quinta-feira, 24 de abril de 2025

Tutti buona gente

 

Tutti buona gente

 

Eu comia uma maçã quando a vi. Ao lado da caçamba, exibindo um rabo de cavalo em vez das costumeiras carapinhas ensebadas, trajava calças e não a bermuda de praxe, havia tanto que a figura não aparecia de banho tomado. No beco, porém, Taborda continuava descalço.

Convidei, acenando, que viesse até minha casa, e ele veio.

Nem bem sentou-se, balançando-se, Taborda começou a assoviar, “sonho meu” para frente, “sonho meu” pra trás, “vai buscar” para frente, “quem mora longe” pra trás e, olhando para a rua, “sonho meu”.

Deixei-o nisso, que balançasse, assoviasse, sonhasse; com sonho bom indo e sonho bom vindo, assim desejoso que ele calçasse um dos coturnos que fui buscar, eu voltei.

― Seu Rodrigues, o senhor é uma boa pessoa.

Ele pegou o par usado.

― Justamente, Taborda, a ideia é essa, que o Seu Rodrigues é uma boa pessoa, pois ele torceu pra que você pegasse o par usado. E sabe por que ele torceu pra você escolher o coturno mais barato?

― O senhor pensa lá na frente, hein!

― Adivinhou, né? Pois ele se preocupa com você. O Seu Rodrigues sabe que se tivesse pegado o coturno novo, você faria mais grana.

― Seu Rodrigues, o senhor me comove com sua fraternidade, pois eu teria mais grana pra torrar lá com aquelas paradas.

― Taborda, você iria beber, fumar e cheirar, sabendo que o coturno extra estaria aqui chamando que você voltasse, viesse apoderar-se do produto novinho em folha.

― E o senhor, Seu Rodrigues, a sua boa pessoa continuaria aqui, rezando para eu fazer mais dinheiro com este produto novinho.

― Seu Rodrigues, Taborda, é uma boa pessoa e toda boa pessoa é gente de confiança, gente que não trai a esperança.

― Sim, Seu Rodrigues, creio que o senhor não faria o desplante de entregar o coturno à gente cobiçosa.

― Pois assim será, meu chapa, assim será.

Amarrando os cadarços de tal modo que o pescoço impediria de o coturno acabar perdido numa quebrada qualquer, Taborda disse:

― Pra não deixar fedido, nem vou calçar.

― Espere, espere. O Seu Rodrigues vai te arrumar uma sacolinha, assim ninguém terá a cobiça de roubar-lhe o objeto valioso.

― Obrigado, obrigadinho.

― Pra agilizar a coisa toda, por que você não vai de bicicleta? Olha ali aquela magrela dando sopa.

― Boa ideia, Seu Rodrigues, vou pedalando.

― Mas, atenção! Use, faça o que tem que fazer, mas não venda a bicicleta porque ela não é sua, viu?

― Não sou ladrão, Seu Rodrigues. Só vou usar para ganhar tempo. Depois, eu retornarei e porei o camelo no lugar.

― Para não complicar seu lado, Taborda, pegue esta corrente com cadeado pra quando você tornar a prendê-lo à lixeira.

― Lá vou eu, pois não tenho tempo a perder, e a hora é essa.

Mal o Taborda virou a esquina, Seu Rodrigues sentou-se na cadeira da varanda e, balançando-se, passou a assobiar: “mai tutti buone” para trás, “tutti buone” pra frente, “tutti buona” para trás e “gente” pra frente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de abril de 2025.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Dois cigarros, um café

 

Dois cigarros, um café

 

Diz a estante de livros:

“Ao fumar, ele não solta anéis que esvaeçam na direção do teto, ele tosse. Porque não sabe tragar, insiste. Fuma três maços por dia, e vive tossindo, vive para pigarrear. De fato, suas escapadelas não são para fumar, são para tossir sem se encabular. Muitos diriam que ele foge do trabalho, mesmo que esteja sadio para continuar, ele acende o cigarro. O que eles não sabem é que ele faz a mesma coisa em casa, sozinho, deitado em decúbito dorsal, a respiração produz uns ruídos que um dia haverão de matá-lo, porque as preocupações chegarão tarde. Até lá, ele fuma, vai fumando, segue tentando tragar e tosse, tosse, tanto ele tosse que muita gente acha que já tem um pé na cova. Embora tenha consciência do mal que faz a si próprio, não reduz os três maços. Sem pestanejar, mantém o vício que o está alquebrando. Na boca do caixa, quando está pagando pelo veneno, mesmo tossindo, não desiste dos seus três macinhos que muito o saciam, pelo tanto que o inebriam, pois fumar não é brincar de soltar anéis, porque o teto não sabe apreciá-los concêntricos e, por serem anéis de fumo, execrá-los.”

Diz o camarada:

“Deve ter algum engano. Por favor, me deixe em paz.”

Diz o quadro na parede:

“A água está doce. O problema é do seu paladar, não é da água. A sua percepção está alterada, pois as suas papilas gustativas sofreram mudança. Algo que não precisa de ser comprovado. A água é a mesma se bebida à noite ou ao levantar. Bebida em casa ou em lanchonete, a água não é diferente. Ainda que servida do filtro ou coletada da chuva, a água da cunha das mãos não deixa de ser a água do copo.”

Diz o camarada:

“Só pode ser engano. Por favor, vê se me esquece.”

Diz a infiltração a sete palmos do quadro:

“Ele vê o quadro. Não se levanta para vê-lo melhor. Esse marasmo não consola. Quando ele passa, nem corre o olhar. Não quer especular sobre a sobreposição do que esteja refletido no vidro sobre o que está pintado. Há essas duas peles, a do vidro e a da tela. Mas ele não para, precisa passar sem parar porque tem coisa mais importante pra cuidar, precisa dar conta de tanta coisa. O quadro fica sempre pendurado na parede. Lhe falta um segundo pra parar, pra olhar o quadro, pra escutar os traços. Talvez entendesse o que o desenho sugere. Talvez pudesse compreender o que é dito. Mas, no momento, o quadro na parede não é apenas um quadro na parede e a sala não é somente aquelas quatro paredes. Mas, o momento é de outro cigarro.”

Diz o camarada:

“Esqueça que existo. Por favor, pare.”

Diz a janela:

“Ele não percebe que beber café não barra a mudança. Se pusesse açúcar, isso o faria tomar menos café. Tomando menos café, faria que fumasse menos. Fumando menos e bebendo menos café, pra não virar outro caso da família, isso o faria marcar o cardiologista.”

A cortina da janela escancarada fala:

“Por favor, por favor, por favor.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de abril de 2025.

domingo, 20 de abril de 2025

As janelas

 

As janelas

 

Dizem que os olhos são a janela da alma. Digo que o olhar dá janela ao que o mundo mostra. Escrevo, pois quero dar a ver como a alma do mundo passa por mim. Eu sigo escrevendo à contraluz do que vejo, à contraluz do que não se rebela, à contraluz de mim, pelo embaraço de mal perceber o quanto atrapalho a visão.

Tenho olhos míopes. Preciso de óculos para melhor enxergar a dois palmos de mim. Conto que as lentes especificamente polidas para as distorções dos meus olhos corrijam o que a natureza produz.

Sou produto da genética que a natureza tornou-me possível de ser. Mas, não me reduzo nem me quero reduzido aos frutos naturais que a mim foram delegados quando houve a minha concepção.

Não culpo os meus pais pelos genes que me legaram, afinal o amor não seleciona melhores nem piores momentos, não traça destinos, não conhece o joio pelo trigo e vice-versa.

Semeio-me, produzo-me e concebo-me ser essa pessoa que pensa sobre o que vê, diz o que parece ver, escreve porque custa ver.

Ora, poeta, como filho do carbono e do amoníaco, sou operário das ruínas. Por vezes sou augusto, jamais, porém, angelical. A construção a que me dedico não subirá ao céu, não desabará ao menor sopro nem sepultará quem rompa o fio da meada. Se me julgam monstro por não agir que nem guia num labirinto, Augusto, eu posso pouco.

Quando a cegueira é obra de insânia momentânea, sei arrefecer a paixão que cativa: dou óculos à razão.

À janela, vejo que a rua está molhada. Abro-a, e sinto o frio da tarde, o ventinho é gelado. Para sentir a garoa, estico os braços, espalmo as mãos e, molhados, os meus dedos ficam gelados. Pra não deixar o frio da garoa enregelar-me, eu fecho a janela.

Quando é elegante checar os dentes do cavalo dado?

Não acho absurdo haver menos gente nas ruas, pois, além do frio, é feriado, é outra Sexta-Feira da Paixão garoenta.

Me lembro, foi nos anos 90. Me recordo muito bem. É claro que não me esqueci daquela Sexta-Feira Santa, pois eu bebi, batuquei sambas e dancei com mulheres que sabiam dançar para caramba. Mas, o dono do carro não tirou a frente do som e, sem notar a chave no contato e a janela aberta do motorista, um ladrão estilhaçou o vidro do carona.

Agora estou na USP, é primeiro de abril de 1988, é mais uma Sexta-Feira Santa, é outra manhã garoenta, gelada, com ruas desimpedidas, com um ciclista ou outro pela Cidade Universitária. Ando estudando o teatro de José Joaquim de Campos Leão, é uma época em que estou concentrado nas peças do Qorpo-Santo; a biblioteca da ECA, é óbvio, está fechada. No ponto, uma mulher senta-se ao meu lado. Ela trouxe seu gato para ser examinado, pois ele não está comendo nada, faz três dias que esse bicho esquisito não brinca com a franja da cortina nem mia mesmo chamado pelo nome. Também é Sexta-Feira da Paixão no Hospital Veterinário.

Veja bem, mesmo hoje, tem cortina que convida à janela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de abril de 2025.


quinta-feira, 17 de abril de 2025

História mal contada

 

História mal contada

 

O menino mau que dizia inverdades como se soubesse muito bem que soltava boatos que poderiam conspurcar o lídimo nome da família, mas, por haver maldade, o menino acusava de marcar lataria de carro o eterno bobão, que, em momento e lugar errados, sempre há de tomar pra si o mérito de avacalhações legitimamente degradantes.

Como o cronista não é menino mau que repassa o ônus a quaisquer incautos que, em momento e lugar apropriados, nem percebem o quanto sentimentos podem ser manipulados, esfrego a lâmpada.

Alladin, lustro-a com cuspe até que fique antipático bandear-se para o bando dos quarenta golpistas a saquear a caserna de Sésamo.

Gênio, não se atirem os melhores desejos pelas entrelinhas, porque nunca faltará quem conte e reconte as trinta moedas, beije o ombro de Pedro e, por último mas não de somenos importância, mande um salve à galera que sabe, como ninguém, o quanto viver é cabuloso.

A chave do tolo, meu bom José, é a história sendo remontada: com is subtraídos aos pingos, merluza salgada como bacalhau e convites pra festa quando há a obrigação de sentenciá-la transitada.

Embora o escriba escolha o deboche com uma pitada de fel, Alladin, Gênio e bom José, vocês não fujam da trama em tapete mágico.

Em 1969, meses antes de completar seis anos, ao guri deste causo veio aquele momento em que o banheiro se revelou o lugar certo para suas necessidades; sentado no vaso, ele urinou e defecou.

No ano em que o homem pisou na Lua, como ao garoto deste causo faltou papel depois de excretados os seus excrementos, ele foi pedir à professora que o ajudasse a se limpar.

No ano em que João Saldanha era o técnico da seleção, o canário deste causo achou de cantar com as calças arriadas, assim, provando que uma bunda de fora é impactante, seus colegas riram.

Como agente hilariante, este escrevinhador escolhe enveredar pelo riso, pois chorar faz a pessoa ficar cabisbaixa, além de seduzi-la a ficar deprê, até porque, por desfaçatez, isso é vendido como coisa de gente com neurônios empoderados, um bônus da modernidade.

Uma vez que este escriba detém o direito de usar o poder como lhe apraz, já que ainda acha graça naquele riso de 1969, este provinciano opta pela conveniência de não tomar cré por lé.

Quero crer que o auge de uma festa de aniversário seja o instante de fazer um pedido. Convicto de que o pedido será atendido desde que nenhuma velinha reste acesa, sopra-se de uma vez. Sabendo que falar atrapalha que aconteça, o aniversariante precisa calar-se sobre o que tenha desejado.

Como este narrador não sopra velinhas, resolvo temer o inferno.

E temo que as labaredas do fogo eterno lambam o lombo de gente que nem percebe o calor que suplica que vá arder na carcaça da gente que odeia e quer ver morta.

Todavia, é por arvorar-se armada perante o inimigo que a palavra vomitada volta pela goela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de abril de 2025.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A escola da vida

 

A escola da vida

 

Ontem não trabalhei e não ouvi críticas pelo dia sem pegar do lápis para escrevinhar uma linhazinha que fosse.

Apesar de ter ido a médico, feito exame ergométrico, aguardado os relatos sobre a consulta e a atuação na esteira, não gravei o meu nome no coração petrificado pelas agonias do autoconhecimento nem pelejei comigo para eu manter o fôlego da sobriedade.

Embriagou-me o riso, o riso natural em quem tira sarro de tudo.

Mesmo que me censurassem pela vagabundagem em pleno dia útil, passei o dia zombando, comparando, gargalhando.

Tanto zombei, comparei e gargalhei que o caminhão do lixo veio e foi embora sem que os sacos da minha casa tomassem a iniciativa de persuadirem a dar cabo daquele cheirinho.

Dona Cremilda, Luisinho e eu zanzamos pelo vasto mundo que há entre São Roque e Ibiúna, o que bem nos divertiu, contentou e fez rir, e rimos, rimos feito crianças, que fomos crianças sexagenárias, essas que sabem ser, ai ai humildade, encantadoras.

Luisinho lembrou-se do garotinho no colo da avó. Por certo foi num domingo que foi levado à casa da avó, uma casa tão calma.

Sem estardalhaço, em sintonia com olhos azuis tão calmos, a lenha queimava.

E tanto era sereno esse olhar que o arroz, a batata e o frango não tinham sal nem precisaram ser soprados pela quentura.

Luisinho conheceu aquela calma e nunca mais a encontrou. Ele se recorda bem da serenidade, daquele recanto afetuoso no colo da avó, ainda que tenha sido abrigado naquele sossego quando não devia ter mais que três ou quatro anos.

Dona Cremilda também devia ter menos que cinco anos quando se escondeu na escada dos fundos na casa dos pais.

Mesmo com o pai chamando, gritando que aparecesse, soube ficar quieta, soube ser capaz de domar-se, foi habilidosa ao dobrar-se sobre si ― entre um degrau e outro, com testa e joelhos se tocando, era um feto naquele vão, como os olhos do pai não eram ultrassônicos, estava invisível, ninguém podia alcançá-la.

Dona Cremilda riu, uma vez que a sua memória tinha dessas falhas, tinha fissuras por onde a imaginação extraía pepitas e diamantes, pois aquela escada sempre fora fechada.

Depois de décadas, muito embora pudesse reformá-la quando bem quisesse, coisíssima nenhuma que, entre um degrau e outro, houvesse vãos na escada dos fundos da casa dos seus pais.

Feito cão que se esforça e não desiste apesar do esforço, reconheci a mão que atira gravetos em vez de pedras, eu resolvi contar qual era a minha mais remota recordação.

Eu devia ter uns três anos, porque eu não tinha força suficiente para segurar a vara. Os meus avós maternos e a nossa família fomos pescar na represa. Embora fosse num domingo, ou meu pai não viria conosco, a babá que tomava conta de mim ajudou a tirar da água aquele bicho cheio de patas. Abri um berreiro, pois o primeiro peixe que pesquei na vida não era peixe, era caranguejo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2025.

domingo, 13 de abril de 2025

República 24 horas

 

República 24 horas

 

Dar uma volta, é domingo. Espraiar a cabeça, nem ir fazer compras. Esquecer o corpo escangalhado, mas não abusar da cabeça, sequer suspirar por uma passadinha no banco, pra torcer pelo azul do extrato. Sem que a coxa ache de doer, abusar dos passos lentos. Sem suspirar por um jogo bom na TV, ir por aí, levitando. Ir à feira, levitando, ir comer pastel, sem vergonha, ir tomar refri gelado. Ir. Ir sem culpa, sem que o dente doa por causa do refri gelado. Bom é intuir que o quadril tolerará o vagaroso da caminhada, pois o corpo doer não tem nada a ver. Vagar ao léu das besteiragens, sem temer pelo estado democrático de direito, pois domingo é dia de sujeitar-se à cabeça, sem comandá-la. Se o ego boia a esmo, vai flutuando, segue indo de papo furado em papo furado, isso é dar folga ao ego, e isso é bom.

Pois sim, camarada, de vez em quando é bom tirar uma folga de si mesmo. Sim, gente boa, é supimpa aproveitar o dia, tratar do que o dia indica que seja tratado. Tenha esse cuidado, simpatia, adivinhe o quão maravilhoso é poder anistiar-se.

O melhor amigo do estado democrático de direito é o democrata, só que não é um democrata qualquer, não é somente aquele cidadão que pesa as consequências do que faz, não é apenas o eleitor que escolhe quem há de representá-lo com dignidade, probidade e discernimento, é pessoa que não confunde direita com destra, esquerdo com sinistro, o alto com elite, o baixo com popular, benefício com a trapaça.

Então, só minta porque sente que precisa, sem precisar.

Quando encontrar-se com aquele coitado que foi ao dentista, finja que o condói o sofrimento, invente que é solidário, ainda que ele fale que as injeções não amorteceram como deviam, sim, tem esse porém, que o plano não cobre essa terceira dose necessária.

― Caraca! Tratar o canal sem a devida anistia?

Camarada bom de cabeça até num domingo, quando o tratamento não tem como acabar bem, nem que se queira que melhore de algum jeito, diga que a coisa tá feia, diga ter esse desejo até sem vontade de desejar, concorde que é normal ter enxaqueca que convém apagar a luz, virar de lado, roncar que até pareça verdadezinha batuta.

― Caraca! Sexta-feira sem a tão esperada anistia?

Tanto bate a enxaqueca que o amor não resiste, pois água tem que correr solta ou tem que ser represada, segundo a oportunidade.

― Putz! Água fria não faz gelo mais fácil de ser anistiado.

Mas hoje é domingo, é dia de ir à missa, é dia de confessar ao padre os pecados que traz na ponta da língua, é dia de admitir que só pecou porque pecar faz bem pra mente, diminui o estresse e facilita a obra de Deus, que é anistiar o devoto sincero que só mente para livrar a própria cara, não a de outros pecadores e das demais pecadoras.

Todavia, não é inteligente pegar travessa de mão única?

― Meia hora é 400,00; uma hora é mil.

Carambolas! Truco! Seis! Queira a anistia completa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2025.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Uma visita muito viva

 

Uma visita muito viva

 

Ao abrir a porta, o cheiro era de café acabado de passar. O segundo estranhamento foi arrepiar-se pelo ar em temperatura muitíssimo mais baixa que os quinze ou dezesseis graus da rua. Bem fez em sentir que havia coisa errada, tinha um desconhecido na sua poltrona.

― Quer pipoca?

Sem resposta, o senhor sentado tirou o chapéu, coçou o cocuruto, os dedos foram pente, cobriu-se outra vez; olhou-o, coçou o queixo.

― Gente bêbada que nem você não tem frio?

Não tinha como estar com frio, usava coturno. Os fios de barba não estavam eriçados, até se lembrou do abóbora das meias. Incomodado com a observação despropositada, enfiou as mãos nos bolsos, porque não sentia frio algum. Vestia camiseta de mangas longas sobre outra, de mangas curtas. O suéter de lã estava sob a jaqueta de couro, cujos botões não a fechavam, deixando exposto o gogó.

― Você acredita que pode dominar a empolgação?

Ao encará-lo por mais de um segundo, o sujeito sumiu.

Efeito da barriga vazia, certamente. Mesmo que o olhar vidrado de mais de um segundo indicasse o tanto de hidrofobia, uma pessoa com chapéu não se desmaterializa. O chapéu haveria de restar, ainda mais sendo um típico chapéu de pescador, rústico, de palha, aba grande.

― Pensa que lhe fiz um agrado ao coar o café?

O barulho vinha da cozinha, era de micro-ondas ligado; tinha o som dos segundos regredindo, o do prato rodando, o da pipoca estourando dentro do saco.

― Cachaceiro acha melhor não comer nada?

Deu a descarga. Olhou-se no espelho do armarinho. Apertou na pia o tubo de pasta, jogou o tubo pelo vitrô; um cachorro latiu. Na verdade, a realidade ainda vigorava. Urinou na mão, e o mijo era quente.

― Você jura que a vida não é nenhum pesadelo?

O que viu no espelho era coisa de alucinado: o homem tinha topete; o chapéu sumira; o topete era abóbora; o chapéu nem virou fumaça.

― Vai resistir a um golinho de bourbon?

O cheiro era de fio queimado. Tinha que achar o que estava dando curto. A prioridade era acabar com o curto. Tinha que evitar que a casa pegasse fogo. A prioridade era desligar o ar condicionado. O cheiro era nauseante, era mesmo de revirar o estômago.

― Num gole, consegue matar o copo desse uísque?

Deu a descarga. Lavou a boca. Gargarejou. Enxaguou a boca. Sem antisséptico para jogar pelo vitrô, escarrou; o cachorro latiu.

― Tem a audácia de recusar café e pipoca?

Acende o abajur. Olha embaixo da cama. O homem de topete está deitado de costas, tem as mãos cruzadas sobre o peito.

Apaga o abajur. Sente algo esquisito. O chapéu do homem deitado de mãos cruzadas sobre o peito veio parar na sua cabeça, o que o faz sentir-se leve, pois a bebedeira o faz querer dormir de chapéu.

Com o homem debaixo da cama roncando, fica comprovado que o universo do sonho comunica-se com a realidade, ou a cachorrada da vizinhança estaria latindo para venezianas e vitrôs fechados.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de abril de 2025.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Um fujão

 

Um fujão

 

Passava das duas quando ouvi a campainha. Num instante, lembrei que campainha não toca sozinha. Este estúpido demorou um instante para relacionar o dedo que pressionou o botão e o som da campainha. Estupidamente sonado, vi que eram duas e vinte.

Não quis pular da cama, principalmente àquela hora, com o din-don, pelas repetidas vezes que tive de escutar esse som, fui forçado a ir ver quem estava à porta.

Às duas e vinte, tinha de ter motivo forte, que fosse questão de vida ou morte, que a briga de marido e mulher tivesse virado caso de polícia, que houvesse desespero, sangue e lágrimas.

Se vieram pelo absurdo de querer enxugar lágrimas às duas e vinte, pegaria um lenço para amordaçar, entupir a boca, tornar surdo o choro, sufocar, iria matar se fosse a última opção, pois eu contava sonhar até o céu trazer o sol, que não era feriado, que seria outra segunda-feira, que enfrentaria outra jornada de oito horas de trabalho.

À porta, a Ciça veio pedir que a acudisse.

A Ciça disse que era uma emergência. A Ciça disse, pois a tragédia estava ocorrendo. O Dado nem molhou a boca com o leite. Não devia ser pelo futebol mostrado na TV. O Dado sumiu da poltrona por causa de outra coisa, não foi pela falta de gols. A Ciça não ouviu o ruído que pudesse ter atraído o Dado. Algo gravíssimo devia estar acontecendo; pro Dado sumir assim, tão súbito, só havendo uma tragédia.

Senhora, o problema é que não sou médico, e jamais rezei ao anjo da guarda que me concedesse a oportunidade de socorrer uma pessoa padecendo de algo tão grave, seja derrame ou ataque cardíaco.

Senhora, embora possa me compadecer dessa luta contra a morte, ainda que se chame Dado a qualquer hora, permita-me a sinceridade: embora soe escandalosa a recusa, muito embora a senhora chame-se Ciça que nem a minha avó, não abrirei a porta nem mesmo às duas e vinte. Sequer a senhora falando de si como se eu a conhecesse. Ainda que eu continue acreditando que a senhora é movida pela verdade que a senhora apregoa ser realmente verdadeira, pois, muito bem, eu não abrirei a porta nem me mostrarei desarmado, que nunca o faço às duas e vinte, nem que fosse para amanhecer domingo.

A Ciça que se apresentou como Ciça e eu que nem me dispus abrir a porta pra revelar as minhas mãos nuas, ambos fomos surpreendidos por um dálmata que passou correndo, fugindo de uns gatos.

Passaram o cão chamado Dado e aquela gata com seus filhotes, e, óbvio, a Ciça disparou atrás, pra salvar seu bichinho desses gatos, que pareciam raivosos, animais endemoniados, tanto que espumavam, se não fossem possessos, não miariam como bestas.

Os outros não me viram pé ante pé, mas ninguém ter visto não me deixou menos nervoso, pois a estabanada correr pela rua não diminuiu a tensão.

Convenhamos, eu não devia ter aberto a porta às duas e vinte, nem a qualquer hora, uma vez que eu vibrava, resfriadíssimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de abril de 2025.

domingo, 6 de abril de 2025

Aquele truque

 

Aquele truque

 

Mal apresentaram a proposta, o mais articulado dos apressadinhos, reputado gênio, foi logo negando que a sua ideia estivesse pronta; por hábito desse humilde criador, ela foi dita como esboço a ser trabalhado pelo grupo, pois ele, a destacá-lo como o mais modesto dos criadores, era apenas mais um membro criativo na equipe de criação.

Ouviram-no. Entreolharam-se.

Pelas palavras terem soado ajustadas, próprias à reputação de ser pessoa genial, a ideia foi tomada como boa, muito boa, ela merecendo, aliás, ser chancelada ideia excelente.

Certa da vergonha a tocá-la, por acaso amuada, a segunda pessoa mais articulada era também a mais reativa; diante da condescendência de sempre nesses olhares, tendo em vista que à segunda pessoa não convinha confirmar a personalidade aceita como evidente, a segunda ideia poderia ser ridícula, o mais que alcançasse fazê-la ridícula.

Sendo uma pessoa pouco dada a gracejos, a sua ideia fez rir e toda gente riu-se, pois era ideia inesperada, era muito mesmo.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia foi a primeira a abraçar a segunda pessoa, pois a segunda pessoa foi a primeira pessoa a fazer rir todo mundo que estava na reunião, e isso era sensacional, uma vez que a primeira pessoa, tanto quanto as demais, foi surpreendida pela primeira ideia incontestavelmente ridícula.

Mesmo sendo uma segunda ideia, tomaram como a primeira a ser desenvolvida, esmiuçada, reelaborada, examinada uma, duas, tantas vezes quanto fossem necessárias, até pararem de rir.

Depois de tanto riso por compreendê-la ridícula, sem ninguém a se sentir propenso a rir-se ao ouvi-la, a segunda ideia foi declarada como sendo uma terceira ideia.

A sério, ouviram-na. A sério, entreolharam-se.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia sentia-se incomodada, porque ela queria que o debate criativo fosse retomado.

A primeira pessoa trocou as palavras da terceira ideia, para que ela fosse deixada atrás, para que soasse tão ridícula como a segunda ideia, sem que ela, a terceira ideia sob roupagem nova, fosse tomada como uma volta à segunda ideia, ambas sendo ridículas.

A primeira pessoa queria que ouvissem a terceira ideia como sendo uma quarta. Portanto, debatessem-na rindo, zombando das palavras, ridicularizando, sem meandros ou à deriva, já que ideias puxam ideias, bem como a graça faz rir.

Rindo, não se compreenderam menos aflitos nem mais felizes.

A quarta ideia não era a segunda em outras vestimentas?

Sem cortarem o riso, a precisarem reprimir as aflições, as pessoas reunidas concluíram que uma quinta ideia surgiria.

Ágil para achar pomba na cachola, o idiota desencantou.

De imediato, percebendo-a maravilhosamente ridícula, todo mundo ficou eufórico, porque o bico, as penas, as asas, os arrulhos e as fezes faziam a quinta ideia ser bem a primeira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2025.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Em defesa dos anunciantes

 

Em defesa dos anunciantes

 

Encontro o sumido.

Nem somei que fossem quinze dias sem que papeássemos; ele tem o número exato porque há uma quinzena sentiu uma agulhada no lado esquerdo da cabeça.

A principal sequela daquela ferroada foram as tonturas.

Desde então, tem tontura ao levantar-se, percebe, mesmo deitado, o mundo girando, sente o medo medonho de cair sem sequer se mexer pra se avaliar, deliberadamente.

Ao fim e ao cabo, o melhor foi manter-se distante das provocações com que, a torto e a direito, a realidade lhe faz ranger os dentes, calçar tênis sem cadarço e controlar ansiosamente os resultados dos exames que a clínica geral e o cardiologista acharam por bem que os fizesse, uma vez que, de qualquer jeito, teria de fazê-los.

Pelo lado bom, dispomos de uma quinzena de opiniões represadas nestas nossas cacholas diuturnamente fertilizadas por uma carrada de soberbos acontecimentos.

Escancararíamos as nossas bocas pra escarrarmos cravos fétidos, crisântemos sórdidos ou girassóis repugnantes?

Para não nos apresentarmos tão cafonas, o mundo existe.

Como imagem bem trabalhada desse veículo ao universo civilizado, a digníssima estava pundonorosamente uniformizada, metodicamente gentil, admiravelmente bela.

Para meu assombro, a jovem disse bom-dia, perguntou se desejaria saborear o creme trufado que recheia o ovo de Páscoa, cuja logomarca da empresa estampa encantadoramente a camiseta, e, mesmo depois da negativa formalmente automática, tornou a dizer bom-dia.

Para não sermos bovinamente mecânicos, a beleza sabe se postar como algo sagrado, escoiceante, um soco no estômago.

Como imagem bem modelada desse estado de encantamento, eis a mulher bonita que me faz crer que a vida fica tão maravilhosa, desde que eu ame chocolate.

Obrigado, não tenho filha nem namorada.

Obrigado, sou solteiro que não passa batom.

Mesmo que chocolate provoque bem-estar que tende à felicidade, embora dispense cosméticos, muitíssimo obrigado por sugerir...

Lê-se na blusinha: CHOCOLATE É AMOR.

Pelo lado da maldade, se abusasse de coisa que me enfurecesse, fizesse espumar, levasse a detonar relógio, espatifar espelhos, destruir poltronas, eu não desculparia, perdoaria, nem clamaria por anistia.

Amo chocolate, e respeito o poder de sedução de quem tenta me convencer, mas, mocinha boa de lábia, não induzirei alérgicos a passar batom do que seja.

De modo cristalino: é tranquilo dizer que, nem em Brasília nem aqui, eu jamais batalhei por algum golpe de estado.

Poupe a garganta, ranrã pelo ar terrivelmente condicionado da sala de tomografia, anuncio por nós, que você e eu não vamos espernear, pois, Luisinho, naquele 08 de janeiro de 2023, nos esbaldávamos com cerveja e picanha, uma vez que era aniversário do amado sete cordas, do canhoto afinadíssimo, do nosso caro Aristeu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2025.