Conheço quem se esconda ao falar de si.
Atribuindo a outra pessoa, conta o que faz. Sem modéstia, elogia. Com orgulho,
engrandece. Por valorizar mágoas, inveja. Ainda que pareça candura, acredito
piamente na boa-fé dessa gente alheia a vaidades.
Pouco ligo que tal sinceridade seja
fajuta, pois minha crença não é hipócrita. Maiúsculo é honrar o sigilo, não o
segredo.
Não julgo quem me escolhe pra
confidenciar o que sua consciência urge dar disseminação, embora envergonhada.
Muita gente é panela de pressão a ponto
de secar.
Mas, se confiam em mim, contem comigo. Ainda
que me descartem feito água, manterei o fogo baixo.
Também não me vejo na condição de areia,
porque ampulhetas não domesticam o tempo. Oxe! Minha discrição pode ser tanta,
que ventos sopram e chuvas caem e rios transbordam e o raio do meu recato não
justifica que me acusem de omisso ou cúmplice.
Na vilania carimbada à minha pessoa, não
entra a esperteza.
Foi assim que, esquecido do passado
porque tenho apreensões pra hoje, vi-me frente a frente de quem me conhece bem melhor
do que eu mesmo, gente que sabe realmente quem sou.
E quem eu acho que não sou?
Nas linhas tortas do tempo, não sou
careta. Ainda que na juventude não tenha bebido como um Fred Astaire de Campari
na mão, eu rodava pelo salão paroquial porque, uma vez por semana, os meus onze
anos receberam o direito de bailar sem perder a pose de uma dose.
Foi num bailinho daqueles que eu beijei
pra valer, não outro selinho. Fedendo a Continental sem filtro que tinha
ganhado com espingardinha de rolha no parque de diversões que viera à cidade
por causa da Festa de São Sebastião, foi meu primeiro beijo de língua.
Como não tenho memória boa, tal
recordação foi trazida a mim por uma senhora de cabelo acaju, cujo nome no
crachá não me facilitou a identificação de quem era.
E ela precisou falar de uma Feira de
Ciências, na qual uma cobrinha escapou do terrário que o nosso grupo tinha
montado. Nós estávamos no maior amasso na biblioteca da escola quando deu-se a
barafunda. E o tal incidente ocorreu no dia 08 de setembro de 1979;
inesquecível, porque, nessa data, ela fazia quinze anos.
A primavera chegara antes, pelos beijos
da Julia Lindeza.
Nunca lhe disse o apelido, porque o seu nome
era outro, e o crachá confirmava; seu encanto não era propriamente do
balacobaco, mas o borogodó tentador era o mesmo, conforme o meu baixo ventre
insinuou de pronto.
Não sendo político, lembrei-lhe do nosso
primeiro beijo no referido bailinho. Que feio! Quem me beijou nos fundos da
Matriz foi sua prima Formosa Márcia, nascida nos últimos suspiros de Março de
64.
Pouco embusteiro, digo à brasileirinha dos
cabelos brancos debaixo dos fios acajus:
ꟷ Voltar aos tempos de coturnos
desfilando contra o Comunismo a cada Sete de Setembro não é Revolução Cósmica, é
Primeiro de Abril.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de setembro de 2023.