quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O retiro de Momo

 

O retiro de Momo

 

Amigo, faça a gentileza de imaginar a situação: um cachorro latindo sem parar; um guri cabeceando uma bola de baixo pra cima; um bebum grunhindo ao cão que pare de latir à foca em calças curtas.

Amigo, continue cortês, imagine o constrangimento da senhora que vem à janela pra gritar ao garoto que passe pra dentro ― venha jantar, banhar-se antes da janta, ajudar a pôr a mesa e lamber a panela onde foi feita a mistura que, assada, será a sobremesa.

Não há constrangimento, amigo, uma vez que a mãe nem imagina a foca pondo a mesa, lavando atrás da orelha, alegrando-se com bolo de chocolate que ainda não há.

Amigo, ela entende que rua não é circo.

Como aprendiz que aprende sem precisar, observo a bola girando ao subir e girando ao cair, observo o cachorro latindo em sincronia com a batida da testa na bola, alegro-me com o encachaçado a resmungar que aquela pantomima não é nada cômica.

Amigo, o bêbado compreende o circo oferecido pela rua.

Embora me ocorra que aplaudir ou vaiar vão entregar que continuo sem pagar pela diversão, é como plateia que eu dou audiência, amigo, pois sou um símio dissimulado que tudo ouve, vê e fala.

Se não critico nada, estou protegido?

É admirável o ser humano que, perdido das certezas, erra por aí.

Dei com esse sujeito que veio me interpelar, querendo de mim uma explicação para não ter cumprimentado um outro sujeito.

Ao outro sujeito, é abominável haver no mundo quem se apresente como ateu. Àquele camarada, é detestável quem pensa ser defensável uma sociedade democraticamente socialista. Àquele um, o ser humano que não deve respeito e não se amolda às leis da República e do Reino dos Céus é abjeto.

Amigo, não gosto de gente que fala alto, gesticula muito, é sempre exagerada, ou mudo de calçada ou, ao ser surpreendido, digo OK, OK, OK a tudo que a pessoa fale.

Não que isso me deixe feliz, ou levemente contente.

Esse cara, que veio cobrar de mim os bons modos que acredita que não tenho, percebo-o que não está bêbado; ele se acha o rei do drama: para ser autenticamente dramático, basta que haja exagero.

Sem excesso, prefiro o Carnaval que eu posso ter.

Calculei as frutas e os brotinhos que comerei. Separei os livros que lerei. Desliguei a campainha. Fechei as janelas. Corri todas as cortinas. Tirei o fone do gancho. Apanhei meu travesseiro e as cobertas. Levarei tampões de ouvido. Comprei meu ansiolítico, também um sonífero, um tubo de vitamina C, uma cartela de analgésico e, só porque eu sou um camarada bastante acautelado, incluí nas compras aquela caixinha de laxante e uma outrazinha, a de Imosec.

Pronto!

Posso assegurar que, desta quinta às Cinzas, ficarei de boa na casa da árvore.

Como vovô dizia: a farra do carnaval é só uma vez no ano, mas não sou obrigado a dividir a minha alegria com quem trata baba de bêbado como mertiolate, até porque inveja não é amor, não.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O ovo presta

 

O ovo presta

 

Por que não conheço crises de nomofobia? Porque celular pra mim é telefone e mantenho distância de quem não telefona, pois essa gente me dá vontade de rir e rir o tempo todo é coisa de maluco e, até onde posso entender-me com o que sinto, tenho fobia de gente que sequer me percebe rindo, quando estou rindo, pois gente absorta não enxerga o telefone como célula numa rede a não ser desconectada, jamais.

Você, pessoa cuja lucidez lhe diz que agora o melhor é ler a crônica numa tela porque tal leitura é fazer bom uso do celular, você não sabe o que é ter crises de abandono, você não passa pelo sofrimento que a solidão acarreta na alma de quem precisa porque precisa de ter à mão um telefone, mesmo de segunda, que dê acesso à internet.

Estamos conversados!

Se estamos conversados, falemos do que temos para hoje, falemos do preço do ovo?

Para sustentar legítima a indignação com o preço do ovo, é preciso saber quanto ele custa. Para afirmar-se profundamente indignado com a exploração dos miseráveis que não têm dinheiro pra comprar ovo, é preciso considerar os quarenta milhões de brasileiros que sobrevivem com menos de um salário mínimo, que, todos os meses, dão jeito para sobreviver a mais um mês.

Se estamos indignados, somos plateia cativa, ou nossa indignação seria blábláblá, seria conversa mole. Pra que não seja papo furado de bar de esquina, é preciso aplaudir com entusiasmo, tem que pedir mais e mais, sempre mais, até não mais contentar-se em tagarelar sobre os infortúnios do povo brasileiro. Para que o aplauso curtido no post tenha audiência nas ruas, é preciso extrapolar, é preciso discursar com o pé na insurreição, no levante, é desandar em revolução.

Você que ainda está lendo no celular, olhe ao redor.

Quando o revolucionário vem à pele, haja arrepios, calafrios e essa vontade doida de erguer a voz pra chamar a atenção de quem não olha em volta.

Você não pigarreia à toa e não discursa às moscas. Você quer algo que produza mudanças, altere a situação, tome o coreto. Você sabe o que quer, a reviravolta.

Tentado a ponderações menos precipitadas, você vai ao bar, senta e não toma nenhum golinho de cerveja, fica só na água.

Disposto a negar-se tentado a bebericar água como se bebericasse cerveja, mas ovos coloridos ficam melhores com cerveja.

E pede uma, só uma, apenas pra comer um ovo.

O bar está do jeito que gosta: da meia dúzia de mesas, só duas têm gente sentada. Entre sentar-se à mesa e puxar papo com o balconista, ajeita-se na banqueta.

Comido o ovo, você volta à água.

Bebericando água mineral com gás, você teme arrotar. Você luta para impedir que eructações afetem negativamente sua imagem, a que pretende seguir passando, mesmo a quem nem o note louquinho para que o balconista explique por que o valor de uma cartela de ovos está disparado.

No Baixo Augusta, sabemos: ovada não é omelete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2025.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Receitinha singela

 

Receitinha singela

 

Dois homens conversam na calçada; como eu não sou bisbilhoteiro, ajoelho-me para arrancar matinhos.

O muro tanto os veda que me vejam como a mim que os veja, sem, contudo, impedir-me a diversão com os absurdos do papo.

O primeiro homem diz que ontem bateu bola com os amigos ainda que, na véspera, a sua mulher tenha implorado que não fosse, pedindo que levasse os cães ao banho e tosa, suplicando que comesse feijoada com a família, esperando que este sábado fosse imprevisível.

Ele foi, não por ser turrão, é que outro bate-boca com a esposa não o demoveria de ir, pois, na pelada, pode soltar os bichos, xingar, gritar os palavrões que tanto o ajudam a livrar-se de frustrações, decepções e contrariedades, porque, de segunda a sexta, não ousa levantar a voz nem mesmo a quem ordena que execute coisas imbecis.

O segundo homem ri, diz que obedecer a quem manda fazer coisas imbecis não pressupõe que o cidadão obediente seja mais um imbecil, também não é demonstração de apego ao salário, é prevenção, porque fica difícil conseguir trabalho depois dos cinquenta, conforme dizem os amigos cinquentões que nem vão procurar emprego porque acreditam no que ouvem, fiam-se nas afirmações de quem tem trinta anos, uma vez que sábios de trinta anos sabem o que faz o mundo rodar.

Ambos dizem que o dinheiro move o mundo, concordam que burras cheias se mantêm cheias porque o fluxo é sinal de vitalidade; prudente é quem não deixa que o nível baixe um dedinho sequer, pois a riqueza é uma piscina, então, sendo piscina, ela tem que ficar cheia o ano todo, mesmo no inverno, pois nunca se sabe quando vem a vontade de dar um mergulho, pois o desejo de boiar surge a qualquer instante.

Súbito, faz-se silêncio; mesmo com o intervalo, não paro, arranco o que aparenta ser erva daninha, quero mesmo arrancá-la.

O primeiro a falar outra vez é o homem que anteriormente tinha sido o segundo a falar; ele diz que rico não tem tempo para nadar, então, o aquecimento da água é fundamental, pra quando resolver nadar ainda que faça um frio danado, até mesmo no finalzinho do inverno, uma vez que a vontade de nadar não precisa ser justificada porque a saúde tem que ser valorizada, é somente pela secretária ter aceitado o convite de nadar sem asa-delta ou fio-dental.

O segundo a falar novamente é aquele homem que anteriormente foi o primeiro a falar; ele diz que rico não para pra comer, sem ter tempo para perder, tem almoço de negócios, porque dinheiro atrai dinheiro ou folha de alface em restaurante por quilo teria custo dobrado e o mundo prestigia quem não desperdiça dinheiro com besteira, afinal, dizer que só prato colorido é saudável é coisa de quem prioriza a estética.

Pra que a razão e o entendimento não fujam à realidade do instante: eles falaram o que eu ouvi, mas a boa crônica escutaria aquilo que não foi dito nem foi ouvido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Meu oásis particular

 

Meu oásis particular

 

A mulher que atendeu disse que o funcionário levaria dez minutos para chegar, mas faz uma hora que liguei.

Torno a ligar, a mesma mulher pede desculpa, diz que o funcionário teve que ir atender a uma emergência, mas em vinte minutos chegará ao meu endereço.

Antes que digam que a cidade está um caos por causa dos quarenta graus, resolverei o problema em quinze minutos.

Na primeira loja, acabou. Na segunda, a vendedora avisa que está para chegar. Na terceira, só tem modelos de teto. Depois de quarenta minutos batendo perna, encontro o modelo que me satisfaz pelo preço e por poder levá-lo debaixo do braço.

Se o ar-condicionado precisa de conserto, nada tenho que reclamar do ventilador, cujo consumo de energia será bem menor, mesmo ligado por vinte e quatro horas.

Sim, senhora, o aparelho ficará ligado o dia todo, pois sou humano, sou um bicho que não para de funcionar mesmo dormindo, mesmo que o sol vá torrar as pessoas do outro lado do planeta, mesmo que a água ainda ferva a cem graus Celsius, mesmo que o corpo siga no propósito de estabilizar-se entre 35,5 e 37,5 graus, sim, senhor, o ventilador tem que ficar ligado ou vou surtar por falarem besteiras.

Dane-se, aquecimento global! Que se dane a conta da luz! Dane-se quem acha que ventilador tem que ficar ligado apenas o necessário. Dane-se quem não pensa que ventilador bom é aquele que só queima por uso abusivo. Dane-se essa gente que se recusa a regular o ar que respira. Dane-se quem acha que o novo normal é a rotina insuportável dos quarenta graus.

Quarenta graus na sombra?

Quarenta graus com o ventilador ligado, pô!

O que a mim me cabe fazer, faço. Uso a internet pra trabalhar. Urino no box enquanto tomo banho em cinco minutos. Instalei placas solares no telhado. Pintei a casa inteira de branco. Capto a água da chuva em bombona de 200 litros. Vou a pé a farmácias e supermercados. Acendo lâmpada quando não tem outro jeito; até para ler, uso luz natural. Tomo banho frio, no escuro. Não tenho micro-ondas nem fogão a lenha. Vivo maltrapilho e não jogo fora o que pode ser usado como pano de chão. Pra economizar de verdade? Não fico doente porque não me descuido: chupo laranja, tomo limonada, como jiló e mocotó, não frito batata, não gosto de hamburguer nem de sundae, tomo água filtrada, não mordisco tampa de caneta nem chupo o dedão.

Se ainda assim me enviam link pra minha contribuição espontânea, clico e torço pra que não seja golpe, pois espero que o pix que enviarei tenha bom uso, que o dinheiro não vire asfalto nem vire munição contra minha genética, pois, caraca!, eu sou do bem.

Sim, amigão, tenha dó, pois estou cônscio que labuto para o mundo melhorar, que eu, gota a gota, suo à beça para que a Terra siga sendo humanamente habitável.

Como o corpo funciona bem entre trinta e cinco e trinta e sete graus, acima disso, em pane, viro urso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O que for preciso

 

O que for preciso

 

Quero um gole de café, não quero água ou guaraná. Quero um jogo na tevê, não quero noticiário ou fofocas. Quero um banho gostoso de tomar, não quero ducha que mais aprofunde minha neurastenia.

Presumo: pra calvo topetudo, pente banguela é escova.

Passa um bando de quero-queros, e daí? Passo à varanda onde a cadeira balança, e daí? Possa acalmar-me o vaivém na rua, então?

Então nada ou muito pouco; perturbador é ser quase nada.

Perturba-me o guarda da esquina que está preso ao celular. Aflige-me o guincho que enrola para levar embora a ambulância quebrada à porta da casa de onde alguém acabou sendo levado num táxi. Sinto falta da alegria de papear no portão com gente que fala da vida alheia como se falasse de si na terceira pessoa.

Quero ser os nove fora quando a conta não fechar, não quero o cem porcento de uma nota fria, pois já tem desvio demais pra que se chegue a alguns finalmentes. Quero rir quando o sol se pôr, não quero o sufoco que tira o sono. Posso sonhar noutra noite tranquila, sem que os ruídos da geladeira sugiram haver monstros prontos pra me trucidar.

Só aí é que pego a visão: falar da vida alheia é fácil, difícil é aceitar que outros falem de mim porque me conheçam por outras faces.

Nada de noves fora ou cem porcento? Bola fora é ficar na banheira por estar em impedimento.

O que me proíbe de tomar café, estourar pipoca e vibrar com o jogo do mais novíssimo tenista que se revela potencialmente a mais recente estrela brasileira?

Não tenho dezoito anos.

Não tenho a inocência que julgava ter aos dezoito anos.

Não me quero barrado por não querer ter aqueles dezoito anos que a nostalgia supõe esplêndidos em berço dourado.

Para ser honesto, não sou pessoa disposta a fazer de tudo por um minuto de paz. Pra ser menos cínico que eu possa, acho que a paz ou é ilusória ou é compensatória, e crime algum há de compensar a ilusão de melhorar a cada dia.

É preciso treinar no banheiro?

Apesar de suspirar por ilusões, suspiro melhor depois de uma noite de sono sem monstros na cama. Apesar de acordar sozinho, concordo que o mundo ficaria bem melhor se os monstros vivessem longe daqui. Apesar de lustrar a lâmpada, Aladim não me dá o boa-noite que anseio. Apesar do espelho, Alice não entra comigo na banheira. Apesar de que suspiro, a maior parte do tempo nem me lastimo do que faço.

Para ser mais honesto ainda, não sou gente que encrenca quando o que faço nem recebe a atenção que poderia ter recebido se houvesse quem topasse encrencar comigo quando afirmo que não encrenco por qualquer troço que eu faço.

Pelo gênio de Aladim, Alice, pulo o espelho?

Não me orgulho de fazer o que for preciso para merecer a atenção, faço o que posso porque sei fazer, porque desconfio que posso fazer, porque faço ainda que ache que posso fazer melhor se não ficar rindo quando acerto o ponto, entro no jogo, ganho em causa própria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2025.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Coisa de criança

 

Coisa de criança

 

Costumo vagabundear aos sábados. Não procuro me desculpar por largar a rede e sair por aí como se estivesse a balançar o meu corpo ao sabor dos passos. Provocando esse deslocamento de ar bastante leve para que a minha passagem nem seja percebida pelos cães, vou pelas ruas como se continuasse embalado pela preguiça na rede da varanda. Uma vez que confio estar credenciado a ser o melhor vagabundo que o sábado conta que lhe esteja ao sabor dos imprevistos, desconfio que sábado bom é aquele que a folhinha ignora de qual ano, qual mês, por qual razão a minha vagabundagem tem que ser memorável.

Crendo-me merecedor do crédito de não vulgarizar o sábado, vejo-me indo ao supermercado, indo vaporoso, indo simpático a nefelibatas que voejam acima das fezes, indo isento de patrulhamento ideológico, indo feito criança cuja crueldade está em ser sincera o tempo todo, pois o dever de criança autêntica é agir como boa gente, excelentíssima no quesito patriotismo.

Patriota não paga banana pelo preço de bananada.

É sábado, outro sábado qualquer, mais um que me dispensa de lhe instituir tranquilíssimo, boníssimo, outro momento que me dispense de senti-lo sabadíssimo, pelo modo como me embala esplendorosamente soalheiro, um instante assaz luciferino.

O calor está no ar, no cuspe, no mijo, no suor, no pescoço, na nuca, nas partes íntimas, é calor que deixa a gente zonza, grogue, lânguida, deixa a gente mole, mole, tão idiota.

Na moleza de seguir imbecil, vou indo como se viver seja continuar indo na contracorrente, vou indo como gente que não se sente teimosa, displicente, sem querer assistir à malemolência de ir adiante ainda que pense que o melhor é parar no bar, beber um copo de água e, pelo sol na moringa, sacar que ir pra casa é o óbvio a ser feito.

Um garotinho estica os braços na direção do meu rosto, a pedir-me que as suas mãos possam tocá-lo, a indicar que os seus dedos podem estudar-me as bochechas, apertando-as uma e uma segunda vez, até que lhe seja natural me asseverar:

― O senhor não é um fantasma. O senhor é tão fofucho.

Fofucho!

― Sim, eu sei que tipo de fantasma eu quero ser, mas não espalhe que tenho as carnes modeladas pelos quarenta ovos que eu como todo dia.

Quarenta ovos todo dia! Este é o segredo que pago para mascarar o franzino que ainda cochila sob os músculos do meu corpo.

A mãe do menino intervém:

― Deixa o moço em paz, Naná.

Sem segundas intenções, replico:

― Moça, o seu filho não está me incomodando.

Tranquila e logicamente, o garotinho diz:

― Mamã, o moço está em paz porque ele é o fantasma fofucho do frango magricela que ele é.

O pequerrucho pisca para a mãe; a moça sorri para mim.

Pra que a moça experimente o meu rosto, eu novamente me inclino, a pedir-lhe que, se a sua criança testou minha fofurice, sinta-a também, pois escandaloso é não beijar minhas maçãzinhas coradas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2025.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O ar da manhã - final

 

O ar da manhã ― final

 

O rapaz que sai do circo não olha para trás, pois a mulher que pedia que parasse nem era a mulher da corda bamba, esta faz parceria com o atirador de facas em outro número, com risco bem maior.

Em ação, apesar do perigo, ela sorri. Não apenas pela possibilidade de um erro, talvez porque as facas atiradas, ao final, deixam definida a sua silhueta na roda que gira, que lentamente vai girando, até que ela desça para os aplausos.

Ele não olhou para trás nem quis virar-se, tinha certeza de que eram verdes os olhos da moça do ato em que o atirador dá o espetáculo de atirá-las de olhos vendados.

O atirador não é nenhum Tonho para ficar latindo aos vira-latas que o sigam, latindo para ele até que uive ou lata. O artista das facas não é nenhum Tonho para uivar ou latir por influência da lua.

Se o atirador não é nenhum Tonho que late feito vira-lata, a mulher sorrindo assombra, pois ela fica amarrada de olhos vendados na roda que gira de acordo com o rufar de um tarol.

Tem esse palhaço de olhar triste que toca num ritmo marcial de olho na velocidade da roda, rufando o tarol sem nada a ver com sentenciado a fuzilamento num paredão, pois o palhaço rufa dando a entender que o ritmo controla as mãos ao atirador.

Aquela tristeza não é bem tristeza de palhaço, está mais para olhar entediado, porque seus olhos têm essa indiferença, têm esta tristeza serena que muitos sabem identificá-la como melancolia.

O rapaz que saiu do circo certo de ter passado pelo papel de ridículo não precisa voltar-se para saber que a mulher do atirador de facas não é nenhuma Tonha para ficar indo atrás de qualquer Tonho que a queira feito musa precisando que uivem para ela.

Ainda que fossem Tonho e Tonha, há esse amor a ligá-los.

Sem olhar pra artista que resta atrás, o beijoqueiro a sonhar com o beijo na corda bamba sabe que o amor desafia o dono do circo.

Ninguém disse que o palhaço é o dono do circo, mas o sujeito sob a máscara precisa do público, precisa mesmo das risadas, ou não dará os cachês do atirador e da mulher que desce, sorridente, da roda.

É dia, o rapaz não precisa sorrir nem uivar enquanto faz o que tem para fazer; sobre bater-se nas tarefas para fazer, ele nem titubeia.

Tem que apanhar laranja antes do almoço, dar lavagem aos leitões a serem assados no fim do ano e beijar no portão caso não chova.

Lá longe, naquele naco de horizonte, as montanhas deixam ver que, para logo, vem chuva.

Quem aparece no meio do caminho é a moça que quer beijá-la bem diante do espanto de toda gente, lá no fio do circo.

A moça e o rapaz sentam-se na beira do rio, enfiam os pés na água, murmuram, ronronam, beijam-se, até começa a chover.

Achando ter ficado de uma a duas horas namorando sua amada, o rapaz, debaixo de chuva, apanha as laranjas para dá-las às doceiras; elas, pelo ar de quem esteve aos beijos na beira do rio, aplaudem-no pela meia horinha de atraso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O ar da manhã ― continuação

 

O ar da manhã ― continuação

 

Epaminondas respira, mas ele precisa respirar não somente pra se manter vivo, quer vir a ser o primeiro beijoqueiro na corda bamba.

Poderá ser o primeiro beijoqueiro a conseguir. Já suando, o coração acelerado diz que terá de enfrentar-se. Apesar do medo, subirá degrau a degrau, até o topo.

Os malabares caídos são um sinal. Ao pé da escadinha, não estão ali por acaso, tem algo acontecendo. Sente que os malabares são para testá-lo, fazê-lo suar, disparar o seu coração, colocá-lo na posição que só ele poderia antecipar.

Joga um malabar, pega-o. Outro é atirado pro alto, pega-o também. Joga os dois, um de cada vez, não os deixa cair. Abaixa-se, sem deixar nenhum deles dois cair, joga pro alto um terceiro. Não deixará nenhum dos malabares cair, e falha.

Sua. Tem a boca seca.

Sobe um. Pisa no próximo degrau. Não os conta, apenas sobe. Vai conseguir, está certo de que conseguirá. Não vacila, sobe um de cada vez, vai à plataforma.

A corda bamba não é corda, é um fio de arame.

Epaminondas encara-se. Medo é acovardar-se. O próximo passo é apoiar o pé no fio. Logo, o outro pé precisa ter firmeza, não confia que possa conseguir. Não testa o outro pé, quer apoiá-lo mas não faz nada. Precisa equilibrar-se, manter-se ereto.

Lá embaixo estão uma vara, uma sombrinha e o monociclo.

Epaminondas desce. Pega a vara e volta a subir.

A artista do circo impede-o de tentar a travessia, grita-lhe que desça antes que se esborrache, porque é uma estupidez querer andar no fio sem a rede de proteção, nem ela, que vive no picadeiro desde que veio ao mundo, nem ela encara o fio sem ter a rede armada.

Epaminondas ainda sua, ainda tem o coração disparado, ainda tem a garganta seca, tanto que balbucia, querendo desculpar-se, temendo que o expulsem sem que possa justificar-se, dizer o quanto ama.

Aquilo é por amor, aquilo é o seu modo de mostrar pra todo mundo que o seu amor é para valer, é a única fonte verdadeira que o faz viver para que o próximo passo prove ser incomparável, que a ousadia seja contada a dez, vinte, dali a trinta anos.

Epaminondas sabe muito bem o que sente. O que ele está sentindo é amor. Ele ama, não está apaixonado. Paixão é loucura efêmera, mas o amor que está sentindo precisa mostrar para todo mundo que a vida é para ser vivida de tal modo que ontem não seja confundido com hoje que não seja confundido com amanhã, uma vez que o amor cancela o tempo, o amor detona o instante, o amor faz o momento ser um, o que se vive não faz o vir a ser acabar.

Epaminondas subiu, perdão, queria preparar-se pro beijo, queria a coragem de beijar com todo mundo focado no beijo, queria ser olhado pela gente toda, perdão, pedia essa admiração.

Sentindo-se ridículo, percebendo-se ridículo, Epaminondas cai em si: como pôde acreditar que conseguiria vencer sem nem mesmo saber como se livrar da vara quando despencasse?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2025.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

O ar da manhã

 

O ar da manhã

 

Era uma cidade protegida pelas montanhas, pródiga em córregos e dada à serenidade que faria inveja a quem açodado por afoitezas, pena que afoitos a desconheçam tão pacata, mas toda gente, toda ela, a que tinha a sua vida vivida ali por escolha, ela era muito grata pelos tantos contentamentos.

E esta gente retribuía, gostava que a vida dali seguisse produzindo contentamentos para tão fundo sossego, porque o mundo de lá de fora podia seguir violentamente repleto de problemas, menos esse recanto, que ele seguisse paradisíaco, continuasse sendo um cantinho voltado pro futuro, pois o amanhã é o porvir que tem de vir, mesmo que àqueles cidadãos nem ocorresse a ideia de que o lugar tinha o privilégio de nem ser um ponto sequer mencionado nos mapas que a geografia pede que sejam estudados.

Nesta cidadezinha de estudantes que não precisavam decorar qual o número de habitantes nas encostas, quanto peixe é tirado das águas, quem fia as linhas para redes, tapetes, colchas e vestimentas, que isso era conhecimento irrelevante pro bem-estar, pouco havendo com o que costumam os forasteiros chamar por identidade.

Felizes consigo mesmos, há namorados que se beijam sem saber que podem beijar até na igreja, dentre tais namoradinhos, era uma vez um rapaz que mais e mais amava a namorada que o ouvia, mesmo ele repetindo que ele queria porque queria beijar no circo.

Sonho é coisa boa, vem à pessoa que mantém os olhos abertos, vê que a conhecem, sabem o que faz para viver, como ajuda as pessoas, que ela gosta de dançar, seja valsa, seja chachachá, ainda que rumba precisasse aprender, mas a prioridade era subir na corda bamba.

Crescido ali, ele tinha a tristeza de não ter aprendido que esperança inventa a vereda que haveria de ser conhecida pelo chão trilhado.

Tal sonhador beijoqueiro de portão poderia lamentar-se de ter feito a travessia sem notar de tê-la feito, vivendo a recordação do que está vindo como o porvir que a manhã sempre traz a quem aguarda.

Na tranquilidade de viver o dia, ele espera sem gabar-se que espera a corda bamba. E ele faz-se novo para novidade que espera, tornar-se artista de circo quando a lona for erguida.

O sonhador esperançoso leva os cestos de figos pras doceiras que vão fabricar compotas; à tarde, ele estripa os porcos, que os nubentes hão de fartar-se na festança do casório; mas à noite, cativo do amanhã prometido, o rapaz é devotado ao sonho esperançoso.

Para sonhar acordado, já o circo instalado, porque promessa não é bravata e ainda não existe controle remoto para afrouxar gravata, mas riacho, suor e copo d’água matam a charada: o sonhador dos beijos no portão tem futuro se agir que nem animal equilibrista.

Equilibre-se agora: inspire o ar da manhã ao meio-dia, às cinco da tarde e às oito da noite; transpire pelo futuro; venha a ser quem respira a manhã do amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Ridículo descarado

 

Ridículo descarado

 

César Augusto, no picadeiro que é seu coração, por ele, hoje, vaza esse sangue quentinho, gerando esse pulso aos chiliques, dando ritmo aos engulhos, mas não se deixe chafurdar no charco da sua memória, porque, meu chapa, sua biografia não tem que ser empastelada pelas distorções fabricadas por gente descarada, essa gentalha ridícula, que tanto trabalha para classificá-lo como apóstata.

Você nunca desonrou a tradição.

Quando chegou aos quinze anos, o senhor rebelou-se, recusou-se a debutar em casaca, cartola, luvas e polainas que nem o Fred Astaire, bateu-se pela mimosa da Betty Boop que sua avó costurou em surdina, modelo que o fez abalar inolvidável aquele baile.

César Augusto, siga honrado mais esta vez, não atire a caipirosca na cara do maninho, porque começar outra briga com Marco Aurélio é tudo o que o seu irmão quer.

Ele pensa que fazer piada vale o tempo todo.

Foi-se o tempo, babaca. Agora são dias de respeitar as pessoas. O vento virou. O que atraía, já não mais, causa repulsa. Se o tempo é de ouvir quem não podia falar, também é tempo de falar na hora certa. Se é tempo para celular no bolso, é tempo para desligá-lo no cafezinho. É tempo para os filhos estudarem na sala de aula, bem como é certo não correr de telefone na mão.

Do que mais se lembra?

César Augusto, recreio era intervalo pra se esquecer da taboada do sete e da conjugação do verbo ser.

Você era outra criança correndo, gritando, fugindo da polícia porque era ladrão. Vocês, alunos do grupo, brincavam sem medo de quebrar a perna. No pique ou pulando mula, vocês eram alunos que paravam para cantar pelo Brasil Grande.

Você era o futuro, César Augusto.

Você cresceu, casou, descasou, os seus filhos já não brincam mais o carnaval como Betty Boop ou Fred Astaire.

Você não tem que pôr mais carvão para queimar a picanha do seu irmão, opte por caprichar na caipirosca.

Conte piada que não seja ofensiva a quem mantém celular no bolso enquanto toma uma caipirosca e acha a picanha uma delícia.

Você sabe, você sente, este é o tempo de encher a boca com o que há de melhor, bem como são dias para mastigar sem cuspir na cara de gente que mastiga de boca aberta, não larga o celular e adora insultar, sempre cuspindo.

Seja firme, César Augusto, honre os seus perdigotos, tão somente esporádicos, coisa de gente prudente, gente que é bem capaz de errar a mão no açúcar da caipirosca, no fogo da churrasqueira, no tabefe na fuça do camarada que não controla a matraca.

Você é brasileiro, César Augusto, lembre-se que é brasileiro gentil, daquela vertente que só paga mico sendo pato. Você é gente que sabe com quantas patacas é feita uma patacoada, né?

Quando o álcool na cachola incendiar miolos, não seja outro ridículo descarado, é tempo de voltar para casa. Vai, César Augusto, tá na hora de mandar às favas quem sequer saiba o que são favas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2025.