Acena ao mundo estás
só na turba,
na turba
transmudado -
e vives: aqui
te encontro,
a mão no teu sorriso
sobre o retrato
Age de Carvalho
sábado, 14 de maio de 2011
sábado, 4 de dezembro de 2010
o morto e o vivo
Inútil pedir
perdão
dizer
que o traz
no coração
O morto não ouve
Ferreira Gullar
perdão
dizer
que o traz
no coração
O morto não ouve
Ferreira Gullar
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
POÉTICA
Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.
José Paulo Paes
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.
José Paulo Paes
terça-feira, 20 de outubro de 2009
O SONETO
Nas formas voluptuosas o soneto
Tem fascinante, cálida fragrância
E as leves, langues curvas de elegância
De extravagante e mórbido esqueleto.
A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intolerância,
Toda a sutil, secreta extravagância
Que transborda terceto por terceto.
E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O Soneto, nas formas caprichosas.
As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E nas mais rara procissão augusta
Surge o Sonho das almas dolorosas...
Cruz e Sousa
Tem fascinante, cálida fragrância
E as leves, langues curvas de elegância
De extravagante e mórbido esqueleto.
A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intolerância,
Toda a sutil, secreta extravagância
Que transborda terceto por terceto.
E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O Soneto, nas formas caprichosas.
As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E nas mais rara procissão augusta
Surge o Sonho das almas dolorosas...
Cruz e Sousa
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
O SOL DA MEIA-NOITE
Do ovo negro gigante
Brotou um sol qualquer
Reduziu-nos nas costelas
Escancarou o céu
Em nosso peito órfão
Não se pôs
Tampouco despontou
Tudo em nós aurificou
Nada esverdeou
Em torno de nós
Em torno do ouro
No coração vivo
Tornou-se nossa lápide
Vasko Popa
Brotou um sol qualquer
Reduziu-nos nas costelas
Escancarou o céu
Em nosso peito órfão
Não se pôs
Tampouco despontou
Tudo em nós aurificou
Nada esverdeou
Em torno de nós
Em torno do ouro
No coração vivo
Tornou-se nossa lápide
Vasko Popa
Com fios de orvalho
aranhas tecem
a madrugada.
Manoel de Barros
aranhas tecem
a madrugada.
Manoel de Barros
domingo, 18 de outubro de 2009
TEORIA
Que todas
se humanizem,
ruas e cidades,
terras e nações;
que sejam como homens
de auroras e de nuvens
e amor no coração:
não desse amor
de álcool à chama;
não desse amor
às marés do instante,
à rosa impura
da violência e do ouro;
mas do amor que é trigo
nas planícies, nos celeiros,
e se perde em vão.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
se humanizem,
ruas e cidades,
terras e nações;
que sejam como homens
de auroras e de nuvens
e amor no coração:
não desse amor
de álcool à chama;
não desse amor
às marés do instante,
à rosa impura
da violência e do ouro;
mas do amor que é trigo
nas planícies, nos celeiros,
e se perde em vão.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
LIVRO
Fecha o livro de imagens e miragens
criança adormecida
À transparência pálida das páginas
não resta nem a luz dos dias vivos
Ausente sob a capa já compacta
das águas claras perturbadas
oscila o mar
nas folhas separadas
Gastão Cruz
criança adormecida
À transparência pálida das páginas
não resta nem a luz dos dias vivos
Ausente sob a capa já compacta
das águas claras perturbadas
oscila o mar
nas folhas separadas
Gastão Cruz
sábado, 17 de outubro de 2009
NA POESIA
Na poesia
a palavra só ressoa depois
primeiro fala para dentro
numa fidelidade própria das coisas sem começo
nem fim
aqui
como nas ruas
há caos e transparências
poucas saídas e uma só entrada
Dora Ribeiro
a palavra só ressoa depois
primeiro fala para dentro
numa fidelidade própria das coisas sem começo
nem fim
aqui
como nas ruas
há caos e transparências
poucas saídas e uma só entrada
Dora Ribeiro
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
POESIA
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Carlos Drummond de Andrade
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
NOVA POÉTICA
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada,
[e na primeira esquina passa um caminhão,
[salpica-lhe o paletó ou a calça
[de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento
[e as amadas que envelheceram sem maldade.
Manuel Bandeira
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada,
[e na primeira esquina passa um caminhão,
[salpica-lhe o paletó ou a calça
[de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento
[e as amadas que envelheceram sem maldade.
Manuel Bandeira
terça-feira, 13 de outubro de 2009
ELOGIO DO PRÍNCIPE DA DINAMARCA
Coitado do Hamlet!
Assassinado,
Empurrado,
Para o sepulcro que é!
Oculto entre reposteiros,
Sem paixões,
Como os ladrões
Que lucram trinta dinheiros.
Coitado do que ele vê:
Crimes,
Espectros
Correctos,
Coitado do Hamlet!
Mário Cesariny de Vasconcelos
Assassinado,
Empurrado,
Para o sepulcro que é!
Oculto entre reposteiros,
Sem paixões,
Como os ladrões
Que lucram trinta dinheiros.
Coitado do que ele vê:
Crimes,
Espectros
Correctos,
Coitado do Hamlet!
Mário Cesariny de Vasconcelos
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