sexta-feira, 1 de setembro de 2017

olhos de mar

nascido nas borrascas, o menino
maquina seus velames, pés conjurados
a andar sobre a língua, domando-a
às tormentas.

perdido das rimas, sangue pronunciado,
sua língua atravessa a nado
o espanto, o mordido.

trazido à escrita do sol:
lanterna ancorada, ilegível,
se as letras adoram o aroma de alguma dor.

os coqueiros da enseada:
por que ainda sonha, menino?



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

O desenho do enigma


domingo, 26 de março de 2017


o extra do ordinário

lá vem aquele poeta

alguém poderia vê-lo um palhaço triste
alguém teria a impressão

como palhaço triste
sua tristeza porque resiste

sua resistência no carinho das crianças
principalmente das crianças

palhaço que resiste
sua resistência ao riso do intolerável
o riso rinoceronte do intolerante

e alguém o removeria com a maquiagem
indo além da tristeza
indo com esse palhaço desesperado

desesperadamente triste

triste palhaço desesperado
seu desespero de porcelana chinesa
não se pode bulir
nem se pode a cosquinha da unha
a finura o bonito do dragão
o inefável o frágil
sua beleza de gente grande no mundo de criança
e ele querendo aventura
querendo encantamentos de dragão

assim de passagem
sem saber desse passado

aquele poeta vai lá


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


sábado, 25 de março de 2017


contramão

não faço poesia
como quem ouve nos versos
a música de todo dia

não faço poesia
como quem vê nos versos
a miragem de todo dia

não faço poesia
como quem inscreve nos versos
o pensamento de todo dia

faço poemas
ao silêncio de quem me ouve
à escuridão de quem me encontra
ao vazio de quem me entende


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


quinta-feira, 23 de março de 2017


vampirismo

a manhã é um túmulo
havia sangue nos dedos
os dedos no braço
um morto na agulha

o túmulo é uma manchete
haveria outra saída
a saída pelo sangue
um corpo à dose

a manhã nem fora a dose seguinte
o túmulo nem fora uma notícia

espelho é ausência


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



quarta-feira, 22 de março de 2017


à contraluz

há quem veja o alvo no imundo
há quem veja o mundo em alvoroço
mas mesmo no poço mais fundo
há também o fundo do poço



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

terça-feira, 21 de março de 2017


o imaginário do poeta

queria traduzir seus atos em palavras
queria trazer para si o sentido
queria induzir-nos ao infinito
queria tudo isso

mas cometeu um etc


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)





segunda-feira, 20 de março de 2017



melindrado

não sou de esperar pelas respostas represadas
ou caminhar meus ossos sobre as formigas
faço festa sozinho

e sei o fogo sinto o cheiro vejo a chama
faço farra com quem queira

crianças sozinhas não perturbam

amigo
não sou de responder a chamados noturnos
ou morrer de medo normalmente

respiração ofegante não desmata a minha mente

o afogado temente à água?
o tremido na mágica de um afago?
nada!

olho penso digo

mamã, há holandas debaixo d’água!



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

sábado, 18 de março de 2017


pirapora

o barco eram crianças
era estranho o poente

naquele odor tudo era esquisito
as narinas ancoravam a náusea

peixes boiando nas nuvens
entre outros farrapos flutuantes

o banco de areia submerso na espuma?

esse incerto caís
a memória


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



sexta-feira, 17 de março de 2017


precariedade

agora há pouco
mas houve dias em que havia mais
tempo de ouro

há muito
como nunca houvera antes
à altura dessa fartura
tempo de sobra

há muito pouco
como sabe toda gente
o tempo todo


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)




quinta-feira, 16 de março de 2017



angústia

livrar-se das escamas
para melhor nadar
tal ensino o peixe conquista
ao cardume lunar

livrar-se das escamas
para solar tão só
tal peixe o ensino conquista
às voltas de si

livrar-se das escamas
para chegar longe
tal conquista ensina esse peixe
a danação que salva


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)






quarta-feira, 15 de março de 2017


indomabilidade

amestre-se, melhor amigo do homem.
abane o rabo. finja-se de morto a transbordar
humanidades. role no chão, tão impulsivo.
a feracidade do pensamento? que tormento!
pela disponibilidade do efusivo,
adestre-se, exemplo de fidelidade.
deixe-se ensinar à felicidade
das crianças, mas aprenda a largar
o osso, não queira escondê-lo.
e não se esqueça: se mostrar
as garras, dá-lhe focinheira!
que isso de espumar de raiva é besteira.
se sentar bonitinho, que gracinha!
e se ficar de guarda? e se der a patinha?
ô espantalho do sensato,
nem precisa tanto espalhafato,
o nove é mesmo pra falar com a atendente!

dizem que sou grossa... ora, gente,
grossa é a lã do novelo...
aliás, cadê o meu novelo?



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

terça-feira, 14 de março de 2017


temor

tremem os dedos
confundem-se os olhos
falha a língua

e há tanto a dizer
dá um branco
faltam as palavras
confunde-se no todo

e há tempos quer dizer
mas ébrio do mar
como um barco a naufragar
bem que o tenta dizer

poeta ao mar
treme nem consegue falar
gagueja trava fica na mesma

burro a zurrar pelo olhar


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


segunda-feira, 13 de março de 2017



último poema


contraditório por costume
o poeta meio que atravessa o poema
imanando espelhos quando fala
afinado ao dissonante que o diz

assuntado no verbo
dá um peteleco numa rima
e vai sentar-se numa ideia

desequilibrado como um palhaço
desfia o seu tecido decorado
desfila sua fantasia
a do homembomdebemcomavida

sem o riso do divertido
como se as piscadelas de sua arte
nem pedissem a cumplicidade do aplauso
nem resistissem direito ao aparte
de um desgosto enxerido

perplexificação:
travestida nessa reflexão
a gente tira a corda do pescoço


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



sábado, 5 de março de 2016



na batucada

eis o poço em que me abrigo
de corpo inteiro na queda

não é preciso um sol sustenido
ao chumbo da saliva

o musgo zunindo-se paredes

escapando à escuridão
vem desse ventre
vem de baixo

corda feita de lama
imundando-me

a boca sangra
uns fonemas malabares
palavras sem língua

silva o translúcido
quase em harmonia
e ensurdecido


(rodrigues da silveira, 2015

sexta-feira, 4 de março de 2016


espanto 

raio de sol
o drama desse farol
fogo tramado

um vagalume cego

(rodrigues da silveira, 2015)