quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Caindo em si

 

Caindo em si

 

Meu coração tem sangue, mas não há sangramento por uma paixão solitária. Quando alguém espirra, o sangue, indo e vindo, segue no seu fluxo. Indo e vindo por aí, o que me espanta é saber que tem oxigênio no meu sangue. Só não me arrisco a afirmar que esteja na quantidade necessária ou o espirro teria justificação, sendo resposta à falta.

A pessoa que espirra tem oxigênio no coração, indo e vindo, só que ela tem outras preocupações. Que é guardar a caixa de fósforos junto com o pacote de velas. Que é pôr toalha de banho na bacia com água, já que é inverno, é época de mato inflamável. Que é esconder a caixa de fósforos para que o moleque da casa, com ares de cientista, vá pôr fogo no mato seco. A pessoa que espirra considera o fogo que sobe e desce no corpo uma preocupação a menos, pois a toalha de banho na bacia também ajuda a tornar inúteis os fósforos.

O moleque da casa, que sobe e desce do telhado, solta, e não fuma, a pipa. Ele nunca ouviu falar no Azerbaijão, nunca comeu caviar, nunca soltou pipa comendo milho, sequer se importa que tenham posto fogo no mato seco. O moleque da casa não fuma e não bebe, embora suba e desça do telhado como se os fósforos e as velas estivessem fora do alcance dos desejos. Que é queimar a prova de inglês, que é contar os segundos da palma da mão em cima da vela, que é acender a fogueira para que o milho pipoque sobre a folha de alumínio.

Para não dar chilique, não cair no pânico, não cair fulminada por um piripaque, a pessoa que espirra sabe que o ar da sala de espera segue na mesma, com oxigênio suficiente para que os demais não morram e não tenham quaisquer pensamentos a respeito do perigo de morrer na sala, embora haja um copo ao lado do cacto.

O moleque da casa lembra que a mãe tem sessão, mas o psiquiatra não sabe que os fósforos e as velas estão acessíveis, que o moleque ainda não achou o que fazer. Que ele podia queimar matinhos e tentar fumá-los. Que ele, tragando matinho, poderia visitar o Azerbaijão. Que poderia se levantar do chão depois de ter caído do abacateiro, embora a fumaça fosse a causa da dor de cabeça, das escoriações antes da queda, de ter desmaiado.

Se soubesse do moleque, dos fósforos e da queda do abacateiro, o psiquiatra saberia o que fazer. Que seria comer um x-salada ou seria lamentar-se de que os pacientes fumem, embora afirmem que tenham superado esse apego.

O moleque dos fósforos sabe que a mãe fuma no quintal, enquanto molha a terra, enquanto se assegura de que o chão batido não levante a poeira, enquanto ache um absurdo a fuligem vir do mato seco, pois ignora que o moleque da casa tenha feito o fogo, mesmo porque, indo e vindo nos pulmões dele, tamanho amor afeta-lhe o equilíbrio.

Hiperventilando, o moleque bate-se na testa e tira a roupa.

Ele, cuja mãe está na terapia, em tratamento há meses, a fumar no divã, é ele que acha bom ajustar-se: eu sou apenas o esposo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de agosto de 2025.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Marx numa fria

 

Marx numa fria

 

Sendo crônica marxiana, você vai rir da minha sensatez.

O causo, porém, começa enervante, pois meu pug, que tem ouvidos apuradíssimos para todo e qualquer ruído, fazia estardalhaço.

O danado latia dando intervalos, então a fonte não era uma barata, esse ser afeito a desespero estrambótico quando em decúbito dorsal. Latia com ritmo, descartando-se que fosse um camundongo a ringir em aversão neurótica a outro naco de parmesão no gatilho da ratoeira.

Tanto latia que o pesadelo passou a ser meu, por minha dificuldade em desligar o alarme. Tanto eram irritantes esses latidos que, possuído pela cachorra a encorpar o aborrecimento, acordei que seria inevitável despertar mesmo com o telefone desligado.

Sem abrir os olhos, pedi que parasse. Relutando em sair de debaixo das cobertas, implorei que viesse deitar-se. Em sendo ignorados meus repetidos apelos, sucumbi àquela precisão, de que teria de ir encontrá-lo.

Entendendo-me forçado a sair da cama, liguei o celular para checar as horas. Eram três e vinte de uma madrugada a sete graus. Precisado de acalmar-me pra convencê-lo a acalmar-se, que eu demorasse a dar com o meu adorável baderneiro.

E fui. Atravessei o corredor. Verifiquei o escritório. Enganei-me com o banheiro. Retornei pelo corredor. Verifiquei a sala. Enganei-me com o lavabo.

Foi na cozinha que nos entendemos, pois foi ali que o meu adorável encrenqueirinho deu comigo de chinela na mão.

Eu poderia me divertir com aquilo, pois ele não latia para a torneira que pingava, ele latia para os pingos caídos na tigela. Eu poderia ser razoável, pois ele não latia a cada gota que batia na água da sua tigela. À vera: a cada batida daquela água glacial no focinho, ele reagia.

Defendo-me que eu poderia ter escutado algum daqueles pingos se eu não tivesse a necessidade de dormir em berço esplêndido, mas eu tomei a dose porretíssima do sonífero, os dois comprimidos.

Na noite seguinte, todavia, achei que seria melhor eu tomar quatro pílulas de calmante.

Ferrou!

Pedi que ligassem. Supliquei que chamassem. Que fossem bater à porta de casa tão logo tivessem notícia do seu paradeiro, já que o meu companheirinho estava desaparecido.

De fato, Marx, o seu sumiço era devera angustiante, desesperante, asfixiante. Tanto era perturbador que foram os seus latidos, Marx, que me deram fôlego de persistir em chegar a você.

Ora, diachos!

Que desalmado o teria posto na casa da árvore? Que desgraçado teria feito tamanha barbaridade com o coitadinho?

Como a propriedade é monitorada por câmeras, fui ver a gravação. Assombrei-me com a revelação do que eu vi.

As imagens eram cristalinas: quem deixou o pobrezinho na varanda da casa da árvore não era outra pessoa a não ser eu.

O que se supõe que posso ter aprendido com esta história?

Sonâmbulo descalço, eu só tinha mesmo que acabar resfriado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de agosto de 2025.


domingo, 10 de agosto de 2025

O melhor presente

 

O melhor presente

 

Encontro um amigo que temos muitas travessuras em comum, pois somos crianças enquanto formos menores de onze anos, uma vez que, depois dos doze, passamos a ser enquadrados como problema, e isso não pede castigo, pede que sejamos punidos.

Você entende, castigo não é aplicado para que um garoto deixe de aprontar, é mais um afago como se fosse uma dica: olha lá, não abuse das gracinhas, porque a dose errada não acarreta riso, dá tristeza, e a tarde que poderia ter sido de sorvete ficará marcada pelas unhadas de gato que não gosta de banho.

O jeito como falamos, as palavras escolhidas, os olhares cúmplices, o meu amigo e eu não nos enganamos, estamos leves.

Tudo bem que as pessoas enxerguem dois velhinhos papeando no meio da calçada, que elas olhem feio, algumas até grunhem que estão desconfortáveis conosco.

Tranquilos, não nos abalamos, pois o papo está bom. Não sentimos o apelo dos saudosismos bobocas. Recordamos que, protegidos pelos onze anos que tínhamos, fomos arteiros. Éramos gratos por seguirmos menores de doze anos. Nossa gratidão era alívio, pois os dias de criar galinhas passaram. Em vez de nos ajoelharem no milho, nos tiravam a farra de brincar na piscina.

Contentes, lembramos do dia em que montamos nas bicicletas que eram de nossos irmãos. E saímos, pedalamos sem destino. Demos no rio que passava murmurante. Falava macio conosco. Convidava. E não achamos de recusar aquele convite, pulamos da ponte. Nem nos veio à mente que as bicicletas poderiam ser roubadas. Pulamos sem pensar o quão fundo era aquele rio e sem considerar haver pedras sob a linha d’água. Havemos de estarmos contentes, pois somos dois sessentões a prosear no meio da calçada.

Porque, na vida, nem tudo são flores, certa pessoa, de repente, está passando por nós, é outro sessentão, mais um colega do colegial.

― Que coincidência!

― A gente acabou de falar daquele dia, cara.

― Está lembrado que seu pai atiçou os cachorros sobre a gente?

― Seu pai achou que a gente ia roubar ameixa, cara.

― Sem maldade, a gente só estava se divertindo no rio.

Pelo sim e pelo não, o sujeito faz o que entende ser seu dever. Ele toca em frente, porque certas coisas precisam de ser resolvidas.

Por estarmos bem resolvidos em nossos onze anos, meu amigo e eu ficamos na mesma, papeando no meio da calçada.

― Coitado do Praxedes.

― Coitado, por quê? Tem alguém doente na família?

― Ele é um cara metido, mas ontem eu soube. Que dó! E a razão é que a sua neta mais velha virou mãe.

― Ninguém merece, nem mesmo um cara metido como ele.

― Nem a esposa dele cumpriu o seu papel de mãe, cara.

― Pois é, a fortuna nos sorri. É nestas horas que deveríamos erguer as mãos em gratidão pelos pais que não houvemos de ser.

― Estou com você, meu chapa.

Sim, o melhor presente sempre vem no momento certo:

― Às vésperas do Dia dos Pais, virar bisavô?

― Madalena Santíssima!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de agosto de 2025.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Felicidades afins

 

Felicidades afins

 

O rapagão exige respeito, que aquilo não se deve fazer a quem não é bandido, a quem trabalha, que ele veio comprar os mantimentos que a mãe tinha pedido, embora o segurança esteja fazendo seu trabalho, pelo qual recebe pagamento, o rapagão cujos murros nocauteariam o funcionário mais baixo, mais fracote e muito a fim de retirá-lo sem ficar com olho roxo, nariz quebrado ou costelas trincadas, ele, o brutamonte enraivecido, sabe que é preciso reagir, tem de acusar, deve denunciar a agressividade, porque preconceito é violência, que ele está no direito de negar, justamente aos gritos, pois a barra de chocolate enfiada na cintura, debaixo da camiseta, nem o agrada, porque é 75% amargo e, caraca!, quem é que gosta de chocolate que não seja ao leite?

Há um final feliz, pois a barra está de volta à gôndola.

Os rapazes que pesam as frutas e os legumes riem, porque, assim como foi mais cedo, esta será outra tarde de gente se descabelando, fazendo drama por ninharia. Mas o bom da coisa toda? Ressaltam eles que o segurança age sem nunchaku, soco-inglês, cassetete ou sequer o discretíssimo 22, pois, profissa, ele até acha desnecessário aspergir água benta no boquirroto, basta bufar.

Eis outro final feliz, pois o camarada pode orgulhar-se de seguir no bico hoje, amanhã e enquanto, sabidamente, gozar da sua boa-fé.

Como bom fuxiqueiro, digo à funcionária que ouvi o escarcéu sem identificar quem era o protagonista, ela, como boa colega que julga ser, diz que o agente da segurança fez bem de não encarar o encrenqueiro, pois os olhos baixos foram uma benção, transmitiram serenidade, tanto que o rapaz parou de gritar e, certamente achando ridícula a situação, começou a choramingar.

Outro final feliz, uma vez que a moça do caixa não sente embaraço por ignorar-se abençoada pela graça da sua ingenuidade.

Ingênuo na minha inocência de cidadão que acredita em tudo o que me dizem, saio do supermercado, vou descendo a rua quando vejo que a pessoa sentada nos degraus do prédio onde funcionou a Telesp vai meneando a cabeça enquanto um senhor fala e dá tapinhas nos seus ombros.

Ao passar pelos dois, o homem grisalho despede-se do outro, este, finalmente o reconheço, é quem, há pouco, gritava e gesticulava, e fez questão de não comer a barra de chocolate, pois 100% amara.

Me informa o Luisinho que o sujeito está numa maré infernal: a sua esposa retornou à casa da mãe porque, não bastasse as páginas dele estarem entulhadas de comentários desrespeitosos e intimidantes, as redes sociais dela estão sob igual persecução criminosa.

Mais outro final feliz, pois, encobrindo o rosto com as mãos, a vítima de homonímia imperfeita opta por chorar ao concluir que só lhe resta procurar um cartorário para que lhe seja trocado o ‘i’ pelo ‘e’, tal qual o sobrenome daquele famigeradíssimo togado brasiliense.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de agosto de 2025.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Amor acima de tudo

 

Amor acima de tudo

 

Quando muito se espera, surgem ocasiões em que uma mentirinha provoca menos problemas, então, que seja, bata-se o pé que só é dita a verdade, só a verdade, muito menos que a verdade, assim, quando a confiança for carapaça, máscara inviolável, talvez o dia se transforme num parque de diversões.

Divertido será, por haver-se em fortaleza, para seguir mentindo sem transparecer que a mente não emite às pálpebras piscadelas nervosas, espasmódicas, e, ao produzir lágrimas meio comprometedoras, não diz que a pessoa é mentirosa, gaiata, impaciente, e tão compulsiva.

Minta-se, pois, na montanha-russa que é o coração subir a pressão por afã razoavelmente medicável, o diabo deseja alegrar, entusiasmar, açulando o medo de desmaiar, pelo tanto de entusiasmo alegre.

Mesmo veloz nas curvas, o carrinho não vai descarrilar por besteira, assim, entregar-se ao exagero é fazer da vida um abismo perturbador, contagiante, então, que seja, é natural prevalecer a vontade de repetir, mesmo que a repetição comova, deixe alegre pra inferno.

Ao dar adeus ao cinismo, é bem-vinda a inocência.

A inocente declarada não abusa do contentamento; ainda que furar as filas gere a sensação de prazer, ela prefere lambuzar-se com maçã do amor a quebrar uma obturação com amendoim japonês.

O sal do amendoim garante a pressão alta, todavia o fuzuê no bate-bate dispara o coração, pois as porradas de frente são indesejáveis.

Aconselhável é livrar-se do excesso de sal; assim, um jeito infalível é tomar muitos copos de guaraná, assim, vai urinar até notar-se menos sufocada, menos pesada, e bem mais alegre.

Já leve, e desassombrada, é hora de andar no chapéu-mexicano, é hora de rodar rápido, ainda que a rapidez dê ânsia, que o asco faça vir à boca o melado da maçã; então, haja resistência.

Que pena!

Sem nenhuma golfada, ninguém partirá pro corpo a corpo por causa de vômito jorrado do alto. Sem engalfinhamento, a boca que se enfarou do açucarado da maçã não terá um amor com quem compartilhar essa alegria emética.

Para respirar sem travas, por alegria além da conta, ela sobe, quer o parque descortinado, assim, então, que seja, ela roda que roda até sentir que brinquedo vai atrai-la, qual poderá dar-lhe mais uma emoção extrema.

Tem o ringue dos carrinhos e, sem se lembrar de que bateu, bateu, é pra lá que, num pé, ela trota.

Entusiasmada, tanto bate que fica entediada, já disposta a bater-se em outro quartel.

Que outro será este? É o estande de tiro ao pato!

Atira uma, atira duas, as cinco rolhas certeiras geram um panda.

E anda um metro e anda dois, anda que anda, e o bicho cresce, fica mais pesado, fica mais e mais difícil carregá-lo, de ofertá-lo a quem se ama.

Bem que ela tenta te dar esse pandinha fofucho, pois o entusiasmo espelha a miséria que é amar sem ser amável, todavia, Monga, amada amante, tal amor cativa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de agosto de 2025.

domingo, 3 de agosto de 2025

Contribuição milionária

 

Contribuição milionária

 

Reginaldo entrou na lotérica, marcou as seis dezenas, foi paciente na fila, sorriu, pagou, pôs a aposta na carteira e foi comemorar, porque, sedento de riqueza, sentia-se devera afortunado.

No fundo, Reginaldo não ficaria rico, pois, melhor dizendo, haveria de virar milionário. Todo mundo diria que cara bacana ele era, que nem teria que se preocupar com o colégio dos filhos, que bom de prato ele era porque repetiria o contrafilé com fritas sem negar gorjeta ao garçom que bem o tenha servido.

Por Cristo! Milionário, ele deveria se comportar como o menino que levava a bola para as peladas. Ele achava justo ter a oportunidade de perdoar os professores chatos pelas aulas chatérrimas que foi preciso matar porque o convocavam para as peladinhas. Milionário, perdoado, e tão esfuziante, já feito capitão do time vencedor.

De fato, Reginaldo nunca gostou de beber sozinho.

Mas a tarde soube ficar comovida com a solidão do menino que não queria ratear com o apresentador da televisão e, assim do nada, uma mulher de vestido de oncinha queria um cigarro filado.

Se não se incomodasse, ela tomasse uma cerveja com ele, porque cigarro fazia mal, estragava o ar, já um golinho sempre cai bem.

Diferente do costumeiro, Reginaldo sentiu constrangimento do fluxo de ideias que aquela mocinha provocava, mas, ainda que não ouvisse música, ele previa que a poderosíssima poderia começar a rebolar, que aqueles tamanquinhos podiam estralar no botequim.

Exageradamente confiante na sorte que tinha no bolso, acreditando cegamente na bolada que jazia na carteira, a vida seria estupenda por causa do volante que nem carecia mostrar, por isso ele bebia, bebeu, e foram tantas as cervejas que ele pagou que a fortuna, a carteira e a oncinha dos tamancos viraram fumaça.

― Quer dizer que o pinguço esqueceu a pizza?

Como ouviu aquilo mal entrara em casa, Reginaldo, lembrando-se do caixa eletrônico do outro lado da praça, foi tirar dinheiro porque iria voltar pro boteco.

― Naldico, eu tinha certeza que você não daria cano no Bonifácio; disse-lhe um sujeito que o viu enfiando as notas no bolso. Gente boa, vamos direto lá, assim você acerta o fiado e começamos tudo de novo; lhe disse o sujeito que, de fato, parecia ter estado com ele.

Quando se inclinou pra apoiar a cabeça na janela do ônibus, o braço pressionado contra a lataria revelou-se dolorido.

Assim que viu o quadradinho de esparadrapo, já menos descrente, admitiu que tinham aplicado uma injeção.

― Naldico do caraça, fui eu que te levei, pois você estava tão mal que até caiu no próprio vômito. E o Bonifácio me fez jurar que eu ficaria junto o quanto fosse preciso, e foi bem uma hora, cara.

Nem do soro na veia o Reginaldo se lembrava.

― E você entrou na noia de ficar repetindo aquele troço sem graça, foi um porre aquela mão morta na marmita da marmota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de agosto de 2025.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Terapia tóxica

 

Terapia tóxica

 

Embora ensolarada, a manhã está gelada, faz cinco graus. Não é por ser inverno que me percebo triste, é porque esta tristeza veio sutil. Enregelando-me sem que a percebesse afrontosa, questionadora, esta sutileza tem alento bastante para me persuadir a adotá-la uma tristeza solar, luminosa. Com lucidez suficiente para que me estimule a dar-lhe manifestação, encarno-a e, invernoso, me faço um sol pálido.

Ainda que não seja uma tristeza acutilante, gravosa, profundíssima, a desconsolar-me em dor, num sentimento doloroso, lacrimejo; tocado, digo-me uma dorzinha, digo o que me põe perceptível.

Esta dor, este sentimento, tanto mexe comigo que fico um tempinho à janela; refreio-me do ímpeto, seguro-me da irreverência de correr ao papel para rir-me desse prostrado, desse pensaroso cuja lividez é uma máscara devera risível, porque, leve, levíssima, a melancolia pede-me uma sacanagenzinha tola, pede-me alguma graça para comigo.

Com problemas de sobra para resolver, ponho-me à janela e cá fico eu enquanto a prostração faz-me fraco. Mas a minha fraqueza me põe idiota, tão bocó que me submeto ao mundo tendo de mim a pérola de ser uma pessoa lúcida, contida ― um dedo fria e outro apática ―, uma pessoa que precisa do lápis, não pra maquiar os olhos, preciso de mim para notar-me gracioso, leve, de uma futilidade a rir de si mesma.

Pego o lápis, pois o sol quer-se por escrito. Escrevo, risco palavras, troco algumas, pois minha brisa persiste nos cinco graus. Digito o que escrevi, mas apago parágrafos, reposiciono outros, quero-me um vento solar a soprar este inverno para fora de mim.

Por conhecer-me, lápis, você sabe que posso alegrar-me, sabe que não preciso seguir conformado à tristeza, afeito a essa vulnerabilidade que produz este sentimento de que estou encoberto, que me confundo, produz-me esta névoa a ser dissipada, como crônica.

O pusilânime e eu lutamos, pelejamos, temos palavras; há uma luta, ou o lápis não teria de ser apontado; e a folha vence.

Leio o acabado de ser escrito; e me decepciona que seja uma pedra a ser polida pelo vento, e me inspira que o faça uma janela a ser aberta para que o vento passe, e me ridicularizo, que o texto escrito é lápide a esse escrevinhador com imaginação servil; enfiado na canga, rodo a moenda, mas não dou farinha.

Não havendo mingau, resta o escrito ser descartado.

Quanto a isso, rasgar e queimar o que esteja ruim, preciso de estar afiado, crítico, maluquinho o bastante para mofar da tristeza vulgar, da lágrima postiça, da melancolia amena a me pôr fleumático.

Mas a falsidade do escrito desperta o garoto que, por saber do fogo pelo fogo, dá fim ao que precisa ser destruído.

Idiota, inspira a fumaça. Tosse, me enerva. Na praça, menos idiota, me sossego ao respirar. Sereno, tomo pé do ponto: menos uma crônica ruim, não um mundo melhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de julho de 2025.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Segunda-feira

 

Segunda-feira

 

E aí, Mané, conhece palavra com 27 letras?

Defenda-se, pois a pessoa não precisa responder mesmo que saiba a resposta; pode preferir ir ao banco pagar os seus boletos porque isso é demonstração de lhe ser providencial bater-se pelo controle.

Responsável pelo que pensa de si, ainda que escolha não dizer que palavra é constituída por 27 letras, seu ensimesmamento acarreta que censura gente folgada, mesmo que isso implique que o silêncio é mais que uma máscara de proteção.

Sentir-se controlado deixa-o em paz com sua agressividade latente, embora o acusem nervosinho, achem-no bem desaforado, julguem-no mui deselegante, pois, justamente pelo rancor, não faz graça.

Poder-se-ia induzir que essa paz marca-lhe a soberba, embora seja crível o oposto, que o silêncio funcione como sintoma da vaidade.

A pessoa quer preservada a intimidade, quer-se protegida, portanto trata de cuidar do que lhe seja importante; e fá-lo precisamente porque isso, ficar em silêncio, indica que nem tudo merece atenção.

Ô neura! A carência alheia que lhe continue alheia.

Pelas veredas da paranoia, adeus mistério, porque quem fala à toa é gente vil, a querer desviar o foco, disposta a fazer a gente de trouxa, portanto, pergunte-se, que prêmio advirá das 27 letras?

Inconstitucionalissimamente e electrofototermoterapêutico, as duas têm vinte e sete letras, mas a segunda é uma segunda fria.

Segunda-feira, aliás, é palavra com treze caracteres.

Passando à má sorte: quem nunca passa debaixo de escada conta com que o pintor não controle totalmente o pincel, tanto que é possível ser mensurada a chance de os respingos caírem no boné de quem se descuidou, ainda que o letreiro receba os últimos retoques:

MORANGO DO AMOR POR VINTE MANGOS.

Mané, este letreiro tem vinte e sete letras!

É burrice não anotar as informações que o mundo oferece sem lhe cobrar uma pila, pois toda informação tem valor, seja pela utilidade no momento certo, que isso revela conhecimento, seja pela monetização, que isso qualifica o trabalho, provando por a mais b que gente esperta não é burra, pois a pessoa passa a ter conhecimento de si.

A pessoa sabe quem é, sabendo-se pela malícia, pela esperteza do cálculo, por ganhar a vida fazendo o que gosta. E tal pessoa dará valor ao que gosta quando topar fazê-lo por amar-se.

Porque a pessoa ama, ela pira quando a perda é impossível de ser reparada. Ela se remorde como o diabo se a fortuna calha de parar nas mãos de quem não aproveita a situação.

Por valorar o que carece da estima que ainda não sente, memorize que a segunda mimoseia-o com esta palavra da língua portuguesa com 46 letras: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.

É para isso que existe o Google?

Ora, Mané, é pra que este escriba lambuze o teclado com morango do amor, pois ele ama essa trabalheira que é dar água na boca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de julho de 2025.

domingo, 27 de julho de 2025

A minha porção escandalosa

 

A minha porção escandalosa

 

Quando obsedado por uma querela de somenos complicação, acho prudente acalmar as minhas minhoquinhas, porque um esperneio seria visto como estapafúrdio.

No lugar de ridículo, o mais apropriado seria dizê-lo uma encenação patética. Pois bem, não me quero ridicularizado em praça pública, opto por não espernear e, a fim de melhorar pro meu lado, escolho nem dar mancada fora de hora.

Com a calma que necessito, entendo que não tenho que me aliviar do peso de uma questiúncula leve, menor, mas tenho que me acoimar que é ilusão barata eu crer que tenha virado uma centopeia para outra mancadinha na mesma semana.

Eu puxo papo, vou andando devagar, pois não quero cometer novo erro, sobrepondo-o ao erro cometido, como se o mais recente fosse o meio mais curto para o encobrimento do primeiro erro.

O bate-papo me acalma, me tranquiliza, sei que vou desacelerando, vou menos apressado, menos tenso, percebo-me mais senhor de mim, sinto que é menor o esforço de sacar de mim a pessoa que dê orgulho, que não está cansada, tanto está menos agitada que noto que sou eu indo na direção contrária ao escritório.

Despercebido que estou, corrijo-me, tranquilizo-me, não acho justo me censurar porque o banco da praça se apresenta como o lugar certo para tirar da correria esse tempo que preciso dar-me.

Sentar, respirar sem medo, respirar pra que perceba o quanto o dia a dia anda oprimindo. Sentado, permito-me a desconfiança, que o dedo acusador bem pode ser outro, um que não seja meu.

Sentado, quiçá tenha sentido que o dedo que me acutila a testa tem o suor, o calor da minha digital, muito embora esse dedo venha de mil tentáculos convergentes numa ponta pontiaguda.

Uma vez sentado na praça, o ambiente urbano nem precisa notar a minha presença, nem quero ser percebido. Ao que parece, me dominei e isso me faz crer que estou integrado como outro qualquer. Sou outra pessoa sentada na praça, mais um fulano a observar o movimento dos carros, mais um sujeito indiferente a quem passa.

Sem olhares sendo trocados, sem que olhares me observem à cata de alguma aflição que me esteja desequilibrando, não dramatizo o que estava afligindo nem por agora estar dominado.

Tiro os sapatos e as meias.

Nada há de incomum em um senhor de terno e gravata trocar seus sapatos por uma sandália.

Se alguém pedisse explicações, diria que fui eu que pedi para pagar à vista, esclareceria que fui eu que apontei o modelo, insistiria que fui eu que vim pro banco mais próximo, que era eu quem precisava sentar, calçar as sandálias e pôr na sacola a pressa, os sapatos e as meias.

Puxo o ar, sublime é a fragrância das franciscanas.

Vou dizer que comi uma bisteca. Vou admitir que foi erro meu comer porco em dia de expediente. Vou lastimar a minha ausência na reunião há muito agendada.

Abro o sorriso, pois unha encravada dar morrinha é fugaz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de julho de 2025.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Por nada

 

Por nada

 

Aqueles dois estão noturnos. Já dia raiado e já o sol marcando sete horas, vêm cambaleantes. Gesticulam e falam alto. Uma vez que estão empolgados, como dois bons parceiros, não debatem.

É provável que eles não tenham desistido da noite que os transporta em meio aos trabalhadores, dando a estes a alegria de rirem, por eles virem cambaleantes, virem cuspindo ao falar.

Pouco se lhes dá que estejam rindo, estão alegres, pois não estão indo trabalhar, estão transferindo a farra, do bar do qual foram expulsos para o próximo que os acolha.

Justamente por estarem bêbados, serão acolhidos, mesmo porque, desde que ainda tenham dinheiro, a eles serão servidos os copos, lhes serão cobrados os tragos que não beberam e hão de pagar por não os terem bebido, pois darão êxtase ao dono que tanto lhes valoriza assim alegres, ainda beberrões.

Até que peçam a saideira por conta da casa.

Eu, porém, não estou indo pra casa. Preciso de mim sóbrio, prático, pois tenho compras pra fazer e meia hora pra voltar; tenho trabalho pra acabar, prazo pra respeitar, tenho de estar disponível pra novo serviço, novo prazo, nova disponibilidade.

Assim sucessivamente, até que desabe o teto sobre a testa?

Todavia, a realidade prosaica, pouco dada a conjecturações sobre a mediocridade deste homem nas nuvens, embora na fila, embora seja o seguinte a passar os itens, a realidade é a caixa pôr a plaquinha que impinge a mim que procure um que esteja aberto.

Como o caixa pode fechar se estou na fila, que seja o próximo a ser atendido? Ela não é cega! A placa pode dizer ‘caixa fechado’? Ela pode virar o rosto? Pode ostentar alegria apenas porque o sol esteja batendo nos arbustos da pracinha?

A jovem que barrou a minha vez de ser atendido beberica algo do copo ilustrado pelo logo de uma academia de ginástica.

Sem fingir que estou no caixa ao lado do seu, ela elogia o noivo por fazer musculação diariamente, mostra fotos dele à funcionária que me atende, ri, diz que ele sabe se cuidar, tanto quanto ela o faz.

Por que não me meto nessa prosa?

O atrevimento é por desplante, é o seu modo de debochar de mim, uma vez que sou feio, barrigudo, carequinha, baixinho, mais um velho numa época de corpos remodelados por almas esbeltas.

A mim me parece, caso não esteja equivocado, que o ponto fulcral é a mocinha apregoar o poder que imagina deter, que é o de manifestar a sua vontade de humilhar ― não exclusivamente a mim, mas a todo aquele que se sujeite a aviltamentos.

Não abro a boca, eu penso.

Não a perdoo, pois me vejo um cristão. E um cristão, no meu lugar, sabe que não cabe a ele perdoar quem o ofende, pois o perdão pra ser verdadeiramente pleno só pode vir do Pai.

Pra me assegurar deste cristianismo inebriante, pago sorrindo, pois não cabe a mim perdoar quem me agride, afinal o papel do Pai é haver-se da punição dessas ovelhas clamorosamente desgarradas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de julho de 2025.