sábado, 7 de setembro de 2019

Era uma vez


Era uma vez

Na lida injusta de tão desigual, nada como esticar as pernas no sofá depois de mais um dia exasperante. Mas a vida dá por cansaço o que o tédio quer me testar, taquara nas viradas do noroeste de tantas veredas.
Que ruído é esse que me tira da formiguinha do Quintana?
Transtornado pelo barulho, talvez esteja errado ao pedir que tenha modos a uma entidade que tem vida própria, e me refiro àquela que descubro num muito à vontade. Como sempre, aliás.
Exibida, faz a clássica disparada pela sala; bisbilhota o jornal; molha o bico com o suco; de vez em quando, chafurda na caipirinha; e como a danada gosta de açúcar.
O bichinho que divide o apartamento comigo ocupa os vãos, úmidos e empoeirados, fazendo questão de demonstrar, por atos e pensamentos, que prefere o barraco como está. E nem vou cair na besteira, ó reforço pleonástico, de admitir que o estado atual do apê é lamentável. Que displicência a minha; e antes tarde do que nunca, admiti-lo.
De modo geral, tenho papo com todo tipo de gente; mas com esta em particular, pouco. Porque anda abusada, disposta a conhecer a verdade; o vero de uma chinelada bem dada.
Além disso, ela não me ouve. Ainda mais que falo baixo se me vejo na posição de ter de delatar-me. Daí que a folgada não vai mesmo me escutar; e do alto da soberba, ignoram-me os ouvidos vidrados no fogo da floresta, ou na história do beijo.
Na luta por manter os pés no chão, e só me controlo por medicamentos, sinto que a parte viva que me come acaba por sufocar o que vivo com excesso de vida. Mata-me a vitalidade a dieta desmedida de ideias sobre ideias, que o cérebro me ramifica em labirinto. É meu, o barato.
Meu embate é contínuo para preservar o benéfico do sol na digestão dos eventos do dia a dia. Claro, nem sempre mastigo conforme a recomendações médicas; engulo mal porque rumino que nem porco. Daí que o Etna entre em erupção tão logo o miojo ponha-se a falar com os neurônios do estômago. É surpreendente saber que há uma linha aberta entre cabeça e barriga. Por isso, enjoo e ânsia me põem a correr para longe da TV, e a descarga afoga no oceano, meu vizinho, o que não consigo nem mais tolerar. Valei-me, Santa Clara!
Feito uma escultura de lama tóxica, ponho-me possesso, de indignação. Silencio os pés, travo meus demônios no que não digo por mágoas e ressentimentos. Pródigo em entender que não me acerto comigo nem depois de muito pensar a respeito, intuo que preciso ter os sentidos prontos para rastrear onde é que a dona foi se meter.
Quede que sossego até dar com a bicha tomando siso do mundo justo com O mal estar na civilização? Poderia o óbvio do Kafka, mas ela não. Nem o Velho Sig para explicar o que vai por aquela cabecinha.
Como não pretendo laconismos, me acuso ao especular que sei de mim pelo outro que me olha. Ora, ora, leitora perspicaz e leitor arguto, câmera na mão e foco... Na mosca!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de setembro de 2019.

Um comentário:

  1. Passa-se pelo que passei hoje cedo, não seria na mosca...seria "na bosta"...Nada como ter um canto de leitura e escritas, para desabafar e ou relaxar.

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