A brisa que eriça os meus pelos não tem
muita paciência comigo, é que lhe falta educar-se, moldar-se aos meus sentidos,
pois, ainda que eu não deixe de acreditar que ela há de conseguir esfriar minha
mente, tenho a cabeça quente, com o calor guarnecido pelo capuz.
O capuz não me protege de mim, que vim
subindo, sabendo que ia, caminhando pro alto. Passo a passo, tomando a brisa na
cara, a fadiga pesando nas pernas, nem parando pros goles do chá. Não dei respiro:
quinze minutos e mais um gole; menos de cem metros e outro golinho bem generoso.
Fui nisso, até chegar.
Havia um ano que eu não subia lá. Lembro
que lá estive há um ano, porque foi no Corpus Christi. No mesmíssimo feriado de
Corpus Christi, faz cinco anos que subo o morro.
Lá do Morro da Figueira, vejo a cidade,
passo horas vendo a cidade lá de cima, fico o tempo que ficar. E, até reparo,
houve mudanças. Sim, a cidade não para, também estou certo que mudei, que eu mudo.
Sei que a realidade, com festas e pesadelos, também me afastou daquele que fui
há um ano, mesmo de quem fui ontem pela manhã, eu já sendo outro à tarde,
alguém já diverso depois da sesta no sofá.
Continuava igual, embora eu não fosse mais
o mesmo, pois o rosto gostou da brisa; senti o friozinho, a brisa pôs eriçados meus
pelos.
Estava lá no alto da Figueira, sentado
na mureta, curtindo a vista, e sendo curtido pela infusão de chacrona preparada
por mim.
Nestes momentos de relaxamento, despido
da carapuça de cidadão solícito, satisfeito comigo pelo desprendimento do prosaico,
bom é ter balinhas, bom é chupá-las.
Chupando bala, deitado na mureta, os
olhos fascinados com o céu. Sem ligar para a cidade lá embaixo e pros minutos
passando; a névoa das nuvens fez o céu vir pingar na minha língua.
Não calculo por quanto tempo fiquei
boiando na mureta do mirante da Figueira, fiquei porque nem me dei conta que flutuava,
fui secando a garrafinha, dispensei achar que não teria mais uma gota, pois
havia balas, as balas que chupei, e fui chupando uma a uma, amando chupá-las.
Bem dosado nos desejos, saquei, o
contrário do amor não é o ódio, não é a indiferença nem o medo, é a empatia. Ocupar
o lugar do outro é atrevimento, é posse de quem eu quero sentir que posso ser,
é tomar pra mim outras dores e alegrias, outras satisfação e frustração, outros
prazeres e horrores.
Quiçá um dente doa ao morder a goiaba; para
apreciar esta carne tão metafisicamente goiaba, vejo a goiabeira.
Ter ficado na Figueira, isolado por
horas, aéreo por horas, ficado na brisa. Com a boca, os dentes e as mãos, vendo
aquela goiabeira.
Sem o sentimento de viver essa comédia, sem
lembrar os ruídos da noite: a embalagem do detergente estralou, o pacote de
papel higiênico caiu, e a luz do corredor acendeu-se.
Precisei voltar e cá estou à beira do
assombro, pois não imaginava a tevê mostrando a montanha onde mora Zaratustra.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de junho de 2025.