terça-feira, 11 de novembro de 2025

Ananias

 

Ananias

 

Que me deu uma vontade de comer cachorro-quente, rapaz, que o melhor para mim é pensar no aquecimento global. Com duas salsichas, ketchup e mostarda, assim eu não salivo pelo fruto vexatório. Concordo que o desespero por comida e a morte dos ursos polares tiram mais o sono que um cachorro-quente com duas salsichas, ketchup, mostarda. Ursos polares morrendo de fome, entretanto, não comem salsicha com o prazer explicitamente indecoroso do meu gato.

Faz dezessete anos que o meu gato sumiu. Foi o meu primeiro, cujo nome era Félix, e eu não estava preparado para conservá-lo em casa. Ao cabo de uma semana, quando o telhado tinha uma orquestra a miar uma versão, polifônica e promíscua, de Cio da Terra, o meu bichaninho escafedeu-se.

Lembrei desse sumiço, pois, noutra noite aí, o marido de uma amiga saiu querendo uma gaita e, já fazendo três anos quase inteiros, quede que o musicista não veio para sapecar aquele Brasileirinho duca.

Quede que volte? Quede que mie? Os catitos, cadê?

Jogando no liquidificador, noves fora, bem se toque em se lambuzar de mel e bem se abunde na baba o quanto gostei, dancei, pulei, viciei, pois bem se faça o bem que se peça, tendo pão e chorinho como chão de cada dia.

E a minha amiga se livrou do gato, dando-me. Por quê? Ela ganhou do gaitista farrista, aquele fio de uma égua.

Rapaz, não me corrija. Sei fazer conta. É que às vezes falo de modo a confundir. Mas eu não me atrapalho com as confusões que eu causo, pois faz parte da pessoa de personalidade como a minha.

Não abuse de mim, abusado, pois não estou determinado a abusar da boa-vontade. Só confundo um tanto. Em vez dos dezessete, cinco? Ou cinco pelos dezessete? E o Félix continua sumido, né?

Rapaz, isso importa? Tem mesmo que bater pau?

Nem os ursos polares nem os marimbondos ligam para mim quando levanto a cortina para mostrar as conexões.

Os marimbondos? Francamente, que ignorância.

Tem aquela música do Ataulfo, que a gente assobia, que laranja na beira da estrada, a laranja madura, tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé.

Me faz este favor, rapaz? Você permite que eu conte da vez em que o Ananias foi censurado pelos três pontinhos no cheque? Quer saber por que o advogado exigiu que não assinasse com o frufru?

O Ananias é desses que aprendem uma besteira e sai imitando, sai copiando como se fosse moda a ser replicada de pronto.

O que teve de ouvir é que o advogado era integrante de um grupo seleto, com responsabilidades inalienáveis para com a comunidade, e que os três pontos apontavam quem era da fraternidade, quem estava incluído no elenco de gente ética da cidade.

Por que, respeitando a ordem de não fazer mais aquilo, ao despedir-se, bati três vezes com o indicador no antebraço do conselheiro?

Não há improviso com força bastante que silencie, despiste, apague ou desminta o que o óbvio ulula, que o Ananias é onanista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de novembro de 2025.

domingo, 9 de novembro de 2025

O ar da sua graça

 

O ar da sua graça

 

Para dar momento ao modorrento, tem-se o início.

Olho pela janela. Bebo um gole. Há um cão latindo. Bebo outro gole. Um mendigo brinca com o vira-lata. No entanto, o suco acaba. Encho o copo outra vez. Volto à janela. Vejo, novamente, o cão e o camarada. Noto-os, que reprimem jactâncias, praticam errâncias, estão ignorando ganâncias. Percebo que ajam assim, porque sou eu que os conjecturo capazes de serem assim.

Supondo. Bebericando. Todavia, não há copo que permaneça cheio o quanto se queira; o meu esvazia de repente, mas não praguejo.

Tem mais suco, porque fui eu que espremi as laranjas. E trouxe-as há pouco. Pelas laranjas, fui ao supermercado. Sob chuva e vento, fui somente por elas, e trouxe logo uma dúzia.

A cada vez que faço laranjada, sempre espremo uma dúzia. Como gosto de beber devagar, sem nenhum mal-estar, bebo tudo. Quando a fruta tem sumo abundante, bebo mais que um litro. Bebo tudinho, sem que reste uma gota sequer, pois tomo este tempo para mim.

Assim como não gosto de laranjada adoçada, seja por mel, seja por açúcar, por nenhum deles, ou mascavo ou demerara, sei, sim, senhor, que não é domingo que é dia de laranjada, todo dia é.

Com o fim do introito, vai, passado no mercado, o entrecho.

Disse bom-dia à moça que pesa frutas e legumes. Tornei a dizer o meu bom-dia. Por ignorado, temperou-me uma pitadinha de mal-estar, já aquele bom-dia de gente educada encruando-me.

Tenho esta índole, de ficar achando que o culpado de tudo sempre sou eu. Ou melhor, sendo fiel à realidade, alimento-me deste espírito, que a mim me dou carne e dores quando me sinto desarticulado pelas indiferenças do mundo. Ou seja, quando as pessoas demonstram que estou a entediá-las, e não o contrário, somatizo este tédio.

Aborrecido com a falta de modos da funcionária da balança, eu sou abalroado. Sem afetar estoicismo, acuso o impacto: ai!

Mesmo massageando a canela, a minha dor, todavia, não chega ao moço que empurra o carrinho.

Assim como àquela moça o meu bom-dia não existiu, ao funcionário de reposição de frutas e legumes meu ai! não despertou simpatia, nem sequer a preocupação dada às caixas de uvas.

Para que o rapaz manobrasse o carro carregado de caixas sem que a minha perna ajudasse a orientá-lo, abri caminho. Em vão que a minha boa ação tivesse reconhecimento, o sujeito seguiu que nem me viu.

Com isso posto, que comece logo o epílogo.

Como continuo sendo o tipo de pessoa que não voa nem cheirando pó de pirlimpimpim, fico à janela. Embora nem me ensandeça o desejo de ser visto por um dos camaradas, seja o cachorro, seja o cara, bebo a laranjada. É forçosamente sem pressa que a bebo.

Sem irritar quem seja, passo a língua nos lábios. Nem pigarreando nem me lambendo, este troço intragável seguirá impotável.

Que moral tem tal croniqueta?

Só o pícaro faz laranjada com as duas dúzias de limões.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2025.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O domingo do mundo

 

O domingo do mundo

 

Valha sempre a intenção, pois o bem-intencionado dá propósito ao desejo de persistir, e ele persiste porque tem em mente que o paraíso alberga quem dobra as cobertas, ajeita os lençóis, e reclama, que lhe entreguem uma colcha, sendo sábado.

Valha ser um sujeito bem-intencionado, não outro cara desejoso de entrar no refeitório, recusar café no leite, sentar-se onde queira e negar conversa com gente que diga, pela eternidade inteirinha, tão somente a verdade, que sempre há de ser domingo, sendo sábado.

Valha ter conhecimento da situação, a zanzar, fingindo zanzar, indo atrás de quem lhe fale a versão mais verídica, não indo atrás de gente que lhe aponte qual o caminho da modéstia.

Valha autoelogiar-se, pois, sendo pessoa modesta e paciente, não se deve deixar a cama desarrumada, até porque o inferno tem lugar de sobra a quem jura que não jura, nem em vão, porque o inferno acolhe, até, cobra que vive se comendo pelo próprio rabo.

Valha ser como aquele cara que não sorri à toa, só quando entende o subentendido do que está dito, porque um camarada sério, sobre rir à toa ou pirar que joguem café no leite, é boa-praça, é sujeito que troca de pele por conhecer o público que tem, é cara que aplaude a plateia que se diverte a ouvi-lo e alegra-se que o vejam como precisa ser visto, o justo que guarda sábados, não o domingo.

Valha ser, pobre-diabo de autêntico comedimento, cobra criada que precisa de nova pele a cada vez que precisa renovar-se, já, e sempre, em pele nova.

Valha por responsabilizar-se pela cama, já bêbado de si, feito gente que pensa que é, ainda que nem saiba que dia é, o entusiasmado que arde por mais outros sábados, porque lhe basta seguir sendo quem é, a pessoa, tão somente, que ele pensa que lhe seja permitido ser.

Depois de tomar umas, ele se aborrece que o tratem feito figurante. Com tantas verdades para dizer, ficar ao fundo? Que falta de simpatia. Mas, boa gente a ouvi-lo quando fala sem constrangimentos, é sensato distribuir perdões. Com uma história riquíssima, calamitoso é deixá-lo a dois passos do banheiro. Depois vão dizer que vira todas, resmunga demais, é o chato que não dá folga, quando o sábado é para gozar das boas coisas do mundo.

Mas, o mundo tem que saber o quanto está radiante. Tal qual o sol que não tem concorrente, brilhando feliz, despejando nas pessoas sua luz alvissareira, já que o sol é amor, ele quer irradiar o amor.

Com tanto amor, ele sabe que o paraíso está dentro de cada pessoa e, destemido, ele fala sobre arrumar a cama antes de sentar-se para o copo de leite, e tomá-lo sem pressa.

É preciso amar, ser o sol àquele bar.

Ele compartilha a razão para ter mudado de cargo. A mudança torna patente a verdade: com salário maior, a pessoa tem mais inteligência. E todo mundo de inteligência superior merece perceber o tanto que as suas preces estão atendidas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de novembro de 2025.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Girassol descalço

 

Girassol descalço

 

Num átimo, percebo. Estou alterado. Sem que tenha controle sobre o que sinto, passo, de repente, a me sentir diferente. Me acho, que sim, porque busco respostas que não sejam as sabidas. Quero precisão na procura. É para encontrar-me nas repostas que sejam outras que, num átimo, quero achar o que nunca tenha procurado.

Em vão, o universo não faz noite o dia, não faz do vinagre um vinho fino, nem me faz perceber que faço o que nunca tenha feito.

Como acho o que faço, vejo-me na rua.

Estou a caminho, devo pagar contas. Contudo, devo ter saído muito cedo de casa, porque as lojas estão fechadas. Sei aonde vou, preciso ir, pois, embora a agência nem esteja aberta, vou pagar boletos.

Nem preciso calcular, nem sei das horas, sei que voltarei mais cedo que o costumeiro. Mesmo indo sob chuva, temendo escorregar, sei que ficarei na varanda. Dar-me-ei este tempo, a escutar a chuva.

Na caminhada, vou que nem preciso por onde me levo. Pensando, sentindo, achando que me levo a agir como outra pessoa a me orientar. Eu vá porque tenho deveres, que eles não são de mais ninguém.

Sim, eu sei, eu sinto, eu percebo: estou outro porque me sinto outro; embora seja ilusão, há esse poder, que eu posso ser outro.

Por algum mistério que não calculo o quão poderoso ele possa ser, a chuva me ilumina, me faz ver um vira-lata.

Não faço nada e, mesmo assim, o cachorrinho abana o rabo. Ainda assim, o bichinho quer vir comigo.

Cãozinho, esqueça, vá por aí, siga seu caminho. Entenda-me, não aprovo isso de irmos juntos por aí.

Mesmo que o universo oriente-me a suspirar pelas coisinhas à toa do mundo, bato o pé, toco o cão, não quero nenhuma sombra que nem pedi. Dispenso suas pulgas, já me coço do que nem sei o que seja.

Ainda que nem me entenda, vai-se o cão.

De súbito, faço que não aperreio. Enjoei de tomar chuva.

Tenho tais súbitos, que me quero mais centrado no que faço. Busco a concentração. Na agência fechada, em segurança, tiro o celular do bolso e pago os boletos. Não reclamo de ter entrado cedo, muito cedo, num horário em que nem os caixas eletrônicos funcionam.

Opero mal quando chove?

Parto-me pelo meio: à direita, sou o urso a usar do monociclo para arranjar trutas que o alimentem, sim, as palmas são o que preciso para me exibir; à esquerda, sem ferroar quem exare fel, acho-me adocicado, mel a querer mel, cordato, sou abelha a visitar lavandas.

Partido ao meio, cachorrinho, lembro-me.

À direita e à esquerda, opto. Quero ser adotado por aquele cão. O urso e a abelha, carrego-os pela rua. Por isso, vamos achá-lo, cão que abana o rabo. Como pulga a atormentá-lo, porque chove, cão que late sem parar, vou ladrar até que me apareça.

Venha, cachorrinho, pois, embora meio zureta pelo tanto de chuva, minha cachola é girassol descalço de petulâncias. Vira-lata, venha latir onde tênis não envelhecem, venha latir no meu peito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de novembro de 2025.

domingo, 2 de novembro de 2025

Gentilezas de amigo

 

Gentilezas de amigo

 

Mostrando as sacolinhas que trouxe pro churrasco, a pessoa, certa de estar certa, dá uma latinha que nem tenho o trabalho de abrir. Pego-a aberta por estar aberto à gentileza. Embora o gentil me seja estranho, pego e beberico. Beberico-a, pois a cerveja não está morna.

Estranho a afetação, tão simpático. Por não conseguir engolir mais um gole, o maxilar relaxa e eu babo. Tem também a afobação, que ele não me deixa engolir a cerveja porque, já sufocando no bodum, o peito do cara comprime meu nariz e o meu queixo trava.

Sendo abraçado com tanta generosidade, ele diz que o Amintas vai chegar depois do almoço porque a mãe dele não gosta nada que o filho falte à macarronada.

É sim, o cara das latinhas fede, tem necessidade de demonstrar-se afetuoso, exibe-se másculo e gosta de uma fofoquinha.

Acha que me informa?

O que já sei não é novidade. E não havendo nada de novo, também me exibo, que eu também adoro fofocar, desde que me deixem respirar e apreciar o gole que tenho na boca.

Ao cara das latinhas, por pirraça, não digo que, ontem, o meu amigo Amintas telefonou-me para avisar que chegaria depois de almoçar na casa da mãe dele, porque ela não gosta nada que um filho seu decida-se por faltar à macarronada da família.

O amigo do Amintas não se acanha, vai entrando. Porque não gosta que bebam cerveja quente, vai pela casa adentro, já perguntando onde fica a geladeira. Por eu ser bom anfitrião, e sensato, na certa iria querer tomar e iria querer oferecer uma gelada aos meus convidados.

Se assim o permita, é claro. Assim o permito, é claro. E que ele faça o que parece disposto a fazer, já o fazendo, já enchendo o freezer, já pegando duas latinhas, sendo uma para mim, é claro.

O que a mim me parece claríssimo, muitíssimo óbvio, é que não sei quem ele é. Assim, amigo do Amintas, nem acho de hesitar, pois devo acompanhá-lo. Vou com você, pois eu o conheço pelo modo como age, que você é gente que não dispensa nenhuma latinha.

Melhor vigiá-lo sem discrição, pois ser amigo de um amigo meu não implica que haja o que contestar. Até porque o freezer reabastecido diz que lhe devo gratidão, sem me achar certo da sua linhagem. Pois você mostrar-se amigo do amigo, ainda que o traia a fala mais gentil do que a mais gentil dos amigos, é uma baita bajulação.

O amigo do Amintas bajular-me dentro da minha casa é o jeito mais simpático de alguém, que não é familiar nem íntimo, convencer de que é de bom-tom sondar o Amintas.

O amigo do Amintas, sem pressão, portanto gentil e simpático, pede que o deixe procurar onde o sinal esteja mais forte.

Como deixo que use o celular na calçada, já que destravo o portão, o danado do meu telefone vai junto com o amigo do Amintas.

ꟷ Ainda bem que tenho mais aparelhos, Amintas.

O amigo também lhe é estranho, pois ele não conhece ninguém que tenha lágrimas tatuadas caindo de nenhum olho esquerdo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2025.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Uma dupla muito engraçada

 

Uma dupla muito engraçada

 

Como ninguém nos apresentou, simpatizamo-nos de imediato. Sem lirismo boboca, sentimos que as nossas almas sorriram. Embevecidos pela revelação de que, sem outra fortuna que não a mera casualidade, o mundo havia-nos levado a este encontro, sorrimos, então.

Nem sei precisar o motivo dessa sintonia ter começado, lembro que houve essa troca de sorrisos. Esqueci o assunto que nos fez comentá-lo, mas, por pura gratuidade, achamos de sorrir.

O que apraz rememorar é que uma palavra, uma qualquer, uma das tantas que dizíamos, uma que nem revelasse a nossa perspicácia, por corriqueira que fosse, foi palavrinha bastante para que sorríssemos.

Por recordar-nos a sorrir, não houve engano, saboreávamos a tolice que diríamos sem que nos escandalizássemos de tê-la dito.

Por dizer tal idiotice inocente, com a legítima carinha de idiotas, se nos percebêssemos pacóvios, nós garbalharíamos.

Garbosos, mas sem nos moldarmos pela temperança de gente que se emperiquita arguta, um ao outro afetávamos espontâneos, sorrindo, a havermo-nos dessa amizade bonançosa, menos volátil.

Éramos sólidos. Éramos os dentes que exibíamos ao sorrir. Éramos a graça de usarmos o sorriso como ponte.

Ainda que o mundo fosse hostil e terrificante, nós, já seduzidos pela simpatia, íamos e voltávamos, brincávamos, sentíamos que houvesse um rio a correr pelos nossos dentes.

O que agora eu sinto não me devolve ao presente, porque debaixo daquela espontaneidade sorridente corria um abismo.

Fujamos do exagero! Corrijamos! Busquemos a sensatez!

Digamos que, ao dar pela circunstância que camufla o gatilho, já o sorriso não sendo colete nem boia, é plausível sentir o gelo a seduzir-nos que andássemos sobre a película.

Ponderássemos! Refletíssemos! Exagerássemos!

Sendo do jeito que a memória se desvela, espantoso é pensar que a nossa gargalhada não pudesse soar agravante, ou energúmena, sem que déssemos com o gelo a trincar, abrir fissura, dar aos outros, já nos havendo dessa bucólica camaradagem, que éramos nós o abismo.

Como éramos autênticos, cochicharíamos a quem se dispusesse a escutar-nos: abismos sorriem.

Acreditávamos que a realidade sempre há de ser como é, portanto, éramos como poderíamos ser: sorrisos, dentes, não o fato de estarmos embriagados, bastante alterados para não vomitar depois de levar tapa ou tomar um safanão.

Bebíamos, porque tínhamos motivos para beber. Achávamos pelo que brindar. Abraçávamo-nos, porque sabíamos como viver pode ser muito divertido. Não iríamos minimizar que a minha esposa tinha sido a dele e que a esposa dele tinha sido a minha.

E daí que deixaram de falar uma com a outra?

Nós bebíamos.

E daí que se engalfinhavam quando se esbarravam?

Nós nos abraçávamos.

E daí que elas estavam grávidas do consorte anterior?

Nós gargalhávamos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de outubro de 2025.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O escracho das coisas

 

O escracho das coisas

 

Embora não creia que existam, as coincidências existem.

E sobre isso, sobre essa força do invisível a recauchutar-se por obra da sutileza das pessoas, não sei muito o que dizer.

O pouco que posso dizer é que me fio nos relatos de terceiros, pois estes não se vexam do que dizem ou, uma vez vexados, anseiam ficar sem puxão de orelha quando adicionam algum detalhe, porquanto isso, tal contribuiçãozinha que, vividamente, tomam por graciosa, é o que os agita, e alegra.

Agirei feito terceiro ao excluir-me do que conto? Porque me afianço imparcial, saber-me-ei imbuído da alegria terçã?

Alegramo-nos a toda vez que condimentamos, a nosso gosto, o que poderia ser narrado com isenção. Ainda que saibamos que poderíamos atuar com parcimoniosa exoneração, o ego da gente esbalda-se ao ver a cara de quem a nós nos assiste.

É pela conquista de atenção que a nossa pessoa se envaidece. Ela, então, põe-nos a contar do jeito que nos paparique. Assim, ela é quem domina, cativa e concede à audiência que usufrua dessa graça, que é a de voluntariar-se ao papel de plateia.

Aplaudido, atuo como esta pessoa envaidecida que, sabidamente, faz jus a ser aclamada pelo público, devera entusiasmado.

Espio da coxia; e vem-me à mente o Mario Quintana, porque estas gentes, que não esperam que eu abandone o palco, são macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios.

O que vem a ser tal palco? É jaula a abrigar-me? Cultivo as bananas que atiro quando as compreendo no ponto? Rendo-me aos aplausos que me mantêm trancafiado, embora a chave esteja na porta?

Desapego-me do silêncio, Quintana, pois a coxia tem o espelho que ajuda a maquiar-me, já velha prostituta, já fazendo trottoir.

Maquiado, feito cronista que ganha a vida soltando a língua por aí, gosto que as palavras lambam-me, arrepia-me o frêmito de quem sente o meu sopro, assobio um improviso, bailo em improviso, pois o mundo é um ipê, é guaru, é brisa que lambe o barro a lapidá-lo diamante.

E quero o pó de arroz, o batom e a sombra que me ganham à vida, ao balé da vida, ao esplendor que é da vida.

Observo-me pelos reflexos. Quero-me fora da caverna, zanzando a esmo. O espelho volta-me ao que escrevinho. Percebo-me observado pelas palavras. Topo o jogo, que os reflexos brinquem comigo. Desde o fim até o começo, jogo-me, retorno ao escrevinhado.

Como se antes da letra inicial o mundo, a vida e a flor da esbórnia no rosto não fossem mais que um tique, a máscara toma assento, faz-me rir de ser rei.

Uma vez que não duvido da crônica, entrego-me ao bailado que as palavras dão a ver que as bailo.

Rejubile-se, máquina do mundo, pois você governa e desgoverna, torna o cético um bobo, a tagarelar, já o espetáculo montado, já o palco iluminado.

A crônica, máquina do mundo, suporta-se à espera da especulação, ainda que eu seja rei, Quintana, nunca fui um, Quintana.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de outubro de 2025.

domingo, 26 de outubro de 2025

Queimando devagar

 

Queimando devagar

 

Vem vindo uma moça. Bem vejo que ela fala ao telefone, nem assim atravesso para o lado de lá. Fico na minha, que ela passe por mim sem que eu me atreva a desviar os olhos.

Apesar de temer que a moça possa passar para o lado de lá, nada me demove de ignorá-la, pois ela segue vindo, vem falando ao celular, vem porque precisa vir, pois está indo trabalhar.

Não paro de pensar que eu possa conhecê-la. Por conhecê-la, terei de cumprimentá-la. Penso, sem titubear, que cabe a mim ser educado, portanto eu serei e dir-lhe-ei: bom-dia!

Ao notar-se observada, embora meu olhar talvez a surpreenda, ela vem sem apertar o passo. Aproxima-se. Traz engruvinhada a sua boca. Mesmo contrariada, já que eu continuo a encará-la, ela não interrompe a conversa, e passa.

Ela vai em frente; eu engulo a minha boa educação.

Outra moça vem vindo. Ela também fala ao celular. Ela fica na dela, vem calma, falando baixo, sorrindo de quando em quando.

Sigo em frente. Outra vez não baixo os olhos. Talvez eu saiba quem ela é. Já que a conheço, ter-lhe-ei de dizer: bom-dia!

Ao notar que eu a observo, embora seu olhar seja de gente irritada, ela não se apressa. Embora faça bico, certamente porque não abaixo os olhos, ela continua papeando, e toca adiante.

Desta vez eu não resisto, viro-me.

Assim que me vê parado a olhá-la, ela para. Com metros entre nós, pouco temerosa de que será assaltada, ela fica onde está.

Sorrio. É só isso? Não menos do que isso, sorrio. Não vai trabalhar? Então, vá! Para o desconforto não crescer, volto a andar.

Sorrio, e por que me calha isso de ser conveniente sorrir?

Sorrio, pois vou em frente. E vou indo sem olhar para trás.

É claro! Um homem educado deve sorrir. O sorriso desarma? Pode ser que sim. Depende da mensagem que o corpo todo comunica, e não apenas a boca. Sem esperar que o desculpem, é preciso sorrir.

É óbvio! A pessoa precisa se pôr no lugar da outra para sentir o que um sorriso desencadeia. É melhor achar que o sorriso é uma coisa boa, que ele diz o quanto se é da paz.

Evidentemente, faço o que parece apropriado: quando percebo que esperam de mim que sorria, não decepciono, e sorrio.

Outra vez, vem vindo uma moça. Desta vez, entretanto, ela não fala ao telefone. Desta vez, a moça vem apressada.

Novamente, procuro-a. Quero saber o que dizem os seus olhos. De novo, renovo-me na esperança de vislumbrar o pouco que seja do que ela, provavelmente, nem perceba do quanto revela de si.

Novamente, há desconforto. Agora, todavia, o mal-estar é meu, pois a moça vem sorrindo. Percebo que vem disposta a cumprimentar.

Que estranho. Há confiança, alegria de viver o dia, uma vontade de doar a boa graça que é estar feliz.

Como é, moça? Ser encarada não a incomoda? Que fortaleza será essa para torná-la tão leve? Será que leveza encabula tanto? Sorrindo, deseja que se tenha um dia bom?

Agora, sei bem que não o terei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de outubro de 2025.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Tudo a seu tempo

 

Tudo a seu tempo

 

Entre amigos e camaradas, a conversa indo, a conversa seguindo, nada a mais, nada a menos, o papo que agrada, agrega, faz sorrir, faz rir, vêm chistes, vão anedotas, é muito harmonioso, com petroquímicas a regerem mui bem-venturosas almas, propensas ao inteligenticialismo dialógico, posto que, sempre tão infinitos até onde o olho vá alcançar, nunca haveremos de tolerar ser rebaixados a oceânicos, por sermos, evidentemente, oceano.

O problema é fazer água quando tanto se espera sermos racionais, secos por escassez de sentimentalismos e culturalmente históricos por atermo-nos ao dia, atentarmo-nos ao pão de hoje, e nos ansiarmos que os biscoitos saiam do forno agora.

Entretanto, também temos braços, as nossas mãos abrem garrafas, todavia minha boca recusa biritas, assim, por mais simpático que seja, quero-me afastado até mesmo de um copinho de cerveja.

Quanto custam 600 ml de uma pilsen?

Quando o real virou realidade, tais 600 ml valiam R$ 1,00.

Eram outros tempos. Sem dúvida, foram. Irrefutavelmente, ficamos velhos que nem bebemos. Atualmente, envelhecemos vagarosamente. Muitíssimo lentos. Embora tenhamos cinquenta reais para pão e água, andamos desacelerados, tanto somos frouxos das pernas que nossos pulmões tossem musgo, expelem hera, cobriríamos muros com o que ejetamos. Por hoje, apressaríamos regurgitar os pensamentos. Eu juro, pela água barrenta da torneira e por um real que lacre a minha boca, o meu bafo enjoativo quer ansiosamente ser somente nauseabundo.

Outrora, aos doze anos, beijei até dar câimbra na língua; aos seis, molhar os lábios com uísque, porém, embebedou-me de pronto. Assim, a saliva quente aos vinte e dois pedia chope, outro chope, ainda outro, assim a saliva soube-se a cinquenta reais, já evaporados.

Por hora, bem pior, tenho amigos a quem digo o quanto estou pior, carente de abraços, apertos de mão e beijos que façam a língua doer, ter câimbras, façam-me salivar com abundância, posto que me desejo abundantemente valoroso, já a querer-me tão valioso.

Todavia, é preciso ter valor para ser valorizado?

Ontem, depois que almocei, tão logo me estiquei no sofá, tive prazer ao ouvir o telefone, mas o que me fez melhor foi tê-lo deixado tocar.

Achei de permanecer deitado, ocioso dizer que cabia a ignorância, que me dava por satisfeito em não saber quem me ligava.

Assim, amigo, sequer pensei na realidade de uma pelada.

Camarada, aprendi a amarrar sapato quando nem sapato eu tinha, já que eu batia bola de kichute. Por me permitir sinceridade, eu achava que correr atrás da bola era jogar que nem craque.

Então, meu irmão, embora admissível passar perrengue ao amarrar kichute usando apenas uma das mãos, pergunte-se:

ꟷ Quanto custa para cunhar um real?

Antão, pergunta o anão:

ꟷ Quanto é aprimorada a memória por um real de samário?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de outubro de 2025.