correr pro banheiro. Respirar é uma
ação boa se imperceptível, como água aos peixes.
Sem asfixiar o raciocínio com
fingimento, todo excesso tem que ser castigado. Seja pelo grotesco do
artificial, pelo muito cerebral que tolha o espontâneo, porque nem todo
acidente contribui pra naturalidade.
Enxergar mosca varejeira em vez de
ervilha caída de um sanduíche é uma interação negativa. Lembre-se, Firmino,
você está no palco, não busque no olhar do público alguma rede protetora.
Simulacro de homem calmo, senhor das emoções,
Firmino pensa no café que estará no camarim ao fim da apresentação.
Do lugar marcado, o ator percebe que a
plateia está atenta. Porém, ele reconhece o sorriso na primeira fila.
Profissionalíssimo, Firmino diz as suas falas. Mas, a tal mosca zune sem parar:
ꟷ Mamã te trouxe torta holandesa e
quiche alsaciana, Fifi.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de agosto de 2023.