quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A hora da virada

 

A hora da virada

 

Pega-me uma empolgação. Para que não me veja exacerbado, digo que é manhã, quase meio-dia, voltará o dia vinte. Daqui a uma semana o dia vinte conseguirá chegar como fato a ser consumado, já os sinos bimbalham que lasanha no almoço de uma quarta é luxo a quem reza para o dia vinte chegar quando seja preciso que chegue, que haverá o instante apropriado para desfrutá-lo.

Sem trocadilho, o lado soturno do mundo devora paulatinamente, instante a instante, cabendo a mim aceitar que dezembro contingencia-se a prospectar o amanhã como Ano Bom, propício a auspícios.

No que penso, coço a palma direita sabendo o significado disso.

O Mandraque de Araque, eu próprio, sei muito bem que a folhinha está colocada na parede. Não questiono que tomei a decisão certa, já que a pus ao lado da janela. Podem questionar-me a razão para tê-la fixado ali, mas a coceira na mão nem é urticária.

Quando quero espiar a rua, o que primeiro me situa no meu dia é a folhinha, é troço na altura dos meus olhos, difícil de ser ignorado.

Ignoro-o porque o dia está lindo, o sol brilha gostoso, a claridade da manhã é saudável, convida à janela, sem que os olhos notem a mulher, cuja janela do quarto dá pra janela do meu escritório, sem que a mente enxugue seus cabelos, suas coxas e aqueles pezinhos.

À escrivaninha, trabalho pelo dia, para que o dia seja bom, trabalho com o dia para que eu seja bom trabalhador, o sujeito que labuta, quer que o dia vinte tenha muito do que estabeleço hoje, para que hoje seja o futuro próximo que seja tão próximo que o sinta escorreito, formoso, adjetivamente sedutor.

O viés soalheiro do dia também está na sombra projetada no chão, embora o vão mostre a cara recatada, nada gemebunda nem frenética, a sombra, atiçada pelo desejo do descontrole, tem rabinho a mil.

Eita! Admita, é uma graça viver dos fogachos da paixão, do agudo de uma paixonite. Vamos! Confesse, é uma maravilha enganar-se com os lampejos da mente que pensa forte, rápido, pulsando sinapses que são um refresco, parecem ser um refresco. Ano Bom, seja refrescante. Os ventos da virada derrubem a folhinha. Ainda que o prego continue na parede, apaixone-se outra vez. Vá! Cumpra seus afazeres. Batalhe para que o dia vinte não seja nenhuma anistia pelos crimes que sempre há de cometer, uma vez que a vida é muito sem graça.

Vivo: sei onde guardo a caixa; o pessimismo estressa; sem perder o juízo com o peso, subo e desço porque o coração bate tranquilo.

Sem pensar na mulher saída do banho, ajeito a manjedoura. Sorrio, que a vaquinha espirre por causa da mirra ou do incenso. O calor pede para pegar piscina, não lareira com chaminé que é uma agulha.

E o dia tal?

Feito exército com dragão que expele gelo, o 13º virá e vai virar pó, deixando um rastro de alegrias adiadas, pois TV 65” e ar-condicionado multiplicam-se onde sobrenadam anões do orçamento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2025.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Certeza absoluta

 

Certeza absoluta

 

Mesmo eles acreditando que a gente nem questione o que falam, o fingimento faz parte da nossa defesa, porque a gente finge de maneira tão sincera que a confiança deles também fica mais convincente.

Tanto eles quanto nós ficamos convencidos que não é só a verdade que nos credibiliza como pessoas honestas. Sendo bons atores, nem precisamos duvidar do que não damos importância. A lógica é simples, o que para nós não tem importância é o que não precisa ter importância para eles.

Perde tempo quem se preocupa com o que é irrelevante.

Sou partidário do grupo que não duvida que o mundo seria um lugar menos tóxico quando o demônio parar de pintar carinha sorridente em ovo, mas o jogo fica excelente quando a disputa é vista como decisiva, aflitiva, uma batalha pela vida.

Não jogo conversa fora nem dou um dedo pra santo que não beba. De todo modo, quero vencer. Por saber o que eu quero, fico pê da vida se pressinto que a minha derrota desagradará quem antecipadamente se recusa a negociar comigo.

Saibam todos, não blefo nem blefarei à toa.

Como partícula nas engrenagens do convívio, desde que seja visto como derrotado, escolherei ser derrotado porque sei conviver segundo o que seja visto como necessário à boa convivência.

Sei, não dito as regras, quero apenas que seja respeitado a vontade de que a pessoa derrotada dê as cartas, controle os resultados, grite truco fora de hora.

O troféu erguido será lavado pelo orvalho, que a noite virá, e haverá sereno. E a pessoa serena, aquela que parece ser mesmo uma pessoa que solta os gatos só quando é urgente que o telhado seja ocupado, a pessoa é o troféu que a faz ver-se imbatível.

Para que não haja equívoco nem seja invocado algum engano, sim, sereno não é garoa, garoa não é chuvisqueiro nem chuvisqueiro não é chuva.

Quando chove, melhor ficar na cama, contando os dias para o Ano Novo, contando que o pagamento do salário sairá ainda que o trabalho nem tenha sido feito.

É bom que o juízo saiba o seu lugar.

No telhado, a pessoa sente que a cama é o melhor lugar para ficar sem que os outros a chamem bobalhona.

Quando chove, sendo noite, o sereno cai junto com o aguaceiro. A pessoa que não mija na cama vai ao telhado e mija lá de cima, porque precisa que haja boca que engula o mijo achando que é chuva.

A objetividade universaliza o prêmio?

Ganhemos todos. Vençamos. Que nossa alma ressentida seja uma só. Que não se cubra a careca com peruca cafona. Sejamos realistas: a mulher de César não é César vestido como a mulher de César.

Vestindo-me de César a vestir-se de César, não escondo que odeio os dias de chuva porque odeio chuva. Para que o ódio fortaleça, confio que chova o dia inteiro.

Chova, chova, chova.

Não questiono: meu ódio bombardeia as nuvens. Ainda que chova no molhado, de coturno bem amarrado, vou chapinhar as poças porque dá um prazer danado chapinhá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2025.


domingo, 7 de dezembro de 2025

Bolo à vista

 

Bolo à vista

 

Não tenho essa rotina de receber, nem que fosse uma vez por mês, quem me faça trabalhar de graça, porque nunca abro minha casa para gente que precise entrevistar-me.

Se abrisse a porta a estudantes, viriam a mãe, a tia ou a prima mais saidinha, todas precisando daquela selfie que as redes curtem, pois, já que também fui estudante, quem pede entrevista tem família.

Tenho família, por óbvio. Também é certo que tenho amigos. E tem sábado que cedo a tarde a quem não precisa vir.

Sentamo-nos e comemos o que engorda e bebemos o que faz mal e desejamos que isso se repita sempre que a vontade de fazer mal for mais intensa que a razão para evitarmos.

É o que faço. Não me evito. Não amordaço o desejo. Telefono aos amigos. Peço que venham. E quero que contem o que fizeram de bom na semana. Quero que venham futricar o que nossos inimigos fizeram por aí. Tragam a língua afiada que nos alegra, pois os nossos espíritos têm alma potente, na firmeza de pôr orelhas para queimar.

Por que faço isso? Pra que certas pessoas me felicitem quando me encontrarem depois de eu ter postado fotos com gente se esbaldando, gente comendo sem miséria, gente bebendo sem miséria alguma, com todo esse mundaréu de gente à mesa, miserável e justamente à mesa da minha cozinha?

É claro que sim!

Sem dúvida, tenho essa bondade entranhada nas vísceras, pois eu jamais censuraria quem me desaprova pela iniciativa de receber quem convido à mesa de casa.

Por que afasto quem se ofereça a sentar-se comigo?

Sou um sujeito miúdo, magricela, fraquinho fraquinho, e isso implica que o meu colo é vidro para uma bunda grandalhona.

Nesta visão estética, pulga que seduz um elefante tem mesmo que se estilhaçar em mil cacos.

Não suavizo, não me ofereço para ser a pulga nesta história, porque entendo que toda pessoa cujo ego é sustentado por tromba, presas de marfim e quatro toras maciças tem mais que ser evitada.

A minha orelha queime? Eu seja bloqueado? Não me chamem para churrasco em dia de jogo, pizza pela pizza e ganhar gravata no amigo oculto? Prefiro pagar o preço que houver de pagar?

Vou atrás de bolo. Alegremente, pagarei. Para poder pagá-los sem usar cartão de crédito, confiro o quanto tenho na carteira. Quero pagar pelos bolos, o de chocolate e o de laranja.

Esquecido de pulga e elefante, a caminho dos sabores que fazem salivar, vou indo, vou salivando por chocolate e laranja?

Pela rua, eu vou.

Vou sem parar, até que passo em frente de outra loja qualquer, pois, embora sentado em uma poltrona confortável, bem visível por estar no meio da entrada, o homem que veste a roupa vermelha do Papai Noel, tem a barrigona do Papai Noel e ostenta a barba alvíssima do Papai Noel perde feio pro Papai Noel que, escondidinho no canto por precisar da luz elétrica, a contagiar quem para pra vê-lo tocar sax, é formiguinha eleita pelo espírito verdadeiro da época.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2025.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Torvelinho

 

Torvelinho

 

Lá pelas tantas, percebi o alarme, uma vez que a frase interrompida tornava o silêncio uma pedra no caminho.

Topei a topada? Tropecei.

Me vi calculando e não fugi ao cálculo. Foi melancólico concluir que haviam se passado cinco minutos desde que a caneta e a folha jaziam intocadas sobre a escrivaninha.

Já eram 7h33 e eram 7h27 quando minha atenção foi desviada do texto para os dígitos do relógio.

Não se precipite que eu tenha errado na conta. Não errei, nada. Por força interior, arredondei a hora.

Como nem pego o troco quando querem entregar moedinhas, sou de dispensar os segundos.

Acolho sua desconfiança, peço-lhe, contudo, a vênia de colocar-se no meu lugar. Seja paciente, sei que sou um pateta por nem agir direito. Mas, sei também que o Brasil anda ardendo uma febre que não passa, portanto, desconfio de mim quando não me fio no que possa fazer.

Lá pelas tantas, a folha piscou. Já que piscou, pisquei de volta, pois não quis entregar os pontos, já que eu não iria temer o abismo de uma frase por terminar.

Sem me tomar por um cara corajoso, fui lá fora. Sentei na varanda. Balancei na rede. Vi as abelhas voejando entre as lavandas, e gostei. Ainda que o trabalho continuasse por fazer, fui ficando.

Subitamente, veio uma borboleta. E veio outra. E surgiram outras, outras, tantas. E elas eram leves, envolventes, e gostei de percebê-las calmantes.

Foi tão bom tomar-me envolvido, senti-me no meio de um torvelinho que serenava. Sem ter consciência dessa necessidade, a mansuetude produziu um refrigério, algo inebriante.

Por embriagante, não me ocorreu o escândalo de comparar aquelas asas com as pás de um ventilador, porque a mecânica das borboletas nada tinha de artificial.

Com centenas de borboletas voejando ao meu redor, embasbaquei. No súbito do momento, eu era o eixo que não rodava.

Seu Rodrigues, que eixo?

Eu acho que foi na série O Poder do Mito, que a TV Cultura passou nos anos 80, que Joseph Campbell disse que a roda da fortuna gira e, assim, tem vez que a pessoa está no alto e tem vez que está na parte baixa, mas, ele ressaltou, o eixo permanece imóvel.

Quando a pessoa se identifica como o eixo da roda, sua imobilidade possibilita a percepção de estar bem, e imperturbável.

Embora a carroça vá pelo mundo, embora a pessoa siga imersa nas contingências da vida, há a epifania: vivencia-se a eternidade.

E não a confundo com o sem-fim dos dias, já que eterno não é coisa infindável. E não a digo felicidade, pois tal serenidade é plenitude.

No jardim de casa, com centenas de borboletas drapejantes ao meu redor, não flutuei um milímetro e não gozei incontinenti, pois o que veio foi uma sensação nunca sentida, algo catártico.

O apogeu daquela circunstância materializou-se no sorriso. Deu-se que sorri tão logo a cachola fez-me sentir que a palavra mais bonita da língua portuguesa é panapaná.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de dezembro de 2025.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Anedota nietzscheana

 

Anedota nietzscheana

 

Antes eu não tivesse feito a barba, não estaria menos indefeso na figura de cachorro louco que espuma por nada, estaria irreconhecível, seria um buldogue que late, que, por medo de cara feia, rosna que nem bichão de sete cabeças.

Quando barbudo, raríssimos me encaram, pois solto meus dragões sem pestanejar. Babando por qualquer piscadelinha, que isso não me exime de apavorá-los.

Como não tenho o embuste da barba postiça, não dispenso fones. Exibindo o meu bumbum de bebê, estou outra vez tentando ouvir Bob Dylan. Benditos fones que não afasta ninguém, e vem gente perguntar se o que ouço é a novíssima antologia dos Beatles.

Pessoinhas simpáticas, não lhes digo que a frustração, minha velha companheira quando se trata de enquadrar o Dylan nos fones, dá o ar da presença bem quando estou sem barba, cavanhaque fajuto, sem o rosto do Syd Barrett na camiseta.

Estou de polo; ainda por cima, a polo é vermelha.

Vim pedindo para ser esculachado, doido que o povo perca tempo, desça a pua. Querendo uma altercação achincalhante, vim dar alegria, que eu não viro fumaça, não sumo abestado que nem saci, eu não vou fazer figuração numa novela turca.

Se o pessoal não conta que vá pro cu do judas, vou porque a minha cachola tem demônios alvoroçados: os bicharocos pedem aceleração, justapondo ideias em ideias, dizendo e me desdizendo, besta ridícula; há demônios que segredam que não salivo e não escarro, afigurando-me numa persona oca, barroca, este tremendo falastrão de tentáculos apopléticos, cuja batalha pela paralisia faz espumar, já defecado.

Estou sujo, mas não aperto o passo. Ponho nos fones um Arvo Pärt que sossegue os cães que me latem dos pés à cabeça; escuto Spiegel im Spiegel, já que 1977 é um ano que nunca há de acabar tão somente porque desejam que a caravana passe.

Mente suprema, creia-me, não é pela má-fé das fezes que me faço fedido, é natural que haja decadência. Supremo algoz, elevo o volume, uma vez que esse desejo conta que a fedentina passa.

Perdoe-me pelo perdão que acredito ser mérito meu, pela lisura que meu caráter não oculta de mim que envelheci, pela honestidade que a minha índole já não tem razão de me eclipsar eternamente imberbe.

Perdão, pois não me censuro por minha luta sem folga contra a mão que segura a navalha, manipula a lâmina, sangra o porco pra consoada que há de vir quando houver de vir, porque outrora veio, brilhou no céu da pátria, luzente como cachaço, não como leitoa.

Se houver pretexto palatável como garapa, sejam analisados meus embargos, esses fogachos do fogaréu fora de época, pois não tiro São João pela Estrela de Belém. Não estou desatento, estou distraído. Que agora eu sinto, estou sentindo. Já nem sei os porquês, mas, fácil, fácil, fico iracundo, peito todo mundo que não deixe ouvir o que o meu celular tem parado no topo, o Anticristo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de dezembro de 2025.


domingo, 30 de novembro de 2025

Pé na tábua

 

Pé na tábua

 

Se te fosse concedido um tempinho, tu não bobearias, aguardarias que os carros passassem, atravessarias a rua temeroso, rezarias para que as pernas não fraquejassem, xingarias que buzinassem, entrarias na espelunca, pedirias guaraná, suarias pela federal, uma vez que, na cabeça, o milhar fora outro.

Se tu me permitisses um palpite, eu criticar-te-ia pelos dez reais da fezinha, insistiria que, gasta à toa, a grana pagaria o refri e uma esfirra, mas a federal cantada foram quatro números anômalos.

Se te desse um minutinho, entrosarias o passo, virias ao botequim, sentar-te-ias ao balcão, tomarias um suco, comerias um quibe, pedirias que o som da tevê fosse aumentado.

Se te ameigassem com a tevê, incomodar-te-ias com o cubículo de metros quadrados exorbitantes para alento de apenas um narizinho, blasfemarias a plenos pulmões, conclamarias o demônio, demandarias que te dessem uma cama de casal com lençóis novos a cada alvorada, suplicarias por uma esteira, clamarias pelo frigobar com garrafinhas de vodca e caixinhas de água de coco, e dispensarias suplicar por celular ativamente irrastreável, porque sempre é hora de cravar do primeiro ao quinto, que a federal não deixa de correr.

Se eu a ti te apoiasse, poupar-te-ia da lembrança das quinquilharias criadouras de mosquitos da dengue e dir-te-ia dos paralelos plausíveis, porque sol quadrado tem perspectiva picasseana e desjejum frugal não é trato espartano, é uma bela coisa franciscana.

Se tu fosses dado a curiosidades, dar-te-ias a oportunidade de pedir um dicionário para progredires nas cruzadinhas, ainda que isso sequer te adiantasse para abatimentos, pois a remissão de pecados nada tem que ver com horizontais, verticais e a solução na última página.

Por haveres cavado túmulos, sepultar-te-ão sem detença.

Quando mudas de assunto, isso não acarreta que tagarele sobre o sinistro em Hong Kong, felicite Woody Allen pelos 90 anos ou sinta-me abalado pela edição requintada d’A arte da sabedoria mundana.

Continuo falante. Digo que atravesso a rua sem olhar para os lados, pois motoristas são cidadãos que fazem bom uso das buzinas.

Penso que a cura para minha condição é não me pensar curado do que me põe casmurro. Sendo essa pessoa que cala a matraca quando entende de calá-la, mesmo que peças para lamentar quando lamentas, sigo avante.

Ainda que te trates na segunda pessoa porque te fias ser a minha sombra, não vou paparicá-lo.

Porque não me paparico, cruzo a rua, aguardo a minha vez de ser atendido, tomo o guaraná que peço a gentileza de servirem-me gelado, como o queijo quente que entregam num pratinho de pirex, peço outro queijo quente a ser servido no mesmo pratinho, faço moucos os meus ouvidos, pigarreio, quase engasgo de raiva, e, com o rancor sobrevindo ao ressentimento, pago que eu nem olho para trás.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2025.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Uma crônica mais otimista

 

Uma crônica mais otimista

 

Há sessenta anos a pessoa que via o mundo não o observava como o cronista que hoje o enxerga, ainda que continue a vê-lo que nem uma criança quando enjoa do presente que nem pediu de aniversário.

Embora a vida continue como festa que a gente não entende direito como não quer se desapegar, siga sendo aquele aniversário em que o bolo nunca é cortado quando as palmas já querem escapulir das mãos, há que se viver.

Quando o cronista está nauseado com a promessa jamais cumprida de que o bolo será fatiado tão logo os convidados conseguirem cantar Parabéns a Você, há que se dar um desconto, afinal há sessenta anos a mente alimenta-se de mistérios, como uma cereja de chuchu.

Haja alegria de querer, hein, manhã dourada.

Como o dia não se resume a outra manhã ensolarada, ainda que o sol de verão nem tenha subido ao céu para fazer calor de trinta e nove graus, antes do meio-dia, só ventilador com fissuras psicóticas insiste em comportar-se que nem ar-condicionado.

Haja quilowatts, hein, camiseta empapada.

O cronista larga o conforto, sai, mas deixa ligado o ar-condicionado, vai aonde acha que é a sua prioridade, que é ir refrescar-se com o que lhe forneça algum prazer, um prazerzinho momentâneo, efêmero, que, contudo, o faça assegurar-se menos ranheta.

Por excesso de suor, sente-se ranzinza.

Senta-se na sorveteria para tomar o sorvete. Sem pressa alguma, alegra-o tomá-lo. Ainda que as ideias se encadeiem sem nexo, já que os pensamentos vão se formando ao deus-dará, isso é possível porque tevê alguma soterra o cronista nos malefícios do mundo moderno.

O sorvete derrete porque os trinta e nove graus são previsíveis, não são números num mapa, tão redondinhos no Brasil da tevê.

Já que mapas não derretem, os pingos pedem que o indicador entre em ação.

Se importe com os outros. Ligue que os pingos serão contabilizados como desperdício. No entanto, não se avexe da língua, a vá passando no dedo. Passe-o na mesa e veja-se sendo visto ao lambê-lo.

Uma mulher de lenço no pescoço entra, escolhe os sabores e paga pelo peso das três bolas.

Embora Edileusa não perceba que o cronista saiba quem ela é, ele, sorrindo ao reconhecê-la, se limpa com um guardanapo.

Ainda bem que o guardanapo ajuda-o a ser discreto ao sorrir, pois o cronista acha graça de certa lembrança.

A história do homem com quem esteve casada por tantos anos não corre mais de boca em boca, pois muitos anos se passaram desde que Edileusa ficou convencida a dar-lhe o pé na bunda.

O ex-marido de Edileusa, se lhe pagam uma cachaça, conta ter tido muitas amantes, e foram tantas que nem sabe o tanto que deixara que partissem, pois era casado com uma pessoa especial.

Carrie Mathison? Lila Tournay? Clarice Starling? Marion Crane?

Que todas o tivessem tocado, tudo bem, mas, sóbrio, o espertinho só admite ter calafrios com a Julie Newmar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de novembro de 2025.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

As oito badaladas

 

As oito badaladas

 

Só depois que devolveu o copo vazio é que a senhora compreendeu a sua circunstância, que lhe era incompreensível como viera parar ali, como podia ficar sentada naquele degrau se havia tanta coisa para dar conta, se a manhã seria curta, acabaria encurtada pelo tanto de tarefas que tinha de dar cabo antes de almoçar, antes de poder preocupar-se com o almoço, a refeição que somente ela teria de preparar.

ꟷ Gente, cadê o meu celular?

Recebendo a atenção de mulheres que nem conhecia, ignorante do que lhe deram para tomar, ela verificou se os grampos ainda domavam os fios de cabelo, aqueles cuja ambição era bailarem, já que se faziam ao vento ainda que o ar conhecesse a estagnação do mormaço.

ꟷ E meu celular, cadê?

Quando os sinos badalaram, a mulher transfigurou-se. O seu corpo passou a tremer. A sua boca soltou gemidos. Os seus olhos reviravam nas órbitas. Viu-se naquele súbito muito esquisito. Tanto se lhe deu um mal-estar profundo que ela perdeu os sentidos.

Assim que bateu a oitava badalada, a senhora abriu os olhos. Havia mulheres a lhe perguntarem se estava bem. Uma delas segurava a sua mão, afagava-a, acarinhava-a. Ela e as outras, todas queriam saber se realmente estava bem, se de fato melhorara.

ꟷ Gente, cadê meu celular?

Tinha um homem, o que lhe entregou um copo d’água. Mas a água dada nem tinha açúcar. Disseram que precisava beber tudo. O homem e as mulheres pediram, insistiram, que bebesse devagar, isso lhe faria bem. Desde que bebesse tudo, seria isso que a deixaria melhor.

Ela sabia que roupa era aquela. Mesmo a constrangê-lo, o encarou. Ela sabia que o policial não era nenhum bombeiro.

ꟷ E o meu celular, cadê?

Os sinos pararam, ela voltou a si. Mas voltara para achar-se àquela escadaria? Revelar-se àquela porta? Dar-se àqueles vitrais?

Certamente, sabia onde estava. Notou que acordara ao pé da igreja que abandonara. E o que a ressabiava era localizar-se. Já que naquele lugar a sua presença a incomodava. Estava justamente diante daquela igreja, daquela a que deixara de recorrer, dessa que passou a não mais se sujeitar.

Pelo conhecimento de que o que ali era dito como sendo a Palavra, a senhora sabia que era a Palavra dita de outro modo, filtrada, era outra coisa. Ali a coisa enganava, seduzia e punha na vereda do engano, do erro, do passo dado, da passada no desencaminhamento, da perda do rumo da verdade.

E a Verdade era uma, e bem distante do que conhecera ali, naquela construção erguida em louvor de quem a construiu.

Ela soube que estava longe de casa, pois morava longe. Ela soube que teria de dar uma pernada de uma hora, porque vivia longe dali. Ela ficava protegida, distante de quem a enganava com um copo que nem tinha açúcar, com uma água que nem sabia como deixá-la bem.

Ao fim da mesmíssima oitava badalada?

ꟷ Dona, celular achado na praça, caído, não tem dono, não.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de novembro de 2025.

domingo, 23 de novembro de 2025

Chapéu, chaleira, caneta

 

Chapéu, chaleira, caneta

 

Ganhei o sábado porque não dei confiança à rebeldia. Sem nenhum cansaço, deitei-me no sofá e liguei o televisor. Se topasse minerar uma motivação para fazê-lo, digo que a preguiça estava no ar. Uma vez que só consigo prender a respiração por dois ou três minutos, fui direto ao canal de esportes. Por afirmar meu amor por mim, fui-me sossegando. Assim largado, assim enlevado, assim suspenso numa estupidez nada patética, eu, cativo, fui o mané que veio tomar conta de mim.

Não fosse esse zé ruela, o menino que me ampara quando o mundo é o campo um instante antes de soarem as trombetas, a minha carcaça azedaria a sopa, o fastio de ir no banho-maria do sábado desandaria a alma, e as minhas carnes, tanto as duras quanto as moles, estorvariam o trânsito das energias anímicas que pelejam a causa justa, que é pôr sincronizados a boca e a vontade de comer.

O parvo atina que há feijão que não acarrete em feijoada?

O parvo saliva.

É óbvio, eu tinha outros apetites. Queria que o evento fosse bom de ser assistido. Torcia pelo jogo bem jogado. Nutria a expectativa de que a realidade desse razão para ficar agradecido pelo espetáculo.

Saiu um gol. Voltei para vê-lo. Para acompanhar a jogada desde o momento em que foi criada, voltei um pouco mais. Para ver o lance de efeito, comentado já o gol assinalado, fui pulando até chegar ao ponto e regalou-me o que vi: o craque deu um chapéu no marcador e o passe foi certeiro e acertado, tanto que o artilheiro confirmou-se em boa fase, com o gol.

Pus no banco o idiota, sentei-me. E a partida melhorou porque a vi com outros olhos. Mais interessado no que via, no que realmente podia ver, então, o jogo entretinha, divertia, dava gosto de acompanhá-lo.

Já que a TV fez esse bem, que o fizesse de novo.

Após o almoço, tirei a pestana que o meu esqueleto aguardava que tirasse. Uma vez que me sentia realmente revigorado, gostei muito de tê-la tirado.

Como havia imaginado que faria, e sem ficar enrolando ou achando de ficar aborrecido pelas chamas do mundo, voltei à tevê e pus no jogo que me parecia ser o mais legal de ser visto, porque se enfrentariam o atual campeão e o time motivado pelas vitórias seguidas.

Batata!

No gol mais vistoso, o atacante trouxe a bola para perto de si com uma chaleira e, com outra chaleira, desmontou a defesa armada pelo goleiro.

Confiante de que não cochilaria, mesmo que houvesse acabado de tomar café da tarde, novamente sentado, pus no canal ao qual quis ser fiel o sábado todo.

Em jogo truncado, tudo era motivo para reclamações. Os jogadores não aliviavam nas divididas. O árbitro viu-se forçado a agir feito juiz, e amarelos e mais amarelos foram dados.

O jogo bruto foi vencido quando o cérebro criativo em campo fez o que se espera: o beque adversário caiu de bunda dentro da área, pois, com uma caneta pro gol da vitória, o camisa dez foi mesmo dez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2025.