domingo, 29 de junho de 2025

No ranço fundo

 

No ranço fundo

 

Escuto vozes. As vozes que escuto neste domingo não desejo ouvi-las. Falam alto; são irritantes, não param de falar. Desagrada entendê-las; aborreço-me que as identifico: há uma serra, há martelos.

É triste que o domingo também seja dia pra serrar e martelar.

Os meus demônios gargalham que gargalham, porque eu achei que dormiria até tarde. Achei que dormiria, logo não me achei um bocó.

Ora essa, seu bocó, quem serra e martela em pleno domingo faz o que precisa fazer pra continuar tendo o que fazer na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado.

Mané, quem paga é quem manda, então, que seja feito no domingo o que tem que ser feito durante a semana toda, então, fiquem incluídos domingos e feriados, sejam incluídas as horas a mais que tiverem que ser acrescidas, afinal, quem manda é quem paga, seja na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta e no sábado.

Sem escolha, este pobre precisa de dinheiro pra pagar pelo que faz.

Faço-me mal, pois preciso de micro-ondas pra esquentar a lasanha feita pra micro-ondas; prejudico-me por precisar de esteira pra queimar a lasanha acumulada na pança; leso-me a mim mesmo, porque preciso de extras para preservar-me esbanjador.

Se me mato de trabalhar, é natural que eu descanse? Todavia, se não trabalho não tenho do que descansar? Se eu não trabalho brigarei pra não trabalhar? Será imoral, um acinte, será cuspe na cara de quem trabalha pra ter carnês que lhe permitam acordos e novos acordos, até que venham as penhoras e os arrestos?

Penhoradamente, digo a besta que eu sou porque minha casa não tem micro-ondas. Bem babaca, cobro-me fazer pipoca no micro-ondas, pois preciso correr, preciso ler A Rosa do Povo, Tutameia, As Viagens de Gulliver.

O melhor que este cronista poderia ter feito é ter ido nadar no riacho que não para, uma vez que ter entrado na água fria proporcionaria que eu pegasse o pulso da realidade, uma vez que o real nem liga pro meu sermão vagabundo contra o capitalismo.

Barrar-me de virar profeta, cujo blábláblá mais entedia que mobiliza, é me impedir de ocupar a esquina como se me adentrasse uma arena, eis o meu propósito ao sentar-me pra escrevinhar estas linhas, que dou por dignas de irem aparecendo.

Ora, bocó, isso de achar que posso aprimorar-me enquanto escrevo é uma fantasia boboca, pois tirar o melhor que posso não me dissuade de confiar que a crônica é micro-ondas a quem precisa de micro-ondas.

Em outras palavras, já que confesso crer-me este idiota que melhor me convence a pensar que não corro das vozes que não param, ouço-me, quero compreender-me, mesmo que eu retarde o almoço ao subir na árvore e vire reforçar o que não precisa de pregos novos, porquanto a casa siga estável, sólida.

Como a idiotia incentiva a desentranhar estes meus traços realistas, acho-me neste retrato em que me dou por obsoleto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2025.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Fantasmagórico

 

Fantasmagórico

 

O ignorante que eu sou fica estressado quando me irrita uma coisa que podia ser evitada. Por exemplo, haver fezes de cachorro no jardim de casa é coisa que, de jeito algum, não podia me aparecer pela frente quando vou apanhar os jornais. Pelo xucro que nem tem como segurar o azedume, tenho sempre que responder.

O abestado de tripas sensíveis não espuma de raiva porque sei que o melhor que posso oferecer à paz na vizinhança é deixar que meu cão faça merda no jardim da casa ao lado.

Acho digna tal retribuição diplomática: quem faz cocô na grama dos outros que, na grama própria, também cate o cocô dos outros.

A imagem que passo, agindo assim, é que sou uma pessoa amarga, alguém de mal com o mundo, um sujeito sem malemolência, um fulano que não pede para sair de briga que beltrano começou.

Sicrano que me lê, você já deve estar entendendo o tipo de vizinho que vive me atazanando, me tirando do sério, forçando-me a perder a paciência, a razão e os bons modos.

Tirando a estratégia de desestabilizar-me com as fezes do seu cão, o danado do camarada é o tipo de gente sobre a qual não me sinto em condições de condená-lo pelo que seja.

Ou seja, é o pior vizinho que eu conheço.

Azucrinante pra caraca é eu não ter como recriminá-lo por causa da religião, da opção política, da sexualidade, do poder aquisitivo, pois ele é daqueles que sorriem ao cumprimentar e só. Nada de sorrisinhos que façam vê-lo como sacana, salafrário, cafajeste, crápula, um biltre, uma pessoa desprezível, duas caras.

Tenho que me contentar em xingá-lo enquanto cato a merda que o seu cachorro fez, e mais nada.

Nada com nada, zero.

Quero entender a equação, ainda que em meu auxílio eu conte com os recursos que o bom senso pode apresentar quando sou provocado. Pois é, tentarei pensar sem que a irritação estrague mais o que a minha índole de jeca simplesmente diz ser um legado cultural.

Vamos ao nada em questão.

Abro uma caixa de sapato e ela está vazia, digo que não tem nada dentro. Com o sapato na caixa, digo que não está faltando nada. Se o sapato é presente que não agrada, melhor seria não ter ganhado nada. Ou seja, nada é aquilo que falta, aquilo que não está sobrando e aquilo que se recusa.

Já o zero?

O zero não é nada. No contexto, zero é verossímil, pois o zero não pode ser dividido, é impossível fracioná-lo, é surreal a possibilidade de convertê-lo em número irracional. O zero na conta como surreal com valor irracional é dedução caótica, uma vez que o zero criaria um efeito fantasmagórico, bizarro, estranhíssimo, fantástico.

Como não sou um zero à esquerda, na biblioteca pública um cartaz anuncia uma homenagem àquele que não é nenhum outro que o dono dos cães que defecavam no jardim.

Ser lembrado pelos vinte anos de morte contraria o Ivan Lessa, que estabeleceu que a cada quinze anos o brasileiro apaga o que ocorreu nos últimos quinze anos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de junho de 2025.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Certeza escorreita

 

Certeza escorreita

 

À toa, assim que abri a geladeira, fugiu-me o que ia pegar, portanto não foi à toa que vi na mesa o pãozinho cortado nas duas metades, o que eu perdi da precisão, portanto à toa, era a margarina.

Assim que fechei a porta da geladeira, vi a conta de luz, vi o dia do vencimento, portanto não foi à toa que corri a ponta do indicador sobre a folhinha, assim terei banco, assim não poderei ficar à toa.

Sou uma pessoa simples, de felicidades frugais, gentil comigo, mas seguir retratando-me até encabula, mas há flatulências que vêm dessa dorzinha repentina nas entranhas, vêm porque a necessidade impõe a urgência de dar vazão ao que as faz iminentes.

Tão logo decidi que iria ao banco, veio à tona um peidinho.

O ar surgiu-me quente e molhado, portanto não foi à toa que percebi que não era um peidinho bobo que me convidava a correr ao banheiro. Ainda com a margarina nas mãos, eu corri para salvar a cueca, o nariz e a vontade de pagar a conta da luz.

Para retornar à manhã de sempre, já o pote de margarina perto do pãozinho cortado nas duas metades, esplêndido, para recomeçar o dia de modo menos traiçoeiro, é mergulhar a cueca em água e sabão.

Sou uma pessoa com entranhas, tenho nervos que me desajustam, passo vergonha, causo vergonha, e seguir nessa ladainha constrange. Aliás, uma vez que até a realidade pode ser cacete, um tédio, um porre de trivialidades mil, prefiro virar a página.

Para virá-la de vez, trago as palavras do poeta Álvaro de Campos: “feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo”.

Se é para ter um deus, escolho o inconsciente, que é um deus que brinca, faz-me desentender comigo. Ainda que trace retas, estabeleça trajetos, trilhe caminhos, muito me revelo idiota; então, vou indo, já de fiofó limpinho, do tanque de casa pra mesa de Dona Cremilda.

Durante o almoço, fui um cara educado: mastiguei de boca fechada; beberiquei meio copo de laranjada; com a mão esquerda cortava o bife e com a direita limpava a boca com o guardanapo; em momento algum apoiei os cotovelos na mesa ou reclamei do sal a mais no ovo; sequer tracei outro prato, porque eu estava satisfeito.

Findo o almoço, passamos à sala.

Contei-lhe o que me ocorrera. Não a poupei dos detalhes; para ser sincero, acentuei a escatologia. Notando-a enojada, não mencionei as luvas que calcei ao pôr a cueca de molho. Percebendo-a incomodada, não perdi a oportunidade de falar que eu derrubei a margarina no vaso, que não hesitei em resgatar o pote, e, constatando que o conteúdo não tinha sido contaminado, achei normalíssimo pôr a margarina na mesa.

― Deus me livre e guarde de pão com manteiga na sua casa!

Eu bem a compreendo, querida amiga, se estou aqui é porque esse deus que se esconde na minha cachola fez-me instrumento da minha salvação, uma vez que foi peidando que consegui livrar-me do diabinho que conspirava para avacalhar o meu dia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de junho de 2025.

domingo, 22 de junho de 2025

Tudo sob controle

 

Tudo sob controle

 

A brisa que eriça os meus pelos não tem muita paciência comigo, é que lhe falta educar-se, moldar-se aos meus sentidos, pois, ainda que eu não deixe de acreditar que ela há de conseguir esfriar minha mente, tenho a cabeça quente, com o calor guarnecido pelo capuz.

O capuz não me protege de mim, que vim subindo, sabendo que ia, caminhando pro alto. Passo a passo, tomando a brisa na cara, a fadiga pesando nas pernas, nem parando pros goles do chá. Não dei respiro: quinze minutos e mais um gole; menos de cem metros e outro golinho bem generoso. Fui nisso, até chegar.

Havia um ano que eu não subia lá. Lembro que lá estive há um ano, porque foi no Corpus Christi. No mesmíssimo feriado de Corpus Christi, faz cinco anos que subo o morro.

Lá do Morro da Figueira, vejo a cidade, passo horas vendo a cidade lá de cima, fico o tempo que ficar. E, até reparo, houve mudanças. Sim, a cidade não para, também estou certo que mudei, que eu mudo. Sei que a realidade, com festas e pesadelos, também me afastou daquele que fui há um ano, mesmo de quem fui ontem pela manhã, eu já sendo outro à tarde, alguém já diverso depois da sesta no sofá.

Continuava igual, embora eu não fosse mais o mesmo, pois o rosto gostou da brisa; senti o friozinho, a brisa pôs eriçados meus pelos.

Estava lá no alto da Figueira, sentado na mureta, curtindo a vista, e sendo curtido pela infusão de chacrona preparada por mim.

Nestes momentos de relaxamento, despido da carapuça de cidadão solícito, satisfeito comigo pelo desprendimento do prosaico, bom é ter balinhas, bom é chupá-las.

Chupando bala, deitado na mureta, os olhos fascinados com o céu. Sem ligar para a cidade lá embaixo e pros minutos passando; a névoa das nuvens fez o céu vir pingar na minha língua.

Não calculo por quanto tempo fiquei boiando na mureta do mirante da Figueira, fiquei porque nem me dei conta que flutuava, fui secando a garrafinha, dispensei achar que não teria mais uma gota, pois havia balas, as balas que chupei, e fui chupando uma a uma, amando chupá-las.

Bem dosado nos desejos, saquei, o contrário do amor não é o ódio, não é a indiferença nem o medo, é a empatia. Ocupar o lugar do outro é atrevimento, é posse de quem eu quero sentir que posso ser, é tomar pra mim outras dores e alegrias, outras satisfação e frustração, outros prazeres e horrores.

Quiçá um dente doa ao morder a goiaba; para apreciar esta carne tão metafisicamente goiaba, vejo a goiabeira.

Ter ficado na Figueira, isolado por horas, aéreo por horas, ficado na brisa. Com a boca, os dentes e as mãos, vendo aquela goiabeira.

Sem o sentimento de viver essa comédia, sem lembrar os ruídos da noite: a embalagem do detergente estralou, o pacote de papel higiênico caiu, e a luz do corredor acendeu-se.

Precisei voltar e cá estou à beira do assombro, pois não imaginava a tevê mostrando a montanha onde mora Zaratustra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2025.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Pela culatra

 

Pela culatra

 

Por radicalismo ético, tomo a iniciativa de pôr frente a frente o polo positivo que adestra as minhas mãos para que eu tanja as pessoas ao ridículo e aquele outro polo, o que amestra a língua para que eu louve sem subterfúgios as pessoas que zombam de mim.

Zombem, mofem, tirem sarro, façam rir quem queira rir das minhas polarizações, porque sou osso, um osso duro, sou desses que trincam, resistem até que haja fratura, justo onde o gesso é inútil, dispensável, é curativo de todo ridículo, posto que o meu espírito tem esqueleto que não cicatriza nem há de cicatrizar-se.

Ridiculamente ético, também quero zombar, mofar, tirar sarro, fazer rir. Comigo rindo, o negócio da piada emperra, estou rindo, a piada fica travada, sigo rindo, a contação chateia, é constrangedora a insistência, eu tento e rio, é tamanha a falta de jeito que viro motivo pra rirem.

Os zombeteiros põem pressão, riem, mas minha mente não verga, não deforma, segue rija. Ela não trincará mesmo que principie a doer. Se for doer, ela doa. A mente que vire doer, doa a valer, pra que cobras e lagartos pululem na saliva.

Polo positivo, saiba que posso me manter ridículo, posso apelar ao riso. Neurótico, apelo à intransigência do polo negativo que encalacra o riso na goela, arranha as cordas vocais, produz uma voz gutural.

Nem que eu pigarreie, ganhei essa voz inilimpável.

Guturalmente ridículo, polo negativo travestido de positivo, o melhor furdunço que a minha cachola pode arrumar pra mim é estabelecer-me como porta-voz de toda gente que se atreve a ridicularizar autoridades quaisquer, sejam elas um pitbull, uma águia ou um tatu-bola.

Tatu-bolinha, polo positivo revestido de positivo, descanso das rixas inglórias, deito o braço forte numa tipoia, pois, adestrado e amestrado, rindo ridiculamente de tão dissimulado, emulo a negatividade.

Pelo humor marxista-grouchiano, vulgarizo a vida, massageio egos alheios. Mal me toco, polo positivo e polo negativo, que ambos repilam-se, se avacalhem, porque meu espírito tem como escalavrar os beijos que não dei e os que não ganhei.

Compreendo-os, todavia não contem comigo que eu opte pelo lado positivo do mundo, dispensando o outro destino.

Pelo meu mau caratismo radical, embrenho na mente selvagem que minha baba acre diz que mofo, tiro onda e gracejo, pois, sei bem, muito bem, que à melhor farra, à melhor festa, à melhor orgia não fui nem hei de ser prestigiado como uma piada, mas engraçada.

Comigo a olhar no espelho, sinto que na mesa estão o copo de café, o sanduíche de salame e as bolachinhas de banana, a cadeira está puxada para o meu desfrute, o que não prevejo é que amanhã haverá mais guerras, outras falcatruas na previdência, outras tantas quizílias a serem desbaratadas.

Com mil e uma insolências, só me resta dizer que, pra já, tem esse PSG X Botafogo, imperdível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de junho de 2025.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Ledo engano

 

Ledo engano

 

Por causa da pista molhada, o ônibus ia lento pela avenida.

Ramona não entrará pela porta, mas eu tenho que seguir em frente, preciso deste emprego. Tenho que ganhar a vida como sempre ganhei, vou seguir trabalhando duro, trabalharei a mais, farei as horas a mais que forem necessárias. Precisado de juízo, trabalharei a mais para não perder o bom senso. Manter a cabeça focada em outra coisa ajuda a esquecer aquela falta. Claro, claro, não farei a desfeita de negar que o dinheiro extra vai ajudar pra caramba, vai dar pra levar as meninas no shopping. Elas tinham a quem puxar, elas têm essa alegria de remediar as dificuldades com blusinhas que usarão só nas festas, então, assim que chegar o Natal, vão me cobrar blusinhas novas, pois elas duas, da noite pro dia, decidiram crescer, andam espichadas.

O ônibus não estava completamente vazio, havia mais lugares que passageiros, que esses nem chegavam a uma dúzia.

Aquele cara, por que ele não senta? Com tanto lugar sobrando, por que não faz como os outros que estão felizes com seus celulares? Será que o malandro está planejando assaltar todo mundo? Eu não deveria ter parado no ponto. É isso, foi erro meu. Está na cara dele que a gente vai ser assaltada. Ele subiu disfarçando, aquele seu boa noite foi coisa de bandido, foi dito só para me enganar, pra que eu não percebesse a malandragem. Ele subiu certo de que assaltará todo mundo, daí que o safado nem faz conta de esconder o rosto. Mesmo de boné e capuz, ele olha pro retrovisor. Tenho que disfarçar que não percebi a arte do que ele pretende. Mas quem fica em pé em ônibus vazio só pode estar tramando coisa ruim. Pelo jeito que ele olha, vamos ser assaltados.

Garoava, e a garoa aumentava a sensação de frio. Fazia oito graus, mas a sensação era de menos, quem sabe fizesse uns seis graus.

Ainda bem que o motorista parou ou eu teria de voltar andando. Se eu tomasse garoa na cachola por mais um minuto, os quilômetros até a minha casa não iriam me dissuadir da caminhada. Quarenta minutos são um esforço danado, claro que são, mas estou muito irritado, tanto estou que o motorista ficar espiando pelo espelhinho é algo que vai me obrigar a ir até ele pra pedir-lhe que pare. Se bem que posso saltar no próximo ponto, uma vez que estão passando mais ônibus nesta altura da avenida. Será melhor pra todo mundo que eu desça, pois não quero confusão, nem comigo nem com ninguém do busão.

A campainha soou porque uma passageira iria descer.

Será que ela não viu o ladrão se preparando pra roubá-la assim que estiverem sozinhos? Será que a infeliz não viu o bandido escondendo a mão na jaqueta? Deus! O que posso fazer pra impedir que ele roube o celular que ela nem guardou na bolsa?

Por trabalhar no turno da noite, ela entrou na lanchonete. Assim que o farol fechou para os carros, o rapaz cruzou a avenida.

Aquela garçonete não era a Ramona.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2025.

domingo, 15 de junho de 2025

A próxima dança

 

A próxima dança

 

Considerando que a minha patroa acha que sou um cara inteligente por haver-me casado com ela, tenho este espírito para entender como é que a realidade manobra no sentido do convencimento que estou na hora certa, no lugar certo, preparado para fazer a coisa certa, certezas que não me saem do pensamento nem quando bobeio, duvidando que o discernimento se deixa manobrar pelo demoniozinho que zanza pela cachola adentro.

Considerando que a minha cachola goza de mim quando não corro do confronto, enfrento-me, abro a porta, passo à rua, não recuo quando as pessoas se aproximam, puxam papo, falam do clima, da política, do preço do café, do último segredo contado só a mim, pois sou confiável, sou um cara que sinto as coisas antes mesmo que aconteçam, sou um sujeito que conhece a vida pelo que a vida é, sem discriminações, sem piadinhas maldosas, sem humilhar até quem mereça ser discriminado, gozado e ofendido, porque confirmo a inteligência que a minha patroa viu em mim que eu a possuía.

Considerando que o meu caráter obriga-me a confirmar a honradez que tenho em mim desde que nasci, sempre que vejo alguém ser dado como idiota, banco o retardado, embaralho o pensamento, digo e nego o que eu digo, confundo, me confundo, trato de jogar com as palavras, pois muito me honra fazer de mim esse veículo da solidariedade, uma vez que sou uma pessoa que se incomoda e age, que não se conforma em testemunhar vexames.

Considerando a retidão do meu caráter, já que eu não deixo passar barato, cobro respeito a quem não quer respeitar e exijo que o humilde seja tratado como a pessoa humilde que ela é, mostro que é importante tratar a pessoa como ela é, sem distorcer a realidade dos fatos, porque o mundo dá voltas.

Considerando a sabedoria da minha patroa, trato de arrumar briga com gente arrogante que pensa que é melhor que todo mundo, se hoje ela se acha a tal porque pode humilhar, amanhã será humilhada, e terá de sofrer o revide porque a realidade não poupa nem mesmo quem se acha o tal, ainda que este arrogante invista em contra-atacar.

Aqui uma citação de uma crônica do António Lobo Antunes diz que isso de “esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas”.

Considerando que a cerveja gelada da noite passada vira o ovo frito do almoço que o salário consegue bancar, peço respeito, pois a patroa sabe que não sou babaca para não sacar o que se dá com gente que nem eu, que é a satisfação, pois não cometo a sovinice de privá-la do cartão para que o sapato combine com a bolsa a ornar com o vestido, todos novos, novíssimos, lindos, lindíssimos, uma vez que nossa bebê merece que a sua mãe esteja chique no baile em que a nossa joia rara desabrochará para a cidade, pois a menina não é mais uma menininha, é pérola cujo brilho mostra o quanto nossa mocinha deve ser honrada, agora como debustante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2025.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Mente romântica

 

Mente romântica

 

Faz sol, mas está frio. A alvorada não desmente as previsões, que o dia amanheceria com temperatura baixa. Nove graus lá fora, trinta e seis dentro dele. Faz sol, está frio, mas nem por isso Olegário deixa de ir de sunguinha à academia, como sói vestir-se nos dias em que vai à piscina da academia.

Faz sol, mas está frio. A alvorada garante outro dia em que Olegário sequer cogita de faltar aos exercícios na piscina da academia, pois é vero que a hidroginástica fá-lo-á sentir-se bem, com disposição, fá-lo-á crer-se afável, com aborrecimentos à parte.

Com o sentimento de doar-se com afabilidade às pessoas, Olegário sequer cogita de pensar que as pessoas têm obrigação de agradecê-lo por seu desprendimento, na sua fraternidade à gente tão simpática, por esta gente tão atenta que Olegário sequer cogita de dispensar-se da hidroginástica três vezes na semana para que o sangue permaneça nos trinta e seis graus, até porque a alvorada nem ousou desmentir as previsões de que os aborrecimentos não falhariam.

Com o sentimento de ser uma pessoa acolhida pela generosidade dos amigos, Olegário encara a cidade há sessenta anos, nem por isso ele cogita de desconfiar dessas mulheres que o convidam para um chá depois da hidroginástica, embora elas nunca o convidem para feijoada, caipirosca e mazurcas chopinianas num sábado.

Uma vez que as mulheres da academia nunca o convidam para um sabadão de caipiroscas depois de um cineminha, Olegário, de segunda a segunda, vai à missa da aurora, às seis em ponto, que é para esperar aquela viuvinha nos seus trinta e seis anos, cuja charmosa viuvez saiu outro dia no jornal, depois do sétimo dia do passamento do esposo.

Uma vez que a viuvinha de trinta e seis anos fá-lo sentir-se solidário, o homem dentro dele não teme uma caipirosca, portanto, assim que a missa acabar, ele ficará à entrada da igreja, esperará que ela saia, pois Olegário a convidará pruma pizza de atum, pois atum e vodca dão um par perfeito, ou ele sequer cogitaria de convidá-la para uma quinta-feira que poderá ser uma quinta-feira sensacional, não pela caipirosca, não pela pizza de atum, não pela noite fria que a previsão diz que será, só pela oportunidade de Olegário ser uma pessoa que sabe escutar o que uma viuvinha de trinta e seis anos tem a dizer, pois Olegário é bastante fraterno para manter a mente em trinta e seis graus.

Olegário a convidará para sentar-se, mas não puxará a cadeira nem recusará dividir a conta, pois o homem repaginado que aprecia os dias frios do outono não tem vergonha de ir de sunguinha à hidroginástica, conquanto a viuvinha de trinta e seis anos nem pretenda entusiasmá-lo com suas elegâncias.

Olegário, meu lindo, você é outro coitado a confiar que o fio da vida enovela-se de tal monta para que o seu objeto de desejo tanto o alegre de haver-se um amor numa sunguinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de junho de 2025.

terça-feira, 10 de junho de 2025

O pirralho Manuel

 

O pirralho Manuel

 

Houve um tempo em que o velho tinha apenas cinco anos, era uma infância simples porque as suas vontades eram irrealizáveis.

Não poderia ter um pônei, uma vez que, sem que a gente soubesse os motivos dele atacar, o bicho escoiceava. Ficava proibido de nadar no rio, pois do lado de lá vivia uma gente que vendia carvão de árvore queimada. Também estava impedido de jogar bola, pois a garotada da bola era herdeira de gente que assava carnes, não pizzas.

Pra dor na espinhela, dor nas ancas, dor nos pés, um homem gritou que tinha garrafadas. Com os gritos, aquela revoada de pombos trouxe à lembrança os dias que não ficariam melhores se tirados do passado, porque o esquecido merece permanecer esquecido quando os pombos arrevoam.

O velho estava de costas para a rua, sentado sozinho, bebendo de gole em gole, sem apertar o nariz porque fosse amarga a beberagem; bebericava devagar porque apreciava, que não era nenhuma poção de poderes trágicos, era tão somente um suco.

Mexendo com o canudinho de quando em quando, o velho bebia o suco; sem ninguém nas mesas próximas, não queria papear nem com os retratos na parede do fundo da lanchonete.

Se reconhecesse alguém, também poderia ser reconhecido, porque teve cinco anos, aqueles cinco anos que a revoada dos pombos os fez renascidos.

Se fosse reconhecido, sairia. Pra não negar a dor, pra não sucumbir ao peso da angústia, deixaria de beber aquele suco, sairia. Não fugiria da conta nem do remorso.

Se tivesse pedido leite, sofreria um bocado, só um gole provocaria estrago, o azedaria pelo resto do dia, o perturbaria, não iria se desfazer do pavor, apenas pra senti-lo como um pavor a ser desfeito.

A vizinha nunca soube e por ele, ao menos, nunca haveria de saber que naquele dia, quando ele tinha cinco anos, ela não soube que não foi ele quem arrumou aquilo à porta da cozinha.

A mulher que enfartou ao dar com as três velas acesas nunca soube que tinha sido outro menino, um que gostava de chutar bola.

O mal não se esgota enquanto uma criança gargalha, tampouco se arrefece enquanto ela sorri, porque nem o riso nem a alegria retratam a perversidade de quem pouco se sabe ingênuo, inocente, na meninice dos cinco anos, que gente má também pode ter cinco anos.

A vizinha enfartada não viu as Três Marias, ela viu uma vela preta, uma vermelha e uma branca. Ela não sabia que a morte pudesse ser repentina, abrupta e dolorosa, que o seu peito iria doer de tal modo que o seu olhar quedaria baço e, estranhamente, seus olhos cegariam.

Às vezes, assombra que tudo seja tão súbito.

Como explicar que um menino poderia atentar contra outra criança? Como esquecer que um pirralho de cinco anos acusaria outro menino? Por escafeder-se, perdoaria àquele fedelho?

Aqueloutro não queria a dor, mas agora este Manuel, de costas pros pombos revoando, deseja suco de manga feito com leite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de junho de 2025.

domingo, 8 de junho de 2025

Benditas águas

 

Benditas águas

 

Gosto de pescar, entretanto há meses não pesco. As circunstâncias da minha vida impedem-me de ir, mas não desanimo, acalento que irei à represa assim que surgir uma brecha. Pescarei sem sentir culpa por postergar o que seja incontornável, porque a cabeça precisa praticar o que ventila o pensamento. Pegarei do tempinho que há de ser pra mim, vou deixá-lo que me fisgue, sentarei na canoa que alugarei, escolherei a isca, verei o anzol afundar no espelho d’água, acharei bom, isso fará bem. À margem das frustrações, sem encasquetar, pescarei enquanto a minha bunda aguentar.

Ora, gostar de pescar não supõe ter tempo para isso.

Tanto falta esse sossego que, entre cafezinhos e becos sem saída, encarando o teto, vem à mente que estou de boné, a garoa não penetra a japona; sem ninguém a ditar o que precisa ser feito, o que tenho que fazer, é boa coisa ficar sozinho na canoa, no meio da represa; cercado de mansidão por todos os lados, sentindo a placidez, não preciso achar que controlo o trabalho dos pulmões; a cada vez que não penso no que sinto por estar no meio da represa, longe dos problemas, estar a tantos quilômetros dos boletos, das filas, do arroz com feijão sem refrigerante, é bom ficar longe do gás do refri; não ter que arrotar o gás é ótimo.

É óbvio que adoro pescar, tanto que não pesco faz um ano, porque o ano passa rápido; esse passou que mal percebi que o arroz e o feijão andaram vindo guarnecidos de repolho cozido, mal reparei na minha impaciência com gente que tem o costume de passar na frente de todo mundo, que este ano acumulado tinha feito bem ao meu sono; dormir bem me faz ir de carro à padaria; ainda que o farol do cruzamento viva quebrado, irei e voltarei sem arranhão algum.

Não preciso me enganar; isso de improvisar, essa sanha de arrumar uma pescaria pra ontem, a promessa que me fiz tem que ser lembrada justamente quando a vontade de respeitar-me é atacada por uma força que conhece os atalhos da minha cachola, mas prometi que iria pescar apenas quando eu não fizesse a pressão subir.

No último domingo do primeiro mês que estava sem pescar, quase quebrei a promessa, quase fui pescar porque todo domingo ia pescar, mas consegui me segurar, tanto foi que enchi a cara.

Veio o segundo mês, quase quebrei a rotina de tomar um porre sem querer tomá-lo, falei asneiras, furei a fila do caixa, comi uma porção de provolone, mal lembrei das pescarias que não fiz.

Dispenso pensar, pego o carro e vou à padaria; dispenso pensar na necessidade de estar perto das pessoas; que tenha gente falando sem parar, nem preciso da tevê ligada; ainda que não haja precisão de estar perto da TV, não me amofina a percepção dos estímulos do momento: recebo os perdigotos e reconheço os borborigmos.

A melhor pescaria que eu não fiz, neste ano, devo-a ao garçom da padaria, cuja neta vai sendo batizada nas águas da represa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2025.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um passeio aleatório

 

Um passeio aleatório

 

A cidade está silenciosa. Desde que acordei, tenho ouvido um carro ou outro passar. Sim, de quando em quando, ouço vozes, vou à janela e vejo um rosto ou outro de gente conhecida.

Faz horas que acordei, mas o estalo só veio agora, pois foi só agora que percebi que o silêncio das ruas não é preocupante.

Não estou preocupado, pois não creio que as pessoas tenham sido abduzidas quando estavam dentro dos seus carros, prontas para pegar a estrada, para irem à praia ou passarem o dia na capital.

Abduções têm espalhafato, há luzes fortes, motores fazem barulhos esquisitos, surgem máquinas que têm formato de charuto, aí desce um raio, então, adeus vaquinhas, tchau tchau menina de maria-chiquinha, até mais ver guarda esbaforido.

Tal espécie de abdução costuma me assustar, obrigando a acordar e correr pro meio da rua, mas não moro no campo, meninas não usam maria-chiquinha nem policial faz ronda sozinho.

Com a realidade vigorando, a rua de casa revela-se esvaziada, sem a azáfama das pessoas que colaboram pra realidade seguir vigorando; mesmo eu, é real que não estou assombrado nem estressado.

Curioso, vou ver na folhinha que dia é hoje, se é uma data especial, mas a terça-feira da folhinha é um dia comum.

Ai caramba, esqueci que hoje o feriado é local.

Quero aproveitar o feriado, vou sair, eu caminharei sem rumo certo, zanzarei ao sabor dos olhos, das pernas, dos ouvidos, porque me darei o prazer de andar sem pressa, de vagar por aí porque me darei tempo, farei com que o dia me seja único, que este dia, sem nada de especial, quero que a mim ele se torne inesquecível.

Daqui a sei lá quantos anos, a memória surpreenderá, me lembrarei que gostei de vivê-lo, tanto que o recordarei, que este dia foi bom.

É feriado, que dia bom para fazer coisa errada. Quando faço coisas erradas, meu bem-estar aumenta. Quando quero aumentar meu apego à vida, menos quero dar ao mundo o espetáculo de sempre.

Sei que é errado agir como se o mundo enxergasse o quanto posso ser extraordinário. Sei que é certo esperar que me tratem como alguém fora dos padrões. Sei, sim, sou uma pessoa sem igual, só preciso que me permitam mostrar como posso ser de verdade.

Feriado existe para que a gente revele o quanto o mundo não nota o quanto é míope, portanto vou à rua, quero me mostrar sem medo.

Me anima querer aproveitar o dia ainda que peçam para descer da mangueira da praça, mas, só depois de ter chupado a manga que me fez subir pelos galhos, eu pulo.

Entusiasmam-me as águas, pulo da ponte, nado, boio, deixo que a correnteza me leve, mas o dono da casa manda que eu saia, que deixe a propriedade, eu aja com respeito, porque as suas filhas não precisam assistir à pessoa nadando como se o rio não estivesse frio o bastante pra fazê-la tiritar, suplicar pelas roupas secas que eu não peço.

Só porque está chovendo, precisa atiçar os cachorros?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de junho de 2025.