Amigo, faça a gentileza de imaginar a
situação: um cachorro latindo sem parar; um guri cabeceando uma bola de baixo
pra cima; um bebum grunhindo ao cão que pare de latir à foca em calças curtas.
Amigo, continue cortês, imagine o
constrangimento da senhora que vem à janela pra gritar ao garoto que passe pra
dentro ― venha jantar, banhar-se antes da janta, ajudar a pôr a mesa e lamber a
panela onde foi feita a mistura que, assada, será a sobremesa.
Não há constrangimento, amigo, uma vez
que a mãe nem imagina a foca pondo a mesa, lavando atrás da orelha,
alegrando-se com bolo de chocolate que ainda não há.
Amigo, ela entende que rua não é circo.
Como aprendiz que aprende sem precisar,
observo a bola girando ao subir e girando ao cair, observo o cachorro latindo
em sincronia com a batida da testa na bola, alegro-me com o encachaçado a
resmungar que aquela pantomima não é nada cômica.
Amigo, o bêbado compreende o circo oferecido
pela rua.
Embora me ocorra que aplaudir ou vaiar
vão entregar que continuo sem pagar pela diversão, é como plateia que eu dou
audiência, amigo, pois sou um símio dissimulado que tudo ouve, vê e fala.
Se não critico nada, estou protegido?
É admirável o ser humano que, perdido das certezas, erra por aí.
Dei com esse sujeito que veio me
interpelar, querendo de mim uma explicação para não ter cumprimentado um outro
sujeito.
Ao outro sujeito, é abominável haver no
mundo quem se apresente como ateu. Àquele camarada, é detestável quem pensa ser
defensável uma sociedade democraticamente socialista. Àquele um, o ser humano
que não deve respeito e não se amolda às leis da República e do Reino dos Céus é
abjeto.
Amigo, não gosto de gente que fala alto,
gesticula muito, é sempre exagerada, ou mudo de calçada ou, ao ser
surpreendido, digo OK, OK, OK a tudo que a pessoa fale.
Não que isso me deixe feliz, ou
levemente contente.
Esse cara, que veio cobrar de mim os
bons modos que acredita que não tenho, percebo-o que não está bêbado; ele se
acha o rei do drama: para ser autenticamente dramático, basta que haja exagero.
Sem excesso, prefiro o Carnaval que eu
posso ter.
Calculei as frutas e os brotinhos que
comerei. Separei os livros que lerei. Desliguei a campainha. Fechei as janelas.
Corri todas as cortinas. Tirei o fone do gancho. Apanhei meu travesseiro e as
cobertas. Levarei tampões de ouvido. Comprei meu ansiolítico, também um
sonífero, um tubo de vitamina C, uma cartela de analgésico e, só porque eu sou
um camarada bastante acautelado, incluí nas compras aquela caixinha de laxante
e uma outrazinha, a de Imosec.
Pronto!
Posso assegurar que, desta quinta às
Cinzas, ficarei de boa na casa da árvore.
Como vovô dizia: a farra do carnaval é
só uma vez no ano, mas não sou obrigado a dividir a minha alegria com quem
trata baba de bêbado como mertiolate, até porque inveja não é amor, não.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2025.