(quase) todo mundo no sofá
Precisei sair, tinha que ir à praça,
deitar-me na grama. Levantei-me do sofá e vim. Tinha que fechar os olhos, a ouvir
pombas arrulhando. Precisava de ficar longe daquele fuzuê, queria entender o
que brotou de repente. Eu queria rir, sem véus, do súbito da casmurrice.
Apoquentado, desacorçoado, achando de
desarrochar-me, queria o riso. Como rosa desabrochada, achei por bem haver-me
expulsado de casa. Embora o desejo sujeite-me a obscuridades, vim-me.
Vim deitar na grama. Deitado, fiquei ouvindo
as pombas, tentando ignorar quem passava perto. Embora não tivesse vindo
disposto a ficar escutando as pessoas, ainda que falassem do café, que subiu,
de uma semana pra outra, mais do que tinha subido em um semestre, continuei
deitado.
Fiquei de olhos fechados, mas nada
melhorou. Não consegui ouvir só notícias boas. Isso não me pôs surdo às
críticas de quem sabia que o preço do café aumentaria por causa do tarifaço,
dos sacos enchendo depósitos, dos grãos estocados nos silos, dos fazendeiros a
negar um cafezinho cheiroso a quem viesse visitar.
De olhos fechados, fiquei sem ouvir que o
mundo vai melhorar.
Sem dar com a razão, eu estava sem tomar
café desde que acordei.
Precisava de cafezinho, achava ser
preciso. Quiçá pelo gostinho de passá-lo, pois talvez eu saboreasse gostoso o
sol na pele, para que a cachola ficasse ligada, ativa, reativa, mais bem
acordada.
Acorde, Seu Rodrigues. Hoje é domingo. É
dia de deixar desligada a tevê. É dia de lavar os cachorros. Domingo, Seu
Rodrigues, é dia de ficar em silêncio, apreciar a solidão, manter-se alheio ao
preço do café, conservar-se equidistante de quem se preocupa que seu celular
esteja desligado desde manhã.
E a tevê passa Santos X Vasco.
A minha casa está tomada, ocupada por
gente que me estima e me quer bem; ainda que, agora, comigo deitado de olhos
fechados, ainda que eu, agorinha mesmo, perceba-me que sou uma pessoa repulsiva,
tóxica, que não mereço sequer o golinho de café que me faz falta, sigo deitado
na grama, continuo tomando sol.
Seu Rodrigues, que pessoa graciosa você
se acha, hein?
Sem ligar que o vissem escapando, saiu-se.
Sem que importasse o andamento do jogo, arrepiou-se. Sem que a gente passando o
notasse abobalhado, simpático à própria bobeira, sorri.
Fazia sol. Era domingo. Escondido a céu
aberto, gostava de rir-se.
Simpático, neste instante, é admitir que
Clarice Lispector tem razão ao avisar: não confundir bobos com burros.
Já reparou que o burro, por ser burro
mesmo, dispara se pôr à frente da carroça, independentemente de levinha ou
pesadíssima?
Foi oportuno o impulso de ir à praça? Pois,
claro.
Dando que tenha vindo à praça por não ter
isenção pra sopesar as fumaças da cachola, torcendo para que o tolo continue
sobrepondo-se ao burro, legal foi ter preferido pegar sol a cochilar no sofá.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de agosto de 2025.