domingo, 22 de junho de 2025

Tudo sob controle

 

Tudo sob controle

 

A brisa que eriça os meus pelos não tem muita paciência comigo, é que lhe falta educar-se, moldar-se aos meus sentidos, pois, ainda que eu não deixe de acreditar que ela há de conseguir esfriar minha mente, tenho a cabeça quente, com o calor guarnecido pelo capuz.

O capuz não me protege de mim, que vim subindo, sabendo que ia, caminhando pro alto. Passo a passo, tomando a brisa na cara, a fadiga pesando nas pernas, nem parando pros goles do chá. Não dei respiro: quinze minutos e mais um gole; menos de cem metros e outro golinho bem generoso. Fui nisso, até chegar.

Havia um ano que eu não subia lá. Lembro que lá estive há um ano, porque foi no Corpus Christi. No mesmíssimo feriado de Corpus Christi, faz cinco anos que subo o morro.

Lá do Morro da Figueira, vejo a cidade, passo horas vendo a cidade lá de cima, fico o tempo que ficar. E, até reparo, houve mudanças. Sim, a cidade não para, também estou certo que mudei, que eu mudo. Sei que a realidade, com festas e pesadelos, também me afastou daquele que fui há um ano, mesmo de quem fui ontem pela manhã, eu já sendo outro à tarde, alguém já diverso depois da sesta no sofá.

Continuava igual, embora eu não fosse mais o mesmo, pois o rosto gostou da brisa; senti o friozinho, a brisa pôs eriçados meus pelos.

Estava lá no alto da Figueira, sentado na mureta, curtindo a vista, e sendo curtido pela infusão de chacrona preparada por mim.

Nestes momentos de relaxamento, despido da carapuça de cidadão solícito, satisfeito comigo pelo desprendimento do prosaico, bom é ter balinhas, bom é chupá-las.

Chupando bala, deitado na mureta, os olhos fascinados com o céu. Sem ligar para a cidade lá embaixo e pros minutos passando; a névoa das nuvens fez o céu vir pingar na minha língua.

Não calculo por quanto tempo fiquei boiando na mureta do mirante da Figueira, fiquei porque nem me dei conta que flutuava, fui secando a garrafinha, dispensei achar que não teria mais uma gota, pois havia balas, as balas que chupei, e fui chupando uma a uma, amando chupá-las.

Bem dosado nos desejos, saquei, o contrário do amor não é o ódio, não é a indiferença nem o medo, é a empatia. Ocupar o lugar do outro é atrevimento, é posse de quem eu quero sentir que posso ser, é tomar pra mim outras dores e alegrias, outras satisfação e frustração, outros prazeres e horrores.

Quiçá um dente doa ao morder a goiaba; para apreciar esta carne tão metafisicamente goiaba, vejo a goiabeira.

Ter ficado na Figueira, isolado por horas, aéreo por horas, ficado na brisa. Com a boca, os dentes e as mãos, vendo aquela goiabeira.

Sem o sentimento de viver essa comédia, sem lembrar os ruídos da noite: a embalagem do detergente estralou, o pacote de papel higiênico caiu, e a luz do corredor acendeu-se.

Precisei voltar e cá estou à beira do assombro, pois não imaginava a tevê mostrando a montanha onde mora Zaratustra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2025.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Pela culatra

 

Pela culatra

 

Por radicalismo ético, tomo a iniciativa de pôr frente a frente o polo positivo que adestra as minhas mãos para que eu tanja as pessoas ao ridículo e aquele outro polo, o que amestra a língua para que eu louve sem subterfúgios as pessoas que zombam de mim.

Zombem, mofem, tirem sarro, façam rir quem queira rir das minhas polarizações, porque sou osso, um osso duro, sou desses que trincam, resistem até que haja fratura, justo onde o gesso é inútil, dispensável, é curativo de todo ridículo, posto que o meu espírito tem esqueleto que não cicatriza nem há de cicatrizar-se.

Ridiculamente ético, também quero zombar, mofar, tirar sarro, fazer rir. Comigo rindo, o negócio da piada emperra, estou rindo, a piada fica travada, sigo rindo, a contação chateia, é constrangedora a insistência, eu tento e rio, é tamanha a falta de jeito que viro motivo pra rirem.

Os zombeteiros põem pressão, riem, mas minha mente não verga, não deforma, segue rija. Ela não trincará mesmo que principie a doer. Se for doer, ela doa. A mente que vire doer, doa a valer, pra que cobras e lagartos pululem na saliva.

Polo positivo, saiba que posso me manter ridículo, posso apelar ao riso. Neurótico, apelo à intransigência do polo negativo que encalacra o riso na goela, arranha as cordas vocais, produz uma voz gutural.

Nem que eu pigarreie, ganhei essa voz inilimpável.

Guturalmente ridículo, polo negativo travestido de positivo, o melhor furdunço que a minha cachola pode arrumar pra mim é estabelecer-me como porta-voz de toda gente que se atreve a ridicularizar autoridades quaisquer, sejam elas um pitbull, uma águia ou um tatu-bola.

Tatu-bolinha, polo positivo revestido de positivo, descanso das rixas inglórias, deito o braço forte numa tipoia, pois, adestrado e amestrado, rindo ridiculamente de tão dissimulado, emulo a negatividade.

Pelo humor marxista-grouchiano, vulgarizo a vida, massageio egos alheios. Mal me toco, polo positivo e polo negativo, que ambos repilam-se, se avacalhem, porque meu espírito tem como escalavrar os beijos que não dei e os que não ganhei.

Compreendo-os, todavia não contem comigo que eu opte pelo lado positivo do mundo, dispensando o outro destino.

Pelo meu mau caratismo radical, embrenho na mente selvagem que minha baba acre diz que mofo, tiro onda e gracejo, pois, sei bem, muito bem, que à melhor farra, à melhor festa, à melhor orgia não fui nem hei de ser prestigiado como uma piada, mas engraçada.

Comigo a olhar no espelho, sinto que na mesa estão o copo de café, o sanduíche de salame e as bolachinhas de banana, a cadeira está puxada para o meu desfrute, o que não prevejo é que amanhã haverá mais guerras, outras falcatruas na previdência, outras tantas quizílias a serem desbaratadas.

Com mil e uma insolências, só me resta dizer que, pra já, tem esse PSG X Botafogo, imperdível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de junho de 2025.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Ledo engano

 

Ledo engano

 

Por causa da pista molhada, o ônibus ia lento pela avenida.

Ramona não entrará pela porta, mas eu tenho que seguir em frente, preciso deste emprego. Tenho que ganhar a vida como sempre ganhei, vou seguir trabalhando duro, trabalharei a mais, farei as horas a mais que forem necessárias. Precisado de juízo, trabalharei a mais para não perder o bom senso. Manter a cabeça focada em outra coisa ajuda a esquecer aquela falta. Claro, claro, não farei a desfeita de negar que o dinheiro extra vai ajudar pra caramba, vai dar pra levar as meninas no shopping. Elas tinham a quem puxar, elas têm essa alegria de remediar as dificuldades com blusinhas que usarão só nas festas, então, assim que chegar o Natal, vão me cobrar blusinhas novas, pois elas duas, da noite pro dia, decidiram crescer, andam espichadas.

O ônibus não estava completamente vazio, havia mais lugares que passageiros, que esses nem chegavam a uma dúzia.

Aquele cara, por que ele não senta? Com tanto lugar sobrando, por que não faz como os outros que estão felizes com seus celulares? Será que o malandro está planejando assaltar todo mundo? Eu não deveria ter parado no ponto. É isso, foi erro meu. Está na cara dele que a gente vai ser assaltada. Ele subiu disfarçando, aquele seu boa noite foi coisa de bandido, foi dito só para me enganar, pra que eu não percebesse a malandragem. Ele subiu certo de que assaltará todo mundo, daí que o safado nem faz conta de esconder o rosto. Mesmo de boné e capuz, ele olha pro retrovisor. Tenho que disfarçar que não percebi a arte do que ele pretende. Mas quem fica em pé em ônibus vazio só pode estar tramando coisa ruim. Pelo jeito que ele olha, vamos ser assaltados.

Garoava, e a garoa aumentava a sensação de frio. Fazia oito graus, mas a sensação era de menos, quem sabe fizesse uns seis graus.

Ainda bem que o motorista parou ou eu teria de voltar andando. Se eu tomasse garoa na cachola por mais um minuto, os quilômetros até a minha casa não iriam me dissuadir da caminhada. Quarenta minutos são um esforço danado, claro que são, mas estou muito irritado, tanto estou que o motorista ficar espiando pelo espelhinho é algo que vai me obrigar a ir até ele pra pedir-lhe que pare. Se bem que posso saltar no próximo ponto, uma vez que estão passando mais ônibus nesta altura da avenida. Será melhor pra todo mundo que eu desça, pois não quero confusão, nem comigo nem com ninguém do busão.

A campainha soou porque uma passageira iria descer.

Será que ela não viu o ladrão se preparando pra roubá-la assim que estiverem sozinhos? Será que a infeliz não viu o bandido escondendo a mão na jaqueta? Deus! O que posso fazer pra impedir que ele roube o celular que ela nem guardou na bolsa?

Por trabalhar no turno da noite, ela entrou na lanchonete. Assim que o farol fechou para os carros, o rapaz cruzou a avenida.

Aquela garçonete não era a Ramona.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2025.

domingo, 15 de junho de 2025

A próxima dança

 

A próxima dança

 

Considerando que a minha patroa acha que sou um cara inteligente por haver-me casado com ela, tenho este espírito para entender como é que a realidade manobra no sentido do convencimento que estou na hora certa, no lugar certo, preparado para fazer a coisa certa, certezas que não me saem do pensamento nem quando bobeio, duvidando que o discernimento se deixa manobrar pelo demoniozinho que zanza pela cachola adentro.

Considerando que a minha cachola goza de mim quando não corro do confronto, enfrento-me, abro a porta, passo à rua, não recuo quando as pessoas se aproximam, puxam papo, falam do clima, da política, do preço do café, do último segredo contado só a mim, pois sou confiável, sou um cara que sinto as coisas antes mesmo que aconteçam, sou um sujeito que conhece a vida pelo que a vida é, sem discriminações, sem piadinhas maldosas, sem humilhar até quem mereça ser discriminado, gozado e ofendido, porque confirmo a inteligência que a minha patroa viu em mim que eu a possuía.

Considerando que o meu caráter obriga-me a confirmar a honradez que tenho em mim desde que nasci, sempre que vejo alguém ser dado como idiota, banco o retardado, embaralho o pensamento, digo e nego o que eu digo, confundo, me confundo, trato de jogar com as palavras, pois muito me honra fazer de mim esse veículo da solidariedade, uma vez que sou uma pessoa que se incomoda e age, que não se conforma em testemunhar vexames.

Considerando a retidão do meu caráter, já que eu não deixo passar barato, cobro respeito a quem não quer respeitar e exijo que o humilde seja tratado como a pessoa humilde que ela é, mostro que é importante tratar a pessoa como ela é, sem distorcer a realidade dos fatos, porque o mundo dá voltas.

Considerando a sabedoria da minha patroa, trato de arrumar briga com gente arrogante que pensa que é melhor que todo mundo, se hoje ela se acha a tal porque pode humilhar, amanhã será humilhada, e terá de sofrer o revide porque a realidade não poupa nem mesmo quem se acha o tal, ainda que este arrogante invista em contra-atacar.

Aqui uma citação de uma crônica do António Lobo Antunes diz que isso de “esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas”.

Considerando que a cerveja gelada da noite passada vira o ovo frito do almoço que o salário consegue bancar, peço respeito, pois a patroa sabe que não sou babaca para não sacar o que se dá com gente que nem eu, que é a satisfação, pois não cometo a sovinice de privá-la do cartão para que o sapato combine com a bolsa a ornar com o vestido, todos novos, novíssimos, lindos, lindíssimos, uma vez que nossa bebê merece que a sua mãe esteja chique no baile em que a nossa joia rara desabrochará para a cidade, pois a menina não é mais uma menininha, é pérola cujo brilho mostra o quanto nossa mocinha deve ser honrada, agora como debustante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2025.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Mente romântica

 

Mente romântica

 

Faz sol, mas está frio. A alvorada não desmente as previsões, que o dia amanheceria com temperatura baixa. Nove graus lá fora, trinta e seis dentro dele. Faz sol, está frio, mas nem por isso Olegário deixa de ir de sunguinha à academia, como sói vestir-se nos dias em que vai à piscina da academia.

Faz sol, mas está frio. A alvorada garante outro dia em que Olegário sequer cogita de faltar aos exercícios na piscina da academia, pois é vero que a hidroginástica fá-lo-á sentir-se bem, com disposição, fá-lo-á crer-se afável, com aborrecimentos à parte.

Com o sentimento de doar-se com afabilidade às pessoas, Olegário sequer cogita de pensar que as pessoas têm obrigação de agradecê-lo por seu desprendimento, na sua fraternidade à gente tão simpática, por esta gente tão atenta que Olegário sequer cogita de dispensar-se da hidroginástica três vezes na semana para que o sangue permaneça nos trinta e seis graus, até porque a alvorada nem ousou desmentir as previsões de que os aborrecimentos não falhariam.

Com o sentimento de ser uma pessoa acolhida pela generosidade dos amigos, Olegário encara a cidade há sessenta anos, nem por isso ele cogita de desconfiar dessas mulheres que o convidam para um chá depois da hidroginástica, embora elas nunca o convidem para feijoada, caipirosca e mazurcas chopinianas num sábado.

Uma vez que as mulheres da academia nunca o convidam para um sabadão de caipiroscas depois de um cineminha, Olegário, de segunda a segunda, vai à missa da aurora, às seis em ponto, que é para esperar aquela viuvinha nos seus trinta e seis anos, cuja charmosa viuvez saiu outro dia no jornal, depois do sétimo dia do passamento do esposo.

Uma vez que a viuvinha de trinta e seis anos fá-lo sentir-se solidário, o homem dentro dele não teme uma caipirosca, portanto, assim que a missa acabar, ele ficará à entrada da igreja, esperará que ela saia, pois Olegário a convidará pruma pizza de atum, pois atum e vodca dão um par perfeito, ou ele sequer cogitaria de convidá-la para uma quinta-feira que poderá ser uma quinta-feira sensacional, não pela caipirosca, não pela pizza de atum, não pela noite fria que a previsão diz que será, só pela oportunidade de Olegário ser uma pessoa que sabe escutar o que uma viuvinha de trinta e seis anos tem a dizer, pois Olegário é bastante fraterno para manter a mente em trinta e seis graus.

Olegário a convidará para sentar-se, mas não puxará a cadeira nem recusará dividir a conta, pois o homem repaginado que aprecia os dias frios do outono não tem vergonha de ir de sunguinha à hidroginástica, conquanto a viuvinha de trinta e seis anos nem pretenda entusiasmá-lo com suas elegâncias.

Olegário, meu lindo, você é outro coitado a confiar que o fio da vida enovela-se de tal monta para que o seu objeto de desejo tanto o alegre de haver-se um amor numa sunguinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de junho de 2025.

terça-feira, 10 de junho de 2025

O pirralho Manuel

 

O pirralho Manuel

 

Houve um tempo em que o velho tinha apenas cinco anos, era uma infância simples porque as suas vontades eram irrealizáveis.

Não poderia ter um pônei, uma vez que, sem que a gente soubesse os motivos dele atacar, o bicho escoiceava. Ficava proibido de nadar no rio, pois do lado de lá vivia uma gente que vendia carvão de árvore queimada. Também estava impedido de jogar bola, pois a garotada da bola era herdeira de gente que assava carnes, não pizzas.

Pra dor na espinhela, dor nas ancas, dor nos pés, um homem gritou que tinha garrafadas. Com os gritos, aquela revoada de pombos trouxe à lembrança os dias que não ficariam melhores se tirados do passado, porque o esquecido merece permanecer esquecido quando os pombos arrevoam.

O velho estava de costas para a rua, sentado sozinho, bebendo de gole em gole, sem apertar o nariz porque fosse amarga a beberagem; bebericava devagar porque apreciava, que não era nenhuma poção de poderes trágicos, era tão somente um suco.

Mexendo com o canudinho de quando em quando, o velho bebia o suco; sem ninguém nas mesas próximas, não queria papear nem com os retratos na parede do fundo da lanchonete.

Se reconhecesse alguém, também poderia ser reconhecido, porque teve cinco anos, aqueles cinco anos que a revoada dos pombos os fez renascidos.

Se fosse reconhecido, sairia. Pra não negar a dor, pra não sucumbir ao peso da angústia, deixaria de beber aquele suco, sairia. Não fugiria da conta nem do remorso.

Se tivesse pedido leite, sofreria um bocado, só um gole provocaria estrago, o azedaria pelo resto do dia, o perturbaria, não iria se desfazer do pavor, apenas pra senti-lo como um pavor a ser desfeito.

A vizinha nunca soube e por ele, ao menos, nunca haveria de saber que naquele dia, quando ele tinha cinco anos, ela não soube que não foi ele quem arrumou aquilo à porta da cozinha.

A mulher que enfartou ao dar com as três velas acesas nunca soube que tinha sido outro menino, um que gostava de chutar bola.

O mal não se esgota enquanto uma criança gargalha, tampouco se arrefece enquanto ela sorri, porque nem o riso nem a alegria retratam a perversidade de quem pouco se sabe ingênuo, inocente, na meninice dos cinco anos, que gente má também pode ter cinco anos.

A vizinha enfartada não viu as Três Marias, ela viu uma vela preta, uma vermelha e uma branca. Ela não sabia que a morte pudesse ser repentina, abrupta e dolorosa, que o seu peito iria doer de tal modo que o seu olhar quedaria baço e, estranhamente, seus olhos cegariam.

Às vezes, assombra que tudo seja tão súbito.

Como explicar que um menino poderia atentar contra outra criança? Como esquecer que um pirralho de cinco anos acusaria outro menino? Por escafeder-se, perdoaria àquele fedelho?

Aqueloutro não queria a dor, mas agora este Manuel, de costas pros pombos revoando, deseja suco de manga feito com leite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de junho de 2025.

domingo, 8 de junho de 2025

Benditas águas

 

Benditas águas

 

Gosto de pescar, entretanto há meses não pesco. As circunstâncias da minha vida impedem-me de ir, mas não desanimo, acalento que irei à represa assim que surgir uma brecha. Pescarei sem sentir culpa por postergar o que seja incontornável, porque a cabeça precisa praticar o que ventila o pensamento. Pegarei do tempinho que há de ser pra mim, vou deixá-lo que me fisgue, sentarei na canoa que alugarei, escolherei a isca, verei o anzol afundar no espelho d’água, acharei bom, isso fará bem. À margem das frustrações, sem encasquetar, pescarei enquanto a minha bunda aguentar.

Ora, gostar de pescar não supõe ter tempo para isso.

Tanto falta esse sossego que, entre cafezinhos e becos sem saída, encarando o teto, vem à mente que estou de boné, a garoa não penetra a japona; sem ninguém a ditar o que precisa ser feito, o que tenho que fazer, é boa coisa ficar sozinho na canoa, no meio da represa; cercado de mansidão por todos os lados, sentindo a placidez, não preciso achar que controlo o trabalho dos pulmões; a cada vez que não penso no que sinto por estar no meio da represa, longe dos problemas, estar a tantos quilômetros dos boletos, das filas, do arroz com feijão sem refrigerante, é bom ficar longe do gás do refri; não ter que arrotar o gás é ótimo.

É óbvio que adoro pescar, tanto que não pesco faz um ano, porque o ano passa rápido; esse passou que mal percebi que o arroz e o feijão andaram vindo guarnecidos de repolho cozido, mal reparei na minha impaciência com gente que tem o costume de passar na frente de todo mundo, que este ano acumulado tinha feito bem ao meu sono; dormir bem me faz ir de carro à padaria; ainda que o farol do cruzamento viva quebrado, irei e voltarei sem arranhão algum.

Não preciso me enganar; isso de improvisar, essa sanha de arrumar uma pescaria pra ontem, a promessa que me fiz tem que ser lembrada justamente quando a vontade de respeitar-me é atacada por uma força que conhece os atalhos da minha cachola, mas prometi que iria pescar apenas quando eu não fizesse a pressão subir.

No último domingo do primeiro mês que estava sem pescar, quase quebrei a promessa, quase fui pescar porque todo domingo ia pescar, mas consegui me segurar, tanto foi que enchi a cara.

Veio o segundo mês, quase quebrei a rotina de tomar um porre sem querer tomá-lo, falei asneiras, furei a fila do caixa, comi uma porção de provolone, mal lembrei das pescarias que não fiz.

Dispenso pensar, pego o carro e vou à padaria; dispenso pensar na necessidade de estar perto das pessoas; que tenha gente falando sem parar, nem preciso da tevê ligada; ainda que não haja precisão de estar perto da TV, não me amofina a percepção dos estímulos do momento: recebo os perdigotos e reconheço os borborigmos.

A melhor pescaria que eu não fiz, neste ano, devo-a ao garçom da padaria, cuja neta vai sendo batizada nas águas da represa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2025.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um passeio aleatório

 

Um passeio aleatório

 

A cidade está silenciosa. Desde que acordei, tenho ouvido um carro ou outro passar. Sim, de quando em quando, ouço vozes, vou à janela e vejo um rosto ou outro de gente conhecida.

Faz horas que acordei, mas o estalo só veio agora, pois foi só agora que percebi que o silêncio das ruas não é preocupante.

Não estou preocupado, pois não creio que as pessoas tenham sido abduzidas quando estavam dentro dos seus carros, prontas para pegar a estrada, para irem à praia ou passarem o dia na capital.

Abduções têm espalhafato, há luzes fortes, motores fazem barulhos esquisitos, surgem máquinas que têm formato de charuto, aí desce um raio, então, adeus vaquinhas, tchau tchau menina de maria-chiquinha, até mais ver guarda esbaforido.

Tal espécie de abdução costuma me assustar, obrigando a acordar e correr pro meio da rua, mas não moro no campo, meninas não usam maria-chiquinha nem policial faz ronda sozinho.

Com a realidade vigorando, a rua de casa revela-se esvaziada, sem a azáfama das pessoas que colaboram pra realidade seguir vigorando; mesmo eu, é real que não estou assombrado nem estressado.

Curioso, vou ver na folhinha que dia é hoje, se é uma data especial, mas a terça-feira da folhinha é um dia comum.

Ai caramba, esqueci que hoje o feriado é local.

Quero aproveitar o feriado, vou sair, eu caminharei sem rumo certo, zanzarei ao sabor dos olhos, das pernas, dos ouvidos, porque me darei o prazer de andar sem pressa, de vagar por aí porque me darei tempo, farei com que o dia me seja único, que este dia, sem nada de especial, quero que a mim ele se torne inesquecível.

Daqui a sei lá quantos anos, a memória surpreenderá, me lembrarei que gostei de vivê-lo, tanto que o recordarei, que este dia foi bom.

É feriado, que dia bom para fazer coisa errada. Quando faço coisas erradas, meu bem-estar aumenta. Quando quero aumentar meu apego à vida, menos quero dar ao mundo o espetáculo de sempre.

Sei que é errado agir como se o mundo enxergasse o quanto posso ser extraordinário. Sei que é certo esperar que me tratem como alguém fora dos padrões. Sei, sim, sou uma pessoa sem igual, só preciso que me permitam mostrar como posso ser de verdade.

Feriado existe para que a gente revele o quanto o mundo não nota o quanto é míope, portanto vou à rua, quero me mostrar sem medo.

Me anima querer aproveitar o dia ainda que peçam para descer da mangueira da praça, mas, só depois de ter chupado a manga que me fez subir pelos galhos, eu pulo.

Entusiasmam-me as águas, pulo da ponte, nado, boio, deixo que a correnteza me leve, mas o dono da casa manda que eu saia, que deixe a propriedade, eu aja com respeito, porque as suas filhas não precisam assistir à pessoa nadando como se o rio não estivesse frio o bastante pra fazê-la tiritar, suplicar pelas roupas secas que eu não peço.

Só porque está chovendo, precisa atiçar os cachorros?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de junho de 2025.

terça-feira, 3 de junho de 2025

Conversa ao pé do ouvido

 

Conversa ao pé do ouvido

 

Ontem perdi a hora. Parece que demorei dormir. Deve ser isso, que eu tenha perdido a hora de ir trabalhar porque o sono demorou-se a vir que acabei desistindo da rotina.

Porque ontem foi um dia difícil, pelo tanto de problemas que deixei sem solução, pelo tanto de idiotices que nem escolhi em deixar pra lá, mas fui deixando, fui pedindo que sumissem no ar.

Que o ar sempre vire brisa, não me azougue que nem gotejamento que não para, não passa, uma vez que isso é assim para que a gente enlouqueça ou perca as estribeiras.

Pouco a pouco, gota após gota, sopro a sopro, o ar faz ruídos para camuflar, para que eu perceba mas sinta que me esquivo do percebido, pois tenho a impressão que as gotas têm mensagem.

Não perdi o sono tentando decifrar o que a brisa tentava dizer-me, quis achar o que era preciso pra melhor captar o que o ar da noite dizia; sem que achasse difícil de traduzir, quis organizar o pensamento para achar o que era preciso pra me fazer entendido, até sem palavras.

Eis o ar, as gotas, os caixilhos da janela batendo, o mundo, não há palavras sussurradas vindas de um bicho, que desejo entendê-las.

Não levantei no escuro, inventei que tinha aquele inseto no quarto, que era uma barata roendo a sacola. Inventei que era preciso matá-la, para que a noite não fosse uma noitada de infortúnios.

Bastava que o dia tivesse sido aziago, não queria uma noite de sons bizarros, que acabasse sendo uma travessia cruel, a conduzir à aurora que não chegará do jeito que podia ser, porque, noturna e estranha, a noite que se instalou em mim era o ar, essa brisa era uma barata.

E o dia juntou acontecimentos, os eventos assorearam-me a alma, os fatos teriam de ser pesados, precisavam de mim que os avaliasse, isso para, amanhã, a memória ter apagados os fortuitos.

Hoje eu tinha estabelecido que começaria meu empenho em correr maratonas, mas ontem, por acaso, teve um bicho a roer coisas.

Os meus nervos acharam que era uma barata roendo sacolinha de supermercado, mas não guardo sacolinhas de plástico no quarto.

Se fosse barata, por que não levantei? Se fosse para matar aquela barata, por que deitei de lado, sabendo que teria pesadelos? Se fosse para roer o plástico da sacola, por que não fui às compras? Por que não sou aquela barata que não para de roer mesmo a madrugada estando fria?

Sou uma sacola sendo roída.

Que a brisa seja interrompida. Que a barata fique saciada de tanto morder plástico. Que a brisa leve a sacola, faça-a sumir. Que a aurora venha quando for chegada a hora de vir.

Como não levantei, não vi se havia barata, se havia sacola, se meus pés sentiriam o piso frio do quarto.

Ontem foi um dia estranhíssimo, ciclistas quase me atropelaram na calçada, cães latiram sem que houvesse motivo, o botijão acabou sem que tivesse leite fervido e café passado na hora.

Ainda assim, baratinha, fiz o meu desjejum.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de junho de 2025.


domingo, 1 de junho de 2025

Uma pitada de sal grosso

 

Uma pitada de sal grosso

 

Fazíamos churrasco porque era aniversário do meu pai. Depois de 365 dias, perfazendo quarenta e quatro anos de canastrice na imitação do Sol que tolera que a Terra o circunvague, não se apoquente de sua atuação risível, uma vez que nós prosseguiremos a surpreendê-lo com esses regalos regados a aldrabices, e picanha no alho, pois sabemos quão doloroso é doar-se a nós sem ficar numa nota dó, sim, apraz-nos o senhor produzir as quatro estações a nos unir no seu derredor.

Sem que ninguém tivesse pedido, e como costumo ficar perdido em reuniões festivas, fui ficar na frente de casa, recebendo os convidados, que, em sua maioria, eram parentes, e os nossos, ainda bem, não dão pelota pras minhas melancolias de rapazola mimadinho.

Gente de certa idade, embora (eles) sem entradas na testa e (elas) com madeixas rubras, os familiares não tinham frescurites. Chegavam fazendo fuzuê, falavam alto seus braços serelepes. Podiam ter vindo loucos pra tirar a latinha da minha mão sem fazer cafuné, ou seja, fiquei abrindo latinha a cada vez que vinha biruta bagunçar meu topete.

Tendo ânimo que faça ferver o sangue, ou Freud saque explicação menos determinista, só sei que os meus tios são de chegar cedo, algo típico do meu pai, a quem muito importa que seja para bater ponto na repartição ou pra papear no botequim, ele normalmente chega minutos antes de qualquer que queira ser a primeiríssima pessoa a se alvoroçar da chegada.

Normalíssimo era liberar a entrada a quem supostamente conhecia alguém da família, pois fora convidado por papai ou pela mamãe, fosse colega de firma, morador da nossa rua ou tivesse se lembrado da data, eu não ficaria chateado caso algum penetra cometesse a barbaridade de tomar um dedinho do Royal Salute do meu pai, ainda que a garrafa estivesse oculta, protegida por Jack Daniels, Chivas e Buchanan’s.

Apareceu esse cometa. Chegou sorridente. Abraçou-me sem pegar a minha latinha. Falou da semana puxada, disse que não desceria aos detalhes porque eram maçantes. Mas o chefe soube resolver tudo, não seria líder se não topasse ajeitar tudo. Foi entrando porque teria de dar aquele abraço apertado em quem sempre dá cabo das encrencas sem provocar encrenca, outra maior. Que eu lhe desse licença, que iria logo abraçar o seu camarada.

Lhe dei licença por óbvio; e eu dá-la-ia ainda agora, mesmo depois da performance meteórica.

A pessoa foi de roda em roda. Comeu um espeto de coraçãozinho. Bateu foto para minha tia com máquina das antigas. Bebia um gole de cerveja para abandoná-la em seguida. Sem parar de sorrir, escutava o que era assunto nas rodas. Era mesmo uma simpatia.

Ninguém a botaria para fora ainda que tivesse colocado sal grosso no pãozinho sem linguiça, que foi pra se livrar do olho gordo que sentia desalinhar as tripas, mas, de fato, ela não pôde segurá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2025.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Inimigo secreto

 

Inimigo secreto

 

Juro por deus que não é mentira, juro que não vou inventar alguma lambança, juro que não quero desviar o foco, porque a vida é sonho e não preciso forçar a barra para acordar, nem mesmo acordarei quem não tem pesadelo do qual precise ser despertado.

Se eu pretendesse desviar a atenção da minha vida prosaica, reles e enfadonha, poderia mostrar o quanto me falta imaginação, ainda que suponha estar dando conta, eu erro feio na autoavaliação.

Eu poderia dizer que Flamarion e Arinelson são irmãos, e primos de Asclépio, diria também que Atanagildo e Claudiomiro são amigos, sem parentesco com Mariazinha, que entrou na história porque emprestou quatrocentos reais pro Arinelson, que foi roubado pelo caolho chamado Francinildo, que por sua vez foi roubado por um rapaz que passava de bicicleta e foi-se embora levando a grana que seria usada por Arinelson pra quitar a dívida que tem com Claudiomiro, que tinha dito ao devedor que a dívida tinha que ser paga antes do dia cinco porque o pagamento da dívida estava atrasado e quem virá resolver a questão (do jeito que tiver de ser) será um sujeito ruim como o diabo, chamado Francinildo, que, enquanto mina a resistência da gente dando socos no abdômen, sabe fumar o seu cigarrinho sem jogar a fumaça na fuça de quem ele precisa socar no abdômen.

Até agora, fizemos bem em deixar Asclépio de fora desse imbróglio, pois há décadas não se tem notícia desse primo do Arinelson, embora tenha gente que diga que ele vive em Minas, nalguma vila, num rincão que fica perto de Mariana, mas não damos como precisa a informação, embora vinda de terceiros que gostam de galinha à cabidela.

Aceitamos a verdade que uma fofoca finge não trazer na superfície, como não torço pescoços nem coleto sangue, conto o que sei sobre o que vou contando, conto o que acredito saber sobre o que acho que estou contando, posso agir como um terceiro nesse causo em que não entram Flamarions, Arinelsons, Atanagildos, Claudiomiros e Mariinhas, permitindo a entrada do Francinildo, pois a sua presença dá essa paúra de questionar se conseguirei aflorar em mim o astucioso, esse farsante que mostra a cara quando estou boquiaberto, certo de que não saberei trazer à tona o que minha cara sonha que eu não veja, eu não perceba e não sinta que as identifico, essa paúra e essa cara de cobarde, pois, ao identificar-me com esse sujeito no espelho, então, sou esse crápula, viro esse Francinildo avexado de ver-se em mim.

De soslaio, dou uma olhadinha. Olho fingindo que não quero olhar, espio. Dou outra espiada, apenas pra me certificar do que vejo, apenas pelo desejo de ver-me, embora eu tenha vergonha, tenha medo.

Posto ser desagradável haver-me caviloso, o que preciso fazer para não me estarrecer é raspar a cabeça.

Pro espelho não criar desdita alguma, caracoles!, vou comprar um aparelho de barbear.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de maio de 2025.