terça-feira, 8 de abril de 2025

Um fujão

 

Um fujão

 

Passava das duas quando ouvi a campainha. Num instante, lembrei que campainha não toca sozinha. Este estúpido demorou um instante para relacionar o dedo que pressionou o botão e o som da campainha. Estupidamente sonado, vi que eram duas e vinte.

Não quis pular da cama, principalmente àquela hora, com o din-don, pelas repetidas vezes que tive de escutar esse som, fui forçado a ir ver quem estava à porta.

Às duas e vinte, tinha de ter motivo forte, que fosse questão de vida ou morte, que a briga de marido e mulher tivesse virado caso de polícia, que houvesse desespero, sangue e lágrimas.

Se vieram pelo absurdo de querer enxugar lágrimas às duas e vinte, pegaria um lenço para amordaçar, entupir a boca, tornar surdo o choro, sufocar, iria matar se fosse a última opção, pois eu contava sonhar até o céu trazer o sol, que não era feriado, que seria outra segunda-feira, que enfrentaria outra jornada de oito horas de trabalho.

À porta, a Ciça veio pedir que a acudisse.

A Ciça disse que era uma emergência. A Ciça disse, pois a tragédia estava ocorrendo. O Dado nem molhou a boca com o leite. Não devia ser pelo futebol mostrado na TV. O Dado sumiu da poltrona por causa de outra coisa, não foi pela falta de gols. A Ciça não ouviu o ruído que pudesse ter atraído o Dado. Algo gravíssimo devia estar acontecendo; pro Dado sumir assim, tão súbito, só havendo uma tragédia.

Senhora, o problema é que não sou médico, e jamais rezei ao anjo da guarda que me concedesse a oportunidade de socorrer uma pessoa padecendo de algo tão grave, seja derrame ou ataque cardíaco.

Senhora, embora possa me compadecer dessa luta contra a morte, ainda que se chame Dado a qualquer hora, permita-me a sinceridade: embora soe escandalosa a recusa, muito embora a senhora chame-se Ciça que nem a minha avó, não abrirei a porta nem mesmo às duas e vinte. Sequer a senhora falando de si como se eu a conhecesse. Ainda que eu continue acreditando que a senhora é movida pela verdade que a senhora apregoa ser realmente verdadeira, pois, muito bem, eu não abrirei a porta nem me mostrarei desarmado, que nunca o faço às duas e vinte, nem que fosse para amanhecer domingo.

A Ciça que se apresentou como Ciça e eu que nem me dispus abrir a porta pra revelar as minhas mãos nuas, ambos fomos surpreendidos por um dálmata que passou correndo, fugindo de uns gatos.

Passaram o cão chamado Dado e aquela gata com seus filhotes, e, óbvio, a Ciça disparou atrás, pra salvar seu bichinho desses gatos, que pareciam raivosos, animais endemoniados, tanto que espumavam, se não fossem possessos, não miariam como bestas.

Os outros não me viram pé ante pé, mas ninguém ter visto não me deixou menos nervoso, pois a estabanada correr pela rua não diminuiu a tensão.

Convenhamos, eu não devia ter aberto a porta às duas e vinte, nem a qualquer hora, uma vez que eu vibrava, resfriadíssimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de abril de 2025.

domingo, 6 de abril de 2025

Aquele truque

 

Aquele truque

 

Mal apresentaram a proposta, o mais articulado dos apressadinhos, reputado gênio, foi logo negando que a sua ideia estivesse pronta; por hábito desse humilde criador, ela foi dita como esboço a ser trabalhado pelo grupo, pois ele, a destacá-lo como o mais modesto dos criadores, era apenas mais um membro criativo na equipe de criação.

Ouviram-no. Entreolharam-se.

Pelas palavras terem soado ajustadas, próprias à reputação de ser pessoa genial, a ideia foi tomada como boa, muito boa, ela merecendo, aliás, ser chancelada ideia excelente.

Certa da vergonha a tocá-la, por acaso amuada, a segunda pessoa mais articulada era também a mais reativa; diante da condescendência de sempre nesses olhares, tendo em vista que à segunda pessoa não convinha confirmar a personalidade aceita como evidente, a segunda ideia poderia ser ridícula, o mais que alcançasse fazê-la ridícula.

Sendo uma pessoa pouco dada a gracejos, a sua ideia fez rir e toda gente riu-se, pois era ideia inesperada, era muito mesmo.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia foi a primeira a abraçar a segunda pessoa, pois a segunda pessoa foi a primeira pessoa a fazer rir todo mundo que estava na reunião, e isso era sensacional, uma vez que a primeira pessoa, tanto quanto as demais, foi surpreendida pela primeira ideia incontestavelmente ridícula.

Mesmo sendo uma segunda ideia, tomaram como a primeira a ser desenvolvida, esmiuçada, reelaborada, examinada uma, duas, tantas vezes quanto fossem necessárias, até pararem de rir.

Depois de tanto riso por compreendê-la ridícula, sem ninguém a se sentir propenso a rir-se ao ouvi-la, a segunda ideia foi declarada como sendo uma terceira ideia.

A sério, ouviram-na. A sério, entreolharam-se.

A primeira pessoa que teve a primeira ideia sentia-se incomodada, porque ela queria que o debate criativo fosse retomado.

A primeira pessoa trocou as palavras da terceira ideia, para que ela fosse deixada atrás, para que soasse tão ridícula como a segunda ideia, sem que ela, a terceira ideia sob roupagem nova, fosse tomada como uma volta à segunda ideia, ambas sendo ridículas.

A primeira pessoa queria que ouvissem a terceira ideia como sendo uma quarta. Portanto, debatessem-na rindo, zombando das palavras, ridicularizando, sem meandros ou à deriva, já que ideias puxam ideias, bem como a graça faz rir.

Rindo, não se compreenderam menos aflitos nem mais felizes.

A quarta ideia não era a segunda em outras vestimentas?

Sem cortarem o riso, a precisarem reprimir as aflições, as pessoas reunidas concluíram que uma quinta ideia surgiria.

Ágil para achar pomba na cachola, o idiota desencantou.

De imediato, percebendo-a maravilhosamente ridícula, todo mundo ficou eufórico, porque o bico, as penas, as asas, os arrulhos e as fezes faziam a quinta ideia ser bem a primeira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2025.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Em defesa dos anunciantes

 

Em defesa dos anunciantes

 

Encontro o sumido.

Nem somei que fossem quinze dias sem que papeássemos; ele tem o número exato porque há uma quinzena sentiu uma agulhada no lado esquerdo da cabeça.

A principal sequela daquela ferroada foram as tonturas.

Desde então, tem tontura ao levantar-se, percebe, mesmo deitado, o mundo girando, sente o medo medonho de cair sem sequer se mexer pra se avaliar, deliberadamente.

Ao fim e ao cabo, o melhor foi manter-se distante das provocações com que, a torto e a direito, a realidade lhe faz ranger os dentes, calçar tênis sem cadarço e controlar ansiosamente os resultados dos exames que a clínica geral e o cardiologista acharam por bem que os fizesse, uma vez que, de qualquer jeito, teria de fazê-los.

Pelo lado bom, dispomos de uma quinzena de opiniões represadas nestas nossas cacholas diuturnamente fertilizadas por uma carrada de soberbos acontecimentos.

Escancararíamos as nossas bocas pra escarrarmos cravos fétidos, crisântemos sórdidos ou girassóis repugnantes?

Para não nos apresentarmos tão cafonas, o mundo existe.

Como imagem bem trabalhada desse veículo ao universo civilizado, a digníssima estava pundonorosamente uniformizada, metodicamente gentil, admiravelmente bela.

Para meu assombro, a jovem disse bom-dia, perguntou se desejaria saborear o creme trufado que recheia o ovo de Páscoa, cuja logomarca da empresa estampa encantadoramente a camiseta, e, mesmo depois da negativa formalmente automática, tornou a dizer bom-dia.

Para não sermos bovinamente mecânicos, a beleza sabe se postar como algo sagrado, escoiceante, um soco no estômago.

Como imagem bem modelada desse estado de encantamento, eis a mulher bonita que me faz crer que a vida fica tão maravilhosa, desde que eu ame chocolate.

Obrigado, não tenho filha nem namorada.

Obrigado, sou solteiro que não passa batom.

Mesmo que chocolate provoque bem-estar que tende à felicidade, embora dispense cosméticos, muitíssimo obrigado por sugerir...

Lê-se na blusinha: CHOCOLATE É AMOR.

Pelo lado da maldade, se abusasse de coisa que me enfurecesse, fizesse espumar, levasse a detonar relógio, espatifar espelhos, destruir poltronas, eu não desculparia, perdoaria, nem clamaria por anistia.

Amo chocolate, e respeito o poder de sedução de quem tenta me convencer, mas, mocinha boa de lábia, não induzirei alérgicos a passar batom do que seja.

De modo cristalino: é tranquilo dizer que, nem em Brasília nem aqui, eu jamais batalhei por algum golpe de estado.

Poupe a garganta, ranrã pelo ar terrivelmente condicionado da sala de tomografia, anuncio por nós, que você e eu não vamos espernear, pois, Luisinho, naquele 08 de janeiro de 2023, nos esbaldávamos com cerveja e picanha, uma vez que era aniversário do amado sete cordas, do canhoto afinadíssimo, do nosso caro Aristeu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2025.


terça-feira, 1 de abril de 2025

O bom doutor

 

O bom doutor

 

“É um teste, não é? Estão querendo saber o quanto eu consigo ficar parado, o quanto eu aguento ficar sendo observado, não é isso? Como aguento, querem saber até quando suportarei ficar sem que me façam algum pedido? Quando explodir, irritado com esses mal-agradecidos que passam sem ligar para minha pessoa, será que eu gritarei, eu darei as costas, eu lascarei um tapa ou o quê?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é pessoa a ser vista sem que a abordem com solicitações, seja de caixão à criança morta por dengue, seja para capinar o mato na frente da creche.

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é homem de dispensar atenção, ainda assim, envaidecem-no que a ele incomodem, o procurem por ajuda, socorro, pela misericórdia de uma palavra.

“Por que testar alguém que nem eu, uma pessoa de trato fácil, gente procurada pelas virtudes? Pois não sabem da minha infinita tolerância a ouvir quem venha com explicações sobre conta de luz atrasada? Que sou eternamente grato pela sinceridade de gente que se justifique por não ter votado em mim, mas espera que lhe pague um quilo de arroz? Para que confirmar que sou generoso, atencioso e sensível?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é gente que finge a alegria de satisfazer alguma vontade, ele atende e sorri na foto, ao ser abraçado, ao lhe darem tapinhas no ombro, ao apertarem a sua mão, ainda que o cumprimentem com mão suada, com unhas sujas de terra, com camiseta encardida, com uma boca de dentes podres.

“Pesquisa desse naipe não revela a má intenção? Isso não confirma que sou popular? Não querem, no fundo, medir a minha popularidade? No fundo, não estão preocupados comigo? Não estão querendo saber a quem estou pensando em apoiar nas próximas eleições?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não vota à toa.

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não transparece que se candidatará, uma vez que está convicto da vitória, está certo de que a sua campanha será barata, está feliz por não precisar mexer em nenhum dos seus investimentos, está aberto que o incomodem.

“Será que o povo precisa que gente de fora venha confirmar que eu sou perfeccionista em tudo o que faço? Será que esses terceiros estão conscientes do benefício que me proporcionam? Porque estou unido à gente que vive na nossa cidade, será que percebem que me gabo de ser pessoa séria? Será que não veem que priorizo e hei de priorizar as necessidades da nossa gente, mesmo num período de eleição?”

Álvaro Álvares Lins Mascarenhas de Albuquerque não é outro filho do filho do filho do filho do filho de político, no seu sangue vaga o germe da boa esperança, suas sístoles e diástoles fazem circular os melhores elementos que a natureza humana já haja produzido.

O político não é doutor para dar dois reais à toa.

“Dois real é pro pão, hein!”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de abril de 2025.

domingo, 30 de março de 2025

O amor do noivo

 

O amor do noivo

 

Com você me pedindo um milhão de coisas, não tenho tempo para roçar as costas no batente da porta, na grade do cercado.

Fico achando que você me ama pela utilidade que eu tenho. Acabo pensando que tenho potencial, que o seu amor é para quem quer lucrar com as minhas potencialidades.

Posso ser dobrado facilmente; esse entendimento me alegra; sinto que sou um objeto passível de ser manuseado; pelo papai-mamãe uma vez por semana, sou mesmo um bem alegremente desfrutável.

Quando reconhecido, meu valor está em mendigar um mindinho da sua compaixão; meu entusiasmo é tanto que desejo dar mais tempo a você, e não apenas no escuro.

A luz apagada uma vez por semana é a glória.

Essa honra não gera o sentimento que seja aplacado com o batente de qualquer porta, com mãozinha de plástico e, faça a gentileza de não obliterar a inteligência, nem ducha de água quente me afrouxa.

Não me iludo, eu sei que sou um bobo alegre. Mesmo você dizendo que não sai de casa pra economizar a conta de luz.

Você é um livro a ser escrito. A cada dia, escrevo um poema. Você é a obra-prima que precisa da minha dedicação em tempo integral para ser escrita como deve ser. Você me faz apaixonado pela arte; e me faz desejá-la escrita dia após dia, desde que a conheci, Manoela.

Não esqueço nem quero esquecer, Manú, porque o dia em que nos conhecemos é o marco da minha saída pra eternidade.

Passei pelo portal. Caminhei por essa outra dimensão. Depois, tudo tinha outro sentido. Voltei a mim já alterado, tudo tem um outro sentido. Esse algo a mais me faz sentir que existe alguma coisa além da carne, da alma, da conjunção da alma com a carne.

Passei a viver em função dessa conjuntura, por adorá-la.

Manú, minha nossa, que dimensão é essa!

Você botou uma coleira em mim. Você me controla. Você sabe que gosto do seu jeitinho, mesmo que seja só uma vez por semana, mesmo no escuro. Manú, sou louco por você.

Na realidade, Manú, permita-me que lhe conte o que ouvi, ainda há pouco, na fila da lotérica.

Uma mulher atrás de mim começou a mostrar um vídeo. Achei que fosse um vídeo postado na nuvem, mas era transmissão ao vivo.

A mulher atrás de mim não deixou passar. Ela disse que aquilo era coisa pra internet, disse que aquilo teria milhares de visualizações.

Uma vez que renderia muito vintém, a mulher atrás de mim pescou a loucura de deletar a postagem.

Caso a tirem do ar, chame-se a polícia, o processo seja instaurado, seja avaliado o juízo do idiota, ele não vá despachado para manicômio, que o juiz irônico sentencie a dose necessária do isolamento do agente patológico na Vila Militar.

O vídeo era assim: no provador, tinha uma mulher vestida de noiva; a saia se mexia não sei como, porque ela não tinha braços; debaixo do véu via-se a Vênus de Milo, embonecada feito noiva.

O farfalhar me eriçou, mais ainda o reflexo; por evidente: o smart fui eu que o dei para ti.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2025.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Te achas uma maritaca?

 

Te achas uma maritaca?

 

Como parece que de modo algum você pretende assumir que errou, vou deixá-lo babando. Desta vez, vou sim, e não vou voltar atrás como sempre conta que eu volte.

O que eu pretendo com isso?

Quero que pense um pouco, o mínimo que consiga, pois é você que precisa refletir a respeito, é você que tem que parar um segundo, conto que seja só por um segundo, pois pense nisso, reveja essa sua alegria que eu vá recuar mais uma vez.

Desta vez, não.

Não pense o senhor que fazer cara de choro vai me convencer, que falar com voz embargada vai me amolecer, que me chamar de amada vai lhe dar o direito de apertar as minhas bochechas.

Não se finja de bobo, eu sempre falei, para você e para todo mundo, que não gosto nada que apertem as minhas bochechas.

Sinto a boca amargar quando lembro que meu pai apertava minhas bochechas. Quando ficava sem opção, lá vinha o velho.

Era inevitável, uma coisa chata, era um troço revoltante.

No fim de tarde dos domingos, pouco antes de escurecer, não tinha fim de tarde domingueiro que o danado não se esquecia de lembrar-se de mim. Meu Deus, era sempre no crepúsculo dos domingos que papai achava de focar em mim.

Ele dizia que tinha me escolhido para uma tarefa que nem mamãe sabia caprichar como eu.

Que a mãe estivesse na missa, ora, isso nem era dito.

Ele caminhava quarenta minutos, trazia a camisa que cismava que tinha de usar e, já que eu era a sua filha predileta, sua filha mais velha, mais amável, mais trabalhadeira, eu merecia o privilégio de lhe passar a camisa, pois, com certeza, ela ficaria um brinco.

― Capriche como sempre. Porque só você sabe deixar uma camisa sem nenhuma dobrinha, sem amarrotado. Sabrina, minha querida, não se sinta pressionada, apenas capriche.

Amargo a boca porque eu sempre guardei pra mim, papai. O senhor nunca deu sandália, saia, brincos, só me presenteava com os afazeres quando nem a mamãe tinha mão para satisfazê-lo.

Ora, ora, sua filha tão amável, sempre a mais velha, eternamente a mais trabalhadeira, ora, ora, que nunca passou pela minha mente pedir à sua excelência que me desse um botão de rosa ou bombons.

Acaso o senhor esteja de olho em mim, aceite que me sinto aliviada, embora respire melhor com as janelas abertas.

Por que estou de bem com a vida que levo?

Porque, meu amado e estimado pai, certas obrigações nunca foram minhas quando era única filha nem são minhas agora que lavo e passo em outro endereço.

Já que anoitece, prefiro ouvir o alvoroço no quintal da casa ao lado, prefiro ver a algazarra dos bichos, prefiro me deliciar com as maritacas fervilhando na mangueira carregadíssima.

― Ouça o que digo, tomar quatro gols da Argentina não é o mesmo que levar 7X1 da Alemanha, porque isso foi na Copa do Mundo, e pior ainda, meu anjo, isso foi em casa. Portanto, Astolfo, dar com o celular na parede não anulará gol algum nem me fará manga pro teu bico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de março de 2025.

terça-feira, 25 de março de 2025

Um belo dia para amar o próximo

 

Um belo dia para amar o próximo

 

Quando os pingos começaram a cair, sem pensar duas vezes, tirou uma sombrinha do cesto de unidades a vinte reais, abriu-a, conferiu as varetas e costuras, fechou-a, pagou-a e empunhou-a aberta, já na rua, já precisada de ser protegida da chuva.

Temerosa de escorregar, se desequilibrar e tomar um tombaço, não apertou o passo. Assim, não foi por receio que parou, foi para lembrar-se para onde queria ir.

Parada debaixo da chuva, achando linda a estampa da sombrinha, sorriu porque sabia que aquela era uma reprodução de uma pintura de Mondrian, era cópia daquele quadro famoso, muito famoso pelas retas e retângulos coloridos, ou nem saberia que era obra do Mondrian, mas, afinal, saíra para fazer o quê?

Para ficar nervosa; sem motivos para tanto, ficar portanto distraída, porque era óbvio que, justamente por ser cuidadosa, não se esquecera de trancar a porta da cozinha.

Da última vez, na semana retrasada, roubaram o botijão de gás, um par de tênis da filha, uma japona de nylon do marido e duas calcinhas, vermelhas, as que ganhara de aniversário.

Sem estar convicta de ter chaveado a porta, era preciso voltar para casa, tinha que ter prestado atenção no que fazia, era ou é ou sempre, precisa ser mais responsável, é claro que precisa!

Que jeito triste de viver, assim, avoada ― pensava isso quando veio alguém lhe pedir um segundo.

O seu telefone era da operadora Tal? Era.

Poderia avaliar o serviço? Se estivesse com o celular, avaliaria.

Fez-se silêncio. Houve constrangimento, pois, ainda que o aparelho tenha sido pago à vista, com descontaço realmente tentador, não diria àquela estranha por quais pretextos não o trazia consigo.

― Eu deixo o telefone em casa porque não fiz seguro. Hoje não dá pra andar com nada que tenha valor, tudo é cobiçado por ladrão, tudo, absolutamente tudo, tudo faz brilhar o olhar do ladrão.

Se bobeasse, levariam a sombrinha. Não pelo preço, que ela custou baratinho, mas pela estampa, por ser cópia da obra Broadway Boogie-Woogie, outra peça belíssima do pintor Piet Mondrian.

Por causa da sombrinha, convinha que fosse indo.

A coxa pegou a doer. Dava um passo, uma agulhada. Outro passo, outra agulhada. Parecia que era no fêmur, na cabeça do fêmur. Pegou a coxear daquela perna.

Estava preocupada com aquela dor, aquilo incomodava. A dorzinha era danada, a fazia pisar com cuidado, a pensar que poderia complicar se pisasse firme, se até mancasse.

Todavia, lá na frente vinha vindo uma conhecida.

Era o caso: teria de sorrir; teria de parar um instante, a sorrir.

― Bom dia, Dagmar.

Não era a Dagmar, era Magda, a gêmea que não era míope.

Que ela a desculpasse, pois, ainda há pouco, no meio do quarteirão ali para trás, tentaram assaltá-la, exigiram o celular, até quiseram a sua sombrinha, por conta do Mondrian.

― Como se hoje bandidinho valorizasse a arte.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de março de 2025.

domingo, 23 de março de 2025

Cafezinho

 

Cafezinho

 

Comigo atarantado, sucedeu-se que houve o grande acontecimento da semana. Pudera que houve sem que a ele eu me apercebesse, uma vez que pequenas indignações aquilatavam o pessimismo.

Seria eu o mané ou devia maximizar o batom no monumento? Devia preservar o batom para não me extraviar por aí? Havia de descabelar-me por só usar batom em pelada de Carnaval?

Um tanto tonto por estar, devera, bem alimentado, tanto estava que cambaleei, tanto que o ombro no batente equilibrou-me; por haver-me apurado cretino, a ponto de creditar a cretinização à desgraça de andar reagindo aos escarcéus, às quizílias, aos revertérios.

Pândego, confirmando-me sujeito a sopros de momento, desdenhei da vara, da rede, da comichão de pôr rubra a minha boca.

Gritava contra o preço do ovo? Berrava que as galinhas têm botado ovos a menos, menores, muito caros? Bradava que não sei cacarejar, ciscar nem botar ovo? Clamava que não jogassem ovos em mim? Por Deus! Jurei nunca pintar de galo na rinha dos outros?

No alvoroço destes dias, a ultimar-me rematado mentecapto, tenho que desviar o enfoque ou restarei perdido entre a pessoa indignada e esse cidadão indignado.

Sobre mim, o grande acontecimento da semana não teve influência alguma. Continuei perturbado, indo de fato a fato, de notícia em notícia, tentando despreciar as contrariedades tão somente cotidianas.

Não atalhei pelo que pudesse apresentar-me bonito na foto. Tenho certeza, se posasse de cidadão sobressaltado com as indignações de terceiros, eu ficaria tão bonito que nem cismariam de reparar na minha boca sem batom.

Nem acho imperioso passar batom para retocar minha feiura, tanto quanto não uso o cosmético pra desenhar um coraçãozinho no espelho ― é ridículo eu supor que manifestar o meu amor pela humanidade vai emperiquitar a humanidade, até a que me foi dada quando nasci.

O meu nascimento foi há tempos, não ocorreu nesta semana.

Essa é a primazia do tempo: fazer a memória encadear as palavras, dispô-las a favor do que seja bom, fazer a gente crer que a lembrança é positiva, sentimentalmente justa, irrepreensível.

Irrepreensivelmente, o grande acontecimento da semana deu-se no momento certo, não falhou, veio como sempre vem, sem estardalhaço, sem dedo na cara, sem cusparadas, sem necessidade de composição, sem repúdio a reconciliações.

Não prestei atenção, porque, cansado, nauseado e aflito, eu queria uma folga, um instante de paz, queria uma horinha de sossego.

Na parada do cafezinho, minha cachola quis avacalhar de vez, mas não me entusiasmou o surrealismo a sugerir que a balança da estátua seja pétrea, como se isso justificasse a estabilidade apesar do vento, uma vez que, se ela balançasse para lá e balançasse para cá, haveria de ser impreterível e irrefragavelmente audível a mensagem:

Compre batom... Compre batom...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de março de 2025.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Controle de danos

 

Controle de danos

 

Às vezes falo sozinho. Converso comigo. Em voz alta, digo algumas verdades, aquilo que considero verdades. Falo até o que nem suporto ouvir, pioro a situação, agravo o mal-estar. Não chego a tomar-me por louco nem sinto que outra pessoa fala por mim, reconheço, entretanto, o ridículo da pantomima.

Ainda bem que não tem ninguém assistindo. Tenho consciência que preciso falar no sentido de baixar a bola, buscando aliviar a tensão, ir diminuindo o tom, abaixando o volume, regressando ao tamanho mais próximo da realidade.

Falo, e falo até que o quarto deixe de ser palco, falo até que minha voz ganhe o timbre de gente que nota a tolice que é falar exaltado, isso de falar e gesticular irritado é uma baita besteira.

É um disparate, porque o mundo não tem que ser responsabilizado pela minha irritação. Eu não controlei o ânimo, fiquei retroalimentando um camarada barulhento, me empolguei com essa face espalhafatosa, a careta de canastrão de quem precisa de holofote.

Justamente por estar sozinho, não como animal encurralado, estou mais para besta querendo atenção, pedindo para ser ouvida, exigindo que eu mesmo me comporte como público embasbacado.

Mas a paixão arrefece e a embriaguez passa, então, é hora de lidar com a ressaca, é o momento de avaliar como me pus entusiasmado, é o momento de ponderar sobre o que me fez perder a calma, é o instante de falar sem vestir a carapuça de pecador a relatar meus pecados, uma vez que nem me apetece ser confessor de mim.

Se alguma aflição foi fonte à irritação, não mais me nutre esse mel. O urso que deu seu show já não pede às abelhas que produzam o mel. No lugar da fera indomável e perigosa, um bichinho fofo, de pelúcia, o companheirinho das noites bem dormidas.

Nunca dormi em grama de praça, sequer bêbado; durmo em cama ou poltrona; cochilo vendo TV, escutando música - só que o desnorteio é tanto que estou abduzido para dentro de mim.

Sinto essa necessidade irrefreável de tomar chá, ainda que nem me dê conta de tê-lo preparado, bebido, súbito arroto o ar engolido, porque posso ter engolido muito ar, assim os soluços vêm como metrônomo, eles não passam.

Não estou com raiva nem furioso nem colérico, acho que desmaiei em pé, de olhos abertos, indo e vindo, até que o desassossego me leva a uma tranquilidade ilógica, me leva a um estado que me contraria, que não me descarrego num soco.

Tranquilo, desperto o desinteresse. Já não bebo mais chá. Não me chateia não ter nada pra fazer, o vazio momentâneo é tédio. Por cinco, dez minutos, nem ligo pro tempo.

O que eu podia ter feito, parado para fofocar, ouvido sem me alterar, ter dado umas porradas?

Vi a aglomeração, vi a motocicleta no meio-fio, vi a ambulância. Não vi outros feridos; vi o colar cervical sendo colocado na vítima.

Nem imaginei que a pessoa que queriam linchada era o piloto todo ensanguentado na maca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de março de 2025.

terça-feira, 18 de março de 2025

O outro lado do estranho

 

O outro lado do estranho

 

Tem esse vizinho que é um sujeito muito esquisito. De dia ele deixa as cortinas cerradas; depois que anoitece, puxa as cortinas, abre todas as janelas, só que nenhuma lâmpada fica acesa.

Esquisitíssimo é ele, de madrugada, fumar na varanda.

Sentado na cadeira de balanço, sim, eu o percebo sentado porque vejo aquela brasa avermelhada num vaivém vagaroso, de quem pensa e não perde o ritmo enquanto pensa, fumando daquele jeito.

Mesmo que chova ou que esteja um frio do cão, é em virtude dessas circunstâncias que fumar seja uma coisa intrigante.

Como sua casa fica do outro lado da praça, consigo observá-lo. Se não o vejo com clareza, intuo o que o seu corpo tenta esconder.

Discretamente, espio o que ele faz. Uso a cortina para permanecer invisível. Sou discreto por conta do pudor, não por temer suas reações. Ainda assim, melhor vigiá-lo sem ser visto. Mesmo que não o imagine violento, não desejo vê-lo esquentado.

Também não o concebo um agente que tenha vindo pra vizinhança com a ideia de detonar o chafariz com bombas caseiras.

Gente que deseja o bem, nossa praça é um lugarzinho pobre, cuja maior riqueza são as poucas árvores onde os passarinhos vêm cantar pela manhã.

Pessoa augusta que só faz o bem, perdoe-me se o acho bem capaz de saracotear peladão no coreto. Perdoe-me, pois tal pensamento me embaraça, tanto que, ao imediato de pensá-lo em pelo, breco-me e tiro os fones.

Satanás não saracoteará na casa do Senhor?

A minha mente é uma casa térrea. Vivo onde um porão secreto tem difícil acesso. Sendo térreo, não visito nenhum sótão e não uso escada pra alcançar o subsolo. Não piso o subterrâneo quando bem quero, ele é que abre suas picadas. Mesmo quando me vejo de fora, sou térreo e sinto que a escada que não vejo é transitória. Pelo reflexo na bolha de sabão, tanjo pétalas, espinhos e o capacho.

Caro vizinho que veio morar à beira da nossa praça, não nos queira mal, não pense mal de quem o espreita.

Não sei seu nome, mas não use minha ignorância contra mim.

Quem sabe, amanhã, eu o encontre comprando água sanitária; juro que não pretendo denunciá-lo, juro, nem sei se água sanitária seja útil na fabricação de artefato explosivo.

Seja afável, não abuse da franqueza. Não sou covarde porque sinto medo, só me falta a audácia da franqueza.

Posso estar enganado, mas o cavalheiro realmente parece ser um camarada corajoso.

Ao fotografá-lo comprando água sanitária, não creia que eu também seja corajoso; só produzirei provas do quão corajoso o senhor é.

Sem fazer especulações sobre o que não vejo, o senhor não precisa fumar pra que eu alcance farejá-lo insone.

Mesmo que eu esteja acordado de madrugada, vá dormir tranquilo, até porque sua casa tem sótão e toda casa que tem sótão, ela também tem porão; fique sossegado, sou gente pacata que nem porão costuma acessar quando flagrado nervoso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de março de 2025.