A sensação que me incomodou ontem torna
a incomodar-me agora, e, assim como o fiz ontem, abro bruscamente a porta da
frente, porque me dá força a convicção de que tem gente escutando.
Tanto não há ninguém quanto não houve ―
é vão o assalto.
Queria que tivesse, uma vez que isso
facilitaria: a pessoa é amiga ou sequer é conhecida da vizinhança?
Sendo amiga, entre tomar um refresco; tão
somente alcoviteira, vá cuidar das próprias misérias.
Ontem quanto agora, apelo a golinhos de
laranjada. E cada gole me fortalece que não enlouqueci. Ainda que nem tenha
sentido, não pirei. Embora tomar uma jarra de dois litros de laranjada por dia,
já passa de uma quinzena, possa ser definida como sintoma.
Estou ficando paranoico, ou o quê?
Na semana passada, tanto na quinta
quanto na quarta, o fato de ter acordado no meio da noite com a certeza de ter
ouvido barulho dentro de casa, esses dois eventos não são sinal de
arrombamento.
Como não tenho nenhum seguro, nem da
minha vida, fui à cozinha e fui à sala ― as duas portas estavam trancadas.
Mais ou menos há um mês, noutra
madrugada de calor, eu tive um sonho. Por duas noites seguidas, num sábado e
num domingo, o sonho se repetiu. O mesmo sonho uniu dois mundos, o da laranjada
gelada e o do café coado na hora.
Sonhei que tomava um gole de café. Sim,
tomava. E o bebia quente, com açúcar. Deliciava-me bebê-lo passado na hora, algo
bem diferente de beber laranjada, com laranjas espremidas sabe-se lá quando.
Porque esse gole de café era o último do
copo; e tendo bebido esse gole único, restava o último dedo. Bebia, mas o dedo ficava
na mesma. Tinha fé, e tornava a beber o gole que permanecia intocado.
Para amanhecer ontem, segunda, sonhei
que tomava laranjada, e tive tempo, eu fui urinar no banheiro. Pra amanhecer
hoje, todavia, não tive, pois o golinho de café foi o bastante para preocupações.
Salivo e cuspo, que isso de molhar o
pijama me faz engasgar, pelo tanto que enjoo.
Na sexta-feira, acordei com esse gosto
de café, aquele que só havia sonhado que bebia. No entanto, cuspi. Uma vez que acordei
certo de que engasgara, preferi cuspi-lo, e ainda cuspo. Quero a certeza de que
a laranjada não se transformou em café, ou restaria a sensação de que a cabeça quer-me
desconfiado.
Não intuo, pois atino que suo.
É terça-feira, ontem desmontei a árvore,
guardei guirlanda, bolas e a manjedoura de vime forrada com palha de milho.
É terça, me esforcei para não brincar a
folia, mas a cantoria veio de longe, vinda de lá, de onde a criança que fui
ainda brinca comigo, pois continuo respeitoso.
É terça-feira, e eu medirei, serrarei e
pregarei as tábuas.
Amanhã e depois, lá do galho, de lá
verei o quintal, a rua que corre na frente e o riozinho que flui ao fundo.
E brindarei, pois começo a sacar que
café e laranjada se mesclam, tal qual alegria e histrionismo, feito rã e seus
mergulhos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2025.