sexta-feira, 25 de maio de 2018


lar

prendo a rotina, traço retas com o olhar,
passo pela porta, pela fenda aberta,
as retinas medem as rotas, mas a morte.
penso a hibernação.

sendo a aflição cotidiana, pedestre, do sono aos cacos,
embora ninguém mais o tema,
o poeta em mim compreende o poema:
falta perder-se dos rascunhos;
falta seguir sem dizer as suas mímicas;
sentir-se comprometido, sombra na parede.

se afeito aos rumos do meio-dia, aceito pelo cansaço;
se cachorro abusado pela sarna, dobram-me
as veias do inverno, a língua em riste, os pulsos do entusiasmo;
se um amestrado suicida, enrolam-me
os pensamentos do fogo, as labaredas da lua, a lambida na espinha.

sou outro, e ancestral.
banco o morto pra viver em paz.
aprendo a caverna, sinto a morte em vida.



(2016)

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