Se é pra se sentir só, melhor
acompanhado.
Quando a janela tem cortinas bonitas, a
paisagem não fica reduzida ao exterior da casa, ela adentra o cômodo de modo
suave. A transição do exterior pro interior se dá de forma emocional, não sentimental.
O formato da janela enquadra, mas o vão
é vereda pro que entra e pro que sai. Como membrana de célula, a porosidade torna
possível o fluxo. Fluindo, a beleza de perceber-se vivo produz encantamento.
O cotidiano acorda o pensamento, faz com
que a mente se debruce sobre a percepção deste estado do espírito. Ou seja, a
pessoa que se sente encantada, procura entender-se. A consciência racionaliza,
quer compreensível o sentido. Porque pensa, desencanta-se.
A realidade se enreda nas explicações,
pois, na mente, elas vão se engatando umas nas outras como se a trama criasse
vida. Anestesiada pela razão, a pessoa age como se estivesse tramando melhor. O
tecido do que se apresenta como resposta nem aponta pra pergunta.
Que encanto de pessoa vai pra rua enquanto
chove?
A lógica do ciclo da água institui que há
evaporação, condensação e chuva, mas este mecanismo natural acarreta o incômodo
da pessoa que lê por horas, tem a bunda achatada e raciocina: sem almofada no
assento da cadeira, o jeito é dar uma volta.
Se isso explica o homem parado debaixo
de chuva, é discussão pra quem estuda comportamento humano. Com permanência
prolongada, é isso que permite observá-lo sem induções levianas.
Descalço, de óculos e de pijama, eis um
homem resignado: há mais de um minuto, está na chuva.
O pijama azul bebê é conhecido. Aquela
careca circula pelo bairro faz pouco tempo, há uns seis ou sete anos. O careca
de pijama gosta mais da chuva que dos remédios manipulados sob medida.
O camarada azul bebê é criança coberta
por rugas. Ele se comporta como fossem justos os oito anos que julga ter. A
vizinhança conhece a história da primeira vez. Tocavam dobrado pela Padroeira
Aparecida, foi um escândalo. Basta vir um temporal, ele nem sente que se apagam
novamente os setenta e nove.
O que emociona é vê-lo tão tranquilo.
Por certo, se os especialistas aceitarem o diagnóstico vulgar, a luta é pela
impassibilidade por atos e palavras, em pijaminha quarenta e oito.
Há quem surte como diabo pondo abaixo o
que encontra pela fuça; esse carequinha, no aguaceiro, ousa ficar parado.
Quem entende de estruturas psíquicas pode
dizer o quão vibrante é uma cachola ao querer saber dos efeitos enquanto os
produz.
Se crianças brincam em enxurrada, esse
careca limpa os óculos.
Tal figura é inconfundível.
O luminoso da farmácia apresenta
defeito. Tanto pisca que mexe com o quarteirão. O luminoso da lotérica também
pisca. Piscam um e outro, como velhos conhecidos papeando.
O bebê carequinha escuta aquela canção
iluminada, tanto gosta de escutá-la que sua alma canta em silêncio.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de março de 2023.