Escuto vozes. As vozes que escuto neste
domingo não desejo ouvi-las. Falam alto; são irritantes, não param de falar.
Desagrada entendê-las; aborreço-me que as identifico: há uma serra, há
martelos.
É triste que o domingo também seja dia pra
serrar e martelar.
Os meus demônios gargalham que gargalham,
porque eu achei que dormiria até tarde. Achei que dormiria, logo não me achei
um bocó.
Ora essa, seu bocó, quem serra e martela
em pleno domingo faz o que precisa fazer pra continuar tendo o que fazer na
segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado.
Mané, quem paga é quem manda, então, que
seja feito no domingo o que tem que ser feito durante a semana toda, então,
fiquem incluídos domingos e feriados, sejam incluídas as horas a mais que
tiverem que ser acrescidas, afinal, quem manda é quem paga, seja na segunda, na
terça, na quarta, na quinta, na sexta e no sábado.
Sem escolha, este pobre precisa de
dinheiro pra pagar pelo que faz.
Faço-me mal, pois preciso de micro-ondas
pra esquentar a lasanha feita pra micro-ondas; prejudico-me por precisar de esteira
pra queimar a lasanha acumulada na pança; leso-me a mim mesmo, porque preciso de
extras para preservar-me esbanjador.
Se me mato de trabalhar, é natural que eu
descanse? Todavia, se não trabalho não tenho do que descansar? Se eu não
trabalho brigarei pra não trabalhar? Será imoral, um acinte, será cuspe na cara
de quem trabalha pra ter carnês que lhe permitam acordos e novos acordos, até
que venham as penhoras e os arrestos?
Penhoradamente, digo a besta que eu sou
porque minha casa não tem micro-ondas. Bem babaca, cobro-me fazer pipoca no
micro-ondas, pois preciso correr, preciso ler A Rosa do Povo, Tutameia, As
Viagens de Gulliver.
O melhor que este cronista poderia ter
feito é ter ido nadar no riacho que não para, uma vez que ter entrado na água
fria proporcionaria que eu pegasse o pulso da realidade, uma vez que o real nem
liga pro meu sermão vagabundo contra o capitalismo.
Barrar-me de virar profeta, cujo
blábláblá mais entedia que mobiliza, é me impedir de ocupar a esquina como se
me adentrasse uma arena, eis o meu propósito ao sentar-me pra escrevinhar estas
linhas, que dou por dignas de irem aparecendo.
Ora, bocó, isso de achar que posso
aprimorar-me enquanto escrevo é uma fantasia boboca, pois tirar o melhor que
posso não me dissuade de confiar que a crônica é micro-ondas a quem precisa de
micro-ondas.
Em outras palavras, já que confesso
crer-me este idiota que melhor me convence a pensar que não corro das vozes que
não param, ouço-me, quero compreender-me, mesmo que eu retarde o almoço ao subir
na árvore e vire reforçar o que não precisa de pregos novos, porquanto a casa siga
estável, sólida.
Como a idiotia incentiva a desentranhar
estes meus traços realistas, acho-me neste retrato em que me dou por obsoleto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de junho de 2025.