Bem se veja que estou disposto a encarar
o insight com a seriedade que o deslumbramento pede a mim que eu a
tenha, uma vez que estou bem. Ou seja, evitarei as contradições involuntárias.
Ou seja, denuncio que quase me deixei convencer que, depois de uma boa noite
de sono, o joão-de-barro me acordou para outro dia de céu azul, refeições leves
e conversas ligeiras.
ꟷ Voltou pra cá?
ꟷ Faz cinco anos.
ꟷ Cinco! E nada de ligar pra cervejinha?
ꟷ Parei de beber.
ꟷ Rapaz, sabe que também não ando bem de
saúde, já não abuso como a gente abusava na zoeira. Semana passada mesmo, fiz
exame, porque passei uns dias com uma dorzinha chata, mas o resultado deu que
está tudo em ordem com o meu fígado.
O diálogo deu-se ontem. Sendo abilolado
de memória avariada por décadas de cachaceiro contumaz, dou a seguir o papo de
quinze dias atrás.
ꟷ Quanto tempo!
ꟷ Quais as novidades?
ꟷ Tudo na mesma. Com futebolzinho no
sábado, churrasco quando pinta e brejas geladas dia sim e outro também.
ꟷ Já não pertenço a esse mundo.
ꟷ Virou crente?
ꟷ Fiquei velho, mesmo.
ꟷ Rapaz, nem me diga. Na semana passada,
corri fazer exame por causa de uma dor nas costas. Mas, graças ao Bom Deus, o ultrassom
detectou pedra no rim. O médico mandou eu beber muito líquido. Como ordem de doutor
é lei, tenho tomado cerveja que nem água.
No entanto, me persuadi a repensar o que
a intuição interpusera no caminho, uma vez que, de madrugada, eu sonhava que
caminhava na praia, ia com os pés na água, as ondas lambiam os meus calcanhares,
o muxoxo do mar era uma delícia no ouvido, então, foi lambido que me esforcei para
despertar.
Já que autoconhecimento não garante o
controle sobre si, tem vez que a vontade faz correr ao banheiro sem nem ligar a
luz.
Fui e urinei, porém, apraz que se embuta
o outro: porém.
Todavia, autoconheço-me de outras
madrugadas, de outras idas ao banheiro sem que a luz fosse acesa, de algumas
topadas de joelho na cômoda, de dar com o nariz no batente, de cair de costas
pela peitada na parede.
Noite passada, no escuro, com a ponta dos
indicadores ajudando a situar-me, com as paredes onde deveriam estar, fui indo lento,
fui indo sem me distrair, sem achar que meus passos eram práticos, sem temer
que a minha boca secaria, sem me soprar à tentação de ficar tenso por achar que
era outra das minhas tolices, todavia, certo de que ia sem a necessidade de confiar
em mim, não encurtei a passada, uma vez que o corredor era trecho conhecido, fui
indo do quarto ao banheiro, tratei somente de ir devagar, porém.
Sem estresse abissal, o sujeito e eu nos
congraçamos?
Já que um cotidiano menos tóxico pede meio-termo,
faço o balanço, minimizo a mão do cínico a bater no ombro, já que seis por meia
dúzia não acarreta nulidade: quando o cafezinho é expresso, você toma dois, de
xícara grande, e sem açúcar, pois rim ou fígado hão de reconhecer o valor da coerência,
sempre.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de setembro de 2025.