domingo, 4 de maio de 2025

A menina da sanfona

 

A menina da sanfona

 

Eu via Desaparecimento na Noruega achando que fosse a primeira vez, mas a cena em que a repórter, dentro do carro parado na travessa, observa o vaivém dos funcionários da oficina mecânica bastou para eu constatar que, além de ter visto a minissérie, a viela era parecida com um beco sem saída da Ilha Caraguatá.

No começo dos anos 2000, trabalhei em Cubatão. Morei no Jardim Casqueiro; e, com vista para a Beira-Mar, o apartamento ficava em um predinho de três andares.

Saía às cinco e não saía para tomar banho e jantar, saía bater bola, ao lado da quadra de areia, no campinho cujos gols eram demarcados por chinelos.

Sendo uma sexta não chuvosa, vindo lá da Ponte Nova, indo lá pra Ilha Caraguatá, passava um senhor com uma sanfona.

Passava tocando; parando só quando lhe era oferecido um gole de cerveja. Tomado o gole, seguia cantando, tocando, como se a sanfona não lhe alterasse o centro da gravidade.

Aquela travessia deixou-me curioso: o sanfoneiro das sextas tocava para viver ou seria pela farra?

Vê-lo, ouvi-lo, acompanhá-lo de latinha na mão, mas, serei honesto, nunca fui puxado da cadeira, jamais me deu a comichão de dançar ao som daquele pé de serra.

Não dançava, mas tremelicava. Embora outros desconfiassem que tomava choquinhos ou fosse possuído por entidade fanfarrona, sempre desacreditei que meu sacolejo motivasse risinhos, porque havia graça no meu remelexo emocionado.

Sendo camarada incapaz de gracinhas na internet para ganhar uma bolada, mostrando-me um vídeo, cuspiu: que diabo dessa menina usar os oito baixos pra insultar o Gonzagão com a Quinta do Beethoven!

Será que a memória não me trazia um momento que nunca existiu?

Com a exibição parada, busquei e não achei o tal vídeo da menina que, no Beethoven, mandava brasa.

A imagem congelada era um close da investigadora principal, era o rosto da atriz norueguesa Yngvild Støen Grotmol.

Olhei com atenção. O que fazia esplêndida essa face?

Sem demora, achei um retrato em branco e preto, clicado por Erika Hebbert. Observei-o. O que me levava a achá-lo um adorável exemplo da beleza? Com atenção, observei-o: Yngvild tem olhos amendoados; a parte superior da cabeça é oblonga e a inferior é triangular. Observei uma mancha escura sobre uma das maçãs daquela face, era uma área propositadamente assombreada.

No súbito da intuição, mente brincalhona assombra.

Escapou-me um riso, uma vez que, numa camisetinha chumbrega, vi o clássico homenzinho verde fazendo paz e amor com os dedos.

Escapou outra risadinha; ocorreu-me recorrer à inteligência artificial para compor a menina da sanfona com o rosto do homenzinho verde, mas o vídeo resultante trouxe uma anã tocando uma sanfona de cujos foles não saía som algum, nem mesmo aquela Quinta chiclete.

Cão danado!

Negarei três vezes ter visto o sorriso da anã a me espiar da tevê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2025.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

A velha e o bar

 

A velha e o bar

 

A velha está no bar. Se estivesse em casa, fazendo tricô, seria outra história; até sem graça, seria outra daquelas histórias da qual a gente sai com uma lição.

Com a velha num bar, não se presuma que advirá um aprendizado. À revelia do narrador, caso venha à luz um final edificante, ele virá por descuido, como se tapetes precisassem ser puxados.

Para o impacto não causar trauma, e funcionar mais como pasmo, ainda que nem provoque o estupor do queixo caído, a velha não pode estar fora do balcão.

Atrás do balcão, sim, pois ela não é mais uma pinguça, dessas que tagarelam, achando-se perfeitamente compreendidas, embora falem a língua dos embriagados.

Como não bebe, ela não fala quando não precisa. Ainda que outros peçam que intervenha, ela só se manifesta quando acha indispensável que a sua autoridade ganhe corpo.

Precisando falar, ela fala grosso. Sem tibiezas frente aos beberrões que aporrinham de quando em quando, ela é quem manda na birosca. Por haver-se firme nas suas decisões, os marmanjos barbados sabem que é inegociável a decisão de manter-se sóbria.

Poderíamos designá-la hipócrita, e cometeríamos injustiça, pois ela não é velhaca a ponto de ir beber uma cachacinha em outro bar. Se a criticássemos por pagar as contas vendendo bebida alcoólica, também praticaríamos velhacaria.

Ela sabe quantas ressacas lhe foram necessárias para nunca mais botar uma gota na boca. Ela é quem sabe a dor de sentir a falta quando dos tremores incontroláveis. Quem se viu obrigada a aprender a jamais saborear uma gotinha foi ela, portanto cabe a ela, e tão somente a ela, não esquecer as náuseas vividas.

Demônio espertinho não agrada só com um copo, oferece a garrafa. Com dois dedos de caninha, pede que seja brindado o momento. Pela esperança de um dia menos estafante, brinde-se. Pelo instante em que a confiança sobrepuja a soberba, não são as doses que secam o litro, é a lubricidade.

A velha do bar entende os impulsivos. Por sua língua ter explorado as bocas que quis, ela se reconhece contida. Se confidenciam paixões, cobra apenas pelas doses servidas. Quando teimam em pagar-lhe um trago, ela compartilha uma história.

Na parede atrás do balcão há uma prateleira, nela estão as imagens de Nossa Senhora Aparecida e São Jorge e entre elas fica uma garrafa de Velho Barreiro.

Por manter esta garrafa à vista de todos, a velha não deixa os copos emporcalharem a pia. Sem ver a garrafa, acha engraçado quando um fiado lhe é pedido, uma vez que só o papo é fiado.

Cadê a história?

Como o marido esqueceu, ela tratou de ir comemorar o aniversário no bar mais perto da sua casa.

Por não ter dado um dedo da bebida que pagou com o dinheiro que era seu, dois chumbados trocaram sopapos e um morreu apunhalado.

Sem olhar pra trás, ela adormeceu abraçada à garrafa; justo aquela, que sempre a faz recordar-se daquele causo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de maio de 2025.

terça-feira, 29 de abril de 2025

A última palavra

 

A última palavra

 

Sou parado por um senhor.

Quiçá o sujeito queira comentar a conquista do Liverpool; quiçá eu diga que tive uma boa noite de sono.

A paradinha é por cautela, pois um homem e uma mulher discutem sobre quem é mais estúpido: o homem que não quer ceder ou a mulher que exige passar à frente por não ter um carrinho cheio, posto que veio comprar só uma água sanitária.

O senhor que ainda nem disse uma palavra e eu que nem comecei a papear somos dois felizardos, pois não carregamos cestinhas cheias nem trajamos a camisa verde-amarela da seleção.

Como felizes têm olhos leves, os nossos olhares sorriem: como eles são patriotas, estes canarinhos raivosos que se biquem.

Sendo assim leve, feliz e sorridente, a minha mente se deixa poluir pela polarização, pois, com a merda sendo feita, em vez do ventilador, eletrizou-me um pensamento inquietantemente conservador: o embate entre ela e ele ganhará tons mais virulentos se um dos fraticidas estiver envergando a suposta nova camisa vermelha do escrete nacional.

Como mansos de coração com horror a energúmenos, dispostos a um papinho ameno, tomamos distância do pandemônio.

Embora o diabinho em mim deseje brincar, não aposto que o senhor ouse ridicularizar a fiel torcida, porque vestir a camisa do Timão depois de ter sido surrado de quatro pelo Mengão é para corintiano acima de uma reles suspeita.

Sem mais, o camarada argumenta:

― Ficou sabendo que o Ancelotti vai sair do Real? Ele vindo, quero ver se vai dar conta do estrelismo do elenco. Vai precisar ter peito para não virar um cordeirinho. Esses caras pensam que são os melhores do mundo, mas faz vinte e três anos que não levantamos a Copa.

― Já fez o cálculo? Outro dia eu vi o óbvio: antes de vencermos na Suécia, foram quatro copas; depois do tri no México, foram cinco taças; desde o penta no Japão, são seis copas sem levantar o caneco; então, é lógico: seremos hexa em 2026.

O senhor não parece irritado. Mesmo que pareça estar ouvindo, ele não demonstra interesse. Tão logo me calo, vêm mais argumentos:

― Não é boa ideia contratar um técnico estrangeiro, porque ele virá pelo prestígio de treinar os pentacampeões. Quem tem que comandar o nosso esquadrão é quem jogou na Espanha, jogou em time grande e foi campeão. O melhor técnico pra melhor seleção do mundo é quem fala português, sabe das nossas manhas e dará jeito na rapaziada.

Só consigo balançar a cabeça, ora aprovando, ora duvidando, mas o entusiasmado nem percebe a diferença.

― Se o Coringão tomou um vareio, então, quem tem que comandar o país é o Filipe Luís, pois ele é gente nossa e tem gabarito para marcar um golaço histórico.

Cúmplice da sua inocência, também não digo que o tolo acredita no que pensa seja o otário levado a acreditar no que dizem que pensa, eu até lacrimejo:

― Hexa! Seremos Hexa! Engula essa! Engula essa, Trump! Vamos ser Hexa! Hexa!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2025.

domingo, 27 de abril de 2025

Falando grosso

 

Falando grosso

 

Amiga, beijinhos.

Espero que você esteja bem. Caso não esteja, espero não agravar o seu estado. Espero que minhas palavras sejam um convite para que saia da cama, que elas funcionem do melhor modo possível, a façam abrir a janela, gostar do sol do outono. Espero que as minhas palavras cheguem a você como uma fruta boa de ser comida, que você a morda com vontade, não a morda com força, morda-a com fé, porque aprecia o que há de ser aprazível. Que minhas palavras sirvam para você como um analgésico potente, que lhe alivie a dor que é esforçar-se para sair da cama. Que elas não sejam nuvens, pois, mesmo que o sol seja de outono, espero que seja bom levantar-se, que consiga encarar a hora, que enfrente o seu corpo ao meio-dia. Porque agora pode mesmo ser meio-dia, quero as palavras certas como o sol do meio-dia.

Agora que deixou a cama, abriu a janela e sentiu a brisa no rosto, vá lavar-se, vá escovar os dentes, tire o bafo, livre-se do sarro de cada um dos cigarros que lhe tragaram outras vontades.

Sinta a lufada do refrigério; perceba a renovação do ar de sua casa; mantenha-se aberta como janela aberta; seja a janela que precisa ser pra que o ar permaneça renovando-se, refrigerando-a de suas neuras, dos seus pecadilhos, de seus deslizes que não são maiores que o seu desejo de ter um dia bom, um dia que a faça sentir-se com vontade de vivê-lo sem a necessidade de guardá-lo, preservá-lo de algum jeito, por meio de fotos, através de mensagens, debaixo de palavras que postará como se hoje devesse agir como gelo na canela escoriada.

Também sei me repreender por minhas distrações, mas ansiolíticos também anestesiam, também me deixam pronto pra encarar o dia, pra encarar-me enquanto o sol me testa, prova e desafia.

Apesar de desafiado, desafio-me a seguir desejoso do sol.

Amiga, acredito em você.

Sei que as minhas palavras podem fazê-la tirar os olhos do que está lendo. Olhe, enxergue-se no que lhe possa confortar. Conforte-se que haja algo que a alegre, que lhe agrade, pois há muita coisa que lhe dá prazer, faz você se sentir bem pelo prazer que percebe ao querer mais, e mais. Não negue a satisfação de enxergar-se em tudo o que faz, faça e toque em frente, esqueça tudo o que há pouco a sufocava.

Não quero que minhas palavras a sufoquem. Caso elas lhe sejam asfixiantes, supere-as.

Falo sério, é para sair pela vida.

Ontem, por exemplo, peguei a estrada. Um caminhão puxava a fila, segurava os carros. Percebi que o caminhão puxando a fila é o mesmo caminhão da semana passada.

Amiga, a pessoa que não se entristece com o mundo sabe ver sem véus, por isso me esforcei, tanto me esforcei que entendi. O caminhão da semana passada é o mesmo caminhão de ontem, pois o caminhão desafia, faz a gente entender que a vida é um jogo. Por isso escolho o jogo da razão, pois a razão diz que viver é não sair da fila.

Beijinhos, amiga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2025.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Tutti buona gente

 

Tutti buona gente

 

Eu comia uma maçã quando a vi. Ao lado da caçamba, exibindo um rabo de cavalo em vez das costumeiras carapinhas ensebadas, trajava calças e não a bermuda de praxe, havia tanto que a figura não aparecia de banho tomado. No beco, porém, Taborda continuava descalço.

Convidei, acenando, que viesse até minha casa, e ele veio.

Nem bem sentou-se, balançando-se, Taborda começou a assoviar, “sonho meu” para frente, “sonho meu” pra trás, “vai buscar” para frente, “quem mora longe” pra trás e, olhando para a rua, “sonho meu”.

Deixei-o nisso, que balançasse, assoviasse, sonhasse; com sonho bom indo e sonho bom vindo, assim desejoso que ele calçasse um dos coturnos que fui buscar, eu voltei.

― Seu Rodrigues, o senhor é uma boa pessoa.

Ele pegou o par usado.

― Justamente, Taborda, a ideia é essa, que o Seu Rodrigues é uma boa pessoa, pois ele torceu pra que você pegasse o par usado. E sabe por que ele torceu pra você escolher o coturno mais barato?

― O senhor pensa lá na frente, hein!

― Adivinhou, né? Pois ele se preocupa com você. O Seu Rodrigues sabe que se tivesse pegado o coturno novo, você faria mais grana.

― Seu Rodrigues, o senhor me comove com sua fraternidade, pois eu teria mais grana pra torrar lá com aquelas paradas.

― Taborda, você iria beber, fumar e cheirar, sabendo que o coturno extra estaria aqui chamando que você voltasse, viesse apoderar-se do produto novinho em folha.

― E o senhor, Seu Rodrigues, a sua boa pessoa continuaria aqui, rezando para eu fazer mais dinheiro com este produto novinho.

― Seu Rodrigues, Taborda, é uma boa pessoa e toda boa pessoa é gente de confiança, gente que não trai a esperança.

― Sim, Seu Rodrigues, creio que o senhor não faria o desplante de entregar o coturno à gente cobiçosa.

― Pois assim será, meu chapa, assim será.

Amarrando os cadarços de tal modo que o pescoço impediria de o coturno acabar perdido numa quebrada qualquer, Taborda disse:

― Pra não deixar fedido, nem vou calçar.

― Espere, espere. O Seu Rodrigues vai te arrumar uma sacolinha, assim ninguém terá a cobiça de roubar-lhe o objeto valioso.

― Obrigado, obrigadinho.

― Pra agilizar a coisa toda, por que você não vai de bicicleta? Olha ali aquela magrela dando sopa.

― Boa ideia, Seu Rodrigues, vou pedalando.

― Mas, atenção! Use, faça o que tem que fazer, mas não venda a bicicleta porque ela não é sua, viu?

― Não sou ladrão, Seu Rodrigues. Só vou usar para ganhar tempo. Depois, eu retornarei e porei o camelo no lugar.

― Para não complicar seu lado, Taborda, pegue esta corrente com cadeado pra quando você tornar a prendê-lo à lixeira.

― Lá vou eu, pois não tenho tempo a perder, e a hora é essa.

Mal o Taborda virou a esquina, Seu Rodrigues sentou-se na cadeira da varanda e, balançando-se, passou a assobiar: “mai tutti buone” para trás, “tutti buone” pra frente, “tutti buona” para trás e “gente” pra frente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de abril de 2025.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Dois cigarros, um café

 

Dois cigarros, um café

 

Diz a estante de livros:

“Ao fumar, ele não solta anéis que esvaeçam na direção do teto, ele tosse. Porque não sabe tragar, insiste. Fuma três maços por dia, e vive tossindo, vive para pigarrear. De fato, suas escapadelas não são para fumar, são para tossir sem se encabular. Muitos diriam que ele foge do trabalho, mesmo que esteja sadio para continuar, ele acende o cigarro. O que eles não sabem é que ele faz a mesma coisa em casa, sozinho, deitado em decúbito dorsal, a respiração produz uns ruídos que um dia haverão de matá-lo, porque as preocupações chegarão tarde. Até lá, ele fuma, vai fumando, segue tentando tragar e tosse, tosse, tanto ele tosse que muita gente acha que já tem um pé na cova. Embora tenha consciência do mal que faz a si próprio, não reduz os três maços. Sem pestanejar, mantém o vício que o está alquebrando. Na boca do caixa, quando está pagando pelo veneno, mesmo tossindo, não desiste dos seus três macinhos que muito o saciam, pelo tanto que o inebriam, pois fumar não é brincar de soltar anéis, porque o teto não sabe apreciá-los concêntricos e, por serem anéis de fumo, execrá-los.”

Diz o camarada:

“Deve ter algum engano. Por favor, me deixe em paz.”

Diz o quadro na parede:

“A água está doce. O problema é do seu paladar, não é da água. A sua percepção está alterada, pois as suas papilas gustativas sofreram mudança. Algo que não precisa de ser comprovado. A água é a mesma se bebida à noite ou ao levantar. Bebida em casa ou em lanchonete, a água não é diferente. Ainda que servida do filtro ou coletada da chuva, a água da cunha das mãos não deixa de ser a água do copo.”

Diz o camarada:

“Só pode ser engano. Por favor, vê se me esquece.”

Diz a infiltração a sete palmos do quadro:

“Ele vê o quadro. Não se levanta para vê-lo melhor. Esse marasmo não consola. Quando ele passa, nem corre o olhar. Não quer especular sobre a sobreposição do que esteja refletido no vidro sobre o que está pintado. Há essas duas peles, a do vidro e a da tela. Mas ele não para, precisa passar sem parar porque tem coisa mais importante pra cuidar, precisa dar conta de tanta coisa. O quadro fica sempre pendurado na parede. Lhe falta um segundo pra parar, pra olhar o quadro, pra escutar os traços. Talvez entendesse o que o desenho sugere. Talvez pudesse compreender o que é dito. Mas, no momento, o quadro na parede não é apenas um quadro na parede e a sala não é somente aquelas quatro paredes. Mas, o momento é de outro cigarro.”

Diz o camarada:

“Esqueça que existo. Por favor, pare.”

Diz a janela:

“Ele não percebe que beber café não barra a mudança. Se pusesse açúcar, isso o faria tomar menos café. Tomando menos café, faria que fumasse menos. Fumando menos e bebendo menos café, pra não virar outro caso da família, isso o faria marcar o cardiologista.”

A cortina da janela escancarada fala:

“Por favor, por favor, por favor.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de abril de 2025.

domingo, 20 de abril de 2025

As janelas

 

As janelas

 

Dizem que os olhos são a janela da alma. Digo que o olhar dá janela ao que o mundo mostra. Escrevo, pois quero dar a ver como a alma do mundo passa por mim. Eu sigo escrevendo à contraluz do que vejo, à contraluz do que não se rebela, à contraluz de mim, pelo embaraço de mal perceber o quanto atrapalho a visão.

Tenho olhos míopes. Preciso de óculos para melhor enxergar a dois palmos de mim. Conto que as lentes especificamente polidas para as distorções dos meus olhos corrijam o que a natureza produz.

Sou produto da genética que a natureza tornou-me possível de ser. Mas, não me reduzo nem me quero reduzido aos frutos naturais que a mim foram delegados quando houve a minha concepção.

Não culpo os meus pais pelos genes que me legaram, afinal o amor não seleciona melhores nem piores momentos, não traça destinos, não conhece o joio pelo trigo e vice-versa.

Semeio-me, produzo-me e concebo-me ser essa pessoa que pensa sobre o que vê, diz o que parece ver, escreve porque custa ver.

Ora, poeta, como filho do carbono e do amoníaco, sou operário das ruínas. Por vezes sou augusto, jamais, porém, angelical. A construção a que me dedico não subirá ao céu, não desabará ao menor sopro nem sepultará quem rompa o fio da meada. Se me julgam monstro por não agir que nem guia num labirinto, Augusto, eu posso pouco.

Quando a cegueira é obra de insânia momentânea, sei arrefecer a paixão que cativa: dou óculos à razão.

À janela, vejo que a rua está molhada. Abro-a, e sinto o frio da tarde, o ventinho é gelado. Para sentir a garoa, estico os braços, espalmo as mãos e, molhados, os meus dedos ficam gelados. Pra não deixar o frio da garoa enregelar-me, eu fecho a janela.

Quando é elegante checar os dentes do cavalo dado?

Não acho absurdo haver menos gente nas ruas, pois, além do frio, é feriado, é outra Sexta-Feira da Paixão garoenta.

Me lembro, foi nos anos 90. Me recordo muito bem. É claro que não me esqueci daquela Sexta-Feira Santa, pois eu bebi, batuquei sambas e dancei com mulheres que sabiam dançar para caramba. Mas, o dono do carro não tirou a frente do som e, sem notar a chave no contato e a janela aberta do motorista, um ladrão estilhaçou o vidro do carona.

Agora estou na USP, é primeiro de abril de 1988, é mais uma Sexta-Feira Santa, é outra manhã garoenta, gelada, com ruas desimpedidas, com um ciclista ou outro pela Cidade Universitária. Ando estudando o teatro de José Joaquim de Campos Leão, é uma época em que estou concentrado nas peças do Qorpo-Santo; a biblioteca da ECA, é óbvio, está fechada. No ponto, uma mulher senta-se ao meu lado. Ela trouxe seu gato para ser examinado, pois ele não está comendo nada, faz três dias que esse bicho esquisito não brinca com a franja da cortina nem mia mesmo chamado pelo nome. Também é Sexta-Feira da Paixão no Hospital Veterinário.

Veja bem, mesmo hoje, tem cortina que convida à janela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de abril de 2025.


quinta-feira, 17 de abril de 2025

História mal contada

 

História mal contada

 

O menino mau que dizia inverdades como se soubesse muito bem que soltava boatos que poderiam conspurcar o lídimo nome da família, mas, por haver maldade, o menino acusava de marcar lataria de carro o eterno bobão, que, em momento e lugar errados, sempre há de tomar pra si o mérito de avacalhações legitimamente degradantes.

Como o cronista não é menino mau que repassa o ônus a quaisquer incautos que, em momento e lugar apropriados, nem percebem o quanto sentimentos podem ser manipulados, esfrego a lâmpada.

Alladin, lustro-a com cuspe até que fique antipático bandear-se para o bando dos quarenta golpistas a saquear a caserna de Sésamo.

Gênio, não se atirem os melhores desejos pelas entrelinhas, porque nunca faltará quem conte e reconte as trinta moedas, beije o ombro de Pedro e, por último mas não de somenos importância, mande um salve à galera que sabe, como ninguém, o quanto viver é cabuloso.

A chave do tolo, meu bom José, é a história sendo remontada: com is subtraídos aos pingos, merluza salgada como bacalhau e convites pra festa quando há a obrigação de sentenciá-la transitada.

Embora o escriba escolha o deboche com uma pitada de fel, Alladin, Gênio e bom José, vocês não fujam da trama em tapete mágico.

Em 1969, meses antes de completar seis anos, ao guri deste causo veio aquele momento em que o banheiro se revelou o lugar certo para suas necessidades; sentado no vaso, ele urinou e defecou.

No ano em que o homem pisou na Lua, como ao garoto deste causo faltou papel depois de excretados os seus excrementos, ele foi pedir à professora que o ajudasse a se limpar.

No ano em que João Saldanha era o técnico da seleção, o canário deste causo achou de cantar com as calças arriadas, assim, provando que uma bunda de fora é impactante, seus colegas riram.

Como agente hilariante, este escrevinhador escolhe enveredar pelo riso, pois chorar faz a pessoa ficar cabisbaixa, além de seduzi-la a ficar deprê, até porque, por desfaçatez, isso é vendido como coisa de gente com neurônios empoderados, um bônus da modernidade.

Uma vez que este escriba detém o direito de usar o poder como lhe apraz, já que ainda acha graça naquele riso de 1969, este provinciano opta pela conveniência de não tomar cré por lé.

Quero crer que o auge de uma festa de aniversário seja o instante de fazer um pedido. Convicto de que o pedido será atendido desde que nenhuma velinha reste acesa, sopra-se de uma vez. Sabendo que falar atrapalha que aconteça, o aniversariante precisa calar-se sobre o que tenha desejado.

Como este narrador não sopra velinhas, resolvo temer o inferno.

E temo que as labaredas do fogo eterno lambam o lombo de gente que nem percebe o calor que suplica que vá arder na carcaça da gente que odeia e quer ver morta.

Todavia, é por arvorar-se armada perante o inimigo que a palavra vomitada volta pela goela.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de abril de 2025.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

A escola da vida

 

A escola da vida

 

Ontem não trabalhei e não ouvi críticas pelo dia sem pegar do lápis para escrevinhar uma linhazinha que fosse.

Apesar de ter ido a médico, feito exame ergométrico, aguardado os relatos sobre a consulta e a atuação na esteira, não gravei o meu nome no coração petrificado pelas agonias do autoconhecimento nem pelejei comigo para eu manter o fôlego da sobriedade.

Embriagou-me o riso, o riso natural em quem tira sarro de tudo.

Mesmo que me censurassem pela vagabundagem em pleno dia útil, passei o dia zombando, comparando, gargalhando.

Tanto zombei, comparei e gargalhei que o caminhão do lixo veio e foi embora sem que os sacos da minha casa tomassem a iniciativa de persuadirem a dar cabo daquele cheirinho.

Dona Cremilda, Luisinho e eu zanzamos pelo vasto mundo que há entre São Roque e Ibiúna, o que bem nos divertiu, contentou e fez rir, e rimos, rimos feito crianças, que fomos crianças sexagenárias, essas que sabem ser, ai ai humildade, encantadoras.

Luisinho lembrou-se do garotinho no colo da avó. Por certo foi num domingo que foi levado à casa da avó, uma casa tão calma.

Sem estardalhaço, em sintonia com olhos azuis tão calmos, a lenha queimava.

E tanto era sereno esse olhar que o arroz, a batata e o frango não tinham sal nem precisaram ser soprados pela quentura.

Luisinho conheceu aquela calma e nunca mais a encontrou. Ele se recorda bem da serenidade, daquele recanto afetuoso no colo da avó, ainda que tenha sido abrigado naquele sossego quando não devia ter mais que três ou quatro anos.

Dona Cremilda também devia ter menos que cinco anos quando se escondeu na escada dos fundos na casa dos pais.

Mesmo com o pai chamando, gritando que aparecesse, soube ficar quieta, soube ser capaz de domar-se, foi habilidosa ao dobrar-se sobre si ― entre um degrau e outro, com testa e joelhos se tocando, era um feto naquele vão, como os olhos do pai não eram ultrassônicos, estava invisível, ninguém podia alcançá-la.

Dona Cremilda riu, uma vez que a sua memória tinha dessas falhas, tinha fissuras por onde a imaginação extraía pepitas e diamantes, pois aquela escada sempre fora fechada.

Depois de décadas, muito embora pudesse reformá-la quando bem quisesse, coisíssima nenhuma que, entre um degrau e outro, houvesse vãos na escada dos fundos da casa dos seus pais.

Feito cão que se esforça e não desiste apesar do esforço, reconheci a mão que atira gravetos em vez de pedras, eu resolvi contar qual era a minha mais remota recordação.

Eu devia ter uns três anos, porque eu não tinha força suficiente para segurar a vara. Os meus avós maternos e a nossa família fomos pescar na represa. Embora fosse num domingo, ou meu pai não viria conosco, a babá que tomava conta de mim ajudou a tirar da água aquele bicho cheio de patas. Abri um berreiro, pois o primeiro peixe que pesquei na vida não era peixe, era caranguejo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2025.