Até
parece
A sumida andava pelo corredor como se as
vitrines não piscassem quando olhadas com tanto carinho. Só que as vitrines
olham dentro da gente, fazem a gente suspirar, fazem com que a gente queira virar
os homens vestidos e as mulheres montadas que olham a gente de dentro das
vitrines.
A sumida, dona Paloma, zanzava pelo
corredor porque sabia que a gente sempre acaba piscando de volta aos homens e às
mulheres das vitrines porque a gente também vive para agradar quem passa, porque
o reflexo percebia mais do que a gente via.
Mas a gente sabia o que se passava, a
gente desejava mais.
A sumida estava na passarela, e a gente
queria o mesmo. A exibida pensava que era diferente, a gente achava o mesmo.
Mas a diferença é que ela suspirava pelas roupas porque tinha dinheiro na
bolsa.
As vitrines olhavam a bolsa da exibida.
Reconheciam, a bolsa tinha fama. E todo mundo sabia que era famosa pelo preço. E
a famosíssima podia zanzar porque dava na vista o quanto custava.
Os homens e as mulheres das vitrines que
estralassem os ossinhos do pescoço, mas continuassem de olho na sumida exibida
que tinha o brilho da famosíssima. Pois a bolsa e os olhares sobre a bolsa
tinham muito mais importância que a menina.
Lá na frente, a menina dava o dinheiro para
pagar a casquinha.
A menina tinha idade para saber que o
certo era pagar e receber o troco, pois a moça que vendia sorvete sabia o
dinheiro certo que tinha que dar de volta.
Lá na frente, a menina sabia que tudo
bem, que ia pagar por outro sorvete e depois outro, até que não restasse troco
algum. Ela aprendeu que dinheiro serve pra pagar o que a gente quer. Ela não
queria passar vontade, pois não seria mesquinha só pro dinheiro não acabar.
A sumida que não via a menina lá na
frente não ligava que estivesse pagando pela casquinha. Não era fingimento, porque
a pessoa quando fala no celular não enxerga quem passa ao seu lado.
Embora a menina tivesse passado ao seu
lado para ir lá na frente chupar sorvete, ela nunca fez o tipo de gente que usa
o telefone para não ver quem passa ao seu lado. Se ela fosse esse tipo de
gente, nem teria reparado nos homens montados e nas mulheres vestidas.
Ela reparou. Tanto reparou que ela tirou
um chiclete da bolsa. Tudo bem, chiclete podia, cigarro é que não podia por
causa daquelas placas que estavam nos corredores, até no banheiro.
A gente que toma refri faz xixi. Até
gente exibida faz xixi depois que bebe água. E o xixi sai quentinho mesmo com o
refri geladinho.
Ela reparou que a sumida tinha tomado refri
fazendo cara de gente que bebia cerveja.
Quem faz esse tipo de coisa é gente boba.
É gente que pensa que menina que toma sorvete não entende que cerveja e casquinha
não se misturam. É claro que a mistura dá um nó na barriga, faz a gente correr
sem olhar pra trás.
Se faria mal de novo?
Palomita, a gente sempre tem piriri depois
que toma três sorvetes de uma vez.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de setembro de 2023.