Eu comia uma maçã quando a vi. Ao lado
da caçamba, exibindo um rabo de cavalo em vez das costumeiras carapinhas
ensebadas, trajava calças e não a bermuda de praxe, havia tanto que a figura
não aparecia de banho tomado. No beco, porém, Taborda continuava descalço.
Convidei, acenando, que viesse até minha
casa, e ele veio.
Nem bem sentou-se, balançando-se,
Taborda começou a assoviar, “sonho meu” para frente, “sonho meu” pra trás, “vai
buscar” para frente, “quem mora longe” pra trás e, olhando para a rua, “sonho
meu”.
Deixei-o nisso, que balançasse,
assoviasse, sonhasse; com sonho bom indo e sonho bom vindo, assim desejoso que
ele calçasse um dos coturnos que fui buscar, eu voltei.
― Seu Rodrigues, o senhor é uma boa
pessoa.
Ele pegou o par usado.
― Justamente, Taborda, a ideia é essa,
que o Seu Rodrigues é uma boa pessoa, pois ele torceu pra que você pegasse o
par usado. E sabe por que ele torceu pra você escolher o coturno mais barato?
― O senhor pensa lá na frente, hein!
― Adivinhou, né? Pois ele se preocupa
com você. O Seu Rodrigues sabe que se tivesse pegado o coturno novo, você faria
mais grana.
― Seu Rodrigues, o senhor me comove com
sua fraternidade, pois eu teria mais grana pra torrar lá com aquelas paradas.
― Taborda, você iria beber, fumar e
cheirar, sabendo que o coturno extra estaria aqui chamando que você voltasse,
viesse apoderar-se do produto novinho em folha.
― E o senhor, Seu Rodrigues, a sua boa
pessoa continuaria aqui, rezando para eu fazer mais dinheiro com este produto
novinho.
― Seu Rodrigues, Taborda, é uma boa
pessoa e toda boa pessoa é gente de confiança, gente que não trai a esperança.
― Sim, Seu Rodrigues, creio que o senhor
não faria o desplante de entregar o coturno à gente cobiçosa.
― Pois assim será, meu chapa, assim será.
Amarrando os cadarços de tal modo que o
pescoço impediria de o coturno acabar perdido numa quebrada qualquer, Taborda
disse:
― Pra não deixar fedido, nem vou calçar.
― Espere, espere. O Seu Rodrigues vai te
arrumar uma sacolinha, assim ninguém terá a cobiça de roubar-lhe o objeto
valioso.
― Obrigado, obrigadinho.
― Pra agilizar a coisa toda, por que
você não vai de bicicleta? Olha ali aquela magrela dando sopa.
― Boa ideia, Seu Rodrigues, vou
pedalando.
― Mas, atenção! Use, faça o que tem que
fazer, mas não venda a bicicleta porque ela não é sua, viu?
― Não sou ladrão, Seu Rodrigues. Só vou
usar para ganhar tempo. Depois, eu retornarei e porei o camelo no lugar.
― Para não complicar seu lado, Taborda, pegue
esta corrente com cadeado pra quando você tornar a prendê-lo à lixeira.
― Lá vou eu, pois não tenho tempo a
perder, e a hora é essa.
Mal o Taborda virou a esquina, Seu
Rodrigues sentou-se na cadeira da varanda e, balançando-se, passou a assobiar:
“mai tutti buone” para trás, “tutti buone” pra frente, “tutti buona” para trás
e “gente” pra frente.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de abril de 2025.