quinta-feira, 7 de junho de 2018


dádiva


o feto foi dado como vivo entre os escombros.
comovidos pela notícia vinda do andar de cima,
os operários declinam da marreta, aceleram com o pasmo,
muito atraídos, e prorrompidos pelo silêncio,
embasbacam-se.

ali não é lugar pro insólito.
é preciso retomar as malhas do ferro.
no exercício do contínuo, a construção precisa andar,
fabricar-se por mãos metódicas, edificar-se pelo racional;
atenção ao traçado é compromisso.

o projeto tem prerrogativas.
é essencial sugar pras plantas a seiva dos envolvidos,
ou nada se mantém à parte do forasteiro.

sem dúvida, gente dessa espécie estranha a presença,
é fundamental controlar seus fluxos mentais,
impedir os influxos do pensamento;
ninguém deseja acabar-se presa
dos labirintos do cérebro.
ao concreto do aço,
atenção.

urge extirpar das estruturas o malquisto,
é basilar recolhê-lo ao olhar distraído dos obreiros.
pra que esteja inoculado pelo trabalho
o esforço de cada gesto, o empenho de cada braçada,
ordena-se a aplicação da vacina.
cumpra-se, de bom grado.

esporos não empacam, espalham-se;
raízes não propagandeiam, aprofundam-se;
folhas não encorajam, exibem-se.

pra recuperação sem desperdícios daqueles restos,
é capital vedar gargalos, calejar os ouvidos, vencer inconveniências;
pro desbaste sanitário, coordenado, categórico,
é capital as instruções serem seguidas, ao pé da letra,
abraçadas rigorosamente.

rigorosamente,
fixe-se a mirada na obediência à lógica;
bata-se pelo regulado, contratado, firmado.
estejam todos voltados pra erradicação do entulho.
cabe à voz da realidade ditar tais afazeres,
comandar a administração pro andamento do ordenado.

acaso a sombra do trançado persista,
acaso tome corpo a lembrança daquela vida,
acaso o eco do verde resista à força do silêncio,
seja constituída a redoma com os dígitos da científica,
demonstre-se o inútil com os interstícios do virtual,
aplique-se o contingenciamento do indômito pelo modelo.

mão de obra carente de ser lembrada de prazos,
de que as distrações inoportunas comem o tempo,
de que até a fome pra ser atendida tem hora programada?
no armário numerado, pra outro celular desligado, abra-se espaço.

longe daquela engenharia capitalizada,
longe daquele deserto de esqueletos recuperados,
pelas veredas longínquas daquela sobrevivência,
à luz da beleza, eclode a vida em clorofila.

pingente do xaxim, ignorado pelas medidas dos outonos,
ao lado da porta, da casa, do metro, o frondoso;
pela espiral de suas lâminas, de acordo com os vizinhos,
a samambaia é vista como bela bela bela.

(2014)

quarta-feira, 6 de junho de 2018


o próprio do nome


alucinado, dividido ao meio por garrafas,
de plástico e de vidro, azuis e vermelhas, dividido. e perdido.
saído ao juízo de si, acentuado prejuízo, põe mais a perder-se,
e faz questão de dar de ombros pro ônibus do turno,
dá as costas àqueles carnês ao lado da fruteira, que é só bananas.
pelo que está perdido, sujo de suas precariedades,
nem a água daquelas garrafas há de cauterizar o machucado da mão,
há de calcinar o olhar, pro desencontrado, desajustado,
pro que venha a ser um convite, aceito por malgrado:
sem o siso de si, retirado da escala dos dias úteis,
que seja o carnaval doido, em agosto.

por isso, ó luar, não pede a outorga pra juiz do siso,
pra enfiar-se na roupa do juízo a conferir no grito
o fundo da sentença, sem a especulação dos carimbos,
prefere o refrão a compelir à dança, desconjuntada
e grupal, própria a lunáticos, de esqueletos no transe
por uma gorda golada,
como se aceitável aos transeuntes a passagem do bloco.

pensa, pensa, pensa,
quando as palmas forem batidas, os pés tomarão o ritmo;
põe na cabeça o mérito do acessório.

 assombração enrolada pelas prosas da memória,
da garrafa azul a água vem gelada,
não serve pra pensar que dará um jeito nas coisas,
a vida desconhecida posta num estojo de violino,
com suas mazurcas, polcas e maxixes, num piscar de olhos,
uns olhos vermelhos, de quem não dorme direito.

da garrafa vermelha, basta um dedo da pura e vem ao sangue
o natural, odorado, incolor e repelente do tédio,
pois espessa e passável pelos caninos é a claridade da rua,
ali, onde cães esquizofrênicos ficam latindo pros latões revirados
por ladrões civis, os empacados entre o pão embolorado
e o resto do leite na caixinha, de furo padrão.

na cama, ele rola como quem goza, na grama;
e sabe da neblina antes das sete e da neblina depois das dezoito;
é homem fermentado nas águas daquela licença;
é aquele que finge saber “o que há de pior no outro”;
e com entusiasmo cristalizado, ele tenta cantar,
e como deseja cantar a quem ignora unidos a lua e o luar;
ó manhã perdida, põe-se a cantar pela moça tarimbada do serviço.

(2014)

terça-feira, 5 de junho de 2018


trevas sem trovão


as vísceras do fogo
                        estilhaçam a vasilha de argila;

os sésamos podados
                    transparecem o aroma da sua luz;

os chãos do alarido
                    naufragam o deserto da madrugada;

os grãos do luar
                   tomam o corpo do pomar;

as túnicas do mundo
                      murcham suas pétalas de laranjeira;

são o riso da maré na cheia,
                                    as raízes da morte.

(2016)

segunda-feira, 4 de junho de 2018


pensamento

a noite são crianças sem a máscara do sono.

(2016)



a selva do medo

onde as alamedas não têm nome, escassos são os homens;
e a brevidade da morte dura uma vida inteira, e não passa.

(2017)



receita

um toque de nada cai bem no vazio.

(2017)

domingo, 3 de junho de 2018


inexorável


na vertical da voz,
o rio.

a rodopiar dejetos,
o rio.

no meio do rio,
a morte.

dito o rio, dita a água,
do sonho à braçada.

dentro do rio,
nada.

o risco negro,
a noite.

o caminho da noite pelo esqueleto da voz,
a lama.

(2016)

sexta-feira, 1 de junho de 2018


confiança


as velas do peito,
por que minto quando quero nascer de novo?

não me desculpa o vômito.

se o peixe era um badejo,
espumante e ácida, numa só, veio à golfada.
tenho pra mim a esperança.

os dentes pra morder e os olhos pra entender,
tenho pra mim a confiança.

nos buracos da flauta,
a inércia dos mundos ganha, em sacrifício,
a dor do reconhecimento.

não me pedem a vista nem me impedem os sorrisos.
tenho pra mim a cicatriz do improviso.

se já nem mais me entendo comigo,
estarei disposto ao pensamento de joelhos?

(2014)

quinta-feira, 31 de maio de 2018


novidades da terra do nunca


embora mortos os pombos,
as notícias voam.
propício a voos suicidas,
o céu convida com aquele azul alvissareiro.

sob a capa da invisibilidade,
camadas e camadas do fogo mais camarada.
as nuvens acumuladas num limão,
e de repente, muito de repente, eclodem as larvas.

seja cumprida a lei,
nem que exale um ligeiro mal-estar.
passageiro, como todo frêmito,
nem é preciso reforçar o tom laranja do tambor.

sol açúcar, o olho abelhudo
diz o mel de suas retinas sanguessugas.
ó sensações caligráficas, ó sinfonias hiperbólicas,
o ocre celular crava a aldeia no barro.


(2014)



sexta-feira, 25 de maio de 2018


lar

prendo a rotina, traço retas com o olhar,
passo pela porta, pela fenda aberta,
as retinas medem as rotas, mas a morte.
penso a hibernação.

sendo a aflição cotidiana, pedestre, do sono aos cacos,
embora ninguém mais o tema,
o poeta em mim compreende o poema:
falta perder-se dos rascunhos;
falta seguir sem dizer as suas mímicas;
sentir-se comprometido, sombra na parede.

se afeito aos rumos do meio-dia, aceito pelo cansaço;
se cachorro abusado pela sarna, dobram-me
as veias do inverno, a língua em riste, os pulsos do entusiasmo;
se um amestrado suicida, enrolam-me
os pensamentos do fogo, as labaredas da lua, a lambida na espinha.

sou outro, e ancestral.
banco o morto pra viver em paz.
aprendo a caverna, sinto a morte em vida.



(2016)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

a plenitude do amor

amor ao próximo, sim.

amar as crianças abençoadas
pelos anéis, porque eles ungem
ao joio o trigo, na serenidade
dourada, dos que se dão às bênçãos.

amar as meninas apadrinhadas
pelos dedos, a se desdobrarem
para tornar simples, e naturalmente,
a procedência, sob as mãos impostas.

amar as mães que amam em demasia,
à beira da virgindade, por demasiadamente em branco,
marcadas pelo sisal, grito trançado
acima do chão, no extremo.

amar, e amar todas as causas,
amá-lo, ao amor, como um sim.

amar o irmão, quando apegado às digitais
do amor, incrustá-lo, à unha,
nas caras sem cicatrizes.

amar o irmão, amá-lo, ele fala pelo outro
o que nem se diz às mães, em suas noites não dormidas.

amar e amar sob todas as leis,
amá-lo, ao amor, como um sim, absoluto.

amar o chão, os reis prosperam especiarias,
amar suas cãs, juízes a afagarem o incipiente,
todos por demais sapientes, amá-los,
em sua sabedoria, o higienizado.

amar as águas, das piscinas elas estão vindo,
para o batismo com os pecados, amá-las,
provindas desses córregos, e vívidas, tão amáveis.

amar os peixes, nadantes nessas águas,
amá-los, não exalam micoses,
não tumultuam as algas, amá-los,
como se ama a um baiacu, ao bagre, a tilápias,
amá-los, eles não fedem nem ao cloro.

amar o amor exigente, pela cerviz dobrada,
na conveniência e na obediência, próprias a esse amor.

amar a quem não possa amar
nem saiba corresponder ao amor,
amar a quem não pergunta, a quem não é amado.

amar e, assim, amar cegamente, amar com todos os critérios,
amar o amor, amá-lo como um sim, indubitavelmente.

amar e, então, ter pelo amor a paixão desmedida,
um amor sem crise, cordato,
amá-lo, no juízo de suas virtudes,
as não pronunciadas, elencadas, sequer sabidas.

amar e dar ao amor as verdades,
como o sim, inteiramente.

amar o próximo do amor, o íntimo, e intimidante,
amar quem se aproxima com nojo, pelo reconhecimento,
por não ser peixe nem alga na corrente, amá-lo e melhor.

amar e que o amor seja sempre por nós,
pobres de nós que amamos.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

laboratório do cão

ninguém lembra
ninguém quer lembrar-se
o chão da noite na gaiola do rato

as migalhas a urina o cheiro o nojo
ninguém quer ser lembrado

ninguém está ali ninguém quer estar ali
nem mesmo o rato nem mesmo ele com o seu hálito de rato

ninguém quer ficar perto
ninguém fica perto o bastante
pra azeitar as manivelas da engrenagem
pra afinar os ventos da aceleração

por isso o ar toma as formas da gaiola
toma a manhã, obscurecida
o rato devorado pela poeira do cosmos
o rato não permaneceu

permanece a gaiola



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

domingo, 17 de setembro de 2017

ouro fundido

disseram o homem único, enigma único,
à medida de si pela hora da morte.

provaram o amor, leram suas folhas,
e assim o amor lê a alma por linhas mortas.

provocaram a morte, o absurdo do escândalo,
e o peixe morre por saber que peixinho é.

disseram a fera vê a cara pelo coração,
e como dizem besteira.

desejaram impossíveis, o unicórnio de ouro,
e chegaram perto do osso do gigante bom pastor.

confirmaram as culpas, são uns irresponsáveis,
e sempre esquecem nossos esqueletos atrás da cortina.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

sábado, 16 de setembro de 2017

o menino

inesperadamente, ele chegou.

e perguntado sobre o seu nome,
um silêncio lacônico.

e assuntado sobre a sua origem,
um silêncio plácido.

e questionado sobre a sua conduta,
um silêncio icônico.

e apontado a uma árvore,
um silêncio mágico.

nem todos os silêncios partem do trágico.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

os abutres

a molecada brinca com fogo,
e eles juntam gravetos, trazem o isqueiro,
fazem arte no quintal da casa,
da avó que cochila seus quindins,
para a alegria das três,
da tarde que nem parece querer a noite.

vazios da chama, porque aéreos, os corpos estão à espera,
são abutres, e estão ocupados, bancando sentinelas.

os abutres seguem a pista da árvore,
dentro do tronco, traçando suas miríades,
a noite depositou seus ovos, essa fauna meio fajuta.

um homem de binóculo nota
que o tronco parece impregnado de lágrimas,
suas raízes mergulhadas no esperma,
o ninho modelado por uma gota de sangue,
como se nas folhas coubesse o suspiro sincero das colinas,
e dos galhos nonatos, a fogueira pros mosquitos.

o homem nem parece querer notar essas coisas,
como se o momento dependesse do vento; que vento?

naturalmente instruídos,
os abutres sabem da árvore mas não a encontram,
parecem cansados, mas estão mortos,
de esperar que a molecada coma seus doces,
da avó que tricota lembranças, tecendo-as
recordações magníficas, entre tantas infâncias,
doces como quindins, jamais indigestos.

os abutres saciam-se com os corpos
à disposição, há uma estrada lá pelas bandas
dos outros quintais, à margem dos dias, esses gêmeos,
na escuridão da pressa, e haja apressados!

a avó, porém, comeu demais,
desliga-se da criançada, depois do café
coado na hora, como pastel de feira, aquela era uma quinta.

saibam todos os abutres,
a alegria que não trepa pela corda
sabe da alegria que salta dos galhos,
principalmente nas quintas, depois das três.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)