domingo, 31 de agosto de 2025

Jokenpô

 

Jokenpô

 

Late em mim um coração danado. Poderia pulsar menos apertado, que eu agradeceria. Não que me seja um aperto górdio a pedir espada que o resolva de vez, extirpando o mal, porque a faceta demoníaca me apimenta e dela, dessa carranca que diz o meu nome a dizer-me outro, não me quedo livre nem que eu me mascare libertado, portanto livre.

Libertação é ato, é praticar a liberdade, mas a morte não liberta, ela mata, extingue, finaliza; sim e finalmente, a morte é arrematadora.

Arrematar não é ver-se livre, é não mais ver-se excluído, não é mais situar-se à margem por vontade, é não mais posicionar-se à parte em prol das partes marginalizadas pelas vontades de terceiros, não é mais voltar o espelho às faces que manipulam os fins manejando os punhos, até porque é um negocinho satânico de ruim tratar a morte como sendo outra coisa, como se arrematação fosse o toque final, dando ao fetiche o papel de sacada esplêndida, maravilhosa, divina.

Tudo bem, admito latir em mim um chihuahua bem zureta, um bicho a correr atrás do próprio rabo, que dispara alimentar-se dos latidos que muito o divertem, até porque, quando não há morte nem ressurreição, o que há são os efeitos colaterais de uma vacina.

Para padecer algumas reações adversas, na quinta passada fui ao posto de saúde mais próximo, fui tomar a quarta, quiçá a quinta, dose da vacina que dê proteção contra certo coronavírus já meio esquecido, um que foi nomeado SARS-Cov-2.

Bem que eu podia ter ficado de boa, ignorando este vírus que segue à espreita, faz tocaia, vai vigilante, preparado para assaltar-me, a mim que não sou fascista, entreguista, um bebedor do ki-suco de quem não tem caninos assanhados, não mostra predileção tarada por jugulares, não professa aptidão para guerrilhas.

Bobo que é bobo, como outros tantos, ainda sigo na trincheira.

Um camarada na trincheira, embora mortinho.

Como foi que eu morri na sexta-feira?

A dor no braço onde foi aplicada a injeção, por óbvio, foi o primeiro sinal do que viria. Pouco antes de me deitar, veio a dorzinha de cabeça. Na madrugada, a vontade de adoçar a boca foi saciada com guaraná, que, por azar ou trapaça das zonas obscuras da cachola, eu comprara às vésperas daquela injeçãozinha. Por fim, mas sem menor desgrama, os calafrios ensoparam touca, camiseta, cueca e a alma.

No sábado à noite, soube que sobrevivera à ressurreição quando me bateu um cansaço muscular que não foi possessivamente dolorido nem um apocalipse calafrioso.

Tudo bem, a vida vai.

Tudo certo, o quintal tem câmeras que o guardam.

Tudo legal, corte e coorte que se entendam.

Tudo é vero, é veríssimo, aquela camarilha terá o que merece, a tal quadrilha saberá o que pode a justiça instituída, a cambada conhecerá o que tanto maldiz, porque, se me faço claro, sem pedra e sem tesoura, tal malta há de saber: rato não rói o papel da constituição.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2025.


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Criança feliz

 

Criança feliz

 

Lavando a alface, Claudiomiro não acha direito o que houve, porque foram inverdades o que disseram. Cortando o tomate, o pior é que nem quiseram ouvir o seu lado. Lacrimejando, os olhos vermelhos, não parou de cortar o tanto de cebola que gosta de ter na salada, ele queria ser escutado pelo que realmente acontecera.

A poça aos pés da mesa não era porque urinara, foi um acidente, o seu braço esbarrou no jarro de água, foi porque ficou empolgado e não porque fosse invejoso.

Quem delatou não passa de um oportunista. Quem acatou o que foi relatado sem checar a verdade cometeu uma injustiça. Quem tem que pagar pelo que não fez é ele, Claudiomiro, agora desempregado.

Ele não era o responsável pelo camarim bagunçado, só não soube dizer não no instante em que houve constrangimento. Não foi ele quem falou que não era errado brincar com as roupas. Se a estrela da peça vestiu-se como se aquilo fosse divertido, Claudiomiro foi logo pegando o vestido de noiva.

Mas não lhe deram a chance de falar que dançou uma valsa com o galã, uma vez que ele insistiu, ele foi mesmo um cara insistente, tanto que rodopiaram de rosto coladinho.

Se o sujeito disser que se beijaram, teria sido um beijo técnico, pois o Claudiomiro nunca escondeu que gosta da mulher, que ama os filhos, que está economizando porque pretende levar a família à praia quando puder dirigir o carro que seja seu.

Apesar da revolta, já que as pessoas o impediram de contar que ele até tentou deixar tudo como tinha de estar, com os vestidos, os sapatos e os chapéus, cada item em seu lugar, mas Claudiomiro foi arrastado pro bar.

O que o desviou de agir certo foi ir beber.

A prioridade de um homem é não fazer desfeita, ainda mais quando juram que irão pagar a conta. Por isso, Claudiomiro foi para o bar sem sequer ter tirado o chapéu usado pela noiva da peça.

Sem que ninguém o fizesse parar, o cara achou de explicar como a história ia sendo contada com as sobreposições de realidade, memória e alucinação. Era importante dizer o quanto o texto era atual, porque o autor tinha sido genial ao desmascarar a caretice da época.

Uma vez que a nenhum deles sobreviesse a vontade de controlar-se, eles beberam cervejas e caipirinhas, comeram salsichas, e ficaram nisso até que o dia clareou.

Como se a noite tivesse sido mais uma noite de vigilância sem nada de incomum, às oito horas de cada dia, o Claudiomiro chegou.

Circunstância atípica para a hora, ele a procurou.

Sentindo o bafo, certa de que a coisa desandaria, ela achou melhor deixá-lo dormir. E teriam de ter, mais tarde, uma boa conversa, porque homem quando é responsável não age assim.

Ele queria sonhar, pois nenhuma criança tem que se preocupar, tão logo acorde, de procurar outro serviço.

Que sorte a sua, Claudiomiro, já que você não almoça sozinho, pois a embriaguez dessa felicidade ímpar veio à mesa consigo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2025.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Domingo antalógico

 

Domingo antalógico

 

Eu ia pelo calçadão da orla de Praia Grande, dois ou três anos antes da Covid-19, quando acabei decepcionando quem me interpelou, pois eu não era, e continuo não sendo, o Pondé.

Na TV, o filósofo exibe uma barbona que me faz tomá-lo por profeta bíblico, mas, naqueles dias, ele costumava usar uma barba de uns dias sem fazer e, antes como agora, calçar tênis All Star, o que eu também costumava usar e calçar.

Veio a pandemia, o distanciamento social foi-me deprimente, tanto foi que virei um lastimável leitor de revistas velhas. Nos consultórios de psiquiatra e psicólogo, fui aconselhado a estabelecer rotinas. Passei a caminhar no calçadão diariamente, uma hora por dia. Adotei uma rotina nova, tão nova que a cabeça estressada precisou de ir-me adaptando devagarinho. Foi desmamando sem empolgação que eu passei a bater cartão em boteco uma vez por semana, uma vez quinzenalmente, até chegar a uma vez por mês. Equivoco-me, parei em 2019. Em maio. Foi um ano antes das restrições sanitárias. Parei e sigo sem beber desde então. Já não uso a barba de uns dias sem fazer, adotei o cavanhaque. Continuo fiel à marca Converse, pois valorizo tênis cuja fôrma não me aperreie. Tenho calos, em cada mindinho. Não os cito pra me justificar, que já não caminho uma hora por dia. Bato perna. Saio de casa quase todo dia. Vou a banco, a supermercado e à farmácia.

Maravilha! Ainda que as novidades aporrinhem, não bebo.

Aos domingos, saio passear com os cães. Sem querer voltar, passo diante de um, de um segundo, de um terceiro, são tantos os bares que passo e sigo sem pressa. Tenho que passear os meus cães. E isso me alegra. Tanto apraz que nem me apresso. Não me aperreia ir parando. Meus cães e os vira-latas não me aborrecem. Eles latem e cheiram-se. Até os automóveis, os poucos que circulam, não me são aflitivos.

Sem estresse. Entro que nem tranco a porta. Tudo bem se aparecer visita. Talvez tragam bolo. E domingo é bom para bolo, suco e debate. Também é ótimo para falar pelos cotovelos. Claro! Sendo bom escutar, calar-se é melhor. Talvez venha quem se entusiasme com um assunto e não com outro. É coisa boa ter uma conversinha que não faça a gente engasgar-se. Ou querer tomar banho. Até porque chegará o momento de lembrar-se de que amanhã vai ser segunda-feira.

Estou vendo TV. Anunciam que Jaguar morreu. Puxa vida, a notícia me entristece. Desligo a TV. A TV desligada não desvia o pensamento, que o cartunista bebeu piscinas. Deu em cirrose. E câncer no fígado. Confesso que bebi, ele escreveu.

Sinto que preciso fazer algo. Faço a barba. Tiro o cavanhaque. Meu rosto não é nenhum bumbum de bebê. Tenho rugas e pés de galinha.

E essa agora! Será meu desejo querer um chopinho?

Já que eu não sou nenhum Buda, a moça sequer se contém:

ꟷ Caraca! A carequinha do senhor é tão gostosa de alisar.

Ah sim! Larguei a boina em casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de agosto de 2025.

domingo, 24 de agosto de 2025

Dálias

 

Dálias

 

Com o patriarca no vigor dos sessenta anos, com o pulso firme da sua cônjuge a meter a colher nos momentos críticos, com Lúcia Maria casada com o marido certo, com Dália Cristina afeiçoada ao consorte que muito a afortuna, sem mais, seja dito que tal família está destinada às felicidades que tanto a distinguem.

Senhor leitor, é compreensível que se queira entender a razão para Dália Cristina ter fechado os olhos ao inspirar o aroma da flor recebida, o que me parece não ser nem um pouco plausível é a indagação, cadê as sereias que não cantam?

Cantando que fique insinuado que o caos não existe neste mundo, esta é crônica escrita para que lhe seja possível, senhor leitor, rastrear os variados sentimentos que constam do escrito.

Com a sua vênia, senhor leitor, sigo a querer exitosa a empreitada, que é o prazer de dar com a moral da história justamente quando nada for preciso de ser acrescido, habilitando-o, sem mais, para a liberdade que, creio eu, advirá aquando do instante derradeiro.

Compreender-se condicionada faz a gente acreditar que a história contada não acoberta o que seja essencial, o que, por sua vez, implica que as incoerências insinuam-se feito peta, induzindo-o, senhor leitor, a divertir-se, posto que, desde o Big Bang, a vida não vai além de uma barafunda, um pandemônio ou um caótico picadeiro.

Para que venha a ser sentido o gostinho do que seja este picadeiro caótico, senhor leitor, eis que toques picantes são para que o paladar perceba o mundo como guisado avesso a mixórdias insípidas.

Lúcia Maria, indubitavelmente a mais sorridente das filhas, reina no lar que o marido instituíra para ela oferecer martírios, onde o jardineiro teme os dentes de leão dispersados pelo noroeste, onde os pitadaços das cozinheiras são justificativa para irem pra rua, onde a garagem tem vagas para ele, para ela e pros novíssimos carros de Ana Beatriz e Ana Catarina, as netinhas mais queridas do Doutor Agripino.

Uma vez que nem filhos Dália Cristina tem, anime-se, senhor leitor, vibre estarrecido ao pegá-la empurrando um carrinho de bebê; todavia, ao vê-la uniformizada, inteirinha de branco e fantasiando-se uma babá, pasme-se, demonstre o choque que pode tão bem atarantá-lo.

Chocada está Dália Cristina, pela confirmação de que a fofoca não é falsa, pois, estacionado diante do edifício onde Belinha mora, o SUV pertence ao filho de uma égua, àquele “marido certo”.

Para não ser desmascarada feito babá e para ter o que respaldá-la caso necessite chantageá-lo, ela os fotografa.

Como é difícil manter-se acima de suspeitas, o amante da babá de Ana Beatriz e Ana Catarina, pelas fotos no celular da Belinha, sabe que a burguesinha que deprecia as tolices da vida burguesa é outra a ser amaciada.

ꟷ Embora a formosura desta flor seja inferior à sua, minha doce e gentil Branca de Neve, aceite-a.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de agosto de 2025.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

(quase) todo mundo no sofá

 

(quase) todo mundo no sofá

 

Precisei sair, tinha que ir à praça, deitar-me na grama. Levantei-me do sofá e vim. Tinha que fechar os olhos, a ouvir pombas arrulhando. Precisava de ficar longe daquele fuzuê, queria entender o que brotou de repente. Eu queria rir, sem véus, do súbito da casmurrice.

Apoquentado, desacorçoado, achando de desarrochar-me, queria o riso. Como rosa desabrochada, achei por bem haver-me expulsado de casa. Embora o desejo sujeite-me a obscuridades, vim-me.

Vim deitar na grama. Deitado, fiquei ouvindo as pombas, tentando ignorar quem passava perto. Embora não tivesse vindo disposto a ficar escutando as pessoas, ainda que falassem do café, que subiu, de uma semana pra outra, mais do que tinha subido em um semestre, continuei deitado.

Fiquei de olhos fechados, mas nada melhorou. Não consegui ouvir só notícias boas. Isso não me pôs surdo às críticas de quem sabia que o preço do café aumentaria por causa do tarifaço, dos sacos enchendo depósitos, dos grãos estocados nos silos, dos fazendeiros a negar um cafezinho cheiroso a quem viesse visitar.

De olhos fechados, fiquei sem ouvir que o mundo vai melhorar.

Sem dar com a razão, eu estava sem tomar café desde que acordei.

Precisava de cafezinho, achava ser preciso. Quiçá pelo gostinho de passá-lo, pois talvez eu saboreasse gostoso o sol na pele, para que a cachola ficasse ligada, ativa, reativa, mais bem acordada.

Acorde, Seu Rodrigues. Hoje é domingo. É dia de deixar desligada a tevê. É dia de lavar os cachorros. Domingo, Seu Rodrigues, é dia de ficar em silêncio, apreciar a solidão, manter-se alheio ao preço do café, conservar-se equidistante de quem se preocupa que seu celular esteja desligado desde manhã.

E a tevê passa Santos X Vasco.

A minha casa está tomada, ocupada por gente que me estima e me quer bem; ainda que, agora, comigo deitado de olhos fechados, ainda que eu, agorinha mesmo, perceba-me que sou uma pessoa repulsiva, tóxica, que não mereço sequer o golinho de café que me faz falta, sigo deitado na grama, continuo tomando sol.

Seu Rodrigues, que pessoa graciosa você se acha, hein?

Sem ligar que o vissem escapando, saiu-se. Sem que importasse o andamento do jogo, arrepiou-se. Sem que a gente passando o notasse abobalhado, simpático à própria bobeira, sorri.

Fazia sol. Era domingo. Escondido a céu aberto, gostava de rir-se.

Simpático, neste instante, é admitir que Clarice Lispector tem razão ao avisar: não confundir bobos com burros.

Já reparou que o burro, por ser burro mesmo, dispara se pôr à frente da carroça, independentemente de levinha ou pesadíssima?

Foi oportuno o impulso de ir à praça? Pois, claro.

Dando que tenha vindo à praça por não ter isenção pra sopesar as fumaças da cachola, torcendo para que o tolo continue sobrepondo-se ao burro, legal foi ter preferido pegar sol a cochilar no sofá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2025.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Fumaça

 

Fumaça

 

Ontem experimentei ficar, o dia todo, sem café.

Pra não arranharem a minha matraca, a fatia de pão integral e duas bolachinhas de banana desceram com o préstimo do substancialmente terroso fruto do São João, aquela água bem limpinha.

À tarde, repeti o procedimento: bebericando aquela água com gosto de barro, as bolachas e o pão desceram redondo.

Às portas da noite, a abstinência apresentou-se-me feito morgação e uma dor de cabeça bem chatinha.

O mais chato, porém, foi a sensação de desajuste.

Viver à beira de um colapso faz a amargura subir à boca, mas ficar longe das redes sociais faz vagarosos os minutos.

Quando a lentidão vigora, eis-me uma pessoa rigorosa.

No rigor de pensar-me por mim, compreendo a bajulação, sinto-me idiota ao macaquear quem despreza a submissão.

Justamente civil, ponho gosto em tagarelar em pensamento, dou ao silêncio a aura de decantar as sobras que me são assombrosas, faço a memória vagar, sou canoa na correnteza, os braços remam, a língua sente a terra no rio e, para vagar e divagar com o temor de afogar-me, ponho jacarés à espreita.

À margem deste instante, recordo os anos 80, recordo-me daqueles loucos anos 80, recordo que era o louco que se viu desarvorado pelas formigas de Mário Cesariny de Vasconcelos, não tenho saudade desse que fez descobertas, amo-me pela revelação de que a realidade já não bastava, amo quem fui pela pessoa que sou, amo-me e, por me amar na pessoa que acredito ser, sofro. Uma vez que o passado liberta-me na pessoa que podia me julgar culposo em eu ser quem gosto de achar que tenho me permitido ser, calo-me.

Sinto a mão de papai pesar no meu ombro.

Tal embaraço é manha do embusteiro, redivivo na soberba do rapaz que, na malandragem dos seus dezoito anos, achava-se em condições de escrever um romance.

Atraído pelo barulho da máquina, querendo ver quem datilografava, o pai entrou no escritório que era seu.

Sem pedir, o homem pega as folhas sobre a escrivaninha, lê o título e o pseudônimo adotado pelo filho, Eduardo Gonçalves, e, debochado, lê em voz alta: PRÊMIO NESTLÉ DE LITERATURA BRASILEIRA.

Experiente escrivão da polícia civil, ele enumera os absurdos lidos na primeira folha: se era noite, não poderia ter sol, mas, vá lá, filho, se morássemos no norte da Europa, seria coerente que o Sol brilhasse às vinte e três e cinquenta e nove.

Dirigindo-se às estantes, a retórica do entojado diz:

ꟷ O senhor Eduardo Gonçalves terá conhecimento de Poe, Tolstói, Turguêniev? Deus! Saberá de Aliocha Karamazov?

Mal ele saíra, o moço abanou suas brasas, pois tinha o que mostrar, queria dar-lhe as passagens em que surgiam o alicate contra as unhas, o martelo contra os dedos ou os cabos na genitália do subversivo.

Recordando-se da lixeira, o peso do senhor meu pai não se dá pela ausência da mão sobre o ombro, dá-se pelo charuto apagado que não diz nada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de agosto de 2025.

domingo, 17 de agosto de 2025

Os dois selinhos

 

Os dois selinhos

 

Já prescreve a canção, “fundamental é mesmo o amor”. A essência permanece válida. Bem sei, porque observo um casal mergulhado em carinhos. Pera aí! Não tenho que me vexar dessa alegria que é espiar o mundo quando as circunstâncias são excitantes, é a lanchonete que está pouco movimentada. Sei, os apaixonados têm direito à intimidade; tanto quanto eu, que também espio a tevê, tenho mais que curtir o meu beirute, pois, assim ocupado, não darei fôlego a alguma tara que me impulsione a devorar a refeição sem que perceba que os meus soslaios têm fundamentação.

Pensando com o estômago, ocorre-me que é desagradável ser feliz sozinho, peço umas esfihas.

Houve dias em que, esfaimado, o mundo agitava minha luz. Foram dias em que lábios, tão encarnados no batom da revista, sussurravam verdades. Tais dias foram sonho, mas houve evoluções.

Quando vejo uma boca, mais tentadora se pintada em carmim, ouço as suas vontades, cuido de compreender como a decepciono.

Aqueles dias, porque já são idos, não cantarão o amor que poderia ter sido. Não lamento, pois os dias têm novas notícias em avalanche; são tantas que elas me aterram, pois o amor complica.

Posso escapar, pois tenho uma vida a trazer-me até mim. Revisito os escombros, reviro as ruínas. São tantas as pegadas que é privilégio tomar um rumo incerto, trocá-lo por outro, também incerto. Só que não me lamento, uma vez que os cães do futuro farejarão, amestrados para o que tenha relevância, adestrados pro que precise ter relevância.

Da conversa veio me fisgar a palavra bananica.

Imediatamente vi-me abismado no passado, num dia, numa tarde, num crepúsculo, foi quando tive a coragem de silenciar o tímido, gozei do prazer de superar a caipirice, eu escolhi ser escolhido.

Eu a convidei, e fomos. Abri o Concha y Toro, e bebemos. Dividimos um copo, nem o elegemos que fosse único. Foi a primeira no meu apê, e fomos no seu Corsa. Tomamos a garrafa; nós só fomos notá-la vazia quando nossas gargantas ficaram secas.

Não me ocorreu fazê-la pensar que eu fosse alcoólatra, pois eu abri outra garrafa. Com outro tinto da mesma marca, o nosso copo voltou a ficar cheio.

Houve cumplicidade. As nossas bocas geravam confiança, pois não falamos na quebra da quarta parede e não falamos de distanciamento crítico, e sequer nos movemos por representações brechtianas.

Para enveredar o espetáculo para outro apogeu, sem nada de épico e sem nada de dramático: bocas têm língua, saliva e tesão, portanto a carne nos sensibilizou.

Um bocado sensíveis, nós sentimos o suor, a pele suada. Sentimo-nos tão excitados que ignoramos o tapete.

Lassos, abraçadinhos, estávamos bem, tanto estávamos enlevados que, puríssimos, demo-nos dois selinhos.

ꟷ Prazer, meu nome é Aída.

ꟷ Oi, Aída. Os amigos me conhecem por Biel, mas vou gostar mais se você me quiser como Benzinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de agosto de 2025.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Caindo em si

 

Caindo em si

 

Meu coração tem sangue, mas não há sangramento por uma paixão solitária. Quando alguém espirra, o sangue, indo e vindo, segue no seu fluxo. Indo e vindo por aí, o que me espanta é saber que tem oxigênio no meu sangue. Só não me arrisco a afirmar que esteja na quantidade necessária ou o espirro teria justificação, sendo resposta à falta.

A pessoa que espirra tem oxigênio no coração, indo e vindo, só que ela tem outras preocupações. Que é guardar a caixa de fósforos junto com o pacote de velas. Que é pôr toalha de banho na bacia com água, já que é inverno, é época de mato inflamável. Que é esconder a caixa de fósforos para que o moleque da casa, com ares de cientista, vá pôr fogo no mato seco. A pessoa que espirra considera o fogo que sobe e desce no corpo uma preocupação a menos, pois a toalha de banho na bacia também ajuda a tornar inúteis os fósforos.

O moleque da casa, que sobe e desce do telhado, solta, e não fuma, a pipa. Ele nunca ouviu falar no Azerbaijão, nunca comeu caviar, nunca soltou pipa comendo milho, sequer se importa que tenham posto fogo no mato seco. O moleque da casa não fuma e não bebe, embora suba e desça do telhado como se os fósforos e as velas estivessem fora do alcance dos desejos. Que é queimar a prova de inglês, que é contar os segundos da palma da mão em cima da vela, que é acender a fogueira para que o milho pipoque sobre a folha de alumínio.

Para não dar chilique, não cair no pânico, não cair fulminada por um piripaque, a pessoa que espirra sabe que o ar da sala de espera segue na mesma, com oxigênio suficiente para que os demais não morram e não tenham quaisquer pensamentos a respeito do perigo de morrer na sala, embora haja um copo ao lado do cacto.

O moleque da casa lembra que a mãe tem sessão, mas o psiquiatra não sabe que os fósforos e as velas estão acessíveis, que o moleque ainda não achou o que fazer. Que ele podia queimar matinhos e tentar fumá-los. Que ele, tragando matinho, poderia visitar o Azerbaijão. Que poderia se levantar do chão depois de ter caído do abacateiro, embora a fumaça fosse a causa da dor de cabeça, das escoriações antes da queda, de ter desmaiado.

Se soubesse do moleque, dos fósforos e da queda do abacateiro, o psiquiatra saberia o que fazer. Que seria comer um x-salada ou seria lamentar-se de que os pacientes fumem, embora afirmem que tenham superado esse apego.

O moleque dos fósforos sabe que a mãe fuma no quintal, enquanto molha a terra, enquanto se assegura de que o chão batido não levante a poeira, enquanto ache um absurdo a fuligem vir do mato seco, pois ignora que o moleque da casa tenha feito o fogo, mesmo porque, indo e vindo nos pulmões dele, tamanho amor afeta-lhe o equilíbrio.

Hiperventilando, o moleque bate-se na testa e tira a roupa.

Ele, cuja mãe está na terapia, em tratamento há meses, a fumar no divã, é ele que acha bom ajustar-se: eu sou apenas o esposo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de agosto de 2025.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Marx numa fria

 

Marx numa fria

 

Sendo crônica marxiana, você vai rir da minha sensatez.

O causo, porém, começa enervante, pois meu pug, que tem ouvidos apuradíssimos para todo e qualquer ruído, fazia estardalhaço.

O danado latia dando intervalos, então a fonte não era uma barata, esse ser afeito a desespero estrambótico quando em decúbito dorsal. Latia com ritmo, descartando-se que fosse um camundongo a ringir em aversão neurótica a outro naco de parmesão no gatilho da ratoeira.

Tanto latia que o pesadelo passou a ser meu, por minha dificuldade em desligar o alarme. Tanto eram irritantes esses latidos que, possuído pela cachorra a encorpar o aborrecimento, acordei que seria inevitável despertar mesmo com o telefone desligado.

Sem abrir os olhos, pedi que parasse. Relutando em sair de debaixo das cobertas, implorei que viesse deitar-se. Em sendo ignorados meus repetidos apelos, sucumbi àquela precisão, de que teria de ir encontrá-lo.

Entendendo-me forçado a sair da cama, liguei o celular para checar as horas. Eram três e vinte de uma madrugada a sete graus. Precisado de acalmar-me pra convencê-lo a acalmar-se, que eu demorasse a dar com o meu adorável baderneiro.

E fui. Atravessei o corredor. Verifiquei o escritório. Enganei-me com o banheiro. Retornei pelo corredor. Verifiquei a sala. Enganei-me com o lavabo.

Foi na cozinha que nos entendemos, pois foi ali que o meu adorável encrenqueirinho deu comigo de chinela na mão.

Eu poderia me divertir com aquilo, pois ele não latia para a torneira que pingava, ele latia para os pingos caídos na tigela. Eu poderia ser razoável, pois ele não latia a cada gota que batia na água da sua tigela. À vera: a cada batida daquela água glacial no focinho, ele reagia.

Defendo-me que eu poderia ter escutado algum daqueles pingos se eu não tivesse a necessidade de dormir em berço esplêndido, mas eu tomei a dose porretíssima do sonífero, os dois comprimidos.

Na noite seguinte, todavia, achei que seria melhor eu tomar quatro pílulas de calmante.

Ferrou!

Pedi que ligassem. Supliquei que chamassem. Que fossem bater à porta de casa tão logo tivessem notícia do seu paradeiro, já que o meu companheirinho estava desaparecido.

De fato, Marx, o seu sumiço era devera angustiante, desesperante, asfixiante. Tanto era perturbador que foram os seus latidos, Marx, que me deram fôlego de persistir em chegar a você.

Ora, diachos!

Que desalmado o teria posto na casa da árvore? Que desgraçado teria feito tamanha barbaridade com o coitadinho?

Como a propriedade é monitorada por câmeras, fui ver a gravação. Assombrei-me com a revelação do que eu vi.

As imagens eram cristalinas: quem deixou o pobrezinho na varanda da casa da árvore não era outra pessoa a não ser eu.

O que se supõe que posso ter aprendido com esta história?

Sonâmbulo descalço, eu só tinha mesmo que acabar resfriado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de agosto de 2025.


domingo, 10 de agosto de 2025

O melhor presente

 

O melhor presente

 

Encontro um amigo que temos muitas travessuras em comum, pois somos crianças enquanto formos menores de onze anos, uma vez que, depois dos doze, passamos a ser enquadrados como problema, e isso não pede castigo, pede que sejamos punidos.

Você entende, castigo não é aplicado para que um garoto deixe de aprontar, é mais um afago como se fosse uma dica: olha lá, não abuse das gracinhas, porque a dose errada não acarreta riso, dá tristeza, e a tarde que poderia ter sido de sorvete ficará marcada pelas unhadas de gato que não gosta de banho.

O jeito como falamos, as palavras escolhidas, os olhares cúmplices, o meu amigo e eu não nos enganamos, estamos leves.

Tudo bem que as pessoas enxerguem dois velhinhos papeando no meio da calçada, que elas olhem feio, algumas até grunhem que estão desconfortáveis conosco.

Tranquilos, não nos abalamos, pois o papo está bom. Não sentimos o apelo dos saudosismos bobocas. Recordamos que, protegidos pelos onze anos que tínhamos, fomos arteiros. Éramos gratos por seguirmos menores de doze anos. Nossa gratidão era alívio, pois os dias de criar galinhas passaram. Em vez de nos ajoelharem no milho, nos tiravam a farra de brincar na piscina.

Contentes, lembramos do dia em que montamos nas bicicletas que eram de nossos irmãos. E saímos, pedalamos sem destino. Demos no rio que passava murmurante. Falava macio conosco. Convidava. E não achamos de recusar aquele convite, pulamos da ponte. Nem nos veio à mente que as bicicletas poderiam ser roubadas. Pulamos sem pensar o quão fundo era aquele rio e sem considerar haver pedras sob a linha d’água. Havemos de estarmos contentes, pois somos dois sessentões a prosear no meio da calçada.

Porque, na vida, nem tudo são flores, certa pessoa, de repente, está passando por nós, é outro sessentão, mais um colega do colegial.

― Que coincidência!

― A gente acabou de falar daquele dia, cara.

― Está lembrado que seu pai atiçou os cachorros sobre a gente?

― Seu pai achou que a gente ia roubar ameixa, cara.

― Sem maldade, a gente só estava se divertindo no rio.

Pelo sim e pelo não, o sujeito faz o que entende ser seu dever. Ele toca em frente, porque certas coisas precisam de ser resolvidas.

Por estarmos bem resolvidos em nossos onze anos, meu amigo e eu ficamos na mesma, papeando no meio da calçada.

― Coitado do Praxedes.

― Coitado, por quê? Tem alguém doente na família?

― Ele é um cara metido, mas ontem eu soube. Que dó! E a razão é que a sua neta mais velha virou mãe.

― Ninguém merece, nem mesmo um cara metido como ele.

― Nem a esposa dele cumpriu o seu papel de mãe, cara.

― Pois é, a fortuna nos sorri. É nestas horas que deveríamos erguer as mãos em gratidão pelos pais que não houvemos de ser.

― Estou com você, meu chapa.

Sim, o melhor presente sempre vem no momento certo:

― Às vésperas do Dia dos Pais, virar bisavô?

― Madalena Santíssima!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de agosto de 2025.