quinta-feira, 28 de junho de 2018


o indigerido das gentes


os cacos da palavra são o cacto
na boca que não vomita;
movimenta-se, vibra suas cacofonias;
marca com sangue a pronúncia de suas víboras;
o guizo de sua língua marca pelo passo;
fede a ferida de sua passagem;
aperta, é palavra; não faz por menos
nem o menos nem o menor;
troca o certo pelo corte;
é ferimento, corta;
vulva aberta que se fecha;
pus para o silêncio,
pele a todo contato;
pela voracidade da luz,
pelo susto deste lustro,
o casco dentro da boca:
pétala do asco,
pérola do que não basta,
é rastro de ostra.

(2016)



quarta-feira, 27 de junho de 2018


a culpa


tem a gramática, arma a sua teia quando fala.
quer domar a fala: prepara a cova, não a sepultura.

contra o que pensamos, dizemos o pedido;
sem a colheita do massapê, escolhemos o chão mais nosso.

desconhece a espera, engrandece o silêncio,
como quem tem o dever de dar ao morto o direito à morte.

cada um arranca de si o ferrão, nas coxas;
cada qual carranca-se em vespeiro, dia após dia.

sabe da lua, pouco diz sobre o luar;
com olhos fundos, emenda-se um boneco à escuridão subordinada.

há tanta mágoa entre as papilas tensas;
e sem mel, salivamos e aferramo-nos ao ferrão da vespa.

cada poeta faz entender por que se cala;
cada lapso traduz em eclipse o desespero, fazendo azedo o poema.

(2016)


terça-feira, 26 de junho de 2018


os originais da cópia


os mortos em mim não param de falar.
precipitados no coração do mar,
não param de falar.
alçados à língua das paliçadas, não param.

lutam por mim, convictos da minha perdição;
abreviando alegrias, prolongando compromissos;
repetidos na certeza da missão cristalina,
são água do mundo a quem afogado.

aterrado em tal desterro,
peço a palavra a quem não me quer ouvir.
e não param, não.
querem mulheres peladas nas camas dos quartos;
deitam as pulgas nos pentelhos pré-pagos.
seguem de ônibus, é estafante o trabalho de servir;
comem apressados, em pé, uns camelôs de fino esporte.
e não, não param de falar.

ando enfermo. o que importa? o importante, mesmo:
mortos, não parem de falar.

(2016)

sábado, 23 de junho de 2018


os caninos do último palhaço


como pode, a porta suporta
o tropel de vozes.

a maçaneta segura a lingueta,
controla as dobradiças.

a chave está surtada,
recolhida ao escuro do movediço.

os vidros, filmados e duplos,
resistem à fatuidade das cigarrilhas.

menos iluminado, o canto
reserva-se a sutilezas aracnídeas.

no veio das artérias desapercebidas,
brilha o despercebido.

como a sombra pode o silêncio,
a gargalhada suga, sem reflexão alguma.

(2016)


sexta-feira, 22 de junho de 2018


a pétala dos caminhos


naquela pedra, a capela;
bêbados, turistas e demais mentirosos
corriam lá.

capelinha de comadres e camélias,
e das cartomantes; octogonal, caiada,
de cruzeiro às cegas, azul celeste.

no meio do parque tinha um coreto;
sedenta de paz, a oração trazia o próprio estribo.

em cada joelho, um lamento;
em cada olho, um julgamento;
em cada língua, o assim seja.

a capela iluminava-se,
fortaleza de cera das compunções;
da paróquia, nem pedia outra demão,
mas vieram em missões, as flâmulas e os repiques;
e só o vento relinchava,
sem dar pinote.

(2016)

quinta-feira, 21 de junho de 2018


absurdamente


não anda fácil, nada fácil, morrer em paz por estes dias.
pensemos na injustiça de sorrir
mesmo com a onipresença do enfado,
mesmo com a onipotência da cupidez,
mesmo com a onisciência das luzes.

nem podemos reclamar nem refulgir os corpos,
enfileirados pelos guichês da baixa-voltagem.

mas que não está fácil, isso não está.
e trabalhamos, trabalhamos, trabalhamos,
e até ao morrer, trabalhamos.

(2016)

quarta-feira, 20 de junho de 2018


memória


por generosidade, inventamos nossas histórias mais verdadeiras.

(2016)

terça-feira, 19 de junho de 2018


a anedota do barqueiro


o barqueiro
não diz que conhece o rio,
acariciando no espelho a água das suas memórias.

o barqueiro
mal reconhecido no reflexo das suas apoplexias:
é gente, apenas.

o barqueiro
anda nutrindo certo trauma pelas jornadas do seu calendário.

o barqueiro
fica iluminado como um mapa pros remos da lua,
fica perdido no oceano das gotículas de sal, seu nada a vela.

o barqueiro
sente no rumo dos pigarros a culatra dos seus despropósitos.

o barqueiro
observa o vaqueiro na estradinha
e lança sua pequenina gota de amor, outro abismo que garoa.

(2016)

segunda-feira, 18 de junho de 2018


o sofrimento


o menino, fruto passo de um amor,
sem o mistério de seus mantras, não diz por sua árvore,
sentindo suas bolhas de sempre ser o filho.
o menino aprende a contar,
e consegue separar o que seja ímpar, sozinho.

o menino, com seus cães abatidos,
queria em pé o boi de sua ninhada,
no pasto dos instantes, comendo a relva dos segundos.

o menino, suas perguntas cheirando a gordura,
rasga a garganta do queijo, veste a túnica do leite,
e sem coleira, caminha suas saudades.

o menino, lápide sem lápis,
usa a língua como luva, não a pelica de um punhal,
e conhece a menina pela espuma.
o menino, pelo bronze de suas asas,
repete os sinos da memória, conversa sua música,
até ficar surdo à meada boreal da aurora.

(2016)


domingo, 17 de junho de 2018


a aranha


tarde demais!
é manhã

as patas
traduzem-se
em silêncio

o ardil
a tramar-se
natureza

não se ouve
nem se pode ouvir

o segredo
a luzir
nega a ação

o movimento
discreto
do sereno

(2016)

sábado, 16 de junho de 2018


de cara lavada

é a favor da razão
que a lama das alamedas seja levada pro mar,
que nas sacolas do mercado sigam as latas de sardinha,
que as notas fiscais marquem a bocarra do leão,
que nos números do caís entre a vitória das estatísticas,
que o considerado esgoto seja tão próspero em minérios.

é como favor ao coração
que o inimigo traz suas abelhas adulteradas,
que as colmeias instaladas recebem tantos bônus,
que o mel ganha o sabor intenso das melhores laranjeiras,
que adocicamos tal conquista com o nosso mais sincero perdão.

(2016)

sexta-feira, 15 de junho de 2018


vontade

quem espera sentado não tem esperança.

(2016)


quinta-feira, 14 de junho de 2018


o corrediço

árvore de raízes movediças, os homens sobem montanhas,
descem andaimes, entram pelas cavernas,
querem o café passado na hora...

de caule arenítico, os homens petrificam as nuvens,
esculpem o vento, circulam a neura fulcral,
colocam mais açúcar na melancia...

da floração ao fruto, os homens têm gosto apurado,
degustam-se a contento e, uns aos outros, comem-se,
são cupim de madeira de lei...

(2016)


quarta-feira, 13 de junho de 2018


que remédio?


o exagero do cansaço é nem ter forças pra preguiça.

(2016)

terça-feira, 12 de junho de 2018


o touro em pedaços


cartesiano, o poeta pensa o objeto,
sem a convicção de considerá-lo pronto, ainda
que haja palavras organizadas em versos, ainda
que haja estrofes encadeando imagens, ainda
que haja outros elementos linguísticos, semânticos e sintáticos
a torná-lo, malgrado a opinião do poeta, um poema.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em um touro, o seu touro,
este touro feito de palavras.

hiperbólico, o poeta pensa o touro
como se cada pata fosse uma tora;
pensa os cascos do seu animal como pianos,
de um marfim maciço, incisivo, marcante,
um teclado sonante contra o barro do mundo;
põe nos cornos uma lua de sangue, de fase única,
uma carranca, a revelar a violência atávica,
ancestral às palavras que o fabricam; todo angústia.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em uma tara, as suas taras,
esta tara posta em palavras, touro mal-amanhado.

patético, o poeta pensa o touro
como uma mensagem explícita, um soco na cara, mas
ainda que faça incrustrada no verso a canção de sua morte, mas
ainda que faça o marfim ser despedaçado pela fúria, mas
ainda que faça os cornos serem retirados à faca,
o touro de sua lavra seguirá à espreita.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em um leitor, o seu leitor,
este leitor atento às palavras.

abestado, o poeta pensa a besta
com a desconfiança de considerá-la incurralável,
embora entenda que sempre haverá um embora,
um embora a dar aos cascos o cântico do monstruoso,
um embora a roncar de suas ventas o estupor do varrasco,
ainda que haja na baba do aziago o sangue mais besta.

é poema, este poema, o poema
faz o poeta pensar em uma fogueira, o seu fogo,
esta chama ardendo-o entre as palavras.

(2016)

domingo, 10 de junho de 2018


objeto cabalístico


concentrado
como consumidor, suas faturas pagas
como eleitor, em dia com as eleições
como cliente, pelos direitos em vigor
como paciente, na fila da espera

atormentado
como ator, desfigurado
como pintor, de mãos atadas
como cantor, destrambelhado

condenado
tem no drama a sua comédia mais solitária

remediado
é o comedido no comediante
é o calo quando cala

calado
como não tem um número apropriado, faz cena
não dá pela fala outro recado

(2014)

quinta-feira, 7 de junho de 2018


dádiva


o feto foi dado como vivo entre os escombros.
comovidos pela notícia vinda do andar de cima,
os operários declinam da marreta, aceleram com o pasmo,
muito atraídos, e prorrompidos pelo silêncio,
embasbacam-se.

ali não é lugar pro insólito.
é preciso retomar as malhas do ferro.
no exercício do contínuo, a construção precisa andar,
fabricar-se por mãos metódicas, edificar-se pelo racional;
atenção ao traçado é compromisso.

o projeto tem prerrogativas.
é essencial sugar pras plantas a seiva dos envolvidos,
ou nada se mantém à parte do forasteiro.

sem dúvida, gente dessa espécie estranha a presença,
é fundamental controlar seus fluxos mentais,
impedir os influxos do pensamento;
ninguém deseja acabar-se presa
dos labirintos do cérebro.
ao concreto do aço,
atenção.

urge extirpar das estruturas o malquisto,
é basilar recolhê-lo ao olhar distraído dos obreiros.
pra que esteja inoculado pelo trabalho
o esforço de cada gesto, o empenho de cada braçada,
ordena-se a aplicação da vacina.
cumpra-se, de bom grado.

esporos não empacam, espalham-se;
raízes não propagandeiam, aprofundam-se;
folhas não encorajam, exibem-se.

pra recuperação sem desperdícios daqueles restos,
é capital vedar gargalos, calejar os ouvidos, vencer inconveniências;
pro desbaste sanitário, coordenado, categórico,
é capital as instruções serem seguidas, ao pé da letra,
abraçadas rigorosamente.

rigorosamente,
fixe-se a mirada na obediência à lógica;
bata-se pelo regulado, contratado, firmado.
estejam todos voltados pra erradicação do entulho.
cabe à voz da realidade ditar tais afazeres,
comandar a administração pro andamento do ordenado.

acaso a sombra do trançado persista,
acaso tome corpo a lembrança daquela vida,
acaso o eco do verde resista à força do silêncio,
seja constituída a redoma com os dígitos da científica,
demonstre-se o inútil com os interstícios do virtual,
aplique-se o contingenciamento do indômito pelo modelo.

mão de obra carente de ser lembrada de prazos,
de que as distrações inoportunas comem o tempo,
de que até a fome pra ser atendida tem hora programada?
no armário numerado, pra outro celular desligado, abra-se espaço.

longe daquela engenharia capitalizada,
longe daquele deserto de esqueletos recuperados,
pelas veredas longínquas daquela sobrevivência,
à luz da beleza, eclode a vida em clorofila.

pingente do xaxim, ignorado pelas medidas dos outonos,
ao lado da porta, da casa, do metro, o frondoso;
pela espiral de suas lâminas, de acordo com os vizinhos,
a samambaia é vista como bela bela bela.

(2014)