Encontro um amigo que temos muitas
travessuras em comum, pois somos crianças enquanto formos menores de onze anos,
uma vez que, depois dos doze, passamos a ser enquadrados como problema, e isso
não pede castigo, pede que sejamos punidos.
Você entende, castigo não é aplicado para
que um garoto deixe de aprontar, é mais um afago como se fosse uma dica: olha
lá, não abuse das gracinhas, porque a dose errada não acarreta riso, dá
tristeza, e a tarde que poderia ter sido de sorvete ficará marcada pelas
unhadas de gato que não gosta de banho.
O jeito como falamos, as palavras escolhidas,
os olhares cúmplices, o meu amigo e eu não nos enganamos, estamos leves.
Tudo bem que as pessoas enxerguem dois
velhinhos papeando no meio da calçada, que elas olhem feio, algumas até grunhem
que estão desconfortáveis conosco.
Tranquilos, não nos abalamos, pois o
papo está bom. Não sentimos o apelo dos saudosismos bobocas. Recordamos que,
protegidos pelos onze anos que tínhamos, fomos arteiros. Éramos gratos por
seguirmos menores de doze anos. Nossa gratidão era alívio, pois os dias de
criar galinhas passaram. Em vez de nos ajoelharem no milho, nos tiravam a farra
de brincar na piscina.
Contentes, lembramos do dia em que montamos
nas bicicletas que eram de nossos irmãos. E saímos, pedalamos sem destino.
Demos no rio que passava murmurante. Falava macio conosco. Convidava. E não
achamos de recusar aquele convite, pulamos da ponte. Nem nos veio à mente que as
bicicletas poderiam ser roubadas. Pulamos sem pensar o quão fundo era aquele
rio e sem considerar haver pedras sob a linha d’água. Havemos de estarmos
contentes, pois somos dois sessentões a prosear no meio da calçada.
Porque, na vida, nem tudo são flores, certa
pessoa, de repente, está passando por nós, é outro sessentão, mais um colega do
colegial.
― Que coincidência!
― A gente acabou de falar daquele dia,
cara.
― Está lembrado que seu pai atiçou os
cachorros sobre a gente?
― Seu pai achou que a gente ia roubar
ameixa, cara.
― Sem maldade, a gente só estava se
divertindo no rio.
Pelo sim e pelo não, o sujeito faz o que
entende ser seu dever. Ele toca em frente, porque certas coisas precisam de ser
resolvidas.
Por estarmos bem resolvidos em nossos
onze anos, meu amigo e eu ficamos na mesma, papeando no meio da calçada.
― Coitado do Praxedes.
― Coitado, por quê? Tem alguém doente na
família?
― Ele é um cara metido, mas ontem eu soube.
Que dó! E a razão é que a sua neta mais velha virou mãe.
― Ninguém merece, nem mesmo um cara
metido como ele.
― Nem a esposa dele cumpriu o seu papel
de mãe, cara.
― Pois é, a fortuna nos sorri. É nestas
horas que deveríamos erguer as mãos em gratidão pelos pais que não houvemos de ser.
― Estou com você, meu chapa.
Sim, o melhor presente sempre vem no
momento certo:
― Às vésperas do Dia dos Pais, virar
bisavô?
― Madalena Santíssima!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de agosto de 2025.