os abutres
a
molecada brinca com fogo,
e
eles juntam gravetos, trazem o isqueiro,
fazem
arte no quintal da casa,
da
avó que cochila seus quindins,
para
a alegria das três,
da
tarde que nem parece querer a noite.
vazios
da chama, porque aéreos, os corpos estão à espera,
são
abutres, e estão ocupados, bancando sentinelas.
os
abutres seguem a pista da árvore,
dentro
do tronco, traçando suas miríades,
a
noite depositou seus ovos, essa fauna meio fajuta.
um
homem de binóculo nota
que
o tronco parece impregnado de lágrimas,
suas
raízes mergulhadas no esperma,
o
ninho modelado por uma gota de sangue,
como
se nas folhas coubesse o suspiro sincero das colinas,
e
dos galhos nonatos, a fogueira pros mosquitos.
o
homem nem parece querer notar essas coisas,
como
se o momento dependesse do vento; que vento?
naturalmente instruídos,
os abutres sabem da árvore mas não a encontram,
parecem cansados, mas estão mortos,
de esperar que a molecada coma seus doces,
da avó que tricota lembranças, tecendo-as
recordações magníficas, entre tantas infâncias,
doces como quindins, jamais indigestos.
os abutres saciam-se com os corpos
à disposição, há uma estrada lá pelas bandas
dos outros quintais, à margem dos dias, esses gêmeos,
na escuridão da pressa, e haja apressados!
a avó, porém, comeu demais,
desliga-se da criançada, depois do café
coado na hora, como pastel de feira, aquela era uma quinta.
saibam todos os abutres,
a alegria que não trepa pela corda
sabe da alegria que salta dos galhos,
principalmente nas quintas, depois das três.
(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)
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