quinta-feira, 21 de agosto de 2025

(quase) todo mundo no sofá

 

(quase) todo mundo no sofá

 

Precisei sair, tinha que ir à praça, deitar-me na grama. Levantei-me do sofá e vim. Tinha que fechar os olhos, a ouvir pombas arrulhando. Precisava de ficar longe daquele fuzuê, queria entender o que brotou de repente. Eu queria rir, sem véus, do súbito da casmurrice.

Apoquentado, desacorçoado, achando de desarrochar-me, queria o riso. Como rosa desabrochada, achei por bem haver-me expulsado de casa. Embora o desejo sujeite-me a obscuridades, vim-me.

Vim deitar na grama. Deitado, fiquei ouvindo as pombas, tentando ignorar quem passava perto. Embora não tivesse vindo disposto a ficar escutando as pessoas, ainda que falassem do café, que subiu, de uma semana pra outra, mais do que tinha subido em um semestre, continuei deitado.

Fiquei de olhos fechados, mas nada melhorou. Não consegui ouvir só notícias boas. Isso não me pôs surdo às críticas de quem sabia que o preço do café aumentaria por causa do tarifaço, dos sacos enchendo depósitos, dos grãos estocados nos silos, dos fazendeiros a negar um cafezinho cheiroso a quem viesse visitar.

De olhos fechados, fiquei sem ouvir que o mundo vai melhorar.

Sem dar com a razão, eu estava sem tomar café desde que acordei.

Precisava de cafezinho, achava ser preciso. Quiçá pelo gostinho de passá-lo, pois talvez eu saboreasse gostoso o sol na pele, para que a cachola ficasse ligada, ativa, reativa, mais bem acordada.

Acorde, Seu Rodrigues. Hoje é domingo. É dia de deixar desligada a tevê. É dia de lavar os cachorros. Domingo, Seu Rodrigues, é dia de ficar em silêncio, apreciar a solidão, manter-se alheio ao preço do café, conservar-se equidistante de quem se preocupa que seu celular esteja desligado desde manhã.

E a tevê passa Santos X Vasco.

A minha casa está tomada, ocupada por gente que me estima e me quer bem; ainda que, agora, comigo deitado de olhos fechados, ainda que eu, agorinha mesmo, perceba-me que sou uma pessoa repulsiva, tóxica, que não mereço sequer o golinho de café que me faz falta, sigo deitado na grama, continuo tomando sol.

Seu Rodrigues, que pessoa graciosa você se acha, hein?

Sem ligar que o vissem escapando, saiu-se. Sem que importasse o andamento do jogo, arrepiou-se. Sem que a gente passando o notasse abobalhado, simpático à própria bobeira, sorri.

Fazia sol. Era domingo. Escondido a céu aberto, gostava de rir-se.

Simpático, neste instante, é admitir que Clarice Lispector tem razão ao avisar: não confundir bobos com burros.

Já reparou que o burro, por ser burro mesmo, dispara se pôr à frente da carroça, independentemente de levinha ou pesadíssima?

Foi oportuno o impulso de ir à praça? Pois, claro.

Dando que tenha vindo à praça por não ter isenção pra sopesar as fumaças da cachola, torcendo para que o tolo continue sobrepondo-se ao burro, legal foi ter preferido pegar sol a cochilar no sofá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2025.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Fumaça

 

Fumaça

 

Ontem experimentei ficar, o dia todo, sem café.

Pra não arranharem a minha matraca, a fatia de pão integral e duas bolachinhas de banana desceram com o préstimo do substancialmente terroso fruto do São João, aquela água bem limpinha.

À tarde, repeti o procedimento: bebericando aquela água com gosto de barro, as bolachas e o pão desceram redondo.

Às portas da noite, a abstinência apresentou-se-me feito morgação e uma dor de cabeça bem chatinha.

O mais chato, porém, foi a sensação de desajuste.

Viver à beira de um colapso faz a amargura subir à boca, mas ficar longe das redes sociais faz vagarosos os minutos.

Quando a lentidão vigora, eis-me uma pessoa rigorosa.

No rigor de pensar-me por mim, compreendo a bajulação, sinto-me idiota ao macaquear quem despreza a submissão.

Justamente civil, ponho gosto em tagarelar em pensamento, dou ao silêncio a aura de decantar as sobras que me são assombrosas, faço a memória vagar, sou canoa na correnteza, os braços remam, a língua sente a terra no rio e, para vagar e divagar com o temor de afogar-me, ponho jacarés à espreita.

À margem deste instante, recordo os anos 80, recordo-me daqueles loucos anos 80, recordo que era o louco que se viu desarvorado pelas formigas de Mário Cesariny de Vasconcelos, não tenho saudade desse que fez descobertas, amo-me pela revelação de que a realidade já não bastava, amo quem fui pela pessoa que sou, amo-me e, por me amar na pessoa que acredito ser, sofro. Uma vez que o passado liberta-me na pessoa que podia me julgar culposo em eu ser quem gosto de achar que tenho me permitido ser, calo-me.

Sinto a mão de papai pesar no meu ombro.

Tal embaraço é manha do embusteiro, redivivo na soberba do rapaz que, na malandragem dos seus dezoito anos, achava-se em condições de escrever um romance.

Atraído pelo barulho da máquina, querendo ver quem datilografava, o pai entrou no escritório que era seu.

Sem pedir, o homem pega as folhas sobre a escrivaninha, lê o título e o pseudônimo adotado pelo filho, Eduardo Gonçalves, e, debochado, lê em voz alta: PRÊMIO NESTLÉ DE LITERATURA BRASILEIRA.

Experiente escrivão da polícia civil, ele enumera os absurdos lidos na primeira folha: se era noite, não poderia ter sol, mas, vá lá, filho, se morássemos no norte da Europa, seria coerente que o Sol brilhasse às vinte e três e cinquenta e nove.

Dirigindo-se às estantes, a retórica do entojado diz:

ꟷ O senhor Eduardo Gonçalves terá conhecimento de Poe, Tolstói, Turguêniev? Deus! Saberá de Aliocha Karamazov?

Mal ele saíra, o moço abanou suas brasas, pois tinha o que mostrar, queria dar-lhe as passagens em que surgiam o alicate contra as unhas, o martelo contra os dedos ou os cabos na genitália do subversivo.

Recordando-se da lixeira, o peso do senhor meu pai não se dá pela ausência da mão sobre o ombro, dá-se pelo charuto apagado que não diz nada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de agosto de 2025.

domingo, 17 de agosto de 2025

Os dois selinhos

 

Os dois selinhos

 

Já prescreve a canção, “fundamental é mesmo o amor”. A essência permanece válida. Bem sei, porque observo um casal mergulhado em carinhos. Pera aí! Não tenho que me vexar dessa alegria que é espiar o mundo quando as circunstâncias são excitantes, é a lanchonete que está pouco movimentada. Sei, os apaixonados têm direito à intimidade; tanto quanto eu, que também espio a tevê, tenho mais que curtir o meu beirute, pois, assim ocupado, não darei fôlego a alguma tara que me impulsione a devorar a refeição sem que perceba que os meus soslaios têm fundamentação.

Pensando com o estômago, ocorre-me que é desagradável ser feliz sozinho, peço umas esfihas.

Houve dias em que, esfaimado, o mundo agitava minha luz. Foram dias em que lábios, tão encarnados no batom da revista, sussurravam verdades. Tais dias foram sonho, mas houve evoluções.

Quando vejo uma boca, mais tentadora se pintada em carmim, ouço as suas vontades, cuido de compreender como a decepciono.

Aqueles dias, porque já são idos, não cantarão o amor que poderia ter sido. Não lamento, pois os dias têm novas notícias em avalanche; são tantas que elas me aterram, pois o amor complica.

Posso escapar, pois tenho uma vida a trazer-me até mim. Revisito os escombros, reviro as ruínas. São tantas as pegadas que é privilégio tomar um rumo incerto, trocá-lo por outro, também incerto. Só que não me lamento, uma vez que os cães do futuro farejarão, amestrados para o que tenha relevância, adestrados pro que precise ter relevância.

Da conversa veio me fisgar a palavra bananica.

Imediatamente vi-me abismado no passado, num dia, numa tarde, num crepúsculo, foi quando tive a coragem de silenciar o tímido, gozei do prazer de superar a caipirice, eu escolhi ser escolhido.

Eu a convidei, e fomos. Abri o Concha y Toro, e bebemos. Dividimos um copo, nem o elegemos que fosse único. Foi a primeira no meu apê, e fomos no seu Corsa. Tomamos a garrafa; nós só fomos notá-la vazia quando nossas gargantas ficaram secas.

Não me ocorreu fazê-la pensar que eu fosse alcoólatra, pois eu abri outra garrafa. Com outro tinto da mesma marca, o nosso copo voltou a ficar cheio.

Houve cumplicidade. As nossas bocas geravam confiança, pois não falamos na quebra da quarta parede e não falamos de distanciamento crítico, e sequer nos movemos por representações brechtianas.

Para enveredar o espetáculo para outro apogeu, sem nada de épico e sem nada de dramático: bocas têm língua, saliva e tesão, portanto a carne nos sensibilizou.

Um bocado sensíveis, nós sentimos o suor, a pele suada. Sentimo-nos tão excitados que ignoramos o tapete.

Lassos, abraçadinhos, estávamos bem, tanto estávamos enlevados que, puríssimos, demo-nos dois selinhos.

ꟷ Prazer, meu nome é Aída.

ꟷ Oi, Aída. Os amigos me conhecem por Biel, mas vou gostar mais se você me quiser como Benzinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de agosto de 2025.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Caindo em si

 

Caindo em si

 

Meu coração tem sangue, mas não há sangramento por uma paixão solitária. Quando alguém espirra, o sangue, indo e vindo, segue no seu fluxo. Indo e vindo por aí, o que me espanta é saber que tem oxigênio no meu sangue. Só não me arrisco a afirmar que esteja na quantidade necessária ou o espirro teria justificação, sendo resposta à falta.

A pessoa que espirra tem oxigênio no coração, indo e vindo, só que ela tem outras preocupações. Que é guardar a caixa de fósforos junto com o pacote de velas. Que é pôr toalha de banho na bacia com água, já que é inverno, é época de mato inflamável. Que é esconder a caixa de fósforos para que o moleque da casa, com ares de cientista, vá pôr fogo no mato seco. A pessoa que espirra considera o fogo que sobe e desce no corpo uma preocupação a menos, pois a toalha de banho na bacia também ajuda a tornar inúteis os fósforos.

O moleque da casa, que sobe e desce do telhado, solta, e não fuma, a pipa. Ele nunca ouviu falar no Azerbaijão, nunca comeu caviar, nunca soltou pipa comendo milho, sequer se importa que tenham posto fogo no mato seco. O moleque da casa não fuma e não bebe, embora suba e desça do telhado como se os fósforos e as velas estivessem fora do alcance dos desejos. Que é queimar a prova de inglês, que é contar os segundos da palma da mão em cima da vela, que é acender a fogueira para que o milho pipoque sobre a folha de alumínio.

Para não dar chilique, não cair no pânico, não cair fulminada por um piripaque, a pessoa que espirra sabe que o ar da sala de espera segue na mesma, com oxigênio suficiente para que os demais não morram e não tenham quaisquer pensamentos a respeito do perigo de morrer na sala, embora haja um copo ao lado do cacto.

O moleque da casa lembra que a mãe tem sessão, mas o psiquiatra não sabe que os fósforos e as velas estão acessíveis, que o moleque ainda não achou o que fazer. Que ele podia queimar matinhos e tentar fumá-los. Que ele, tragando matinho, poderia visitar o Azerbaijão. Que poderia se levantar do chão depois de ter caído do abacateiro, embora a fumaça fosse a causa da dor de cabeça, das escoriações antes da queda, de ter desmaiado.

Se soubesse do moleque, dos fósforos e da queda do abacateiro, o psiquiatra saberia o que fazer. Que seria comer um x-salada ou seria lamentar-se de que os pacientes fumem, embora afirmem que tenham superado esse apego.

O moleque dos fósforos sabe que a mãe fuma no quintal, enquanto molha a terra, enquanto se assegura de que o chão batido não levante a poeira, enquanto ache um absurdo a fuligem vir do mato seco, pois ignora que o moleque da casa tenha feito o fogo, mesmo porque, indo e vindo nos pulmões dele, tamanho amor afeta-lhe o equilíbrio.

Hiperventilando, o moleque bate-se na testa e tira a roupa.

Ele, cuja mãe está na terapia, em tratamento há meses, a fumar no divã, é ele que acha bom ajustar-se: eu sou apenas o esposo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de agosto de 2025.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Marx numa fria

 

Marx numa fria

 

Sendo crônica marxiana, você vai rir da minha sensatez.

O causo, porém, começa enervante, pois meu pug, que tem ouvidos apuradíssimos para todo e qualquer ruído, fazia estardalhaço.

O danado latia dando intervalos, então a fonte não era uma barata, esse ser afeito a desespero estrambótico quando em decúbito dorsal. Latia com ritmo, descartando-se que fosse um camundongo a ringir em aversão neurótica a outro naco de parmesão no gatilho da ratoeira.

Tanto latia que o pesadelo passou a ser meu, por minha dificuldade em desligar o alarme. Tanto eram irritantes esses latidos que, possuído pela cachorra a encorpar o aborrecimento, acordei que seria inevitável despertar mesmo com o telefone desligado.

Sem abrir os olhos, pedi que parasse. Relutando em sair de debaixo das cobertas, implorei que viesse deitar-se. Em sendo ignorados meus repetidos apelos, sucumbi àquela precisão, de que teria de ir encontrá-lo.

Entendendo-me forçado a sair da cama, liguei o celular para checar as horas. Eram três e vinte de uma madrugada a sete graus. Precisado de acalmar-me pra convencê-lo a acalmar-se, que eu demorasse a dar com o meu adorável baderneiro.

E fui. Atravessei o corredor. Verifiquei o escritório. Enganei-me com o banheiro. Retornei pelo corredor. Verifiquei a sala. Enganei-me com o lavabo.

Foi na cozinha que nos entendemos, pois foi ali que o meu adorável encrenqueirinho deu comigo de chinela na mão.

Eu poderia me divertir com aquilo, pois ele não latia para a torneira que pingava, ele latia para os pingos caídos na tigela. Eu poderia ser razoável, pois ele não latia a cada gota que batia na água da sua tigela. À vera: a cada batida daquela água glacial no focinho, ele reagia.

Defendo-me que eu poderia ter escutado algum daqueles pingos se eu não tivesse a necessidade de dormir em berço esplêndido, mas eu tomei a dose porretíssima do sonífero, os dois comprimidos.

Na noite seguinte, todavia, achei que seria melhor eu tomar quatro pílulas de calmante.

Ferrou!

Pedi que ligassem. Supliquei que chamassem. Que fossem bater à porta de casa tão logo tivessem notícia do seu paradeiro, já que o meu companheirinho estava desaparecido.

De fato, Marx, o seu sumiço era devera angustiante, desesperante, asfixiante. Tanto era perturbador que foram os seus latidos, Marx, que me deram fôlego de persistir em chegar a você.

Ora, diachos!

Que desalmado o teria posto na casa da árvore? Que desgraçado teria feito tamanha barbaridade com o coitadinho?

Como a propriedade é monitorada por câmeras, fui ver a gravação. Assombrei-me com a revelação do que eu vi.

As imagens eram cristalinas: quem deixou o pobrezinho na varanda da casa da árvore não era outra pessoa a não ser eu.

O que se supõe que posso ter aprendido com esta história?

Sonâmbulo descalço, eu só tinha mesmo que acabar resfriado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de agosto de 2025.


domingo, 10 de agosto de 2025

O melhor presente

 

O melhor presente

 

Encontro um amigo que temos muitas travessuras em comum, pois somos crianças enquanto formos menores de onze anos, uma vez que, depois dos doze, passamos a ser enquadrados como problema, e isso não pede castigo, pede que sejamos punidos.

Você entende, castigo não é aplicado para que um garoto deixe de aprontar, é mais um afago como se fosse uma dica: olha lá, não abuse das gracinhas, porque a dose errada não acarreta riso, dá tristeza, e a tarde que poderia ter sido de sorvete ficará marcada pelas unhadas de gato que não gosta de banho.

O jeito como falamos, as palavras escolhidas, os olhares cúmplices, o meu amigo e eu não nos enganamos, estamos leves.

Tudo bem que as pessoas enxerguem dois velhinhos papeando no meio da calçada, que elas olhem feio, algumas até grunhem que estão desconfortáveis conosco.

Tranquilos, não nos abalamos, pois o papo está bom. Não sentimos o apelo dos saudosismos bobocas. Recordamos que, protegidos pelos onze anos que tínhamos, fomos arteiros. Éramos gratos por seguirmos menores de doze anos. Nossa gratidão era alívio, pois os dias de criar galinhas passaram. Em vez de nos ajoelharem no milho, nos tiravam a farra de brincar na piscina.

Contentes, lembramos do dia em que montamos nas bicicletas que eram de nossos irmãos. E saímos, pedalamos sem destino. Demos no rio que passava murmurante. Falava macio conosco. Convidava. E não achamos de recusar aquele convite, pulamos da ponte. Nem nos veio à mente que as bicicletas poderiam ser roubadas. Pulamos sem pensar o quão fundo era aquele rio e sem considerar haver pedras sob a linha d’água. Havemos de estarmos contentes, pois somos dois sessentões a prosear no meio da calçada.

Porque, na vida, nem tudo são flores, certa pessoa, de repente, está passando por nós, é outro sessentão, mais um colega do colegial.

― Que coincidência!

― A gente acabou de falar daquele dia, cara.

― Está lembrado que seu pai atiçou os cachorros sobre a gente?

― Seu pai achou que a gente ia roubar ameixa, cara.

― Sem maldade, a gente só estava se divertindo no rio.

Pelo sim e pelo não, o sujeito faz o que entende ser seu dever. Ele toca em frente, porque certas coisas precisam de ser resolvidas.

Por estarmos bem resolvidos em nossos onze anos, meu amigo e eu ficamos na mesma, papeando no meio da calçada.

― Coitado do Praxedes.

― Coitado, por quê? Tem alguém doente na família?

― Ele é um cara metido, mas ontem eu soube. Que dó! E a razão é que a sua neta mais velha virou mãe.

― Ninguém merece, nem mesmo um cara metido como ele.

― Nem a esposa dele cumpriu o seu papel de mãe, cara.

― Pois é, a fortuna nos sorri. É nestas horas que deveríamos erguer as mãos em gratidão pelos pais que não houvemos de ser.

― Estou com você, meu chapa.

Sim, o melhor presente sempre vem no momento certo:

― Às vésperas do Dia dos Pais, virar bisavô?

― Madalena Santíssima!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de agosto de 2025.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Felicidades afins

 

Felicidades afins

 

O rapagão exige respeito, que aquilo não se deve fazer a quem não é bandido, a quem trabalha, que ele veio comprar os mantimentos que a mãe tinha pedido, embora o segurança esteja fazendo seu trabalho, pelo qual recebe pagamento, o rapagão cujos murros nocauteariam o funcionário mais baixo, mais fracote e muito a fim de retirá-lo sem ficar com olho roxo, nariz quebrado ou costelas trincadas, ele, o brutamonte enraivecido, sabe que é preciso reagir, tem de acusar, deve denunciar a agressividade, porque preconceito é violência, que ele está no direito de negar, justamente aos gritos, pois a barra de chocolate enfiada na cintura, debaixo da camiseta, nem o agrada, porque é 75% amargo e, caraca!, quem é que gosta de chocolate que não seja ao leite?

Há um final feliz, pois a barra está de volta à gôndola.

Os rapazes que pesam as frutas e os legumes riem, porque, assim como foi mais cedo, esta será outra tarde de gente se descabelando, fazendo drama por ninharia. Mas o bom da coisa toda? Ressaltam eles que o segurança age sem nunchaku, soco-inglês, cassetete ou sequer o discretíssimo 22, pois, profissa, ele até acha desnecessário aspergir água benta no boquirroto, basta bufar.

Eis outro final feliz, pois o camarada pode orgulhar-se de seguir no bico hoje, amanhã e enquanto, sabidamente, gozar da sua boa-fé.

Como bom fuxiqueiro, digo à funcionária que ouvi o escarcéu sem identificar quem era o protagonista, ela, como boa colega que julga ser, diz que o agente da segurança fez bem de não encarar o encrenqueiro, pois os olhos baixos foram uma benção, transmitiram serenidade, tanto que o rapaz parou de gritar e, certamente achando ridícula a situação, começou a choramingar.

Outro final feliz, uma vez que a moça do caixa não sente embaraço por ignorar-se abençoada pela graça da sua ingenuidade.

Ingênuo na minha inocência de cidadão que acredita em tudo o que me dizem, saio do supermercado, vou descendo a rua quando vejo que a pessoa sentada nos degraus do prédio onde funcionou a Telesp vai meneando a cabeça enquanto um senhor fala e dá tapinhas nos seus ombros.

Ao passar pelos dois, o homem grisalho despede-se do outro, este, finalmente o reconheço, é quem, há pouco, gritava e gesticulava, e fez questão de não comer a barra de chocolate, pois 100% amara.

Me informa o Luisinho que o sujeito está numa maré infernal: a sua esposa retornou à casa da mãe porque, não bastasse as páginas dele estarem entulhadas de comentários desrespeitosos e intimidantes, as redes sociais dela estão sob igual persecução criminosa.

Mais outro final feliz, pois, encobrindo o rosto com as mãos, a vítima de homonímia imperfeita opta por chorar ao concluir que só lhe resta procurar um cartorário para que lhe seja trocado o ‘i’ pelo ‘e’, tal qual o sobrenome daquele famigeradíssimo togado brasiliense.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de agosto de 2025.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Amor acima de tudo

 

Amor acima de tudo

 

Quando muito se espera, surgem ocasiões em que uma mentirinha provoca menos problemas, então, que seja, bata-se o pé que só é dita a verdade, só a verdade, muito menos que a verdade, assim, quando a confiança for carapaça, máscara inviolável, talvez o dia se transforme num parque de diversões.

Divertido será, por haver-se em fortaleza, para seguir mentindo sem transparecer que a mente não emite às pálpebras piscadelas nervosas, espasmódicas, e, ao produzir lágrimas meio comprometedoras, não diz que a pessoa é mentirosa, gaiata, impaciente, e tão compulsiva.

Minta-se, pois, na montanha-russa que é o coração subir a pressão por afã razoavelmente medicável, o diabo deseja alegrar, entusiasmar, açulando o medo de desmaiar, pelo tanto de entusiasmo alegre.

Mesmo veloz nas curvas, o carrinho não vai descarrilar por besteira, assim, entregar-se ao exagero é fazer da vida um abismo perturbador, contagiante, então, que seja, é natural prevalecer a vontade de repetir, mesmo que a repetição comova, deixe alegre pra inferno.

Ao dar adeus ao cinismo, é bem-vinda a inocência.

A inocente declarada não abusa do contentamento; ainda que furar as filas gere a sensação de prazer, ela prefere lambuzar-se com maçã do amor a quebrar uma obturação com amendoim japonês.

O sal do amendoim garante a pressão alta, todavia o fuzuê no bate-bate dispara o coração, pois as porradas de frente são indesejáveis.

Aconselhável é livrar-se do excesso de sal; assim, um jeito infalível é tomar muitos copos de guaraná, assim, vai urinar até notar-se menos sufocada, menos pesada, e bem mais alegre.

Já leve, e desassombrada, é hora de andar no chapéu-mexicano, é hora de rodar rápido, ainda que a rapidez dê ânsia, que o asco faça vir à boca o melado da maçã; então, haja resistência.

Que pena!

Sem nenhuma golfada, ninguém partirá pro corpo a corpo por causa de vômito jorrado do alto. Sem engalfinhamento, a boca que se enfarou do açucarado da maçã não terá um amor com quem compartilhar essa alegria emética.

Para respirar sem travas, por alegria além da conta, ela sobe, quer o parque descortinado, assim, então, que seja, ela roda que roda até sentir que brinquedo vai atrai-la, qual poderá dar-lhe mais uma emoção extrema.

Tem o ringue dos carrinhos e, sem se lembrar de que bateu, bateu, é pra lá que, num pé, ela trota.

Entusiasmada, tanto bate que fica entediada, já disposta a bater-se em outro quartel.

Que outro será este? É o estande de tiro ao pato!

Atira uma, atira duas, as cinco rolhas certeiras geram um panda.

E anda um metro e anda dois, anda que anda, e o bicho cresce, fica mais pesado, fica mais e mais difícil carregá-lo, de ofertá-lo a quem se ama.

Bem que ela tenta te dar esse pandinha fofucho, pois o entusiasmo espelha a miséria que é amar sem ser amável, todavia, Monga, amada amante, tal amor cativa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de agosto de 2025.

domingo, 3 de agosto de 2025

Contribuição milionária

 

Contribuição milionária

 

Reginaldo entrou na lotérica, marcou as seis dezenas, foi paciente na fila, sorriu, pagou, pôs a aposta na carteira e foi comemorar, porque, sedento de riqueza, sentia-se devera afortunado.

No fundo, Reginaldo não ficaria rico, pois, melhor dizendo, haveria de virar milionário. Todo mundo diria que cara bacana ele era, que nem teria que se preocupar com o colégio dos filhos, que bom de prato ele era porque repetiria o contrafilé com fritas sem negar gorjeta ao garçom que bem o tenha servido.

Por Cristo! Milionário, ele deveria se comportar como o menino que levava a bola para as peladas. Ele achava justo ter a oportunidade de perdoar os professores chatos pelas aulas chatérrimas que foi preciso matar porque o convocavam para as peladinhas. Milionário, perdoado, e tão esfuziante, já feito capitão do time vencedor.

De fato, Reginaldo nunca gostou de beber sozinho.

Mas a tarde soube ficar comovida com a solidão do menino que não queria ratear com o apresentador da televisão e, assim do nada, uma mulher de vestido de oncinha queria um cigarro filado.

Se não se incomodasse, ela tomasse uma cerveja com ele, porque cigarro fazia mal, estragava o ar, já um golinho sempre cai bem.

Diferente do costumeiro, Reginaldo sentiu constrangimento do fluxo de ideias que aquela mocinha provocava, mas, ainda que não ouvisse música, ele previa que a poderosíssima poderia começar a rebolar, que aqueles tamanquinhos podiam estralar no botequim.

Exageradamente confiante na sorte que tinha no bolso, acreditando cegamente na bolada que jazia na carteira, a vida seria estupenda por causa do volante que nem carecia mostrar, por isso ele bebia, bebeu, e foram tantas as cervejas que ele pagou que a fortuna, a carteira e a oncinha dos tamancos viraram fumaça.

― Quer dizer que o pinguço esqueceu a pizza?

Como ouviu aquilo mal entrara em casa, Reginaldo, lembrando-se do caixa eletrônico do outro lado da praça, foi tirar dinheiro porque iria voltar pro boteco.

― Naldico, eu tinha certeza que você não daria cano no Bonifácio; disse-lhe um sujeito que o viu enfiando as notas no bolso. Gente boa, vamos direto lá, assim você acerta o fiado e começamos tudo de novo; lhe disse o sujeito que, de fato, parecia ter estado com ele.

Quando se inclinou pra apoiar a cabeça na janela do ônibus, o braço pressionado contra a lataria revelou-se dolorido.

Assim que viu o quadradinho de esparadrapo, já menos descrente, admitiu que tinham aplicado uma injeção.

― Naldico do caraça, fui eu que te levei, pois você estava tão mal que até caiu no próprio vômito. E o Bonifácio me fez jurar que eu ficaria junto o quanto fosse preciso, e foi bem uma hora, cara.

Nem do soro na veia o Reginaldo se lembrava.

― E você entrou na noia de ficar repetindo aquele troço sem graça, foi um porre aquela mão morta na marmita da marmota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de agosto de 2025.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Terapia tóxica

 

Terapia tóxica

 

Embora ensolarada, a manhã está gelada, faz cinco graus. Não é por ser inverno que me percebo triste, é porque esta tristeza veio sutil. Enregelando-me sem que a percebesse afrontosa, questionadora, esta sutileza tem alento bastante para me persuadir a adotá-la uma tristeza solar, luminosa. Com lucidez suficiente para que me estimule a dar-lhe manifestação, encarno-a e, invernoso, me faço um sol pálido.

Ainda que não seja uma tristeza acutilante, gravosa, profundíssima, a desconsolar-me em dor, num sentimento doloroso, lacrimejo; tocado, digo-me uma dorzinha, digo o que me põe perceptível.

Esta dor, este sentimento, tanto mexe comigo que fico um tempinho à janela; refreio-me do ímpeto, seguro-me da irreverência de correr ao papel para rir-me desse prostrado, desse pensaroso cuja lividez é uma máscara devera risível, porque, leve, levíssima, a melancolia pede-me uma sacanagenzinha tola, pede-me alguma graça para comigo.

Com problemas de sobra para resolver, ponho-me à janela e cá fico eu enquanto a prostração faz-me fraco. Mas a minha fraqueza me põe idiota, tão bocó que me submeto ao mundo tendo de mim a pérola de ser uma pessoa lúcida, contida ― um dedo fria e outro apática ―, uma pessoa que precisa do lápis, não pra maquiar os olhos, preciso de mim para notar-me gracioso, leve, de uma futilidade a rir de si mesma.

Pego o lápis, pois o sol quer-se por escrito. Escrevo, risco palavras, troco algumas, pois minha brisa persiste nos cinco graus. Digito o que escrevi, mas apago parágrafos, reposiciono outros, quero-me um vento solar a soprar este inverno para fora de mim.

Por conhecer-me, lápis, você sabe que posso alegrar-me, sabe que não preciso seguir conformado à tristeza, afeito a essa vulnerabilidade que produz este sentimento de que estou encoberto, que me confundo, produz-me esta névoa a ser dissipada, como crônica.

O pusilânime e eu lutamos, pelejamos, temos palavras; há uma luta, ou o lápis não teria de ser apontado; e a folha vence.

Leio o acabado de ser escrito; e me decepciona que seja uma pedra a ser polida pelo vento, e me inspira que o faça uma janela a ser aberta para que o vento passe, e me ridicularizo, que o texto escrito é lápide a esse escrevinhador com imaginação servil; enfiado na canga, rodo a moenda, mas não dou farinha.

Não havendo mingau, resta o escrito ser descartado.

Quanto a isso, rasgar e queimar o que esteja ruim, preciso de estar afiado, crítico, maluquinho o bastante para mofar da tristeza vulgar, da lágrima postiça, da melancolia amena a me pôr fleumático.

Mas a falsidade do escrito desperta o garoto que, por saber do fogo pelo fogo, dá fim ao que precisa ser destruído.

Idiota, inspira a fumaça. Tosse, me enerva. Na praça, menos idiota, me sossego ao respirar. Sereno, tomo pé do ponto: menos uma crônica ruim, não um mundo melhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de julho de 2025.