Com a árvore inteira para chamar de sua,
o casal de maritacas teve de nidificar no telhado da minha casinha? Com o
abacateiro carregado, as espalhafatosas tinham que tagarelar a manhã todinha? Com
o livro no começo, bem no comecinho, comigo impaciente pra seguir preso à
página dois, o melhor seria eu fechar o romance?
Foi o que fiz: desci do abacateiro;
depus o volume na mesinha; vim pra cadeira, vim balançar na varanda.
Vim num pé, pois a balbúrdia era
irritante.
Tanto eu fui esquentando que fixei a
ideia de que tinha de dar fim àquilo, porque eu tinha uma espingarda de caça.
Bastante importunado pra usar a munição que fosse necessária, eu não me
criticaria por ficar disparando até matar as baderneiras.
Uma pessoa boa, gente que pensa que a
vida é sagrada, mesmo a que tem bico, voz esganiçada e não saiba o quão é enervante
escutar o escarcéu das matracas, faltou ao caçador de mira míope o desfecho,
que, ao primeiro tiro, essas bichinhas escafeder-se-iam.
Por ser racional, compreendo que não é
bom matar maritacas, pois balas não são sagradas; nem é sensato desperdiçar
balas, porque tiros errados são uma grana que podia ser usada para comprar
livro.
Livro não é coisa sagrada, é investimento.
Quando não compro um gorro de lã, a mensagem é que a leitura aquece-me o
coração, a alma, pois um gole de café pode aquecer as mãos que seguram o
romance, a manta sobre as pernas pode manter-me bonitinho durante as horas que
passo na leitura, mas o valor do objeto que me entretém e diverte não há de ser
medido pela dívida em parcelas do meu cartão.
Em dívida com o que não li, peço mais. Quero
comprá-los, empilhá-los na escrivaninha, até a pilha pegar poeira e começar a
pender, tanto que protejo os livros pondo a pilha no guarda-roupa.
Pra ter espaço pros livros, mais e mais eu
doo roupas. Sem hesitar, passo pra frente as bermudas que não usarei. Não
bobeio, pois eu sei que as manhãs têm sido geladas e ninguém será imprudente
para sair de bermuda antes do almoço, pois depois a temperatura sobe e o sol
brilha nas pernocas de fora, um sucesso.
Quando posso ser solidário, eu me
sobressaio. Quando mereço ser aplaudido pelo destaque, eu padeço que invejem.
Quando reconheço a beleza do que faço, aplaudo quem me calunia e difama e
injuria, pois o que alegra o invejoso é incensar, e o sorridente sabe que
merece ser aplaudido e sente que lisonjeiro é ser invejado.
Digo isso porque nem antibiótico cura
minha veneração pelo doutor Fafá, porque Alberlindo Fagundes vive pra arrecadar
fundos.
Sendo justo garantir a liberdade, ele faz
jantares pra que candidatos possam aparecer para pedir voto, pois só tendo
muitos candidatos para haver diferentes opções, diferentes projetos, nomes
diferentes.
Presidindo o partido há mais de quarenta
anos, o doutor Fafá sabe que nunca vai desistir de lutar pela democracia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de julho de 2025.