quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Chorinho

 

Chorinho

 

Nem pergunte o que eu penso, pois não pretendo confessá-lo. Digo apenas o que me seja conveniente, ainda mais se disfarço o quanto é divertido rir por dentro, rir desbragadamente.

Eu ri porque a cena que presenciei foi patética, e foi tão bizarra que continuo rindo. Pornograficamente a riso solto, sem peias.

O que dá motivo para não me conter?

Vi um sujeito virar um copo de pinga. Vi o dono do bar entregar uma toalhinha. Sem piscar, o homem que bebeu a pinga numa golada foi à pia junto à porta do banheiro. Lavou as mãos, lavou-as bem.

Notei que, ao lavar-se, ele fazia o biquinho de quem assobia, quiçá mentalizando Inútil, do Ultraje a Rigor.

O que ninguém disse, nem confirmo, é que, para não ter confusão, a toalhinha era para frear a gastança das toalhas de papel.

Limpo e seco, o homem veio sentar-se no banquinho.

O dono do bar nunca se vangloriou de que tinha na clientela um pau d’água acerbamente motivado a se livrar dos resquícios da branquinha, pois o que amargura esse homem cuidadoso é que pinguços são gente que se emporcalha, mas ele, o dono do bar, é solidário com o borracho que tem ojeriza de quem transpira álcool.

Olhando-me de soslaio, o dono do bar queria que eu não caísse na besteira de rir, comentar ou fazer o mesmo que o camarada, ir lavar as mãos depois de entornar o lavrado da puríssima.

Quando simular inocência é um bom jeito de senti-la, embora fosse engraçado, não disse que era um troço que eu nunca tinha visto, algo pitoresco, algo risível, mas eu virei o copo, lavei as mãos, enxuguei-as com duas toalhas de papel.

Sem rir, retomei o meu posto.

E tudo como dantes?

Atrás do balcão, o dono do bar olhava-me com o canto dos olhos; pouco a fim de questionar-me o porquê da gracinha, o homem de mãos limpas olhava pro chão.

O meditabundo olhou-me, mas o seu olhar não deu comigo, embora eu estivesse a meio metro de si, eu me preservasse ao alcance de uma cusparada.

As minhoquinhas provocavam os clarões que me punham ansioso. Por que raios o camarada lava as mãos mesmo depois de desrespeitar o santo? Aliás, razão, santo insultado concede perdão? A tempestade iluminava as respostas, só que minhoquinhas não falam.

Enquanto bebíamos, não ousei dizer o que havia entendido.

Entendi, mas não abri a boca nem a abrirei agora, porque entidades tão sensíveis não vacilam.

Então, sensato é o santo que não bebe? Aquele que não bebe nem quando a cachola faz as mãos tremerem? Um santo de Carrara escuta o suor escorrendo?

A verdade é que o sujeito que me ensinou a beber a dose toda não apontou o chão, não puxou o ar, não teve de falar o óbvio: esse negócio de virar o primeiro teco de toda dose é maracutaia das grandes, porque o dono do bar vende mais bebida, lucra mais e expulsa a gente quando quer, alegando que o chão está imundo, fedendo, escorregadiço.

Tudo por culpa nossa, amor, pois veneramos um santo troncho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de setembro de 2025.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Chamando gente

 

Chamando gente

 

Em vez de sentado no fundo da lanchonete, o garoto ficaria melhor na foto tirando a sesta no sofá da sua casa, mas ele não resistiu de vir comer coxinha, uma vez que criança, e não importa o quão sessentona ela seja, tem dessas lombrigas lúbricas.

A tamborilar os dedos no tampo da mesa a cada vez que fazia um novo pedido de fritura, sem se dar conta das arcadas superior e inferior a friccionarem-se, eventualmente pigarreando, o guri não chega a suar neste propósito de passar-se por um velhinho desinteressado do papo dos homens junto ao balcão.

Dividindo outra cerveja, a quarta, pelo número de cascos no tampo do balcão, eles conversam ao sabor dos assuntos que vão pipocando, seja porque a notícia na tevê instigue a comentá-la, seja porque algum freguês fala algo que estimule a uma segunda opinião.

Como os palpiteiros são dois, as divergências são muitas.

ꟷ Digo que um homem é um indivíduo, uma mulher é uma pessoa. Já você diz que dois homens são?

ꟷ Ora, dois homens são uma dupla.

ꟷ E duas mulheres?

ꟷ Ora, ora, duas mulheres formam uma dupla.

ꟷ Meu caro, e se forem muitas mulheres?

ꟷ É óbvio, muitas mulheres são a mulherada.

ꟷ Quando se reúnem muitos homens?

ꟷ Meu caro, homens ordeiros são a força da nação.

ꟷ Aleluia! Você é dos meus.

ꟷ Evidente! É da união da nossa gente que surge o povo.

De acordo com a corrente versão da Novíssima Gramática Política Brasileira, cuja edição de 1992 foi ampliada em 2016, “vós” é voz mais que perfeita a reger (oculta) a “nós” e a quem somos “eles”.

De costas para a rua, fumando, o homem vai bebericando a cerveja sem temor exasperado pela segurança de filhos e netos e da primeira bisnetinha que está para nascer, uma vez que, de momento, sua maior preocupação são os fios mais negros que as asas da graúna.

De olho na TV, fumando, o homem de rabinho de cavalo, de quando em quando, passa um lenço no topo nu da cabeça, pois a cerveja não ameniza o calor, nem depois de garantir que o elástico ainda prende o seu rabicho gris.

O suarento usa relógio, mas ele não o usa para ver as horas, já que o mostrador está voltado para o braço. Então, pela exibição inusual do relógio, o distinto é mais uma figurinha premiada da cidade.

Contam que o famigerado acredita que o corpo tem o coração para dar-lhe a energia do pulso, já o relógio tem a bateria para fazer as suas geringonças funcionarem.

Assim, a pele percebe que o relógio não é outra máquina qualquer, é um tipo especial de coração, cujo organismo foi criado para a mente se orientar mecanicamente.

Eis o grande achado: o corpo capta o que os ponteiros transmitem, uma vez que, segundo a segundo, um a um, o coração resguarda-se de ansiedades, mantém-se em concomitância com o tempo do mundo; assim, criatura, ninguém entope as veias com discordâncias.

Com papais e mamães ligados na tevê, a esperança é a criançada continuar brincando na rua.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de setembro de 2025.

domingo, 31 de agosto de 2025

Jokenpô

 

Jokenpô

 

Late em mim um coração danado. Poderia pulsar menos apertado, que eu agradeceria. Não que me seja um aperto górdio a pedir espada que o resolva de vez, extirpando o mal, porque a faceta demoníaca me apimenta e dela, dessa carranca que diz o meu nome a dizer-me outro, não me quedo livre nem que eu me mascare libertado, portanto livre.

Libertação é ato, é praticar a liberdade, mas a morte não liberta, ela mata, extingue, finaliza; sim e finalmente, a morte é arrematadora.

Arrematar não é ver-se livre, é não mais ver-se excluído, não é mais situar-se à margem por vontade, é não mais posicionar-se à parte em prol das partes marginalizadas pelas vontades de terceiros, não é mais voltar o espelho às faces que manipulam os fins manejando os punhos, até porque é um negocinho satânico de ruim tratar a morte como sendo outra coisa, como se arrematação fosse o toque final, dando ao fetiche o papel de sacada esplêndida, maravilhosa, divina.

Tudo bem, admito latir em mim um chihuahua bem zureta, um bicho a correr atrás do próprio rabo, que dispara alimentar-se dos latidos que muito o divertem, até porque, quando não há morte nem ressurreição, o que há são os efeitos colaterais de uma vacina.

Para padecer algumas reações adversas, na quinta passada fui ao posto de saúde mais próximo, fui tomar a quarta, quiçá a quinta, dose da vacina que dê proteção contra certo coronavírus já meio esquecido, um que foi nomeado SARS-Cov-2.

Bem que eu podia ter ficado de boa, ignorando este vírus que segue à espreita, faz tocaia, vai vigilante, preparado para assaltar-me, a mim que não sou fascista, entreguista, um bebedor do ki-suco de quem não tem caninos assanhados, não mostra predileção tarada por jugulares, não professa aptidão para guerrilhas.

Bobo que é bobo, como outros tantos, ainda sigo na trincheira.

Um camarada na trincheira, embora mortinho.

Como foi que eu morri na sexta-feira?

A dor no braço onde foi aplicada a injeção, por óbvio, foi o primeiro sinal do que viria. Pouco antes de me deitar, veio a dorzinha de cabeça. Na madrugada, a vontade de adoçar a boca foi saciada com guaraná, que, por azar ou trapaça das zonas obscuras da cachola, eu comprara às vésperas daquela injeçãozinha. Por fim, mas sem menor desgrama, os calafrios ensoparam touca, camiseta, cueca e a alma.

No sábado à noite, soube que sobrevivera à ressurreição quando me bateu um cansaço muscular que não foi possessivamente dolorido nem um apocalipse calafrioso.

Tudo bem, a vida vai.

Tudo certo, o quintal tem câmeras que o guardam.

Tudo legal, corte e coorte que se entendam.

Tudo é vero, é veríssimo, aquela camarilha terá o que merece, a tal quadrilha saberá o que pode a justiça instituída, a cambada conhecerá o que tanto maldiz, porque, se me faço claro, sem pedra e sem tesoura, tal malta há de saber: rato não rói o papel da constituição.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2025.


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Criança feliz

 

Criança feliz

 

Lavando a alface, Claudiomiro não acha direito o que houve, porque foram inverdades o que disseram. Cortando o tomate, o pior é que nem quiseram ouvir o seu lado. Lacrimejando, os olhos vermelhos, não parou de cortar o tanto de cebola que gosta de ter na salada, ele queria ser escutado pelo que realmente acontecera.

A poça aos pés da mesa não era porque urinara, foi um acidente, o seu braço esbarrou no jarro de água, foi porque ficou empolgado e não porque fosse invejoso.

Quem delatou não passa de um oportunista. Quem acatou o que foi relatado sem checar a verdade cometeu uma injustiça. Quem tem que pagar pelo que não fez é ele, Claudiomiro, agora desempregado.

Ele não era o responsável pelo camarim bagunçado, só não soube dizer não no instante em que houve constrangimento. Não foi ele quem falou que não era errado brincar com as roupas. Se a estrela da peça vestiu-se como se aquilo fosse divertido, Claudiomiro foi logo pegando o vestido de noiva.

Mas não lhe deram a chance de falar que dançou uma valsa com o galã, uma vez que ele insistiu, ele foi mesmo um cara insistente, tanto que rodopiaram de rosto coladinho.

Se o sujeito disser que se beijaram, teria sido um beijo técnico, pois o Claudiomiro nunca escondeu que gosta da mulher, que ama os filhos, que está economizando porque pretende levar a família à praia quando puder dirigir o carro que seja seu.

Apesar da revolta, já que as pessoas o impediram de contar que ele até tentou deixar tudo como tinha de estar, com os vestidos, os sapatos e os chapéus, cada item em seu lugar, mas Claudiomiro foi arrastado pro bar.

O que o desviou de agir certo foi ir beber.

A prioridade de um homem é não fazer desfeita, ainda mais quando juram que irão pagar a conta. Por isso, Claudiomiro foi para o bar sem sequer ter tirado o chapéu usado pela noiva da peça.

Sem que ninguém o fizesse parar, o cara achou de explicar como a história ia sendo contada com as sobreposições de realidade, memória e alucinação. Era importante dizer o quanto o texto era atual, porque o autor tinha sido genial ao desmascarar a caretice da época.

Uma vez que a nenhum deles sobreviesse a vontade de controlar-se, eles beberam cervejas e caipirinhas, comeram salsichas, e ficaram nisso até que o dia clareou.

Como se a noite tivesse sido mais uma noite de vigilância sem nada de incomum, às oito horas de cada dia, o Claudiomiro chegou.

Circunstância atípica para a hora, ele a procurou.

Sentindo o bafo, certa de que a coisa desandaria, ela achou melhor deixá-lo dormir. E teriam de ter, mais tarde, uma boa conversa, porque homem quando é responsável não age assim.

Ele queria sonhar, pois nenhuma criança tem que se preocupar, tão logo acorde, de procurar outro serviço.

Que sorte a sua, Claudiomiro, já que você não almoça sozinho, pois a embriaguez dessa felicidade ímpar veio à mesa consigo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2025.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Domingo antalógico

 

Domingo antalógico

 

Eu ia pelo calçadão da orla de Praia Grande, dois ou três anos antes da Covid-19, quando acabei decepcionando quem me interpelou, pois eu não era, e continuo não sendo, o Pondé.

Na TV, o filósofo exibe uma barbona que me faz tomá-lo por profeta bíblico, mas, naqueles dias, ele costumava usar uma barba de uns dias sem fazer e, antes como agora, calçar tênis All Star, o que eu também costumava usar e calçar.

Veio a pandemia, o distanciamento social foi-me deprimente, tanto foi que virei um lastimável leitor de revistas velhas. Nos consultórios de psiquiatra e psicólogo, fui aconselhado a estabelecer rotinas. Passei a caminhar no calçadão diariamente, uma hora por dia. Adotei uma rotina nova, tão nova que a cabeça estressada precisou de ir-me adaptando devagarinho. Foi desmamando sem empolgação que eu passei a bater cartão em boteco uma vez por semana, uma vez quinzenalmente, até chegar a uma vez por mês. Equivoco-me, parei em 2019. Em maio. Foi um ano antes das restrições sanitárias. Parei e sigo sem beber desde então. Já não uso a barba de uns dias sem fazer, adotei o cavanhaque. Continuo fiel à marca Converse, pois valorizo tênis cuja fôrma não me aperreie. Tenho calos, em cada mindinho. Não os cito pra me justificar, que já não caminho uma hora por dia. Bato perna. Saio de casa quase todo dia. Vou a banco, a supermercado e à farmácia.

Maravilha! Ainda que as novidades aporrinhem, não bebo.

Aos domingos, saio passear com os cães. Sem querer voltar, passo diante de um, de um segundo, de um terceiro, são tantos os bares que passo e sigo sem pressa. Tenho que passear os meus cães. E isso me alegra. Tanto apraz que nem me apresso. Não me aperreia ir parando. Meus cães e os vira-latas não me aborrecem. Eles latem e cheiram-se. Até os automóveis, os poucos que circulam, não me são aflitivos.

Sem estresse. Entro que nem tranco a porta. Tudo bem se aparecer visita. Talvez tragam bolo. E domingo é bom para bolo, suco e debate. Também é ótimo para falar pelos cotovelos. Claro! Sendo bom escutar, calar-se é melhor. Talvez venha quem se entusiasme com um assunto e não com outro. É coisa boa ter uma conversinha que não faça a gente engasgar-se. Ou querer tomar banho. Até porque chegará o momento de lembrar-se de que amanhã vai ser segunda-feira.

Estou vendo TV. Anunciam que Jaguar morreu. Puxa vida, a notícia me entristece. Desligo a TV. A TV desligada não desvia o pensamento, que o cartunista bebeu piscinas. Deu em cirrose. E câncer no fígado. Confesso que bebi, ele escreveu.

Sinto que preciso fazer algo. Faço a barba. Tiro o cavanhaque. Meu rosto não é nenhum bumbum de bebê. Tenho rugas e pés de galinha.

E essa agora! Será meu desejo querer um chopinho?

Já que eu não sou nenhum Buda, a moça sequer se contém:

ꟷ Caraca! A carequinha do senhor é tão gostosa de alisar.

Ah sim! Larguei a boina em casa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de agosto de 2025.

domingo, 24 de agosto de 2025

Dálias

 

Dálias

 

Com o patriarca no vigor dos sessenta anos, com o pulso firme da sua cônjuge a meter a colher nos momentos críticos, com Lúcia Maria casada com o marido certo, com Dália Cristina afeiçoada ao consorte que muito a afortuna, sem mais, seja dito que tal família está destinada às felicidades que tanto a distinguem.

Senhor leitor, é compreensível que se queira entender a razão para Dália Cristina ter fechado os olhos ao inspirar o aroma da flor recebida, o que me parece não ser nem um pouco plausível é a indagação, cadê as sereias que não cantam?

Cantando que fique insinuado que o caos não existe neste mundo, esta é crônica escrita para que lhe seja possível, senhor leitor, rastrear os variados sentimentos que constam do escrito.

Com a sua vênia, senhor leitor, sigo a querer exitosa a empreitada, que é o prazer de dar com a moral da história justamente quando nada for preciso de ser acrescido, habilitando-o, sem mais, para a liberdade que, creio eu, advirá aquando do instante derradeiro.

Compreender-se condicionada faz a gente acreditar que a história contada não acoberta o que seja essencial, o que, por sua vez, implica que as incoerências insinuam-se feito peta, induzindo-o, senhor leitor, a divertir-se, posto que, desde o Big Bang, a vida não vai além de uma barafunda, um pandemônio ou um caótico picadeiro.

Para que venha a ser sentido o gostinho do que seja este picadeiro caótico, senhor leitor, eis que toques picantes são para que o paladar perceba o mundo como guisado avesso a mixórdias insípidas.

Lúcia Maria, indubitavelmente a mais sorridente das filhas, reina no lar que o marido instituíra para ela oferecer martírios, onde o jardineiro teme os dentes de leão dispersados pelo noroeste, onde os pitadaços das cozinheiras são justificativa para irem pra rua, onde a garagem tem vagas para ele, para ela e pros novíssimos carros de Ana Beatriz e Ana Catarina, as netinhas mais queridas do Doutor Agripino.

Uma vez que nem filhos Dália Cristina tem, anime-se, senhor leitor, vibre estarrecido ao pegá-la empurrando um carrinho de bebê; todavia, ao vê-la uniformizada, inteirinha de branco e fantasiando-se uma babá, pasme-se, demonstre o choque que pode tão bem atarantá-lo.

Chocada está Dália Cristina, pela confirmação de que a fofoca não é falsa, pois, estacionado diante do edifício onde Belinha mora, o SUV pertence ao filho de uma égua, àquele “marido certo”.

Para não ser desmascarada feito babá e para ter o que respaldá-la caso necessite chantageá-lo, ela os fotografa.

Como é difícil manter-se acima de suspeitas, o amante da babá de Ana Beatriz e Ana Catarina, pelas fotos no celular da Belinha, sabe que a burguesinha que deprecia as tolices da vida burguesa é outra a ser amaciada.

ꟷ Embora a formosura desta flor seja inferior à sua, minha doce e gentil Branca de Neve, aceite-a.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de agosto de 2025.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

(quase) todo mundo no sofá

 

(quase) todo mundo no sofá

 

Precisei sair, tinha que ir à praça, deitar-me na grama. Levantei-me do sofá e vim. Tinha que fechar os olhos, a ouvir pombas arrulhando. Precisava de ficar longe daquele fuzuê, queria entender o que brotou de repente. Eu queria rir, sem véus, do súbito da casmurrice.

Apoquentado, desacorçoado, achando de desarrochar-me, queria o riso. Como rosa desabrochada, achei por bem haver-me expulsado de casa. Embora o desejo sujeite-me a obscuridades, vim-me.

Vim deitar na grama. Deitado, fiquei ouvindo as pombas, tentando ignorar quem passava perto. Embora não tivesse vindo disposto a ficar escutando as pessoas, ainda que falassem do café, que subiu, de uma semana pra outra, mais do que tinha subido em um semestre, continuei deitado.

Fiquei de olhos fechados, mas nada melhorou. Não consegui ouvir só notícias boas. Isso não me pôs surdo às críticas de quem sabia que o preço do café aumentaria por causa do tarifaço, dos sacos enchendo depósitos, dos grãos estocados nos silos, dos fazendeiros a negar um cafezinho cheiroso a quem viesse visitar.

De olhos fechados, fiquei sem ouvir que o mundo vai melhorar.

Sem dar com a razão, eu estava sem tomar café desde que acordei.

Precisava de cafezinho, achava ser preciso. Quiçá pelo gostinho de passá-lo, pois talvez eu saboreasse gostoso o sol na pele, para que a cachola ficasse ligada, ativa, reativa, mais bem acordada.

Acorde, Seu Rodrigues. Hoje é domingo. É dia de deixar desligada a tevê. É dia de lavar os cachorros. Domingo, Seu Rodrigues, é dia de ficar em silêncio, apreciar a solidão, manter-se alheio ao preço do café, conservar-se equidistante de quem se preocupa que seu celular esteja desligado desde manhã.

E a tevê passa Santos X Vasco.

A minha casa está tomada, ocupada por gente que me estima e me quer bem; ainda que, agora, comigo deitado de olhos fechados, ainda que eu, agorinha mesmo, perceba-me que sou uma pessoa repulsiva, tóxica, que não mereço sequer o golinho de café que me faz falta, sigo deitado na grama, continuo tomando sol.

Seu Rodrigues, que pessoa graciosa você se acha, hein?

Sem ligar que o vissem escapando, saiu-se. Sem que importasse o andamento do jogo, arrepiou-se. Sem que a gente passando o notasse abobalhado, simpático à própria bobeira, sorri.

Fazia sol. Era domingo. Escondido a céu aberto, gostava de rir-se.

Simpático, neste instante, é admitir que Clarice Lispector tem razão ao avisar: não confundir bobos com burros.

Já reparou que o burro, por ser burro mesmo, dispara se pôr à frente da carroça, independentemente de levinha ou pesadíssima?

Foi oportuno o impulso de ir à praça? Pois, claro.

Dando que tenha vindo à praça por não ter isenção pra sopesar as fumaças da cachola, torcendo para que o tolo continue sobrepondo-se ao burro, legal foi ter preferido pegar sol a cochilar no sofá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2025.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Fumaça

 

Fumaça

 

Ontem experimentei ficar, o dia todo, sem café.

Pra não arranharem a minha matraca, a fatia de pão integral e duas bolachinhas de banana desceram com o préstimo do substancialmente terroso fruto do São João, aquela água bem limpinha.

À tarde, repeti o procedimento: bebericando aquela água com gosto de barro, as bolachas e o pão desceram redondo.

Às portas da noite, a abstinência apresentou-se-me feito morgação e uma dor de cabeça bem chatinha.

O mais chato, porém, foi a sensação de desajuste.

Viver à beira de um colapso faz a amargura subir à boca, mas ficar longe das redes sociais faz vagarosos os minutos.

Quando a lentidão vigora, eis-me uma pessoa rigorosa.

No rigor de pensar-me por mim, compreendo a bajulação, sinto-me idiota ao macaquear quem despreza a submissão.

Justamente civil, ponho gosto em tagarelar em pensamento, dou ao silêncio a aura de decantar as sobras que me são assombrosas, faço a memória vagar, sou canoa na correnteza, os braços remam, a língua sente a terra no rio e, para vagar e divagar com o temor de afogar-me, ponho jacarés à espreita.

À margem deste instante, recordo os anos 80, recordo-me daqueles loucos anos 80, recordo que era o louco que se viu desarvorado pelas formigas de Mário Cesariny de Vasconcelos, não tenho saudade desse que fez descobertas, amo-me pela revelação de que a realidade já não bastava, amo quem fui pela pessoa que sou, amo-me e, por me amar na pessoa que acredito ser, sofro. Uma vez que o passado liberta-me na pessoa que podia me julgar culposo em eu ser quem gosto de achar que tenho me permitido ser, calo-me.

Sinto a mão de papai pesar no meu ombro.

Tal embaraço é manha do embusteiro, redivivo na soberba do rapaz que, na malandragem dos seus dezoito anos, achava-se em condições de escrever um romance.

Atraído pelo barulho da máquina, querendo ver quem datilografava, o pai entrou no escritório que era seu.

Sem pedir, o homem pega as folhas sobre a escrivaninha, lê o título e o pseudônimo adotado pelo filho, Eduardo Gonçalves, e, debochado, lê em voz alta: PRÊMIO NESTLÉ DE LITERATURA BRASILEIRA.

Experiente escrivão da polícia civil, ele enumera os absurdos lidos na primeira folha: se era noite, não poderia ter sol, mas, vá lá, filho, se morássemos no norte da Europa, seria coerente que o Sol brilhasse às vinte e três e cinquenta e nove.

Dirigindo-se às estantes, a retórica do entojado diz:

ꟷ O senhor Eduardo Gonçalves terá conhecimento de Poe, Tolstói, Turguêniev? Deus! Saberá de Aliocha Karamazov?

Mal ele saíra, o moço abanou suas brasas, pois tinha o que mostrar, queria dar-lhe as passagens em que surgiam o alicate contra as unhas, o martelo contra os dedos ou os cabos na genitália do subversivo.

Recordando-se da lixeira, o peso do senhor meu pai não se dá pela ausência da mão sobre o ombro, dá-se pelo charuto apagado que não diz nada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de agosto de 2025.

domingo, 17 de agosto de 2025

Os dois selinhos

 

Os dois selinhos

 

Já prescreve a canção, “fundamental é mesmo o amor”. A essência permanece válida. Bem sei, porque observo um casal mergulhado em carinhos. Pera aí! Não tenho que me vexar dessa alegria que é espiar o mundo quando as circunstâncias são excitantes, é a lanchonete que está pouco movimentada. Sei, os apaixonados têm direito à intimidade; tanto quanto eu, que também espio a tevê, tenho mais que curtir o meu beirute, pois, assim ocupado, não darei fôlego a alguma tara que me impulsione a devorar a refeição sem que perceba que os meus soslaios têm fundamentação.

Pensando com o estômago, ocorre-me que é desagradável ser feliz sozinho, peço umas esfihas.

Houve dias em que, esfaimado, o mundo agitava minha luz. Foram dias em que lábios, tão encarnados no batom da revista, sussurravam verdades. Tais dias foram sonho, mas houve evoluções.

Quando vejo uma boca, mais tentadora se pintada em carmim, ouço as suas vontades, cuido de compreender como a decepciono.

Aqueles dias, porque já são idos, não cantarão o amor que poderia ter sido. Não lamento, pois os dias têm novas notícias em avalanche; são tantas que elas me aterram, pois o amor complica.

Posso escapar, pois tenho uma vida a trazer-me até mim. Revisito os escombros, reviro as ruínas. São tantas as pegadas que é privilégio tomar um rumo incerto, trocá-lo por outro, também incerto. Só que não me lamento, uma vez que os cães do futuro farejarão, amestrados para o que tenha relevância, adestrados pro que precise ter relevância.

Da conversa veio me fisgar a palavra bananica.

Imediatamente vi-me abismado no passado, num dia, numa tarde, num crepúsculo, foi quando tive a coragem de silenciar o tímido, gozei do prazer de superar a caipirice, eu escolhi ser escolhido.

Eu a convidei, e fomos. Abri o Concha y Toro, e bebemos. Dividimos um copo, nem o elegemos que fosse único. Foi a primeira no meu apê, e fomos no seu Corsa. Tomamos a garrafa; nós só fomos notá-la vazia quando nossas gargantas ficaram secas.

Não me ocorreu fazê-la pensar que eu fosse alcoólatra, pois eu abri outra garrafa. Com outro tinto da mesma marca, o nosso copo voltou a ficar cheio.

Houve cumplicidade. As nossas bocas geravam confiança, pois não falamos na quebra da quarta parede e não falamos de distanciamento crítico, e sequer nos movemos por representações brechtianas.

Para enveredar o espetáculo para outro apogeu, sem nada de épico e sem nada de dramático: bocas têm língua, saliva e tesão, portanto a carne nos sensibilizou.

Um bocado sensíveis, nós sentimos o suor, a pele suada. Sentimo-nos tão excitados que ignoramos o tapete.

Lassos, abraçadinhos, estávamos bem, tanto estávamos enlevados que, puríssimos, demo-nos dois selinhos.

ꟷ Prazer, meu nome é Aída.

ꟷ Oi, Aída. Os amigos me conhecem por Biel, mas vou gostar mais se você me quiser como Benzinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de agosto de 2025.