domingo, 9 de março de 2025

Dois palitos

 

Dois palitos

 

Com os dedos que a mim não me desarmam de mim, na esperança de ser guiado pela sensibilidade de um poeta, uso do cotoco, acabado de apontar, para reproduzir ao Mario Quintana, que minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.

Não deliberei elegê-lo mestre, fui embebido nessa fonte oculta que me seca a garganta a cada gole, porque um grande poeta não é o leitor que o descobre, mas ele é quem descobre o leitor.

Nem são sete horas! Lavo o rosto e troco de roupa, pois o cheiro do corpo suado ganha proeminência, ilusória, encantatória, por sequer me afugentar do desígnio de ser domado pelos tigres, afinal, o vento fareja tudo, contudo, Mario, o vento cheio de ideias vãs põe-se a pensar em outras coisas...

Quero um lume. Sei, a luz pode obscurecer. Tem a lua lá fora, tenho algum chão para percorrer, mas a crônica não diz aonde chegarei, de que maneira estou indo, se parado avanço com menor dispersão, se o ridículo que faz rir é o mesmo que me aperta no peito, até porque quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

Os tigres (em meio ao turbilhão do mundo o poeta reza sem fé) são palavras, são ideias, são a mão que segura o lápis e a folha em que as palavras enchem o copo, esvaziam o copo, o deixam pela metade, são miragem a apresentar-se sombra aberta no seio do deserto.

Ganha tempo quem ignora a hora? Sim, o senhor acerta quando diz que a eternidade é um relógio sem ponteiros.

Porque as conexões que não existem são as mais difíceis de serem coligadas, assim duas agulhas sem lã tricoteiam um suéter inconsútil, assim dois palitos sem yakisoba forram a pança de ninguém, assim o lápis, a folha, o polegar e o indicador contam com uma cabeça livre pra crônica ir além das ideias.

Como não me quero um palhaço irônico demais para não rir de mim quando me ponho preguiçoso, quando me revisto de poeta vagabundo, quando bem sei que um dia o meu cavalo voltará sozinho, assumo que, alheio ao murmurar das gentes, as distrações do mundo levam a minha própria imagem e semelhança a sentar-se para ler, como sempre neste mesmo café, o nosso jornal de cada dia.

No entanto, levanto os olhos, corro-os a esmo, estou sozinho, estou à disposição da crônica, lá fora há sol, vento e a paisagem que a janela me permite ver.

Essa nesga do mundo encoraja-me a confessar a tristeza que sinto, pois cada palavra é uma borboleta morta espetada na página: por isso a palavra escrita é sempre triste...

Vou tomar vitamina C. No copo d’água jogo outro comprimido, o de vitamina D, um que não é efervescente, é essa troca que me faz sorrir, é esse descuido que me aponta que domingo é um cachorro escondido debaixo da cama.

Mario Quintana, vim por suas palavras, que elas são um gole d’água bebido no escuro, são o mistério d’uma formiguinha que atravessa, em diagonal, a página ainda em branco, são um olhar e o seu olhar, poeta, é o olhar de um condenado...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2025.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Muttley condecorado

 

Muttley condecorado

 

A dois passos do supermercado, cheguei a tempo de testemunhar uma cena que, a princípio, chateou-me um tanto, mas, miolos adentro, o humor brotou-se por meus neurônios, que se avivaram das sinapses bem mapeadas; e pelas trilhas da ironia, pelas encostas do sarcasmo, pelos ecos de humanista poltrão que tem cá sua poltrona, por me saber a mim pelos repentes de folgazão, brinquei em pensamento, pois, se o fizesse em voz alta, certamente me tomariam por biruta, então, me pus a trocar ‘ocasional’ por ‘racional’ por ‘genial’, até que minha experiência acolheu como cristalina a frase: meu emagrecimento tem um processo natural, basta abrir a carteira.

Tendo aceitado o desfecho, veio-me que a vida anda espetaculosa e, desde domingo passado, muita gente não se avexa de suas fumaças sobre a sétima arte, sobre métodos de atuação, sobre a banalidade do bem maior, que é o povo feliz com a Fernanda Torres.

Dona Cremilda, a senhora me perdoe pelo entusiasmo com o Oscar que Ainda Estou Aqui recebeu.

Poderia ter começado elogiando a fita, mas ainda não a vi nem sei quando a vou assistir.

Minha querida, não vejo a hora que o filme passe na TV, porque os parabéns à obra, ao elenco, à equipe técnica e ao cineasta funcionam como felicitações que andei carente de granjear.

Minha autoestima em baixa enquadra-me naquela turma que gosta muito de aplaudir-se, afinal preciso mesmo dessa energia que agrega, suplanta desavenças, irmana a todos que não nos diminuímos:

― Vencemos!

Amiga, não é uma característica tão somente minha, há tantos que não estufam o peito para apropriar-se do mérito de terceiros, só que se alteram sem dar trela a mesquinharias, já que a vitória é nossa.

Ainda que os troféus de Melhor Atriz e de Melhor Filme tenham ido parar em mãos estrangeiras, que talvez tenham lá as suas habilidades, mas sou gente criada no orgulho de nunca ser derrotada por causa dos meus atributos genuinamente positivos.

― Somos vencedores, ganhamos um Oscar!

Dona Cremilda, não peço desculpa pela senhora não ter dito o que acha de Ainda Estou Aqui. Não peço nada que a senhora não esteja em condições de se pronunciar, porque sei das suas capacidades.

Também tenho minhas limitações, tanto as possuo que não vou às redes atrás de vilanias nos comentários compartilhados, uma vez que tenho esse espírito revoltado que há de me irritar com quem insiste em passar de ‘revolução’ pra ‘movimento’.

― O Oscar é nosso!

Querida, desço ao lodo que constitui a minha mente. Levo uma vela; cuido que ventanias não me ceguem. Tomo pé do que sinto; persevero que vivi o que vivi. Paro um instante, puxo pelo ar que me mantém vivo.

Se a rede quer-me rendido às falácias, recuo dessa arapuca.

Pra evitar que o diálogo acabe inviabilizado, recorro àquela cena a dois passos do supermercado:

― Mãos ao alto! Esvazie os bolsos!

― Cumé?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de março de 2025.

terça-feira, 4 de março de 2025

A beleza da vida

 

A beleza da vida

 

Com sua permissão, quero compartilhar o que estou sentindo. Noto que a alegria me consola nos momentos em que o cansaço começa a prevalecer. Posso estar cansado, mas não nego que sossegar da luta é um passo atrás. Este recuo é estratégico, pois dou-me o tempo que preciso para perceber o bem-estar. Quando sinto o cansaço, não quero exagerar a intensidade, uma vez que a alegria mobiliza-me a destacar-lhe o valor, pelos benefícios e pelas possíveis benesses, sossegando-me a um passo da exaustão, a um passo de entregar-me à inércia.

Cansado, preciso de um refresco.

Pela estafa, o sentimento que agora eu vivo é de calmaria; mesmo que não tenha a paz que eu ainda almejo, acalmo-me.

Embora perceba horrível a pacificação que não mascara as forças contraditórias que me fazem vivo, experimento a vida a puxar-me para lá e para cá ― passível de horrorizar-me comigo, estou vivo.

A ansiedade me movimenta, não me deixa criar limo, não me deixa mofar à sombra de mim, pois também tenho esta modéstia, que é ouvir as pessoas dizerem o quanto as afeto.

Dou valor ao que os outros dizem. Tento aprender com suas falas. Quero descobrir como ser benfazejo. Procuro ficar tranquilo. Sei que a alegria pode ajudar quem precisa de mim para alegrar-se.

Bebo uma cerveja. Bebo outra. Bebo mais, mais, mais.

Ainda que a cerveja esteja suplicando pra vir à tona, atrás da banca pode até ser lugar mais à mão pra mijar, mas atrás da árvore funciona que é uma maravilha, bem longe dos críticos abelhudos.

Aceito a crítica, ureia demais é veneno em vez de nutriente. Então, saúdo os foliões que me levam a regar as outras árvores.

Para que meu brinde alcance quem nem precisa continuar bebendo por estar feliz da vida, sinta-se saudado.

Daqui eu o saúdo, folião, pois simpatizo com a sua animação.

Quem não conhece fraqueza nem cansaço, sabe que Carnaval é o tempo mais normal do mundo pra cantar desafinado, dançar abraçado e beijar à beça.

Não se desculpe, os perrengues que fiquem pra depois.

Sim, poste de cachorro é imóvel, juros aumentam todo dia, lasanha nunca é servida antes das duas e todas as tardes, sejam soalheiras ou chuvosas, elas conhecem o fim no crepúsculo.

Conheço gente que associa o anoitecer com a escuridão, pensando que a alma sente o baque, abala-se, passa a temer criaturas que vivem atrás de portas, cortinas e fotografias.

Há quem fotografe a lua, querendo a cabeça arejada, enriquecida quando monstros ameaçam e geram um clima em que angústias têm garras, desesperanças produzem náusea e olhos não titubeiam.

Para o seu prazer, ardiloso, saiba ser vigilante e observe-se.

É lisonjeiro ser amigo de gente que bebe, baba, sua e não para de beber, babar e suar, até porque, em casa depois de mais outra jornada no bloquinho, é hora de encarar um belo banho.

Humildemente, saúdo bêbados, beijoqueiros e a falta d’água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de março de 2025.

domingo, 2 de março de 2025

Jogo aberto

 

Jogo aberto

 

Chega de lenga-lenga, não estou nem um pouco satisfeito. Daqui a pouco, eles chegarão. Minha mulher tem esse defeito, vive convidando quem nem se esforça para irritar. Por que são parentes, tudo certo? Se tudo estivesse bem, eu não estaria limpando a grelha.

Para receber a família, o pior dia é o domingo.

Sem o corre-corre que a ninguém imuniza mas engana um bocado, o cunhado não percebe que cerveja não estimula a inteligência, nem a dele, que se embriaga de gole em gole, nem a minha, que me amofino com o entendimento de que, aos domingos, a cabeça ganha leveza se escarafuncha miudezas à cata de sutilíssimas nuances.

― Até o diabo sabe: é malpassada que a picanha fica no ponto.

Roberto Carlos é sábio, nem por isso, Ísis, nem pela sapiência, toda ela, tagarela do seu irmão, eu a amo menos.

Nunca o chamo de Betinho, Robertinho ou Roberto Carlos, uma vez que o respeito, ainda mais sendo o irmão mais velho da minha esposa; sempre soube tratá-lo carinhosamente como cunhado.

― Viu a vaia na cantora baiana lá em Salvador?

Não vi, mas ouvi as sete latinhas:

― Será possível que ela não percebe? Evangélico acender vela pra pedir dinheiro ao diabo para fazer caridade em louvor a Deus, isso não é livramento, isso é trapaça, é testemunho que condena.

Cunhado, cunhadinho, se jerico tem ideias, essa é uma, mas tenho a grelha pra cuidar, daí que eu cuido dela.

― Fiz toda a programação pro sábado, mas amanheceu sexta e me manquei, feliz. Veio a véspera, não o Carnaval. Só que não sou gente que aceita derrota, às dez, abri uma lata. Dez da matina? Perdido o dia de serviço? Bebi a latinha em três goladas.

Se latinhas dão alegria, pra que somar os boletos, né?

― Naquela hora da chuva, nem quis saber. Mesmo trovejando, dá para continuar na piscina. Continuei bebendo. Dá para gostar da água fria da chuva. Nem quis saber de resfriado, continuei bebendo a minha cervejinha, continuei achando que não vinha temporal coisa nenhuma. Continuei torcendo para que mais gente entrasse na piscina, mas sabe como é, família gosta que a feijoada dure o sábado todo, daí ninguém janta, ninguém quer esquentar a sobra da feijoada.

Roberto Carlos também é irmão do José Carlos, embora o pai seja Aspásio, não seja Carlos nem José Roberto, por isso o nome da minha esposa é Ísis, pois cada família tem o patriarca que sabe dos mistérios da vida, e da latinha tomada em três goladas.

― O Carnaval tem esse mistério, tem o poder maravilhoso de fazer a véspera do Carnaval ser um autêntico sábado de Carnaval em plena sexta, havendo, assim, dois sábados de Carnaval.

Com a sexta que nem sábado, o Carnaval supõe que o encanto de boletos, pizzas e novela das nove pode ser quebrado.

― Jesus é amor. Deus é pai. O que faz o pai do amor? Faz o diabo acreditar que está à frente do Carnaval.

Craque nas cavadinhas, eis o meu caçula:

― Tio Betão, o senhor pula no pênalti?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2025.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O retiro de Momo

 

O retiro de Momo

 

Amigo, faça a gentileza de imaginar a situação: um cachorro latindo sem parar; um guri cabeceando uma bola de baixo pra cima; um bebum grunhindo ao cão que pare de latir à foca em calças curtas.

Amigo, continue cortês, imagine o constrangimento da senhora que vem à janela pra gritar ao garoto que passe pra dentro ― venha jantar, banhar-se antes da janta, ajudar a pôr a mesa e lamber a panela onde foi feita a mistura que, assada, será a sobremesa.

Não há constrangimento, amigo, uma vez que a mãe nem imagina a foca pondo a mesa, lavando atrás da orelha, alegrando-se com bolo de chocolate que ainda não há.

Amigo, ela entende que rua não é circo.

Como aprendiz que aprende sem precisar, observo a bola girando ao subir e girando ao cair, observo o cachorro latindo em sincronia com a batida da testa na bola, alegro-me com o encachaçado a resmungar que aquela pantomima não é nada cômica.

Amigo, o bêbado compreende o circo oferecido pela rua.

Embora me ocorra que aplaudir ou vaiar vão entregar que continuo sem pagar pela diversão, é como plateia que eu dou audiência, amigo, pois sou um símio dissimulado que tudo ouve, vê e fala.

Se não critico nada, estou protegido?

É admirável o ser humano que, perdido das certezas, erra por aí.

Dei com esse sujeito que veio me interpelar, querendo de mim uma explicação para não ter cumprimentado um outro sujeito.

Ao outro sujeito, é abominável haver no mundo quem se apresente como ateu. Àquele camarada, é detestável quem pensa ser defensável uma sociedade democraticamente socialista. Àquele um, o ser humano que não deve respeito e não se amolda às leis da República e do Reino dos Céus é abjeto.

Amigo, não gosto de gente que fala alto, gesticula muito, é sempre exagerada, ou mudo de calçada ou, ao ser surpreendido, digo OK, OK, OK a tudo que a pessoa fale.

Não que isso me deixe feliz, ou levemente contente.

Esse cara, que veio cobrar de mim os bons modos que acredita que não tenho, percebo-o que não está bêbado; ele se acha o rei do drama: para ser autenticamente dramático, basta que haja exagero.

Sem excesso, prefiro o Carnaval que eu posso ter.

Calculei as frutas e os brotinhos que comerei. Separei os livros que lerei. Desliguei a campainha. Fechei as janelas. Corri todas as cortinas. Tirei o fone do gancho. Apanhei meu travesseiro e as cobertas. Levarei tampões de ouvido. Comprei meu ansiolítico, também um sonífero, um tubo de vitamina C, uma cartela de analgésico e, só porque eu sou um camarada bastante acautelado, incluí nas compras aquela caixinha de laxante e uma outrazinha, a de Imosec.

Pronto!

Posso assegurar que, desta quinta às Cinzas, ficarei de boa na casa da árvore.

Como vovô dizia: a farra do carnaval é só uma vez no ano, mas não sou obrigado a dividir a minha alegria com quem trata baba de bêbado como mertiolate, até porque inveja não é amor, não.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O ovo presta

 

O ovo presta

 

Por que não conheço crises de nomofobia? Porque celular pra mim é telefone e mantenho distância de quem não telefona, pois essa gente me dá vontade de rir e rir o tempo todo é coisa de maluco e, até onde posso entender-me com o que sinto, tenho fobia de gente que sequer me percebe rindo, quando estou rindo, pois gente absorta não enxerga o telefone como célula numa rede a não ser desconectada, jamais.

Você, pessoa cuja lucidez lhe diz que agora o melhor é ler a crônica numa tela porque tal leitura é fazer bom uso do celular, você não sabe o que é ter crises de abandono, você não passa pelo sofrimento que a solidão acarreta na alma de quem precisa porque precisa de ter à mão um telefone, mesmo de segunda, que dê acesso à internet.

Estamos conversados!

Se estamos conversados, falemos do que temos para hoje, falemos do preço do ovo?

Para sustentar legítima a indignação com o preço do ovo, é preciso saber quanto ele custa. Para afirmar-se profundamente indignado com a exploração dos miseráveis que não têm dinheiro pra comprar ovo, é preciso considerar os quarenta milhões de brasileiros que sobrevivem com menos de um salário mínimo, que, todos os meses, dão jeito para sobreviver a mais um mês.

Se estamos indignados, somos plateia cativa, ou nossa indignação seria blábláblá, seria conversa mole. Pra que não seja papo furado de bar de esquina, é preciso aplaudir com entusiasmo, tem que pedir mais e mais, sempre mais, até não mais contentar-se em tagarelar sobre os infortúnios do povo brasileiro. Para que o aplauso curtido no post tenha audiência nas ruas, é preciso extrapolar, é preciso discursar com o pé na insurreição, no levante, é desandar em revolução.

Você que ainda está lendo no celular, olhe ao redor.

Quando o revolucionário vem à pele, haja arrepios, calafrios e essa vontade doida de erguer a voz pra chamar a atenção de quem não olha em volta.

Você não pigarreia à toa e não discursa às moscas. Você quer algo que produza mudanças, altere a situação, tome o coreto. Você sabe o que quer, a reviravolta.

Tentado a ponderações menos precipitadas, você vai ao bar, senta e não toma nenhum golinho de cerveja, fica só na água.

Disposto a negar-se tentado a bebericar água como se bebericasse cerveja, mas ovos coloridos ficam melhores com cerveja.

E pede uma, só uma, apenas pra comer um ovo.

O bar está do jeito que gosta: da meia dúzia de mesas, só duas têm gente sentada. Entre sentar-se à mesa e puxar papo com o balconista, ajeita-se na banqueta.

Comido o ovo, você volta à água.

Bebericando água mineral com gás, você teme arrotar. Você luta para impedir que eructações afetem negativamente sua imagem, a que pretende seguir passando, mesmo a quem nem o note louquinho para que o balconista explique por que o valor de uma cartela de ovos está disparado.

No Baixo Augusta, sabemos: ovada não é omelete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2025.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Receitinha singela

 

Receitinha singela

 

Dois homens conversam na calçada; como eu não sou bisbilhoteiro, ajoelho-me para arrancar matinhos.

O muro tanto os veda que me vejam como a mim que os veja, sem, contudo, impedir-me a diversão com os absurdos do papo.

O primeiro homem diz que ontem bateu bola com os amigos ainda que, na véspera, a sua mulher tenha implorado que não fosse, pedindo que levasse os cães ao banho e tosa, suplicando que comesse feijoada com a família, esperando que este sábado fosse imprevisível.

Ele foi, não por ser turrão, é que outro bate-boca com a esposa não o demoveria de ir, pois, na pelada, pode soltar os bichos, xingar, gritar os palavrões que tanto o ajudam a livrar-se de frustrações, decepções e contrariedades, porque, de segunda a sexta, não ousa levantar a voz nem mesmo a quem ordena que execute coisas imbecis.

O segundo homem ri, diz que obedecer a quem manda fazer coisas imbecis não pressupõe que o cidadão obediente seja mais um imbecil, também não é demonstração de apego ao salário, é prevenção, porque fica difícil conseguir trabalho depois dos cinquenta, conforme dizem os amigos cinquentões que nem vão procurar emprego porque acreditam no que ouvem, fiam-se nas afirmações de quem tem trinta anos, uma vez que sábios de trinta anos sabem o que faz o mundo rodar.

Ambos dizem que o dinheiro move o mundo, concordam que burras cheias se mantêm cheias porque o fluxo é sinal de vitalidade; prudente é quem não deixa que o nível baixe um dedinho sequer, pois a riqueza é uma piscina, então, sendo piscina, ela tem que ficar cheia o ano todo, mesmo no inverno, pois nunca se sabe quando vem a vontade de dar um mergulho, pois o desejo de boiar surge a qualquer instante.

Súbito, faz-se silêncio; mesmo com o intervalo, não paro, arranco o que aparenta ser erva daninha, quero mesmo arrancá-la.

O primeiro a falar outra vez é o homem que anteriormente tinha sido o segundo a falar; ele diz que rico não tem tempo para nadar, então, o aquecimento da água é fundamental, pra quando resolver nadar ainda que faça um frio danado, até mesmo no finalzinho do inverno, uma vez que a vontade de nadar não precisa ser justificada porque a saúde tem que ser valorizada, é somente pela secretária ter aceitado o convite de nadar sem asa-delta ou fio-dental.

O segundo a falar novamente é aquele homem que anteriormente foi o primeiro a falar; ele diz que rico não para pra comer, sem ter tempo para perder, tem almoço de negócios, porque dinheiro atrai dinheiro ou folha de alface em restaurante por quilo teria custo dobrado e o mundo prestigia quem não desperdiça dinheiro com besteira, afinal, dizer que só prato colorido é saudável é coisa de quem prioriza a estética.

Pra que a razão e o entendimento não fujam à realidade do instante: eles falaram o que eu ouvi, mas a boa crônica escutaria aquilo que não foi dito nem foi ouvido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Meu oásis particular

 

Meu oásis particular

 

A mulher que atendeu disse que o funcionário levaria dez minutos para chegar, mas faz uma hora que liguei.

Torno a ligar, a mesma mulher pede desculpa, diz que o funcionário teve que ir atender a uma emergência, mas em vinte minutos chegará ao meu endereço.

Antes que digam que a cidade está um caos por causa dos quarenta graus, resolverei o problema em quinze minutos.

Na primeira loja, acabou. Na segunda, a vendedora avisa que está para chegar. Na terceira, só tem modelos de teto. Depois de quarenta minutos batendo perna, encontro o modelo que me satisfaz pelo preço e por poder levá-lo debaixo do braço.

Se o ar-condicionado precisa de conserto, nada tenho que reclamar do ventilador, cujo consumo de energia será bem menor, mesmo ligado por vinte e quatro horas.

Sim, senhora, o aparelho ficará ligado o dia todo, pois sou humano, sou um bicho que não para de funcionar mesmo dormindo, mesmo que o sol vá torrar as pessoas do outro lado do planeta, mesmo que a água ainda ferva a cem graus Celsius, mesmo que o corpo siga no propósito de estabilizar-se entre 35,5 e 37,5 graus, sim, senhor, o ventilador tem que ficar ligado ou vou surtar por falarem besteiras.

Dane-se, aquecimento global! Que se dane a conta da luz! Dane-se quem acha que ventilador tem que ficar ligado apenas o necessário. Dane-se quem não pensa que ventilador bom é aquele que só queima por uso abusivo. Dane-se essa gente que se recusa a regular o ar que respira. Dane-se quem acha que o novo normal é a rotina insuportável dos quarenta graus.

Quarenta graus na sombra?

Quarenta graus com o ventilador ligado, pô!

O que a mim me cabe fazer, faço. Uso a internet pra trabalhar. Urino no box enquanto tomo banho em cinco minutos. Instalei placas solares no telhado. Pintei a casa inteira de branco. Capto a água da chuva em bombona de 200 litros. Vou a pé a farmácias e supermercados. Acendo lâmpada quando não tem outro jeito; até para ler, uso luz natural. Tomo banho frio, no escuro. Não tenho micro-ondas nem fogão a lenha. Vivo maltrapilho e não jogo fora o que pode ser usado como pano de chão. Pra economizar de verdade? Não fico doente porque não me descuido: chupo laranja, tomo limonada, como jiló e mocotó, não frito batata, não gosto de hamburguer nem de sundae, tomo água filtrada, não mordisco tampa de caneta nem chupo o dedão.

Se ainda assim me enviam link pra minha contribuição espontânea, clico e torço pra que não seja golpe, pois espero que o pix que enviarei tenha bom uso, que o dinheiro não vire asfalto nem vire munição contra minha genética, pois, caraca!, eu sou do bem.

Sim, amigão, tenha dó, pois estou cônscio que labuto para o mundo melhorar, que eu, gota a gota, suo à beça para que a Terra siga sendo humanamente habitável.

Como o corpo funciona bem entre trinta e cinco e trinta e sete graus, acima disso, em pane, viro urso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de fevereiro de 2025.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O que for preciso

 

O que for preciso

 

Quero um gole de café, não quero água ou guaraná. Quero um jogo na tevê, não quero noticiário ou fofocas. Quero um banho gostoso de tomar, não quero ducha que mais aprofunde minha neurastenia.

Presumo: pra calvo topetudo, pente banguela é escova.

Passa um bando de quero-queros, e daí? Passo à varanda onde a cadeira balança, e daí? Possa acalmar-me o vaivém na rua, então?

Então nada ou muito pouco; perturbador é ser quase nada.

Perturba-me o guarda da esquina que está preso ao celular. Aflige-me o guincho que enrola para levar embora a ambulância quebrada à porta da casa de onde alguém acabou sendo levado num táxi. Sinto falta da alegria de papear no portão com gente que fala da vida alheia como se falasse de si na terceira pessoa.

Quero ser os nove fora quando a conta não fechar, não quero o cem porcento de uma nota fria, pois já tem desvio demais pra que se chegue a alguns finalmentes. Quero rir quando o sol se pôr, não quero o sufoco que tira o sono. Posso sonhar noutra noite tranquila, sem que os ruídos da geladeira sugiram haver monstros prontos pra me trucidar.

Só aí é que pego a visão: falar da vida alheia é fácil, difícil é aceitar que outros falem de mim porque me conheçam por outras faces.

Nada de noves fora ou cem porcento? Bola fora é ficar na banheira por estar em impedimento.

O que me proíbe de tomar café, estourar pipoca e vibrar com o jogo do mais novíssimo tenista que se revela potencialmente a mais recente estrela brasileira?

Não tenho dezoito anos.

Não tenho a inocência que julgava ter aos dezoito anos.

Não me quero barrado por não querer ter aqueles dezoito anos que a nostalgia supõe esplêndidos em berço dourado.

Para ser honesto, não sou pessoa disposta a fazer de tudo por um minuto de paz. Pra ser menos cínico que eu possa, acho que a paz ou é ilusória ou é compensatória, e crime algum há de compensar a ilusão de melhorar a cada dia.

É preciso treinar no banheiro?

Apesar de suspirar por ilusões, suspiro melhor depois de uma noite de sono sem monstros na cama. Apesar de acordar sozinho, concordo que o mundo ficaria bem melhor se os monstros vivessem longe daqui. Apesar de lustrar a lâmpada, Aladim não me dá o boa-noite que anseio. Apesar do espelho, Alice não entra comigo na banheira. Apesar de que suspiro, a maior parte do tempo nem me lastimo do que faço.

Para ser mais honesto ainda, não sou gente que encrenca quando o que faço nem recebe a atenção que poderia ter recebido se houvesse quem topasse encrencar comigo quando afirmo que não encrenco por qualquer troço que eu faço.

Pelo gênio de Aladim, Alice, pulo o espelho?

Não me orgulho de fazer o que for preciso para merecer a atenção, faço o que posso porque sei fazer, porque desconfio que posso fazer, porque faço ainda que ache que posso fazer melhor se não ficar rindo quando acerto o ponto, entro no jogo, ganho em causa própria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2025.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Coisa de criança

 

Coisa de criança

 

Costumo vagabundear aos sábados. Não procuro me desculpar por largar a rede e sair por aí como se estivesse a balançar o meu corpo ao sabor dos passos. Provocando esse deslocamento de ar bastante leve para que a minha passagem nem seja percebida pelos cães, vou pelas ruas como se continuasse embalado pela preguiça na rede da varanda. Uma vez que confio estar credenciado a ser o melhor vagabundo que o sábado conta que lhe esteja ao sabor dos imprevistos, desconfio que sábado bom é aquele que a folhinha ignora de qual ano, qual mês, por qual razão a minha vagabundagem tem que ser memorável.

Crendo-me merecedor do crédito de não vulgarizar o sábado, vejo-me indo ao supermercado, indo vaporoso, indo simpático a nefelibatas que voejam acima das fezes, indo isento de patrulhamento ideológico, indo feito criança cuja crueldade está em ser sincera o tempo todo, pois o dever de criança autêntica é agir como boa gente, excelentíssima no quesito patriotismo.

Patriota não paga banana pelo preço de bananada.

É sábado, outro sábado qualquer, mais um que me dispensa de lhe instituir tranquilíssimo, boníssimo, outro momento que me dispense de senti-lo sabadíssimo, pelo modo como me embala esplendorosamente soalheiro, um instante assaz luciferino.

O calor está no ar, no cuspe, no mijo, no suor, no pescoço, na nuca, nas partes íntimas, é calor que deixa a gente zonza, grogue, lânguida, deixa a gente mole, mole, tão idiota.

Na moleza de seguir imbecil, vou indo como se viver seja continuar indo na contracorrente, vou indo como gente que não se sente teimosa, displicente, sem querer assistir à malemolência de ir adiante ainda que pense que o melhor é parar no bar, beber um copo de água e, pelo sol na moringa, sacar que ir pra casa é o óbvio a ser feito.

Um garotinho estica os braços na direção do meu rosto, a pedir-me que as suas mãos possam tocá-lo, a indicar que os seus dedos podem estudar-me as bochechas, apertando-as uma e uma segunda vez, até que lhe seja natural me asseverar:

― O senhor não é um fantasma. O senhor é tão fofucho.

Fofucho!

― Sim, eu sei que tipo de fantasma eu quero ser, mas não espalhe que tenho as carnes modeladas pelos quarenta ovos que eu como todo dia.

Quarenta ovos todo dia! Este é o segredo que pago para mascarar o franzino que ainda cochila sob os músculos do meu corpo.

A mãe do menino intervém:

― Deixa o moço em paz, Naná.

Sem segundas intenções, replico:

― Moça, o seu filho não está me incomodando.

Tranquila e logicamente, o garotinho diz:

― Mamã, o moço está em paz porque ele é o fantasma fofucho do frango magricela que ele é.

O pequerrucho pisca para a mãe; a moça sorri para mim.

Pra que a moça experimente o meu rosto, eu novamente me inclino, a pedir-lhe que, se a sua criança testou minha fofurice, sinta-a também, pois escandaloso é não beijar minhas maçãzinhas coradas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2025.