Interessante a mim, neste momento de
calmaria na vizinhança, é a observação de que a realidade finge cochilar, dando
o recado que viver menos afobado é vivenciar sonhos que não viram pesadelos.
Embora não pareça urgente sair da cama,
já que me sinto o vizinho tranquilo que sempre quis ter ao lado, certo de que
não possuo a mente capaz de reverter o curso do sol, pisei o chão com o pé
direito.
Pisei-o com o pé errado e pisar errado é
trazer para mim o azar que não desejo irradiá-lo, mas alguns dos afazeres do dia
precisam que me relacione com outras pessoas.
Uma vez que comecei o dia com o pé aziago,
as demais pessoas, que talvez pressintam a razão de serem vitimadas pelas
desventuras quando perto de mim, elas continuam afáveis, tentam ser agradáveis,
querem vender-me o que precisam vender.
Para ter o dia chancelado como exitoso, os
outros, porque pisaram o chão com o pé que ajudaria a atrair as energias de gentes
positivas, talvez tenham que refazer os cálculos, atribuindo ao acaso a carga que
as tenha afetado negativamente.
Por que considero relevante a
possibilidade de não ser eu a causa provável do desequilíbrio de terceiros?
Desconsidero, porque meu pé direito não
tem esta potência.
Se fosse realmente um sujeito de patada
atômica, eu teria vingado como jogador, teria vencido campeonatos, teria na
sala uma prateleira com troféus, teria virado o medalhão que dá pontapés iniciais
a muitos amistosos, seria lembrado pelas vitórias dramáticas que só um craque para
tê-las protagonizado, eu deveria ter sido batizado Rivelino.
Todavia, ensinou-me a vida que tenho
dois pés direitos: o de carne e osso que chuta as chapinhas das calçadas e o do
pessimismo que a mim me ampara quando titubeio.
Entretanto, falho quando preciso atrair a
energia benfazeja de gente que nem se dá conta do quanto tem sorte por viver a
vida sem dar bola para superstições.
Os dias têm a pachorra de testar-me com
uma escada no meio do caminho, um gato preto cruzando a rua, uma sexta-feira
treze.
Em todo caso, faço o que creio ser possível
para afastar desgraças: não abro guarda-chuva dentro de casa e não uso chinelos
virados para captar as minhas insônias.
Agora que tanta gente atribui a mim os
seus infortúnios, mesmo que admita que eu nunca quebrei espelho e sequer recordo
ter presenciado que outra pessoa haja quebrado espelho algum, prefiro culpar-me
pelo pé direito.
Preciso culpar-me por ter virado o
chinelo assim que tentei evitar o erro de pisar com o pé errado, pois o corpo tentou
contrariar-me, e pisei querendo recuar.
Agora compreendo por que tanta gente não
tem como evitar a ideia de que sou eu a razão dos meus infortúnios, porque não
vou negar que pisei recusando-me a pisar com o pé direito, seja de qual pé
esteja me referindo, já que ambos fazem de mim um otimista.
De tão otimista, confesso que me sinto
péssimo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de julho de 2025.