Ele
vinha na minha direção. E tão logo me viu, atravessou a rua. Eu não estranhei,
porque pessoas têm opiniões e, para evitar que o oposto do que se pensa seja
incensado, amizades são rompidas.
Algo
que postei deve tê-lo ofendido, e não o criticarei por não querer papo comigo, pois
posso mesmo tê-lo contrariado, de tal forma que lhe pareço, realmente, um
adversário a ser repelido.
Ao
preservar-se insubmisso ao bom-mocismo em voga, invejo-o, já que, sem se
importar que velhos amigos o repudiem, faz décadas que ele posta comentários
que polemizam.
Sendo
a história um campo onde forças antagônicas se confrontam, muita gente acredita
que é saudável tal embate acarretar que o mundo virtual seja cristalino, ainda
que brutalmente sentido.
É
provável que ele tenha mudado de calçada por considerar-me um indivíduo inflexível,
mais um integrante do contingente dos bobos, cuja patetice impede-nos de sentir
a verdade que precisa ser percebida, ou a barbárie seguirá sendo o norte a guiar-nos,
cegos à maldade que nos segrega dos bons.
Ele
muda de calçada porque não defenderei o que é repugnante. Como não vou ajoelhar-me,
ele siga orgulhoso da sua fé. Não porei a carapuça dos condenados, só porque me
queiram enforcado. Ele sabe que não abandonarei a praça, pois faz sol, pombas arrulham
e o cheiro do pastel faz a minha barriga roncar.
Comendo
o meu pastel, nem o vi ao meu lado.
Cumprimenta.
Pergunta se sumiram as dores depois que operei da vesícula. Se estou comendo pastel,
é óbvio que não tenho mais medo de fritura, pois já não sofro com as pedras.
Depois
de ter comido um quibe e tomado um guaraná, abraçando-me, desejando que a paz
esteja comigo, vai embora.
Ele
ter vindo falar comigo faz dele um excêntrico, pois não é normal suportar alguém
feito eu, uma pessoa que não se incomoda de afrontá-lo pelo que tanto valoriza.
Eu não sou ele; ser ele daria em maluquice, pois minha vivência diz que dá pé ouvir quem vive a criticar que o canto afinado rebaixa, avilta, revela o cordeiro que o bom cantor oculta com a pele de lobo.
Fora
da alcateia, entre cordatos, a camuflar-se de errático, lunático, não será astúcia
(pueril) aclamar-se que desafina?
Já
o rapaz, ele varre ao redor do carrinho, não ignora nem os farelos e, antes que
o lixo comece a atrair moscas, ele dá um nó no saco e vai jogá-lo ali na frente,
na caçamba que fica no beco sem saída.
Quando
estou indo pegar o Beckett que encomendei, outra vez ele irrompe no meu caminho.
Por compadecer-me de quem tem pedras na vesícula, considero o que fará ꟷ bem me
saúda, passa batido ou troca de lado.
Todavia,
nem lhufas nem bulhufas.
Uma
vez que não tenho sequer habilitação para conduzir o veículo que seja, nem
trator nem ônibus nem moto elétrica, tomo uma rasteira, já que ele entra no seu
carro e vai embora, vai no fluxo, vai na mão que os automóveis têm que seguir.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 14 de outubro de 2025.