Passava das duas quando ouvi a
campainha. Num instante, lembrei que campainha não toca sozinha. Este estúpido demorou
um instante para relacionar o dedo que pressionou o botão e o som da campainha.
Estupidamente sonado, vi que eram duas e vinte.
Não quis pular da cama, principalmente àquela
hora, com o din-don, pelas repetidas vezes que tive de escutar esse som, fui
forçado a ir ver quem estava à porta.
Às duas e vinte, tinha de ter motivo forte,
que fosse questão de vida ou morte, que a briga de marido e mulher tivesse
virado caso de polícia, que houvesse desespero, sangue e lágrimas.
Se vieram pelo absurdo de querer enxugar
lágrimas às duas e vinte, pegaria um lenço para amordaçar, entupir a boca, tornar
surdo o choro, sufocar, iria matar se fosse a última opção, pois eu contava sonhar
até o céu trazer o sol, que não era feriado, que seria outra segunda-feira, que
enfrentaria outra jornada de oito horas de trabalho.
À porta, a Ciça veio pedir que a acudisse.
A Ciça disse que era uma emergência. A
Ciça disse, pois a tragédia estava ocorrendo. O Dado nem molhou a boca com o
leite. Não devia ser pelo futebol mostrado na TV. O Dado sumiu da poltrona por
causa de outra coisa, não foi pela falta de gols. A Ciça não ouviu o ruído que pudesse
ter atraído o Dado. Algo gravíssimo devia estar acontecendo; pro Dado sumir assim,
tão súbito, só havendo uma tragédia.
Senhora, o problema é que não sou médico,
e jamais rezei ao anjo da guarda que me concedesse a oportunidade de socorrer uma
pessoa padecendo de algo tão grave, seja derrame ou ataque cardíaco.
Senhora, embora possa me compadecer
dessa luta contra a morte, ainda que se chame Dado a qualquer hora, permita-me a
sinceridade: embora soe escandalosa a recusa, muito embora a senhora chame-se
Ciça que nem a minha avó, não abrirei a porta nem mesmo às duas e vinte. Sequer
a senhora falando de si como se eu a conhecesse. Ainda que eu continue
acreditando que a senhora é movida pela verdade que a senhora apregoa ser realmente
verdadeira, pois, muito bem, eu não abrirei a porta nem me mostrarei desarmado,
que nunca o faço às duas e vinte, nem que fosse para amanhecer domingo.
A Ciça que se apresentou como Ciça e eu
que nem me dispus abrir a porta pra revelar as minhas mãos nuas, ambos fomos
surpreendidos por um dálmata que passou correndo, fugindo de uns gatos.
Passaram o cão chamado Dado e aquela
gata com seus filhotes, e, óbvio, a Ciça disparou atrás, pra salvar seu
bichinho desses gatos, que pareciam raivosos, animais endemoniados, tanto que
espumavam, se não fossem possessos, não miariam como bestas.
Os outros não me viram pé ante pé, mas ninguém
ter visto não me deixou menos nervoso, pois a estabanada correr pela rua não diminuiu
a tensão.
Convenhamos, eu não devia ter aberto a
porta às duas e vinte, nem a qualquer hora, uma vez que eu vibrava, resfriadíssimo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de abril de 2025.