falação
não falo por mim
quando falo pelo outro
afinal em boca fechada...
também não falo de mim
ao falar como o outro
afinal em casa de ferreiro...
sei que falam de mim
como falam de qualquer outro
afinal quem não tem cão...
tanto fala que fala
tanto diz que me diz
mas água mole em pedra dura...
(rodrigues
da silveira, 2014)
outra suposta biografia
a certidão
de nascimento do ódio
estabelecia
que o ódio era para poucos
como para
poucos eram os brinquedos do parquinho,
apesar
daquela chuva além dos continentes
a certidão
de batismo do ódio
datava o
dia em que o ódio fez-se um dos poucos
porque ser
escolhido era para poucos,
daí o olhar
devoto de quem caminha ao vento
a certidão
de maioridade do ódio
outorgava
aos seus filhos um ódio ancestral
como só o
ódio sabia cobrar com sangue as suas dívidas,
embora isso
viesse como uma dádiva
a certidão
de falecimento do ódio
nunca haveria
de ser lavrada em cartório
e o ódio
sabe adiar a própria morte,
porque nem
só o ouro finca as suas veias na terra
(rodrigues da silveira, 2015)
rg
não recuse o círculo.
se faltam pontos aos is, as mãos dadas,
sobram crianças na sua infância.
e empobrecendo a metáfora,
tal fraternidade de saliva fútil de fotografia:
vai dizer o seu nome
ao identificar-se?
não rejeite a corrente.
o bolor, essas mãos dadas,
uniformiza em cinza o branco
da vizinhança. mesmo na chuva, nas ranhuras,
falta-lhes liberdade, portanto:
vai dizer onde mora
ao identificar-se?
não despreze a prudência.
é preciso saber dar a mão a quem não
tem braços.
não se mova por impulso.
para outro circuito solar, outra família geométrica.
sem o mundano, e solidário, porém.
não denuncie
a roda.
o olho não perdoa o sangue
das escoriações, pois não há igualdade
entre papelão e mármore, mesmo aos
pedaços.
e você vai deixar de ser quem é
ao identificar-se.
(rodrigues
da silveira, 2014)
o suspeito
como sempre
dentre os seus
predicados
apresenta um cabelo
afetado
─ essa raiz na
hora errada
como sempre
dentre os seus
defeitos
senta uma bunda tatuada
─ essa tribal no
lugar errado
como sempre
dentre os seus
talentos
ostenta uma estrela
─ essa destreza no
chão impróprio
como sempre
dentre os seus
direitos
sente o peito
latejar
─ essa dor por mais
um segundo
como sempre
na falta de nome
sua identidade é
epidérmica,
naturalmente
uma vez que,
no mundo natural
do poema,
o sujo faz sua
limpeza
com a certeza do
sempre
(rodrigues da silveira, 2014)
história de um velho
com
exemplar resignação,
vestido
da cabeça aos pés
com
as devoções de cidadão,
aceita
andar a pé, passando
pelo
crediário do justo,
sorrindo,
assim tão perdulário,
como
quem nunca toma ônibus,
sabendo
que não chegará
a
tempo de rir da piada,
como
se fosse obrigação.
e
assim vestido de cidadão,
mantém
a focinheira eletrônica
bem
ajustada, concordando
de
quatro em quatro anos, o alegre,
porque,
segundo as suas contas,
ceder
valor à prestação
faz
da gente um homem direito,
herdeiro
honrado da poeira
ocre
do cafezal carpido
pelo
avô, um cabeça quente,
que
jamais engolira em seco
cada
garfada fria do rancho.
fora
dos diários, dos jornais,
das
folhinhas cheias de luas,
segue
nosso homem, e alforriado,
porque
sonha ter, numa lápide,
gravado
o nome, por inteiro.
(rodrigues da silveira, 2015)

