terça-feira, 8 de julho de 2025

Contrapé

 

Contrapé

 

Interessante a mim, neste momento de calmaria na vizinhança, é a observação de que a realidade finge cochilar, dando o recado que viver menos afobado é vivenciar sonhos que não viram pesadelos.

Embora não pareça urgente sair da cama, já que me sinto o vizinho tranquilo que sempre quis ter ao lado, certo de que não possuo a mente capaz de reverter o curso do sol, pisei o chão com o pé direito.

Pisei-o com o pé errado e pisar errado é trazer para mim o azar que não desejo irradiá-lo, mas alguns dos afazeres do dia precisam que me relacione com outras pessoas.

Uma vez que comecei o dia com o pé aziago, as demais pessoas, que talvez pressintam a razão de serem vitimadas pelas desventuras quando perto de mim, elas continuam afáveis, tentam ser agradáveis, querem vender-me o que precisam vender.

Para ter o dia chancelado como exitoso, os outros, porque pisaram o chão com o pé que ajudaria a atrair as energias de gentes positivas, talvez tenham que refazer os cálculos, atribuindo ao acaso a carga que as tenha afetado negativamente.

Por que considero relevante a possibilidade de não ser eu a causa provável do desequilíbrio de terceiros?

Desconsidero, porque meu pé direito não tem esta potência.

Se fosse realmente um sujeito de patada atômica, eu teria vingado como jogador, teria vencido campeonatos, teria na sala uma prateleira com troféus, teria virado o medalhão que dá pontapés iniciais a muitos amistosos, seria lembrado pelas vitórias dramáticas que só um craque para tê-las protagonizado, eu deveria ter sido batizado Rivelino.

Todavia, ensinou-me a vida que tenho dois pés direitos: o de carne e osso que chuta as chapinhas das calçadas e o do pessimismo que a mim me ampara quando titubeio.

Entretanto, falho quando preciso atrair a energia benfazeja de gente que nem se dá conta do quanto tem sorte por viver a vida sem dar bola para superstições.

Os dias têm a pachorra de testar-me com uma escada no meio do caminho, um gato preto cruzando a rua, uma sexta-feira treze.

Em todo caso, faço o que creio ser possível para afastar desgraças: não abro guarda-chuva dentro de casa e não uso chinelos virados para captar as minhas insônias.

Agora que tanta gente atribui a mim os seus infortúnios, mesmo que admita que eu nunca quebrei espelho e sequer recordo ter presenciado que outra pessoa haja quebrado espelho algum, prefiro culpar-me pelo pé direito.

Preciso culpar-me por ter virado o chinelo assim que tentei evitar o erro de pisar com o pé errado, pois o corpo tentou contrariar-me, e pisei querendo recuar.

Agora compreendo por que tanta gente não tem como evitar a ideia de que sou eu a razão dos meus infortúnios, porque não vou negar que pisei recusando-me a pisar com o pé direito, seja de qual pé esteja me referindo, já que ambos fazem de mim um otimista.

De tão otimista, confesso que me sinto péssimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de julho de 2025.

domingo, 6 de julho de 2025

O justo não descansa

 

O justo não descansa

 

Com a árvore inteira para chamar de sua, o casal de maritacas teve de nidificar no telhado da minha casinha? Com o abacateiro carregado, as espalhafatosas tinham que tagarelar a manhã todinha? Com o livro no começo, bem no comecinho, comigo impaciente pra seguir preso à página dois, o melhor seria eu fechar o romance?

Foi o que fiz: desci do abacateiro; depus o volume na mesinha; vim pra cadeira, vim balançar na varanda.

Vim num pé, pois a balbúrdia era irritante.

Tanto eu fui esquentando que fixei a ideia de que tinha de dar fim àquilo, porque eu tinha uma espingarda de caça. Bastante importunado pra usar a munição que fosse necessária, eu não me criticaria por ficar disparando até matar as baderneiras.

Uma pessoa boa, gente que pensa que a vida é sagrada, mesmo a que tem bico, voz esganiçada e não saiba o quão é enervante escutar o escarcéu das matracas, faltou ao caçador de mira míope o desfecho, que, ao primeiro tiro, essas bichinhas escafeder-se-iam.

Por ser racional, compreendo que não é bom matar maritacas, pois balas não são sagradas; nem é sensato desperdiçar balas, porque tiros errados são uma grana que podia ser usada para comprar livro.

Livro não é coisa sagrada, é investimento. Quando não compro um gorro de lã, a mensagem é que a leitura aquece-me o coração, a alma, pois um gole de café pode aquecer as mãos que seguram o romance, a manta sobre as pernas pode manter-me bonitinho durante as horas que passo na leitura, mas o valor do objeto que me entretém e diverte não há de ser medido pela dívida em parcelas do meu cartão.

Em dívida com o que não li, peço mais. Quero comprá-los, empilhá-los na escrivaninha, até a pilha pegar poeira e começar a pender, tanto que protejo os livros pondo a pilha no guarda-roupa.

Pra ter espaço pros livros, mais e mais eu doo roupas. Sem hesitar, passo pra frente as bermudas que não usarei. Não bobeio, pois eu sei que as manhãs têm sido geladas e ninguém será imprudente para sair de bermuda antes do almoço, pois depois a temperatura sobe e o sol brilha nas pernocas de fora, um sucesso.

Quando posso ser solidário, eu me sobressaio. Quando mereço ser aplaudido pelo destaque, eu padeço que invejem. Quando reconheço a beleza do que faço, aplaudo quem me calunia e difama e injuria, pois o que alegra o invejoso é incensar, e o sorridente sabe que merece ser aplaudido e sente que lisonjeiro é ser invejado.

Digo isso porque nem antibiótico cura minha veneração pelo doutor Fafá, porque Alberlindo Fagundes vive pra arrecadar fundos.

Sendo justo garantir a liberdade, ele faz jantares pra que candidatos possam aparecer para pedir voto, pois só tendo muitos candidatos para haver diferentes opções, diferentes projetos, nomes diferentes.

Presidindo o partido há mais de quarenta anos, o doutor Fafá sabe que nunca vai desistir de lutar pela democracia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de julho de 2025.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Louvação

 

Louvação

 

Quando vi as roupas na vitrine, parei. Como costumo ser desligado, perguntei à vendedora se vendiam cuecas. Sim, a loja vendia. Pra não entrar à toa, pedi pelo modelo, pela marca e pelo tamanho. Sem sorrir, a funcionária disse que vendiam, sim.

Vi penhoares nas araras, pedi que mostrasse pijamas. Ela mostrou alguns, eu compraria um de algodão, mangas curtas e shortinho. Voltei a sorrir, mas não me justifiquei, que bicicletas o estampavam.

Em instante algum a funcionária me deu mole, até porque não sorri para seduzi-la ou usei o sorriso como confissão da besteirinha, que vou sonhar com o prazer de pedalar, a passear ao léu.

Como paguei à vista e em espécie, achei que podiam dar desconto. Fiz bem, pois economizei seis por cento. Agradecido pelo abatimento, sorri, mas a caixa se despediu formal, sem acabrunhamento.

Apressadinho, carregadinho de sacolinhas, fui pelo declivezinho da Quinze pra Rua da Bica.

Santo fraternalmente sensível, São Pedro não me pôs na roda nem me esquartejou, apenas me concentrou nas pessoas que, cinco metros adiante, desciam do ônibus.

Surpresa com minha palhaçada, no cerca-galinha às dez da matina, a moça que subia desviou-se, que só consegui não cair porque a mão esquerda, espalmada no poste da esquina, salvou-me do vexame.

São Pedro, São Pedro, não lhe bastava o vento friíssimo, ao senhor não bastavam os nove graus, tinha que me levar a pisar no buraquinho do meio-fio, São Pedro, São Pedro, tinha também que tornar um sabão o asfalto com uma finíssima garoinha?

Doidinho para mandar pros quintos qualquer unzinho que inquirisse se eu estava bem, à moça que escapou do encontrão só consegui dizer o óbvio, que não foi nada, que eu só torci o pé.

Com o pé torcido, o tornozelo latejando e uma vontade de rir porque precisava urgentemente desapegar-me desse sentimento de ser outro pobre-diabo que não tinha de me achar vítima do azar, pois estava indo pedir esclarecimentos, que eu tinha direito de reclamar.

Fui cobrar providências, uma vez que o wi-fi não voltou à velocidade que tenho contratada. Realcei que o novo aparelho tornou dificultoso o ajuste do serviço. Só não relatei que o técnico julgou certo compartilhar o seu descontentamento com a empresa.

Louvado seja, meu santo São Pedro, pois agradeci que agendaram a visita técnica pra dali a uma semana, pois compreendi a necessidade de dar um tempo para que fossem por aí o vento frio, os nove graus e a garoinha que deixava o asfalto um sabão.

Como o mundo é vasto e a vastidão é fascinante, meu solidário São Pedro, louvo-o por sua misericórdia, uma vez que o senhor fez amenas a dor no peito do meu pé esquerdo e a dor crônica no tendão de Aquiles da perna direita.

Louvado seja, santo danadinho, meu propofol sem tequila, uma vez que, feito bicicleta sem freios, desatinei-me naquele garoto de coração vertiginoso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de julho de 2025.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Haja o que houver

 

Haja o que houver

 

Perdoe-me, começarei pelo meu processo de escrita: pego o papel, pego a caneta, sento a bunda na cadeira, rabisco a ideia, ou a palavra, que me fez pegar papel e caneta para registrá-la.

O pedaço de papel pode ser qualquer um e eu possuir apenas uma caneta me exoneram de outras especulações sobre o papel e a caneta, pormenorizo, porém, o ato de escrevinhar.

Escrevinho em pé quando só preciso anotar uma única palavra, por ficar nisso, só no registro da sua forma, sem me dar comichão de bolar uma história, arquitetar circunstâncias, contrariar-me pela perspectiva adotada, imaginar significados pra dita palavra, verificar que acepções o pai dos burros tem abonadas, assim, escolho viajar sentado quando as ansiedades fazem-me conectar veredas, põem-me espantado com abismos, secam-me a boca se não sussurro o ponto final.

Já que ultimamente não tenho sussurrado com facilidade, postergo a admissão de que o esgotamento tem-me angustiado com frequência assaz inquietante.

Poderia a gracinha de considerar o esgotamento como ocorrência puramente física, feito caixa d’água que precisa ficar com o mínimo de água para que seja realizada a sua limpeza.

O esgotamento é físico e mental, porque meu corpo pensa e minha mente tem fadiga, e não há banana com aveia que reenergize a minha disposição pra digitar o ponto final necessário e preciso em muitas das crônicas que escrevi neste trimestre.

Acolhido o juízo que o esgotamento a que me submeto não hei de superá-lo com piaçava e lambidas, debruço-me sobre o teclado, adoço a boca com murmúrios, entrevendo-os como sussurros, porque não os instituo como prenúncios do necessário e preciso ponto final que posso querer quando a crônica me possibilita que o vislumbre próximo.

É isso, as palavras conversam comigo, brincam, jogam, pedem que as trate bem, que não as tome como ídolos, que vulgarize o que houver de vulgarizar, que as diga aprazíveis, desfrutáveis, apetecíveis, que as ponha e disponha como quem as ama, quem as aprecia amantes, que as trata com bombons, licores e conchinha.

A crônica sussurra, mordisca os meus lóbulos, lambe meu pescoço, faz com que eu abra os olhos, faz com que eu a admire no esplendor de sua beleza, e eu me submeto.

Submisso, deixo que a palavra me puxe para a próxima palavra, eu me deixo mergulhar nas águas que a crônica me dá de beber, não me quero um escafandrista, sinto-me amante de pérolas a mergulhar sem tubo de oxigênio e sem óculos, pois a língua serpenteia sobre a areia do fundo, varre, sonda, me entusiasma, me encanta desvelar a palavra necessária e precisa.

Então, o esgotamento é feito de acumulação, acomodação, ajustes, de pequenos tremores a revelar fissuras e a compactar fendas, para que a saliva da minha boca seja uma recompensa efêmera, pois a próxima crônica será outra, será a que tiver de ser.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de julho de 2025.

domingo, 29 de junho de 2025

No ranço fundo

 

No ranço fundo

 

Escuto vozes. As vozes que escuto neste domingo não desejo ouvi-las. Falam alto; são irritantes, não param de falar. Desagrada entendê-las; aborreço-me que as identifico: há uma serra, há martelos.

É triste que o domingo também seja dia pra serrar e martelar.

Os meus demônios gargalham que gargalham, porque eu achei que dormiria até tarde. Achei que dormiria, logo não me achei um bocó.

Ora essa, seu bocó, quem serra e martela em pleno domingo faz o que precisa fazer pra continuar tendo o que fazer na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado.

Mané, quem paga é quem manda, então, que seja feito no domingo o que tem que ser feito durante a semana toda, então, fiquem incluídos domingos e feriados, sejam incluídas as horas a mais que tiverem que ser acrescidas, afinal, quem manda é quem paga, seja na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta e no sábado.

Sem escolha, este pobre precisa de dinheiro pra pagar pelo que faz.

Faço-me mal, pois preciso de micro-ondas pra esquentar a lasanha feita pra micro-ondas; prejudico-me por precisar de esteira pra queimar a lasanha acumulada na pança; leso-me a mim mesmo, porque preciso de extras para preservar-me esbanjador.

Se me mato de trabalhar, é natural que eu descanse? Todavia, se não trabalho não tenho do que descansar? Se eu não trabalho brigarei pra não trabalhar? Será imoral, um acinte, será cuspe na cara de quem trabalha pra ter carnês que lhe permitam acordos e novos acordos, até que venham as penhoras e os arrestos?

Penhoradamente, digo a besta que eu sou porque minha casa não tem micro-ondas. Bem babaca, cobro-me fazer pipoca no micro-ondas, pois preciso correr, preciso ler A Rosa do Povo, Tutameia, As Viagens de Gulliver.

O melhor que este cronista poderia ter feito é ter ido nadar no riacho que não para, uma vez que ter entrado na água fria proporcionaria que eu pegasse o pulso da realidade, uma vez que o real nem liga pro meu sermão vagabundo contra o capitalismo.

Barrar-me de virar profeta, cujo blábláblá mais entedia que mobiliza, é me impedir de ocupar a esquina como se me adentrasse uma arena, eis o meu propósito ao sentar-me pra escrevinhar estas linhas, que dou por dignas de irem aparecendo.

Ora, bocó, isso de achar que posso aprimorar-me enquanto escrevo é uma fantasia boboca, pois tirar o melhor que posso não me dissuade de confiar que a crônica é micro-ondas a quem precisa de micro-ondas.

Em outras palavras, já que confesso crer-me este idiota que melhor me convence a pensar que não corro das vozes que não param, ouço-me, quero compreender-me, mesmo que eu retarde o almoço ao subir na árvore e vire reforçar o que não precisa de pregos novos, porquanto a casa siga estável, sólida.

Como a idiotia incentiva a desentranhar estes meus traços realistas, acho-me neste retrato em que me dou por obsoleto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2025.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Fantasmagórico

 

Fantasmagórico

 

O ignorante que eu sou fica estressado quando me irrita uma coisa que podia ser evitada. Por exemplo, haver fezes de cachorro no jardim de casa é coisa que, de jeito algum, não podia me aparecer pela frente quando vou apanhar os jornais. Pelo xucro que nem tem como segurar o azedume, tenho sempre que responder.

O abestado de tripas sensíveis não espuma de raiva porque sei que o melhor que posso oferecer à paz na vizinhança é deixar que meu cão faça merda no jardim da casa ao lado.

Acho digna tal retribuição diplomática: quem faz cocô na grama dos outros que, na grama própria, também cate o cocô dos outros.

A imagem que passo, agindo assim, é que sou uma pessoa amarga, alguém de mal com o mundo, um sujeito sem malemolência, um fulano que não pede para sair de briga que beltrano começou.

Sicrano que me lê, você já deve estar entendendo o tipo de vizinho que vive me atazanando, me tirando do sério, forçando-me a perder a paciência, a razão e os bons modos.

Tirando a estratégia de desestabilizar-me com as fezes do seu cão, o danado do camarada é o tipo de gente sobre a qual não me sinto em condições de condená-lo pelo que seja.

Ou seja, é o pior vizinho que eu conheço.

Azucrinante pra caraca é eu não ter como recriminá-lo por causa da religião, da opção política, da sexualidade, do poder aquisitivo, pois ele é daqueles que sorriem ao cumprimentar e só. Nada de sorrisinhos que façam vê-lo como sacana, salafrário, cafajeste, crápula, um biltre, uma pessoa desprezível, duas caras.

Tenho que me contentar em xingá-lo enquanto cato a merda que o seu cachorro fez, e mais nada.

Nada com nada, zero.

Quero entender a equação, ainda que em meu auxílio eu conte com os recursos que o bom senso pode apresentar quando sou provocado. Pois é, tentarei pensar sem que a irritação estrague mais o que a minha índole de jeca simplesmente diz ser um legado cultural.

Vamos ao nada em questão.

Abro uma caixa de sapato e ela está vazia, digo que não tem nada dentro. Com o sapato na caixa, digo que não está faltando nada. Se o sapato é presente que não agrada, melhor seria não ter ganhado nada. Ou seja, nada é aquilo que falta, aquilo que não está sobrando e aquilo que se recusa.

Já o zero?

O zero não é nada. No contexto, zero é verossímil, pois o zero não pode ser dividido, é impossível fracioná-lo, é surreal a possibilidade de convertê-lo em número irracional. O zero na conta como surreal com valor irracional é dedução caótica, uma vez que o zero criaria um efeito fantasmagórico, bizarro, estranhíssimo, fantástico.

Como não sou um zero à esquerda, na biblioteca pública um cartaz anuncia uma homenagem àquele que não é nenhum outro que o dono dos cães que defecavam no jardim.

Ser lembrado pelos vinte anos de morte contraria o Ivan Lessa, que estabeleceu que a cada quinze anos o brasileiro apaga o que ocorreu nos últimos quinze anos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de junho de 2025.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Certeza escorreita

 

Certeza escorreita

 

À toa, assim que abri a geladeira, fugiu-me o que ia pegar, portanto não foi à toa que vi na mesa o pãozinho cortado nas duas metades, o que eu perdi da precisão, portanto à toa, era a margarina.

Assim que fechei a porta da geladeira, vi a conta de luz, vi o dia do vencimento, portanto não foi à toa que corri a ponta do indicador sobre a folhinha, assim terei banco, assim não poderei ficar à toa.

Sou uma pessoa simples, de felicidades frugais, gentil comigo, mas seguir retratando-me até encabula, mas há flatulências que vêm dessa dorzinha repentina nas entranhas, vêm porque a necessidade impõe a urgência de dar vazão ao que as faz iminentes.

Tão logo decidi que iria ao banco, veio à tona um peidinho.

O ar surgiu-me quente e molhado, portanto não foi à toa que percebi que não era um peidinho bobo que me convidava a correr ao banheiro. Ainda com a margarina nas mãos, eu corri para salvar a cueca, o nariz e a vontade de pagar a conta da luz.

Para retornar à manhã de sempre, já o pote de margarina perto do pãozinho cortado nas duas metades, esplêndido, para recomeçar o dia de modo menos traiçoeiro, é mergulhar a cueca em água e sabão.

Sou uma pessoa com entranhas, tenho nervos que me desajustam, passo vergonha, causo vergonha, e seguir nessa ladainha constrange. Aliás, uma vez que até a realidade pode ser cacete, um tédio, um porre de trivialidades mil, prefiro virar a página.

Para virá-la de vez, trago as palavras do poeta Álvaro de Campos: “feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo”.

Se é para ter um deus, escolho o inconsciente, que é um deus que brinca, faz-me desentender comigo. Ainda que trace retas, estabeleça trajetos, trilhe caminhos, muito me revelo idiota; então, vou indo, já de fiofó limpinho, do tanque de casa pra mesa de Dona Cremilda.

Durante o almoço, fui um cara educado: mastiguei de boca fechada; beberiquei meio copo de laranjada; com a mão esquerda cortava o bife e com a direita limpava a boca com o guardanapo; em momento algum apoiei os cotovelos na mesa ou reclamei do sal a mais no ovo; sequer tracei outro prato, porque eu estava satisfeito.

Findo o almoço, passamos à sala.

Contei-lhe o que me ocorrera. Não a poupei dos detalhes; para ser sincero, acentuei a escatologia. Notando-a enojada, não mencionei as luvas que calcei ao pôr a cueca de molho. Percebendo-a incomodada, não perdi a oportunidade de falar que eu derrubei a margarina no vaso, que não hesitei em resgatar o pote, e, constatando que o conteúdo não tinha sido contaminado, achei normalíssimo pôr a margarina na mesa.

― Deus me livre e guarde de pão com manteiga na sua casa!

Eu bem a compreendo, querida amiga, se estou aqui é porque esse deus que se esconde na minha cachola fez-me instrumento da minha salvação, uma vez que foi peidando que consegui livrar-me do diabinho que conspirava para avacalhar o meu dia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de junho de 2025.

domingo, 22 de junho de 2025

Tudo sob controle

 

Tudo sob controle

 

A brisa que eriça os meus pelos não tem muita paciência comigo, é que lhe falta educar-se, moldar-se aos meus sentidos, pois, ainda que eu não deixe de acreditar que ela há de conseguir esfriar minha mente, tenho a cabeça quente, com o calor guarnecido pelo capuz.

O capuz não me protege de mim, que vim subindo, sabendo que ia, caminhando pro alto. Passo a passo, tomando a brisa na cara, a fadiga pesando nas pernas, nem parando pros goles do chá. Não dei respiro: quinze minutos e mais um gole; menos de cem metros e outro golinho bem generoso. Fui nisso, até chegar.

Havia um ano que eu não subia lá. Lembro que lá estive há um ano, porque foi no Corpus Christi. No mesmíssimo feriado de Corpus Christi, faz cinco anos que subo o morro.

Lá do Morro da Figueira, vejo a cidade, passo horas vendo a cidade lá de cima, fico o tempo que ficar. E, até reparo, houve mudanças. Sim, a cidade não para, também estou certo que mudei, que eu mudo. Sei que a realidade, com festas e pesadelos, também me afastou daquele que fui há um ano, mesmo de quem fui ontem pela manhã, eu já sendo outro à tarde, alguém já diverso depois da sesta no sofá.

Continuava igual, embora eu não fosse mais o mesmo, pois o rosto gostou da brisa; senti o friozinho, a brisa pôs eriçados meus pelos.

Estava lá no alto da Figueira, sentado na mureta, curtindo a vista, e sendo curtido pela infusão de chacrona preparada por mim.

Nestes momentos de relaxamento, despido da carapuça de cidadão solícito, satisfeito comigo pelo desprendimento do prosaico, bom é ter balinhas, bom é chupá-las.

Chupando bala, deitado na mureta, os olhos fascinados com o céu. Sem ligar para a cidade lá embaixo e pros minutos passando; a névoa das nuvens fez o céu vir pingar na minha língua.

Não calculo por quanto tempo fiquei boiando na mureta do mirante da Figueira, fiquei porque nem me dei conta que flutuava, fui secando a garrafinha, dispensei achar que não teria mais uma gota, pois havia balas, as balas que chupei, e fui chupando uma a uma, amando chupá-las.

Bem dosado nos desejos, saquei, o contrário do amor não é o ódio, não é a indiferença nem o medo, é a empatia. Ocupar o lugar do outro é atrevimento, é posse de quem eu quero sentir que posso ser, é tomar pra mim outras dores e alegrias, outras satisfação e frustração, outros prazeres e horrores.

Quiçá um dente doa ao morder a goiaba; para apreciar esta carne tão metafisicamente goiaba, vejo a goiabeira.

Ter ficado na Figueira, isolado por horas, aéreo por horas, ficado na brisa. Com a boca, os dentes e as mãos, vendo aquela goiabeira.

Sem o sentimento de viver essa comédia, sem lembrar os ruídos da noite: a embalagem do detergente estralou, o pacote de papel higiênico caiu, e a luz do corredor acendeu-se.

Precisei voltar e cá estou à beira do assombro, pois não imaginava a tevê mostrando a montanha onde mora Zaratustra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2025.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Pela culatra

 

Pela culatra

 

Por radicalismo ético, tomo a iniciativa de pôr frente a frente o polo positivo que adestra as minhas mãos para que eu tanja as pessoas ao ridículo e aquele outro polo, o que amestra a língua para que eu louve sem subterfúgios as pessoas que zombam de mim.

Zombem, mofem, tirem sarro, façam rir quem queira rir das minhas polarizações, porque sou osso, um osso duro, sou desses que trincam, resistem até que haja fratura, justo onde o gesso é inútil, dispensável, é curativo de todo ridículo, posto que o meu espírito tem esqueleto que não cicatriza nem há de cicatrizar-se.

Ridiculamente ético, também quero zombar, mofar, tirar sarro, fazer rir. Comigo rindo, o negócio da piada emperra, estou rindo, a piada fica travada, sigo rindo, a contação chateia, é constrangedora a insistência, eu tento e rio, é tamanha a falta de jeito que viro motivo pra rirem.

Os zombeteiros põem pressão, riem, mas minha mente não verga, não deforma, segue rija. Ela não trincará mesmo que principie a doer. Se for doer, ela doa. A mente que vire doer, doa a valer, pra que cobras e lagartos pululem na saliva.

Polo positivo, saiba que posso me manter ridículo, posso apelar ao riso. Neurótico, apelo à intransigência do polo negativo que encalacra o riso na goela, arranha as cordas vocais, produz uma voz gutural.

Nem que eu pigarreie, ganhei essa voz inilimpável.

Guturalmente ridículo, polo negativo travestido de positivo, o melhor furdunço que a minha cachola pode arrumar pra mim é estabelecer-me como porta-voz de toda gente que se atreve a ridicularizar autoridades quaisquer, sejam elas um pitbull, uma águia ou um tatu-bola.

Tatu-bolinha, polo positivo revestido de positivo, descanso das rixas inglórias, deito o braço forte numa tipoia, pois, adestrado e amestrado, rindo ridiculamente de tão dissimulado, emulo a negatividade.

Pelo humor marxista-grouchiano, vulgarizo a vida, massageio egos alheios. Mal me toco, polo positivo e polo negativo, que ambos repilam-se, se avacalhem, porque meu espírito tem como escalavrar os beijos que não dei e os que não ganhei.

Compreendo-os, todavia não contem comigo que eu opte pelo lado positivo do mundo, dispensando o outro destino.

Pelo meu mau caratismo radical, embrenho na mente selvagem que minha baba acre diz que mofo, tiro onda e gracejo, pois, sei bem, muito bem, que à melhor farra, à melhor festa, à melhor orgia não fui nem hei de ser prestigiado como uma piada, mas engraçada.

Comigo a olhar no espelho, sinto que na mesa estão o copo de café, o sanduíche de salame e as bolachinhas de banana, a cadeira está puxada para o meu desfrute, o que não prevejo é que amanhã haverá mais guerras, outras falcatruas na previdência, outras tantas quizílias a serem desbaratadas.

Com mil e uma insolências, só me resta dizer que, pra já, tem esse PSG X Botafogo, imperdível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de junho de 2025.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Ledo engano

 

Ledo engano

 

Por causa da pista molhada, o ônibus ia lento pela avenida.

Ramona não entrará pela porta, mas eu tenho que seguir em frente, preciso deste emprego. Tenho que ganhar a vida como sempre ganhei, vou seguir trabalhando duro, trabalharei a mais, farei as horas a mais que forem necessárias. Precisado de juízo, trabalharei a mais para não perder o bom senso. Manter a cabeça focada em outra coisa ajuda a esquecer aquela falta. Claro, claro, não farei a desfeita de negar que o dinheiro extra vai ajudar pra caramba, vai dar pra levar as meninas no shopping. Elas tinham a quem puxar, elas têm essa alegria de remediar as dificuldades com blusinhas que usarão só nas festas, então, assim que chegar o Natal, vão me cobrar blusinhas novas, pois elas duas, da noite pro dia, decidiram crescer, andam espichadas.

O ônibus não estava completamente vazio, havia mais lugares que passageiros, que esses nem chegavam a uma dúzia.

Aquele cara, por que ele não senta? Com tanto lugar sobrando, por que não faz como os outros que estão felizes com seus celulares? Será que o malandro está planejando assaltar todo mundo? Eu não deveria ter parado no ponto. É isso, foi erro meu. Está na cara dele que a gente vai ser assaltada. Ele subiu disfarçando, aquele seu boa noite foi coisa de bandido, foi dito só para me enganar, pra que eu não percebesse a malandragem. Ele subiu certo de que assaltará todo mundo, daí que o safado nem faz conta de esconder o rosto. Mesmo de boné e capuz, ele olha pro retrovisor. Tenho que disfarçar que não percebi a arte do que ele pretende. Mas quem fica em pé em ônibus vazio só pode estar tramando coisa ruim. Pelo jeito que ele olha, vamos ser assaltados.

Garoava, e a garoa aumentava a sensação de frio. Fazia oito graus, mas a sensação era de menos, quem sabe fizesse uns seis graus.

Ainda bem que o motorista parou ou eu teria de voltar andando. Se eu tomasse garoa na cachola por mais um minuto, os quilômetros até a minha casa não iriam me dissuadir da caminhada. Quarenta minutos são um esforço danado, claro que são, mas estou muito irritado, tanto estou que o motorista ficar espiando pelo espelhinho é algo que vai me obrigar a ir até ele pra pedir-lhe que pare. Se bem que posso saltar no próximo ponto, uma vez que estão passando mais ônibus nesta altura da avenida. Será melhor pra todo mundo que eu desça, pois não quero confusão, nem comigo nem com ninguém do busão.

A campainha soou porque uma passageira iria descer.

Será que ela não viu o ladrão se preparando pra roubá-la assim que estiverem sozinhos? Será que a infeliz não viu o bandido escondendo a mão na jaqueta? Deus! O que posso fazer pra impedir que ele roube o celular que ela nem guardou na bolsa?

Por trabalhar no turno da noite, ela entrou na lanchonete. Assim que o farol fechou para os carros, o rapaz cruzou a avenida.

Aquela garçonete não era a Ramona.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2025.