domingo, 9 de setembro de 2018


o louco da vez


despido dessa gramática do meio-dia,
duma lógica vernacular, lapidar, exemplar.
o que deu nesse homem?

um emérito comedor de rabanetes,
levados consigo num vasinho pintado a dedo.

o que houve?

dizem que o vento da lua cheia
bateu nos tímpanos, cantou
a nidificar, multiplicar ideias nadificantes.

dizem, ai pobre-diabo, como dizem.

no cão posto como sombra de si,
rodopiante, circunvirante, buscador,
tendo a cauda já evoluída, só um ossinho.

iluminado de pinga;
então o bom homem rola no chão,
dissipado pra luares, borboletas, louros,
pros olhares quatrocentões.
  
ei! nada de chamar o nosso homem
de cínico, cão das ruas.

embora passe a fingir-se de torto,
capaz de mãozadas nas vitrines recatadas,
até a querer-se um incendiário gago,
da pedra na pedra, bem poderia o tosco, até...

o homem bom, espelho dos naturais desenterrado,
é arbusto seco, é lama seca, rio evaporado.

aquando
o lugar do instante dá um instante ao lugar,
é em razão das palavras enraizadas
na névoa cristalina além da íris, do opaco do leite;
adonde
ele acorda e desanda a andar em voz alta,
célere a dormitar o silêncio no cérebro.

será pela graça de haver-se dessa laia, um chalaça.

(rodrigues da silveira, 2015)


sábado, 8 de setembro de 2018


poema desgraçado


não tem graça pensar a chave
se não houver fechadura.

não tem graça pensar o fio
se não houver meada.

não tem graça pensar o alho
se não houver bugalho.

não tem graça pensar o olho
se não houver o cisco.

não tem graça pensar a música
se não houver o silêncio.

não tem graça pensar a palavra
se não houver sentido.

não tem graça pensar a ideia
se não houver pensamento.

(rodrigues da silveira, 2015)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018


as labaredas da alma


como ninguém entende o que diz o rato,
trazem a ratoeira com o seu melhor queijo,
armam com cuidado, bastante esperançosos.

como ninguém atende o que bate à porta,
fazem uma fogueira com o seu melhor graveto,
amam com recato, assaz temerosos.

como ninguém apreende o que falta no rosto,
rezam em uníssono com a sua melhor intenção,
falam com vigor, muito entusiasmados.

como ninguém compreende o que brilha lá fora,
rogam pela morte com a sua melhor ilusão,
calam com rigor, ensimesmados bastantes.

a formiga ignora o açúcar do poema, ignora
também a celulose, a brancura, a superfície, e segue
no seu papel de formiga,
e na sua natureza, a que pouco sabe de si,
isso basta. e isso, minha gente, isso não basta.

(rodrigues da silveira, 2017)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


frêmito


passou por você
e foi adiante
sentiu o fantasma
enregelando-lhe a língua

travou o amargor
em sua língua de pedra
provando da alegria
o horror da plenitude

arrepia até suas retinas
concentrando o asco nas papilas
sem nada vir

o que passou
passou e foi adiante
sentiu a poesia
sentiu-se fantasma

como lúcifer, daríamos
as asas para voar?

(rodrigues da silveira, 2016)

sexta-feira, 31 de agosto de 2018


pianíssimo


o batalhão de folhas proferindo a formação:
em branco venceremos!

a voz do poeta preferindo sua multidão de espectros sem camisa.
as folhas acusam o poema de mendigar amores.

a chama do poeta na cumbuca do vizinho.
são versinhos a sua recusa.

o poeta não veio à luz pelo que escreveu.
as folhas não perderam o controle.

o poema que não pede para ser escrito,
mas é.

a calmaria segue firme, segue em frente.

(rodrigues da silveira, 2015)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018


o prático da mensagem


é-me tudo o meu nada,
que sou humano. falo da vida,
esta face tem por máscara o meu rosto.

é-me nada o meu tudo,
que sou humano. falo da morte,
o trágico tem por oceano o meu corpo.

barco nas correntezas do azar:
naufrago quando canto; quando calo, emerjo.
faço comédia quando troco um pelo outro,
humano que sou.

(rodrigues da silveira, 2018)


quarta-feira, 29 de agosto de 2018


a descoberto


esquecido numa gaveta, o bilhete.
perdido na sua luz, não encerra
a sua mensagem numa vergonha
de ser lido, nessa outra vez.

não se sabe se portador
de algum crime, algum pecado?
de juras de amor nefasto,
ou belo, algo incestuoso?

tornado inédito pelo encontro inesperado,
aquele lume obscurece o olho que não o decifra.

suas entrelinhas a fazer água.

caravela de papel,
não se faz navegante,
conhecida dos mares,
não vela umas audácias,
é luz de outras eras;
na espiral das esferas,
é mensagem obscura,
alheia ao imo do céu.
  
sem saber dos aspirantes aventurosos
nem das dores que sangram daquele corpo,
a memória traça desconhecido o mapa.
sua mera curiosidade afoga os navegantes ardorosos,
perpetradores de um amor além das palavras;
seu irritante desembaraço diante daquele troço
mutila os amantes aplicados,
despudoradamente carnais pros limites de umas linhas.

na sua lenda sem legenda,
desembarcadas no meio desse quarto mortiço,
eis as águas incomunicáveis.

forasteiro do mar, o seco nas articulações cordiais,
o bronco anil de umas não prorrompidas pneumonias
─ o neto a boiar sobre os avós.

o homem que merece não recebe pelo que percebe,
seus haveres. o oceano do amor não dorme sonos caligráficos.
o outono? ao canhestro tuberculosamente incurável:
andar no torto não faz xucro alguém ridículo.

(rodrigues da silveira, 2016)

terça-feira, 28 de agosto de 2018


amor de ator


na fila do banco? ali
não desisto de mim, ali não existo.
na missa, de mente presente,
de joelhos? andarei sobre as brasas?
não rezo nem oro, não choro nem prezo.
quando sorvo a fuligem do cafezinho,
não resisto ao tranco do pigarro. aí também?
e digo que estou aqui, eu insisto.
por que o meu celular conduz a hora,
encaminha o papo, faz-me curtir tal realidade?
nem tampouco assim eu existo.
o mundo pode mais por que me fode?
não é de longe que me assisto.
vendo o quanto não me amo tanto assim,
ajudo como posso a chegar-me a mim.
faço que me entendo capaz da existência.
se me desfaço de mim? um fodido que nem parece.
persisto na sombriedade do amor para comigo, mas é foda.

se abismo é intervalo?
sou gripe, sou tosse, sou fora de moda.

(rodrigues da silveira, 2018)

segunda-feira, 27 de agosto de 2018


passado a limpo


jogue álcool naquelas roupas, restos de outra opulência,
injustas no corpo senil, de rugas óbvias
e fraquezas improdutivas, inadequadas ao trânsito das gorjetas.
taque fogo, sem piedade.

embeba de gasolina aqueles trapos, ruínas de outro império,
de gente porca, de mente torta, de pele morta,
de corpo morto que fala, cospe varejeiras
e vocifera pelos cavalos de um velho apocalipse.
com convicção, risque o fósforo.

deixe queimar as memórias,
as mais augustas mentiras, as mais celebradas pantomimas.
sem dó, faça torrar as sinapses do abismo.

como se o tórrido fosse pro descontrole do tempo,
sinta pena, promova a pena, apenas sentencie-se à pena.
tenha em si mais argumentos que emoções,
seja a lei que os irmãos ignoram, aplique-se ao convívio com o fogo.

como se o marmelo no lombo arrancasse o couro,
faça de si o que a chama é pra imbuia de todo totem.
pra dar-se ao valor pelo que valha, queime o que for palha.
  
saída tímida dos trapos cínicos, espasmo de moribundo,
a vela alcança o breu dos arredores.
varridos da aliança com a luz, os silêncios dizem a dor
em figuras maltrapilhas, como um eco nada obscuro:
o que mais dispersa, congrega.

como pudesse o exultante, o hiperbólico, o contagiado,
o contagiante, o apostólico, o condensado,
como a sentir-se tão doce, muito adorável, de um amoroso intenso.

amores de amor ou luzes do fogo?
povo das cruzes, o vestido de amor exibe o respeito,
e garante à paz o fósforo, seu fósforo à espera de outro agora.

junto no simultâneo, no instantâneo adjunto:
o amor que me lê, leio-me nele também.
tentemos a comunicação ─ por sinais, por cores, por odores:
peça pelo sol; trace um número; chame o nome.

ó morte em vida... ó morte em vida... ó carnificina...
a que aspira, hein? à dona aspirina?

(rodrigues da silveira, 2014)

domingo, 26 de agosto de 2018


por um colapso nervoso menos maníaco


os trapos são todos bandidos e assassinos?
picaretas.

os patos são todos economistas e políticos?
cartomantes.

os sapos são todos honestos e trabalhadores?
fesceninos.

os ratos são todos passistas e compositores?
comunistas.

os gatos são todos complexos e analíticos?
humoristas.

os capos são todos ranhetas e intolerantes?
pentecostais.

(rodrigues da silveira, 2015)

sábado, 25 de agosto de 2018


pra tirar os pés do chão


o retrato na carteira
diz o amor mais vívido na voz viva.
o prato de todo dia
guarda o amor que detergente, esponja e água
não conseguem esgotar ralo adentro.
o sofá na sala
reserva pro amor o que o coração
esquecido, que parece ter esquecido,
apreende sem vergonha, com razão.

e se de repente o amor
puxar a coberta?
a madrugada muxoxa os seus serenos;
ajeitar-me o cabelo?
pra esconder a calvície;
beijar-me a testa?
com tal afeição, pelo que atesta o serenado,
dou por mim nas rugas do meu afeto.

nunca? jamais? ou?
talvez... talvez.
se ainda está nas vielas da cabeça,
a caneta permanece inocente.
  
não conheço quem chame,
ou ouse chamar ou experimente a ousadia
─ dizer este amor com outro nome.

com os pulmões nítidos
e o olhar desanuviado, digo eu
com a maior afetação que eu sinto:

mãezinha... mamãe... mãe.

vinho verde,
contemporâneo daquelas minhas memórias,
deixa-me respirar, ir pelas saudades, maturar-me vivo.
uma vez que sou pelas idades,
faço-me folha aspirando ao alvo do branco.

voo ou vivo? vivo ou voo?

se me é risível arriscar o sensível,
embriago-me, e tenho amor pela vida?
e como me mato pra ficar vivo.

(rodrigues da silveira, 2015)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018


os dias felizes


as britadeiras do olvido
vão enchendo de buracos
a minha ruazinha de terra dócil.

o que não faço pra rememorar
o pouco que lembro,
um tanto agastado de tanta degustação.

queria lembrar o passarinho
que não matei, e voou;
queria recordar a namorada
que me escolheu, e não correu;
queria a memória seca, transitável,
mas ando a suar um bocado.

um dia a travessia
será terna, segura, menos mentirosa,
ou será inesquecível.

presto, haverei de tapar a peneira
com o sol de alguma cigarra menos atilada.

(rodrigues da silveira, 2018)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018


quem pega a conta


o morador de rua lambe o cão que o diabo amestrou.
nós precisamos pedir explicação?
à verdade, umas verdades.

em cada cabeça? quem passou pela calçada
foi pra loja de bolsas, só bolsas,
umas bolsas ignorantes? da sua triste figura.

no coração, os noturnos calam o abismo?
conhecem bem o imundo, disfarçado de mendigo.
falam do atalho, é o atalho que salta,
entra pela boca ─ que susto!
não, não e não ─ que medo!

há quem diga o que pensa,
mesmo pensando o errado,
gerando o engodo, proporcionando
ao equívoco a estação.
vieram pedras, encobriram de pegadas
o caminho que não andava.
entrado em cena ─ não contava
o mendigo com o atirado?
não desembarca, desembarcado está.
  
que idiota! isso é o que me sobra, outro.
esse idiota quer lamber a bolsa?

o mapa na cabeça, vertendo palavras,
numa fé nos cães que abanam respostas sinceras,
certo do que dizia. afinado, afinal?
tinha pela palavra um apreço, o senso útil
de proferir profecias proeminentes, convenientes,
emblemáticas, tão necessárias.

há quem minta, acham-no palatável,
como uma folha de agrião ou um pêssego.
mesmo engolindo a página da política
sem um gole de fanta uva?
há quem confunda o abismado
com o abismado.

mas quem mente a quem mente não tem pela gente
não mais que um perdão?

na calçada, o dedo da poça esconde
o monstro do incontrolável,
o incontornável do abismo.
  
os cães enraivecidos
não mordem, saudosos do lobo que foram;
não atacam, assanhados pelos ossos assinalados;
não esquecem das presas mal-educadas.
cães de raiva não se desmancham na poça.

morto a pauladas, o mendigo
vê na tevê: ele cabô de morrê!

fizeram a gentileza:
uma fita amarela separa o pudor da notícia.
nova situação, nova política.

foi aí, sem pedir licença;
foi assim, sem ao menos pedir licença;
foi deste jeito, com o fio de vida babando uma sentença;
mandrião do cão, um cabra pra lamber o chão?
para! o porreta foi.

das veias abertas do anacoreta este poema não veio.

(rodrigues da silveira, 2016)


quarta-feira, 22 de agosto de 2018


ópera sem remate


costuma chover um bocado em março.
pelos vãos, a água da chuva conhece melhor a casa:
vai entrando pelo telhado, ensopando o casal;
infalível dizer: tão embriagante, o sono é?

como queria o desejo de uns pregos.
mas pegar um martelo? falta a disposição.
cansado? lamenta a chuva, na lata.
a mulher morde a romã, cospe os podres, exibe
a nudez dos olhos, urde uma afronta. o marido?
mexe a mão, suga o dedo que dói, mordido.

o acaso da casa num espaço cômodo?
entre outras duas, no meio dos abelhudos mexeriqueiros.
do primeiro ímpar, arrematemos:
a natureza da dor não é a mesma da pica numa suruba.
a não mais poder, a chuva desaba
o abacateiro, bisbilhotaram. doutro vizinho: furioso.

seduzido o telhado, resta o bom colchão.
os vãos como vão? cuspidos pela vida, e vão.

(rodrigues da silveira, 2016)

terça-feira, 21 de agosto de 2018


o luar na garrafa


dividiremos o rio, ó sorocabuçu,
em águas azuis, outras vermelhas;
dividiremos a correnteza do rio, ó cubatão;
em enluarada, também ensimesmada;
dividiremos a ponte sobre o rio, ó são francisco,
em à esquerda, ainda à direita.

se de concreto forjamos o fundamental,
permitimos o fogo da madeira, do algodão e da lâmpada.
eia! tiremos fotos, mandemos mensagens.
valentes, não querer lixar a ferrugem da história.

o que o rio não aprende: tentáculos têm fome.
como a luz não come o sol, come os barracos e os homens.
tentáculos muito apreendem da euforia
a manter os olhos vidrados, de lunático fora do jornal.
o que a língua esconde dos dentes?
a raiva lupina, espumante, de ratazana no cio.

e faremos tudo com louvor?
desde que nos livremos da maldita rolha, o eclipse.

(rodrigues da silveira, 2016)