quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O eco do futuro

 

O eco do futuro

 

Pelo apoio ao acordo entre Mercosul e Comunidade Europeia...

Pela língua de trapo quanto às dosimetrias...

Pela espantosa disputa de pênaltis entre Flamengo e PSG...

Por isso, pegando o touro à unha: fixo, estou tocado pelas angústias do nosso tempo.

Digo mais. Quiçá eu possa esclarecer: como já já será janeiro, deixo evidente o rastro do nosso interesse.

Pois, o que diz o vulgo?

ꟷ Tudo a seu tempo.

Pois, o que diz a Vulgata?

ꟷ Quod fuit, ipsum est, quod futurum est; quod factum est, ipsum est, quod faciendum est: nihil sub sole novum.

Em legítimo português castiço, entretanto, diz o Pregador:

ꟷ O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Para não passar a vergonha de ser ridicularizado por haver-me bem em minha infantilidade, dirijo-me a você, pessoa que ainda lê, sabendo que a barafunda aturde, indago-lhe:

ꟷ O que o tempo silencia?

Então, 18 de dezembro, você diz o que o resguarda.

Diz a Wikipédia que, em 218 a.C., na Segunda Guerra Púnica, em Trébia, Aníbal deu a vitória a Cartago.

Excluindo-se os inapetentes pra parar de andar com os caninos de fora, minha cachola nem tem ficha que houvera uma Primeira...

Diz mais a mesmíssima fonte: pela vitória dos revolucionários sobre o exército britânico, em Saratoga, em 1777, na América do Norte deu-se a primeira celebração do Dia de Ação de Graças.

Diz ainda a Wikipédia, a ela que não nos pouparemos de chamá-la velha de guerra, diz-nos que no dia 18 de dezembro de 2005, no Japão, em Yokohama, diante de 66.821 pessoas, com o tento de Mineiro aos vinte e sete minutos da primeira etapa, o amado clube brasileiro, o São Paulo Futebol Clube venceu o Liverpool, sagrando-nos tricampeões do mundo.

Pelos fatos assinalados, ser de memoráveis simpatias, faça o favor, Noel, tome siso do que pode embasbacar, justamente pelo solipsismo, ao nos engambolar.

Quando se der ao trabalho de desembrulhar-se numa resposta bem ponderada, pergunte o que traz à tona o que nos move. Isso que a nós torna a noite mais longa que as doze horas que aparentemente deviam perdurar. Então, a nós o senhor nos atenda:

ꟷ Qual será o presente que estamos a cobrar-lhe?

Para evitar que nos atirem ao abismo, como se fôssemos incapazes de amar quem nos esculhamba e encurrala, assumimos a empreitada de desentranhar o que ecoe sem que o glorifique à toa, Pai:

ꟷ Uma vez que alvíssaras sempre anunciam o que muito se espera, o Morumbis trema pela vinda do tetra, em 2027.

Por assim, maliciosamente tão lesto?

Pela razão de haver desconcerto entre Mercosul e Conselho da UE, pelo riso diante dos pênaltis batidos lá no Catar, pelo baixar do sarrafo quanto à anistia, tratada feito reduçãozinha de pena; ao exercitar meu direito de escancarar o meu na reta, digo o que espero dizer quando já vem o que me aguarda mais à frente:

ꟷ O moral do palhaço cresce a cara na torta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de dezembro de 2025.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Eterno aprendiz

 

Eterno aprendiz

 

Todo ano é assim, chega o momento de pesar na balança o quanto de coisa boa a gente fez. Descontando as decepções e a irritabilidade que as pinta como frustrações angustiantes, todo ano é sempre assim, com a maturidade apontando o que seja tapete e o que seja a mão que o puxa.

Madura, madura mesmo, é a gente que aprecia a água pelo que ela é: por ser refrescante nos dias de calor, necessária quando a boca está seca, fraterna com o afeto solidário diante da dor.

O melhor da água, portanto, é ela ser servida agora, que é chegada a alegria de escolher os presentes, é chegado o instante para se eleger quem receberá mais do que uma lembrancinha.

Como a gente tem em conta que grana contadinha é critério vulgar, separar o trigo facilita pelo número de pessoas que comerão e beberão à mesa do Ano Bom.

Para evitar complicações, peço que a memória contribua e faça-me elencar o que foi comprado nas Festas do ano passado.

Aristeu ganhou uma bermuda que o satisfez, porque ela caiu como uma luva. Não precisou de ajuste na cintura e, sendo de brim vermelho, motivou-o a virar pimentão no Carnaval da Ilha Comprida.

Este ano, já que me sinto autorizado a ser chique, Aristeu ganhará uma camisa com estampas geométricas, uma lindeza que garimpei na internet, uma que custou para achá-la, mas que trabalha direitinho com a beleza d’O Balão Vermelho do Paul Klee.

Ao Luisinho, dei livro é claro. Como ele é contador de histórias, seja no seu aniversário, seja no mundialmente shakespeariano 23 de abril, seja na virada, haja livro para contentá-lo.

Já embrulhei outra cópia de Água para as Visitas, pois as crônicas de Marina Moraes são poéticas, melancólicas, engraçadas, escritas com a mão que embala as palavras para a leveza, para que a vida seja sentida com sorriso no rosto, porque, já que tenho o juízo para parodiá-la, siso arrancado e botão de camisa têm muito a ver.

Como raio em céu azul, o presente para Dona Cremilda veio-me de pronto. E o sol da certeza iluminou o caminho: fui num pé, não errei o passo na valsa e o indicador apontou o que sempre será o verdadeiro sapatinho da Cinderela.

Comprei o mesmo modelo que comprei no ano passado, no mesmo número, na mesma cor, na mesma loja do ano passado, porque tenho vivíssima a imagem da Dona Cremilda quando o experimentou.

Todo ano antecipo o almoço do Ano Novo, dou de comer e de beber à trupe que ganha presentes.

Como criança que compra o Keds certo para a Penélope Charmosa que não vê o que há de cor-de-rosa debaixo dos escândalos do mundo, fiquei ruborizado pela oportunidade que eu criei.

Aristeu e Luisinho caíram na gargalhada, pois não há lição que não a esqueça em seguida. Mesmo rindo, a amiga sabe que irei trocar o 35 pelo 37.

Contudo, o que não contarei?

ꟷ No ano passado, o senhor comprou comigo e fez a mesma coisa, pediu desconto e veio trocá-lo, sorrindo amarelo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de dezembro de 2025.

domingo, 14 de dezembro de 2025

O horrível na foto

 

O horrível na foto

 

Tem coisa fedendo. Um cheiro horrível está empesteando o quarto. Abro os olhos, giro o pescoço e vejo Marx com a mandíbula repousada no meu tornozelo.

ꟷ Amigão, sei que foi você que aprontou.

Abanando o rabo, meu pug vem lamber-me a boca porque ele sabe que acharei a verdade quando raciocinar melhor, quem sabe já menos sonado, com a raiva mais bem direcionada, para o alvo certo.

Preciso de estar esperto, assim, ainda que siga ladeira abaixo, indo na banguela, não tiro meus patins por nada.

Espreguiçando, já me esforço, dou a orientação necessária pra que a cachola lute pelo equilíbrio que preciso para patinar no calçadão.

Penso, logo a circunstância é para rir.

Nunca durmo de bruços com a cabeça virada para fora da cama, já que, à altura da nuca, tenho desvio na coluna.

No chão ao lado da cama, à altura da minha boca, o vômito provoca aquela coisa fedorenta, porque eu devo ter farreado à beça.

ꟷ É óbvio, Marx, que fui eu que aprontei.

Pelo que me lembro, você e eu ficamos na sala, vendo tevê. A noite passada não caímos na esbórnia.

Com mil diabos! Por que emporcalhei o quarto?

Marx, você sabe que não bebo nada que tenha álcool. Nem cerveja sem álcool eu encaro, como você bem sabe.

Então, meu chapa, como é que eu preciso encher o balde de água, preciso pegar panos, devo ajoelhar-me sobre o cadáver nojento que o chão do quarto insiste em sua remoção imediata?

Meu camarada, amigo para todas as horas, me ajoelho, limpo, torço o pano, torno a limpar, torno a torcer o pano na água. Amigo das horas em que Mefisto vem oferecer os seus préstimos, vou jogar a água, que já o balde está nauseabundo, pois tenho alma sensível, principalmente se as entranhas intestinam um alien irritantemente terráqueo.

Isso, amigão. Você é sagaz. E sua sagacidade chama para brincar os elétrons da minha moringa.

Víamos tevê quando um carro veio anunciar um troço qualquer. Era um troço qualquer porque o som do alto-falante não nos dava condição de entender o que era anunciado.

O troço qualquer, Marx, continuava a ser uma esfinge a me chamar que fosse escutá-la, compreendê-la na sua necessidade de cativar que eu pudesse, por mim, defini-la como necessidade minha, uma vez que pude ouvi-la direito.

Ela atiçou só as lombriguinhas da minha curiosidade?

Embora fosse madrugada, tive que ir. E o que vi, todavia, devia ter-me alertado que aquela palhaçada tinha as digitais do Cão.

Não havia carro. Parado na esquina, tinha um peruzinho usado em construção e a caixinha de som era dessas que se usa para aborrecer banhistas.

Reconheço que não sou nenhum banhista, mas, justamente por ser safo, soltei a rédea.

Tendo a cautela de desconfiar, recusando-se a dar uma mordidinha que fosse no produto, bastou-lhe lamber o quitute tentador.

Fui abocanhado rapidinho, Marx, porque eu nunca tinha ouvido falar em pamonha de Piracaia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2025.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A hora da virada

 

A hora da virada

 

Pega-me uma empolgação. Para que não me veja exacerbado, digo que é manhã, quase meio-dia, voltará o dia vinte. Daqui a uma semana o dia vinte conseguirá chegar como fato a ser consumado, já os sinos bimbalham que lasanha no almoço de uma quarta é luxo a quem reza para o dia vinte chegar quando seja preciso que chegue, que haverá o instante apropriado para desfrutá-lo.

Sem trocadilho, o lado soturno do mundo devora paulatinamente, instante a instante, cabendo a mim aceitar que dezembro contingencia-se a prospectar o amanhã como Ano Bom, propício a auspícios.

No que penso, coço a palma direita sabendo o significado disso.

O Mandraque de Araque, eu próprio, sei muito bem que a folhinha está colocada na parede. Não questiono que tomei a decisão certa, já que a pus ao lado da janela. Podem questionar-me a razão para tê-la fixado ali, mas a coceira na mão nem é urticária.

Quando quero espiar a rua, o que primeiro me situa no meu dia é a folhinha, é troço na altura dos meus olhos, difícil de ser ignorado.

Ignoro-o porque o dia está lindo, o sol brilha gostoso, a claridade da manhã é saudável, convida à janela, sem que os olhos notem a mulher, cuja janela do quarto dá pra janela do meu escritório, sem que a mente enxugue seus cabelos, suas coxas e aqueles pezinhos.

À escrivaninha, trabalho pelo dia, para que o dia seja bom, trabalho com o dia para que eu seja bom trabalhador, o sujeito que labuta, quer que o dia vinte tenha muito do que estabeleço hoje, para que hoje seja o futuro próximo que seja tão próximo que o sinta escorreito, formoso, adjetivamente sedutor.

O viés soalheiro do dia também está na sombra projetada no chão, embora o vão mostre a cara recatada, nada gemebunda nem frenética, a sombra, atiçada pelo desejo do descontrole, tem rabinho a mil.

Eita! Admita, é uma graça viver dos fogachos da paixão, do agudo de uma paixonite. Vamos! Confesse, é uma maravilha enganar-se com os lampejos da mente que pensa forte, rápido, pulsando sinapses que são um refresco, parecem ser um refresco. Ano Bom, seja refrescante. Os ventos da virada derrubem a folhinha. Ainda que o prego continue na parede, apaixone-se outra vez. Vá! Cumpra seus afazeres. Batalhe para que o dia vinte não seja nenhuma anistia pelos crimes que sempre há de cometer, uma vez que a vida é muito sem graça.

Vivo: sei onde guardo a caixa; o pessimismo estressa; sem perder o juízo com o peso, subo e desço porque o coração bate tranquilo.

Sem pensar na mulher saída do banho, ajeito a manjedoura. Sorrio, que a vaquinha espirre por causa da mirra ou do incenso. O calor pede para pegar piscina, não lareira com chaminé que é uma agulha.

E o dia tal?

Feito exército com dragão que expele gelo, o 13º virá e vai virar pó, deixando um rastro de alegrias adiadas, pois TV 65” e ar-condicionado multiplicam-se onde sobrenadam anões do orçamento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2025.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Certeza absoluta

 

Certeza absoluta

 

Mesmo eles acreditando que a gente nem questione o que falam, o fingimento faz parte da nossa defesa, porque a gente finge de maneira tão sincera que a confiança deles também fica mais convincente.

Tanto eles quanto nós ficamos convencidos que não é só a verdade que nos credibiliza como pessoas honestas. Sendo bons atores, nem precisamos duvidar do que não damos importância. A lógica é simples, o que para nós não tem importância é o que não precisa ter importância para eles.

Perde tempo quem se preocupa com o que é irrelevante.

Sou partidário do grupo que não duvida que o mundo seria um lugar menos tóxico quando o demônio parar de pintar carinha sorridente em ovo, mas o jogo fica excelente quando a disputa é vista como decisiva, aflitiva, uma batalha pela vida.

Não jogo conversa fora nem dou um dedo pra santo que não beba. De todo modo, quero vencer. Por saber o que eu quero, fico pê da vida se pressinto que a minha derrota desagradará quem antecipadamente se recusa a negociar comigo.

Saibam todos, não blefo nem blefarei à toa.

Como partícula nas engrenagens do convívio, desde que seja visto como derrotado, escolherei ser derrotado porque sei conviver segundo o que seja visto como necessário à boa convivência.

Sei, não dito as regras, quero apenas que seja respeitado a vontade de que a pessoa derrotada dê as cartas, controle os resultados, grite truco fora de hora.

O troféu erguido será lavado pelo orvalho, que a noite virá, e haverá sereno. E a pessoa serena, aquela que parece ser mesmo uma pessoa que solta os gatos só quando é urgente que o telhado seja ocupado, a pessoa é o troféu que a faz ver-se imbatível.

Para que não haja equívoco nem seja invocado algum engano, sim, sereno não é garoa, garoa não é chuvisqueiro nem chuvisqueiro não é chuva.

Quando chove, melhor ficar na cama, contando os dias para o Ano Novo, contando que o pagamento do salário sairá ainda que o trabalho nem tenha sido feito.

É bom que o juízo saiba o seu lugar.

No telhado, a pessoa sente que a cama é o melhor lugar para ficar sem que os outros a chamem bobalhona.

Quando chove, sendo noite, o sereno cai junto com o aguaceiro. A pessoa que não mija na cama vai ao telhado e mija lá de cima, porque precisa que haja boca que engula o mijo achando que é chuva.

A objetividade universaliza o prêmio?

Ganhemos todos. Vençamos. Que nossa alma ressentida seja uma só. Que não se cubra a careca com peruca cafona. Sejamos realistas: a mulher de César não é César vestido como a mulher de César.

Vestindo-me de César a vestir-se de César, não escondo que odeio os dias de chuva porque odeio chuva. Para que o ódio fortaleça, confio que chova o dia inteiro.

Chova, chova, chova.

Não questiono: meu ódio bombardeia as nuvens. Ainda que chova no molhado, de coturno bem amarrado, vou chapinhar as poças porque dá um prazer danado chapinhá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2025.


domingo, 7 de dezembro de 2025

Bolo à vista

 

Bolo à vista

 

Não tenho essa rotina de receber, nem que fosse uma vez por mês, quem me faça trabalhar de graça, porque nunca abro minha casa para gente que precise entrevistar-me.

Se abrisse a porta a estudantes, viriam a mãe, a tia ou a prima mais saidinha, todas precisando daquela selfie que as redes curtem, pois, já que também fui estudante, quem pede entrevista tem família.

Tenho família, por óbvio. Também é certo que tenho amigos. E tem sábado que cedo a tarde a quem não precisa vir.

Sentamo-nos e comemos o que engorda e bebemos o que faz mal e desejamos que isso se repita sempre que a vontade de fazer mal for mais intensa que a razão para evitarmos.

É o que faço. Não me evito. Não amordaço o desejo. Telefono aos amigos. Peço que venham. E quero que contem o que fizeram de bom na semana. Quero que venham futricar o que nossos inimigos fizeram por aí. Tragam a língua afiada que nos alegra, pois os nossos espíritos têm alma potente, na firmeza de pôr orelhas para queimar.

Por que faço isso? Pra que certas pessoas me felicitem quando me encontrarem depois de eu ter postado fotos com gente se esbaldando, gente comendo sem miséria, gente bebendo sem miséria alguma, com todo esse mundaréu de gente à mesa, miserável e justamente à mesa da minha cozinha?

É claro que sim!

Sem dúvida, tenho essa bondade entranhada nas vísceras, pois eu jamais censuraria quem me desaprova pela iniciativa de receber quem convido à mesa de casa.

Por que afasto quem se ofereça a sentar-se comigo?

Sou um sujeito miúdo, magricela, fraquinho fraquinho, e isso implica que o meu colo é vidro para uma bunda grandalhona.

Nesta visão estética, pulga que seduz um elefante tem mesmo que se estilhaçar em mil cacos.

Não suavizo, não me ofereço para ser a pulga nesta história, porque entendo que toda pessoa cujo ego é sustentado por tromba, presas de marfim e quatro toras maciças tem mais que ser evitada.

A minha orelha queime? Eu seja bloqueado? Não me chamem para churrasco em dia de jogo, pizza pela pizza e ganhar gravata no amigo oculto? Prefiro pagar o preço que houver de pagar?

Vou atrás de bolo. Alegremente, pagarei. Para poder pagá-los sem usar cartão de crédito, confiro o quanto tenho na carteira. Quero pagar pelos bolos, o de chocolate e o de laranja.

Esquecido de pulga e elefante, a caminho dos sabores que fazem salivar, vou indo, vou salivando por chocolate e laranja?

Pela rua, eu vou.

Vou sem parar, até que passo em frente de outra loja qualquer, pois, embora sentado em uma poltrona confortável, bem visível por estar no meio da entrada, o homem que veste a roupa vermelha do Papai Noel, tem a barrigona do Papai Noel e ostenta a barba alvíssima do Papai Noel perde feio pro Papai Noel que, escondidinho no canto por precisar da luz elétrica, a contagiar quem para pra vê-lo tocar sax, é formiguinha eleita pelo espírito verdadeiro da época.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2025.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Torvelinho

 

Torvelinho

 

Lá pelas tantas, percebi o alarme, uma vez que a frase interrompida tornava o silêncio uma pedra no caminho.

Topei a topada? Tropecei.

Me vi calculando e não fugi ao cálculo. Foi melancólico concluir que haviam se passado cinco minutos desde que a caneta e a folha jaziam intocadas sobre a escrivaninha.

Já eram 7h33 e eram 7h27 quando minha atenção foi desviada do texto para os dígitos do relógio.

Não se precipite que eu tenha errado na conta. Não errei, nada. Por força interior, arredondei a hora.

Como nem pego o troco quando querem entregar moedinhas, sou de dispensar os segundos.

Acolho sua desconfiança, peço-lhe, contudo, a vênia de colocar-se no meu lugar. Seja paciente, sei que sou um pateta por nem agir direito. Mas, sei também que o Brasil anda ardendo uma febre que não passa, portanto, desconfio de mim quando não me fio no que possa fazer.

Lá pelas tantas, a folha piscou. Já que piscou, pisquei de volta, pois não quis entregar os pontos, já que eu não iria temer o abismo de uma frase por terminar.

Sem me tomar por um cara corajoso, fui lá fora. Sentei na varanda. Balancei na rede. Vi as abelhas voejando entre as lavandas, e gostei. Ainda que o trabalho continuasse por fazer, fui ficando.

Subitamente, veio uma borboleta. E veio outra. E surgiram outras, outras, tantas. E elas eram leves, envolventes, e gostei de percebê-las calmantes.

Foi tão bom tomar-me envolvido, senti-me no meio de um torvelinho que serenava. Sem ter consciência dessa necessidade, a mansuetude produziu um refrigério, algo inebriante.

Por embriagante, não me ocorreu o escândalo de comparar aquelas asas com as pás de um ventilador, porque a mecânica das borboletas nada tinha de artificial.

Com centenas de borboletas voejando ao meu redor, embasbaquei. No súbito do momento, eu era o eixo que não rodava.

Seu Rodrigues, que eixo?

Eu acho que foi na série O Poder do Mito, que a TV Cultura passou nos anos 80, que Joseph Campbell disse que a roda da fortuna gira e, assim, tem vez que a pessoa está no alto e tem vez que está na parte baixa, mas, ele ressaltou, o eixo permanece imóvel.

Quando a pessoa se identifica como o eixo da roda, sua imobilidade possibilita a percepção de estar bem, e imperturbável.

Embora a carroça vá pelo mundo, embora a pessoa siga imersa nas contingências da vida, há a epifania: vivencia-se a eternidade.

E não a confundo com o sem-fim dos dias, já que eterno não é coisa infindável. E não a digo felicidade, pois tal serenidade é plenitude.

No jardim de casa, com centenas de borboletas drapejantes ao meu redor, não flutuei um milímetro e não gozei incontinenti, pois o que veio foi uma sensação nunca sentida, algo catártico.

O apogeu daquela circunstância materializou-se no sorriso. Deu-se que sorri tão logo a cachola fez-me sentir que a palavra mais bonita da língua portuguesa é panapaná.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de dezembro de 2025.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Anedota nietzscheana

 

Anedota nietzscheana

 

Antes eu não tivesse feito a barba, não estaria menos indefeso na figura de cachorro louco que espuma por nada, estaria irreconhecível, seria um buldogue que late, que, por medo de cara feia, rosna que nem bichão de sete cabeças.

Quando barbudo, raríssimos me encaram, pois solto meus dragões sem pestanejar. Babando por qualquer piscadelinha, que isso não me exime de apavorá-los.

Como não tenho o embuste da barba postiça, não dispenso fones. Exibindo o meu bumbum de bebê, estou outra vez tentando ouvir Bob Dylan. Benditos fones que não afasta ninguém, e vem gente perguntar se o que ouço é a novíssima antologia dos Beatles.

Pessoinhas simpáticas, não lhes digo que a frustração, minha velha companheira quando se trata de enquadrar o Dylan nos fones, dá o ar da presença bem quando estou sem barba, cavanhaque fajuto, sem o rosto do Syd Barrett na camiseta.

Estou de polo; ainda por cima, a polo é vermelha.

Vim pedindo para ser esculachado, doido que o povo perca tempo, desça a pua. Querendo uma altercação achincalhante, vim dar alegria, que eu não viro fumaça, não sumo abestado que nem saci, eu não vou fazer figuração numa novela turca.

Se o pessoal não conta que vá pro cu do judas, vou porque a minha cachola tem demônios alvoroçados: os bicharocos pedem aceleração, justapondo ideias em ideias, dizendo e me desdizendo, besta ridícula; há demônios que segredam que não salivo e não escarro, afigurando-me numa persona oca, barroca, este tremendo falastrão de tentáculos apopléticos, cuja batalha pela paralisia faz espumar, já defecado.

Estou sujo, mas não aperto o passo. Ponho nos fones um Arvo Pärt que sossegue os cães que me latem dos pés à cabeça; escuto Spiegel im Spiegel, já que 1977 é um ano que nunca há de acabar tão somente porque desejam que a caravana passe.

Mente suprema, creia-me, não é pela má-fé das fezes que me faço fedido, é natural que haja decadência. Supremo algoz, elevo o volume, uma vez que esse desejo conta que a fedentina passa.

Perdoe-me pelo perdão que acredito ser mérito meu, pela lisura que meu caráter não oculta de mim que envelheci, pela honestidade que a minha índole já não tem razão de me eclipsar eternamente imberbe.

Perdão, pois não me censuro por minha luta sem folga contra a mão que segura a navalha, manipula a lâmina, sangra o porco pra consoada que há de vir quando houver de vir, porque outrora veio, brilhou no céu da pátria, luzente como cachaço, não como leitoa.

Se houver pretexto palatável como garapa, sejam analisados meus embargos, esses fogachos do fogaréu fora de época, pois não tiro São João pela Estrela de Belém. Não estou desatento, estou distraído. Que agora eu sinto, estou sentindo. Já nem sei os porquês, mas, fácil, fácil, fico iracundo, peito todo mundo que não deixe ouvir o que o meu celular tem parado no topo, o Anticristo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de dezembro de 2025.


domingo, 30 de novembro de 2025

Pé na tábua

 

Pé na tábua

 

Se te fosse concedido um tempinho, tu não bobearias, aguardarias que os carros passassem, atravessarias a rua temeroso, rezarias para que as pernas não fraquejassem, xingarias que buzinassem, entrarias na espelunca, pedirias guaraná, suarias pela federal, uma vez que, na cabeça, o milhar fora outro.

Se tu me permitisses um palpite, eu criticar-te-ia pelos dez reais da fezinha, insistiria que, gasta à toa, a grana pagaria o refri e uma esfirra, mas a federal cantada foram quatro números anômalos.

Se te desse um minutinho, entrosarias o passo, virias ao botequim, sentar-te-ias ao balcão, tomarias um suco, comerias um quibe, pedirias que o som da tevê fosse aumentado.

Se te ameigassem com a tevê, incomodar-te-ias com o cubículo de metros quadrados exorbitantes para alento de apenas um narizinho, blasfemarias a plenos pulmões, conclamarias o demônio, demandarias que te dessem uma cama de casal com lençóis novos a cada alvorada, suplicarias por uma esteira, clamarias pelo frigobar com garrafinhas de vodca e caixinhas de água de coco, e dispensarias suplicar por celular ativamente irrastreável, porque sempre é hora de cravar do primeiro ao quinto, que a federal não deixa de correr.

Se eu a ti te apoiasse, poupar-te-ia da lembrança das quinquilharias criadouras de mosquitos da dengue e dir-te-ia dos paralelos plausíveis, porque sol quadrado tem perspectiva picasseana e desjejum frugal não é trato espartano, é uma bela coisa franciscana.

Se tu fosses dado a curiosidades, dar-te-ias a oportunidade de pedir um dicionário para progredires nas cruzadinhas, ainda que isso sequer te adiantasse para abatimentos, pois a remissão de pecados nada tem que ver com horizontais, verticais e a solução na última página.

Por haveres cavado túmulos, sepultar-te-ão sem detença.

Quando mudas de assunto, isso não acarreta que tagarele sobre o sinistro em Hong Kong, felicite Woody Allen pelos 90 anos ou sinta-me abalado pela edição requintada d’A arte da sabedoria mundana.

Continuo falante. Digo que atravesso a rua sem olhar para os lados, pois motoristas são cidadãos que fazem bom uso das buzinas.

Penso que a cura para minha condição é não me pensar curado do que me põe casmurro. Sendo essa pessoa que cala a matraca quando entende de calá-la, mesmo que peças para lamentar quando lamentas, sigo avante.

Ainda que te trates na segunda pessoa porque te fias ser a minha sombra, não vou paparicá-lo.

Porque não me paparico, cruzo a rua, aguardo a minha vez de ser atendido, tomo o guaraná que peço a gentileza de servirem-me gelado, como o queijo quente que entregam num pratinho de pirex, peço outro queijo quente a ser servido no mesmo pratinho, faço moucos os meus ouvidos, pigarreio, quase engasgo de raiva, e, com o rancor sobrevindo ao ressentimento, pago que eu nem olho para trás.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2025.