Pega-me
uma empolgação. Para que não me veja exacerbado, digo que é manhã, quase meio-dia,
voltará o dia vinte. Daqui a uma semana o dia vinte conseguirá chegar como fato
a ser consumado, já os sinos bimbalham que lasanha no almoço de uma quarta é luxo
a quem reza para o dia vinte chegar quando seja preciso que chegue, que haverá
o instante apropriado para desfrutá-lo.
Sem
trocadilho, o lado soturno do mundo devora paulatinamente, instante a instante,
cabendo a mim aceitar que dezembro contingencia-se a prospectar o amanhã como Ano
Bom, propício a auspícios.
No
que penso, coço a palma direita sabendo o significado disso.
O
Mandraque de Araque, eu próprio, sei muito bem que a folhinha está colocada na
parede. Não questiono que tomei a decisão certa, já que a pus ao lado da janela.
Podem questionar-me a razão para tê-la fixado ali, mas a coceira na mão nem é
urticária.
Quando
quero espiar a rua, o que primeiro me situa no meu dia é a folhinha, é troço na
altura dos meus olhos, difícil de ser ignorado.
Ignoro-o
porque o dia está lindo, o sol brilha gostoso, a claridade da manhã é saudável,
convida à janela, sem que os olhos notem a mulher, cuja janela do quarto dá pra
janela do meu escritório, sem que a mente enxugue seus cabelos, suas coxas e
aqueles pezinhos.
À
escrivaninha, trabalho pelo dia, para que o dia seja bom, trabalho com o dia
para que eu seja bom trabalhador, o sujeito que labuta, quer que o dia vinte tenha
muito do que estabeleço hoje, para que hoje seja o futuro próximo que seja tão próximo
que o sinta escorreito, formoso, adjetivamente sedutor.
O
viés soalheiro do dia também está na sombra projetada no chão, embora o vão
mostre a cara recatada, nada gemebunda nem frenética, a sombra, atiçada pelo
desejo do descontrole, tem rabinho a mil.
Eita!
Admita, é uma graça viver dos fogachos da paixão, do agudo de uma paixonite. Vamos!
Confesse, é uma maravilha enganar-se com os lampejos da mente que pensa forte,
rápido, pulsando sinapses que são um refresco, parecem ser um refresco. Ano Bom,
seja refrescante. Os ventos da virada derrubem a folhinha. Ainda que o prego
continue na parede, apaixone-se outra vez. Vá! Cumpra seus afazeres. Batalhe
para que o dia vinte não seja nenhuma anistia pelos crimes que sempre há de
cometer, uma vez que a vida é muito sem graça.
Vivo:
sei onde guardo a caixa; o pessimismo estressa; sem perder o juízo com o peso,
subo e desço porque o coração bate tranquilo.
Sem
pensar na mulher saída do banho, ajeito a manjedoura. Sorrio, que a vaquinha
espirre por causa da mirra ou do incenso. O calor pede para pegar piscina, não lareira
com chaminé que é uma agulha.
E
o dia tal?
Feito
exército com dragão que expele gelo, o 13º virá e vai virar pó, deixando um
rastro de alegrias adiadas, pois TV 65” e ar-condicionado multiplicam-se onde sobrenadam
anões do orçamento.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 11 de dezembro de 2025.