A cidade está silenciosa. Desde que
acordei, tenho ouvido um carro ou outro passar. Sim, de quando em quando, ouço
vozes, vou à janela e vejo um rosto ou outro de gente conhecida.
Faz horas que acordei, mas o estalo só
veio agora, pois foi só agora que percebi que o silêncio das ruas não é
preocupante.
Não estou preocupado, pois não creio que
as pessoas tenham sido abduzidas quando estavam dentro dos seus carros, prontas
para pegar a estrada, para irem à praia ou passarem o dia na capital.
Abduções têm espalhafato, há luzes
fortes, motores fazem barulhos esquisitos, surgem máquinas que têm formato de
charuto, aí desce um raio, então, adeus vaquinhas, tchau tchau menina de
maria-chiquinha, até mais ver guarda esbaforido.
Tal espécie de abdução costuma me assustar,
obrigando a acordar e correr pro meio da rua, mas não moro no campo, meninas
não usam maria-chiquinha nem policial faz ronda sozinho.
Com a realidade vigorando, a rua de casa
revela-se esvaziada, sem a azáfama das pessoas que colaboram pra realidade seguir
vigorando; mesmo eu, é real que não estou assombrado nem estressado.
Curioso, vou ver na folhinha que dia é
hoje, se é uma data especial, mas a terça-feira da folhinha é um dia comum.
Ai caramba, esqueci que hoje o feriado é
local.
Quero aproveitar o feriado, vou sair, eu
caminharei sem rumo certo, zanzarei ao sabor dos olhos, das pernas, dos
ouvidos, porque me darei o prazer de andar sem pressa, de vagar por aí porque
me darei tempo, farei com que o dia me seja único, que este dia, sem nada de
especial, quero que a mim ele se torne inesquecível.
Daqui a sei lá quantos anos, a memória
surpreenderá, me lembrarei que gostei de vivê-lo, tanto que o recordarei, que este
dia foi bom.
É feriado, que dia bom para fazer coisa
errada. Quando faço coisas erradas, meu bem-estar aumenta. Quando quero
aumentar meu apego à vida, menos quero dar ao mundo o espetáculo de sempre.
Sei que é errado agir como se o mundo
enxergasse o quanto posso ser extraordinário. Sei que é certo esperar que me
tratem como alguém fora dos padrões. Sei, sim, sou uma pessoa sem igual, só
preciso que me permitam mostrar como posso ser de verdade.
Feriado existe para que a gente revele o
quanto o mundo não nota o quanto é míope, portanto vou à rua, quero me mostrar
sem medo.
Me anima querer aproveitar o dia ainda
que peçam para descer da mangueira da praça, mas, só depois de ter chupado a
manga que me fez subir pelos galhos, eu pulo.
Entusiasmam-me as águas, pulo da ponte,
nado, boio, deixo que a correnteza me leve, mas o dono da casa manda que eu saia,
que deixe a propriedade, eu aja com respeito, porque as suas filhas não
precisam assistir à pessoa nadando como se o rio não estivesse frio o bastante
pra fazê-la tiritar, suplicar pelas roupas secas que eu não peço.
Só porque está chovendo, precisa atiçar
os cachorros?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de junho de 2025.