segunda-feira, 18 de setembro de 2017

laboratório do cão

ninguém lembra
ninguém quer lembrar-se
o chão da noite na gaiola do rato

as migalhas a urina o cheiro o nojo
ninguém quer ser lembrado

ninguém está ali ninguém quer estar ali
nem mesmo o rato nem mesmo ele com o seu hálito de rato

ninguém quer ficar perto
ninguém fica perto o bastante
pra azeitar as manivelas da engrenagem
pra afinar os ventos da aceleração

por isso o ar toma as formas da gaiola
toma a manhã, obscurecida
o rato devorado pela poeira do cosmos
o rato não permaneceu

permanece a gaiola



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

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