Eu via Desaparecimento na Noruega
achando que fosse a primeira vez, mas a cena em que a repórter, dentro do carro
parado na travessa, observa o vaivém dos funcionários da oficina mecânica bastou
para eu constatar que, além de ter visto a minissérie, a viela era parecida com
um beco sem saída da Ilha Caraguatá.
No começo dos anos 2000, trabalhei em
Cubatão. Morei no Jardim Casqueiro; e, com vista para a Beira-Mar, o
apartamento ficava em um predinho de três andares.
Saía às cinco e não saía para tomar
banho e jantar, saía bater bola, ao lado da quadra de areia, no campinho cujos
gols eram demarcados por chinelos.
Sendo uma sexta não chuvosa, vindo lá da
Ponte Nova, indo lá pra Ilha Caraguatá, passava um senhor com uma sanfona.
Passava tocando; parando só quando lhe
era oferecido um gole de cerveja. Tomado o gole, seguia cantando, tocando, como
se a sanfona não lhe alterasse o centro da gravidade.
Aquela travessia deixou-me curioso: o
sanfoneiro das sextas tocava para viver ou seria pela farra?
Vê-lo, ouvi-lo, acompanhá-lo de latinha
na mão, mas, serei honesto, nunca fui puxado da cadeira, jamais me deu a
comichão de dançar ao som daquele pé de serra.
Não dançava, mas tremelicava. Embora
outros desconfiassem que tomava choquinhos ou fosse possuído por entidade
fanfarrona, sempre desacreditei que meu sacolejo motivasse risinhos, porque
havia graça no meu remelexo emocionado.
Sendo camarada incapaz de gracinhas na
internet para ganhar uma bolada, mostrando-me um vídeo, cuspiu: que diabo dessa
menina usar os oito baixos pra insultar o Gonzagão com a Quinta do Beethoven!
Será que a memória não me trazia um
momento que nunca existiu?
Com a exibição parada, busquei e não
achei o tal vídeo da menina que, no Beethoven, mandava brasa.
A imagem congelada era um close
da investigadora principal, era o rosto da atriz norueguesa Yngvild Støen
Grotmol.
Olhei com atenção. O que fazia esplêndida
essa face?
Sem demora, achei um retrato em branco e
preto, clicado por Erika Hebbert. Observei-o. O que me levava a achá-lo um
adorável exemplo da beleza? Com atenção, observei-o: Yngvild tem olhos
amendoados; a parte superior da cabeça é oblonga e a inferior é triangular.
Observei uma mancha escura sobre uma das maçãs daquela face, era uma área
propositadamente assombreada.
No súbito da intuição, mente brincalhona
assombra.
Escapou-me um riso, uma vez que, numa
camisetinha chumbrega, vi o clássico homenzinho verde fazendo paz e amor com os
dedos.
Escapou outra risadinha; ocorreu-me
recorrer à inteligência artificial para compor a menina da sanfona com o rosto
do homenzinho verde, mas o vídeo resultante trouxe uma anã tocando uma sanfona
de cujos foles não saía som algum, nem mesmo aquela Quinta chiclete.
Cão danado!
Negarei três vezes ter visto o sorriso
da anã a me espiar da tevê.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de maio de 2025.